Tamanho 42 no  gorda

Meg Cabot


1
Cada vez que eu te vejo
Tenho vontade de te comer
Voc parece um chocolate
Que me d vontade de comer
No venha me lembrar do regime
Voc s tem que entrar no meu time
De quem adora doce

"Vontade de te comer"
Interpretada por Heatler Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Vontade de te comer
Gravadora Cartwrigth 

 - Hmm, oi. Tem algum ai? - a moa que est no provador ao meu lado fala com voz de esquilinho. - Ol? 
 exatamente igual  de um esquilinho. 
Ouo o tilintar ritmado do chaveiro do vendedor que se aproxima. 
 - Pois no, senhora, posso ajudar? 
 - Pode sim - a voz sem corpo (mas sempre com jeito de esquilinho) flutua por cima da divisria que separa os cubculos. - Vocs tm este jeans em um numero menor 
do que 34? 
Eu paro, uma perna dentro e outra fora da cala jeans em que estou tentando me espremer. Uau. Ser que sou eu ela fez uma pergunta existencial? Por que, o que pode 
ser menor do que o tamanho 34? Uma roupa de beb? 
Ta certo, j faz um tempo desde as aulas de matemtica. 
Mas eu ainda me lembro que existem nmeros menores que 34... 
 - Porque - a Menor-do-que-34/esquilinho explica para o vendedor - normalmente eu uso 36. Mas este jeans 34 est todo folgado em mim. O que  completamente esquisito. 
Eu sei que no emagreci desde a ultima vez em que estive aqui. 
A menor-do-que-34 tem razo, percebo ao vestir o jeans que estou experimentando. No me lembro de qual foi a ultima vez em que consegui entrar em um tamanho 38. 
Bom lembro sim, mas no  um perodo do meu passado que me agrada em especial. 
Mas qual  o problema? Normalmente eu uso 42... Mas hoje experimentei o 42 e fiquei nadando l dentro. Aconteceu a mesma coisa com o 40. O que  esquisito, porque 
no fiz nenhum tipo de regime nos ltimos dias - amenos que se leve em considerao o adoante Splenda que eu coloquei no caf com leite hoje de manh. 
Mas tenho certeza de que o bagel com cream cheese e bacon que acompanhou o caf com leite serviram para anular o Splenda. 
E, tambm, at parece que eu ando freqentando a academia ultimamente. No que eu no me exercite,  claro.  que eu no fao isto, sabe como , na academia. Porque 
a gente queima a mesma quantidade de calorias andando ou correndo. Ento, porque correr? H um tempo eu percebi que uma caminhada at a casa de queijos Murray, 
na rua Bleecker, Para ver que tipo de sanduche especial eles tem para o almoo demora dez minutos. 
E a caminhada da Murray at a Betsey Johoson, na Wooster, para ver o que est em liquidao (adoro veludo stretch deles! ): mais 10 minutos. 
E o trajeto da Betsey at a Dean & Deluca, na Broadway, para uma cappuccino depois do almoo e para ver se eles tem aquelas casquinhas de laranja de que eu gosto 
tanto: mais dez minutos. 
E assim por diante at que, antes que se de conta, voc j tinha feito sessenta minutos completos de exerccio. Quem disse que  difcil atender s novas exigncias 
de exerccios fsicos determinadas pelo governo? Se eu consigo, qualquer pessoa consegue. 
Mas ser que tanta caminhada seria capaz de em fazer perder dois nmeros desde a ultima vez que sai para comprar jeans? Eu sei que ando cortando meu consumo dirio 
de gordura mais ou menos pela metade desde que troquei os bombons de chocolate Kiss da Hersheys que ficavam em um pote na minha mesa por camisinhas do centro de 
sade estudantil. Mas, mesmo assim... 
 - Bom, senhora - o vendedor est dizendo para a menor-do-que-34. - Este jeans  stretch. Isso significa que  preciso usar dois nmeros menores do que o seu tamanho 
verdadeiro. 
 - O que? - a Menor-do-que-34 parece confusa. 
Eu no a culpo. Estou me sentindo do mesmo jeito. Parece que os nmeros j no querem dizer mais nada. 
 - O que eu quero dizer  o seguinte - o vendedor diz com muita pacincia. - Uma pessoa que normalmente usa 34, no jeans stretch usaria 30. 
 - Ento, por que vocs simplesmente no colocam o tamanho certo? - a menor-do-que-34 (com muita razo, na minha opinio) pergunta. - Tipo se o 30 na verdade  34, 
por que vocs simplesmente no colocam a etiqueta de 34? 
 -  a medida da vaidade - o vendedor responde, baixando a voz. 
 - De que? - a menor-do-que-34 pergunta, tambm baixando a voz. Pelo menos o Maximo que um esquilinho consegue baixar a voz.  - Sabe como  - o vendedor sussurra 
para a menor-do-que-34. Mas eu ainda consigo escut-lo. - As clientes maiores gostam de caber em um 38. Mas, na verdade, usam 42. Compreende? 
Espera ai. O que? 
Abro a porta do meu provador de supeto, antes de ter tempo de parar para pensar. 
 - Eu uso 42 - ouo a mim mesma dizer para o vendedor. Que parece assustado. Mas  compreensvel. Acho. Mas, mesmo assim. - Qual  o problema de usar 42? 
 - Nenhum! - Grita o vendedor, em pnico. - Nenhum mesmo. Eu s quis dizer... 
 - Voc est dizendo que uma pessoa que usa tamanho 42  gorda? - pergunto a ele. 
 - No - o vendedor insiste. - A senhora est me compreendendo mal. Eu quis dizer... 
 - Porque a mdia das mulheres norte-americanas usa 42 - observo. Eu sei disso porque acabei de ler a informao na revista People. - Voc est dizendo que, em vez 
de sermos mdias, somos todas gordas? 
 - No - o vendedor responde. - No, no foi nada disso que eu quis dizer. Eu... 
A porta do provador ao lado do meu se abre e eu vejo a dona da voz de esquilinho pela primeira vez. Ela tem a mesma idade dos jovens com quem trabalho. No  s 
a voz dela que se parece com um esquilinho, percebo. Ela tambm tem cara de esquilinho. Sabe com . Fofa. Espevitada. Pequena o bastante para caber no bolso de uma 
garota normal. 
 - E que historia  esta de nem fazer o tamanho dela? - pergunto ao vendedor, apontando a menor-do-que-34 com o polegar. - Quer dizer, prefiro estar na mdia a nem 
existir. 
A menor-do-que-34 parece meio surpresa. Mas da ela fala: 
 - Hmm.  isso ai! - para o vendedor. 
O vendedor engole em seco, nervoso. E faz um barulho. D pra ver que o dia dele est ruim. Depois do trabalho, ele provavelmente vai para algum bar falar para algum 
amigo algo do tipo: "Aquele bando de mulher ficou me atacando por causa da numerao pequena das roupas... Foi um horror". 
Para ns, ele s diz: 
 - Eu, hmm, acho que vou, hmm, dar uma olhada se tem o jeans que vocs querem no estoque. 
Ento ele foge de ns. 
Eu olho para a menor-do-que-34. Ela olha para mim. Talvez ela tenha uns 22 anos, e  muito loira. Eu tambm sou loira, com um pouco de ajuda de lady Clairol, mas 
j faz tempo que deixei meus vinte e poucos para trs. 
Mesmo assim, fica claro que, tirando as diferenas de idade e de tamanho, a menor-do-que-34 e eu compartilhamos uma ligao que nunca poder ser quebrada. 
Ns duas perdemos tempo por causa desta historia de colocar nmeros menores nas calas para no ferir a vaidade de algum. 
 - Voc vai comprar a cala? - ela pergunta, apontando com a cabea o jeans que eu estou usando. 
 - Acho que sim - respondo - Quer dizer, estou precisando de uma cala nova. Vomitaram em cima do ultimo jeans que eu tinha no trabalho. 
 - Meu Deus - a menor-do-que-34 diz, franzindo o nariz de esquilinho. - onde voc trabalha? 
 - Ah - respondo - Em um alojamento. Quer dizer, em um conjunto residencial estudantil. Sou diretora-assistente. 
 - Serio? - parece interessada na faculdade de Nova York? - Quando eu assinto, ela grita: - Eu sabia que conhecia voc de algum lugar! Eu em formei na faculdade 
de Nova York no ano passado. Em que alojamento? 
 - Hmm - eu respondo, meio sem jeito. - Acabei de comear no vero. 
 - Jura? - a menor-do-que-34 parece confusa. - Que estranho. Porque voc tem um rosto que no me  estranho... 
Antes de eu ter a oportunidade de explicar por que ela acha que me conhece, meu celular solta as primeiras notas de "Vacation", das Go-Go"s (escolhido como um lembrete 
dolorido de que no vou ter frias, ou vacation, em ingls, at passar pelo perodo de experincia de seis meses no trabalho, e ainda faltam trs meses para isso). 
Vejo pelo identificador de chamada que  a minha chefe. Em pleno sbado. 
O que significa que deve ser importante. Certo? 
S que provavelmente no . Quer dizer, eu adoro meu novo emprego e tudo mais (trabalhar com universitrios  superdivertido porque eles se entusiasmam com coisas 
em que muita gente nem pensa, como libertar o Tibete e arrumar licena-maternidade remunerada para trabalhadoras ilegais e esse tipo de coisas). 
Mas a principal desvantagem de trabalhar no conjunto Fischer  que eu moro bem na esquina. O que faz com que eu seja um tantinho acessvel demais a qualquer pessoa 
de l para o meu gosto. Quer dizer, uma coisa  receber telefonemas de trabalho em casa porque voc  medico e um dos seus pacientes precisa de voc. Mas  bem diferente 
receber ligaes porque a maquina de refrigerante engoliu o troco de algum e ningum consegue encontrar os formulrios de pedido de reembolso e querem que voc 
v l ajudar a procurar. 
Mas eu sei que, para algumas pessoas, isso parece um sonho realizado. Sabe como , morar perto do trabalho o suficiente para poder dar uma passadinha no caso de 
alguma crise de troco em moedas. Principalmente em Nova York. Como a distancia de minha casa  de dois minutos, vou a p (mais quatro minutos que se adicionam  
minha cota de exerccios). 
Mas as pessoas deveriam perceber que, no que diz respeito  realizao de sonhos, este aqui no  o maior, porque eu s recebo 23, 5 mil dlares por ano (cerca de 
12 mil dlares depois de descontados os impostos estaduais e municipais) e, em NY, 12 mil dlares s d para pagar o jantar e talvez um jeans como esse que estou 
prestes a adquirir, tenha ele o tamanho da minha vaidade ou no. Eu no poderia morar em Manhattam com esse tipo de salrio se no fosse o meu segundo emprego, que 
pagava o meu aluguel. Eu no moro no alojamento porque, na faculdade de NY, s os diretores dos conjuntos, e no os diretores-assistentes, recebem o "beneficio" 
de morar no alojamento (quer dizer, no conjunto residencial estudantil) em que trabalham. 
Mesmo assim, eu moro to perto do conjunto Fischer que minha chefe acha que pode me ligar a qualquer hora e pedir para dar "uma passadinha" sempre que precisa de 
mim. 
Como em uma tarde clara e ensolarada de setembro, quando estou comprando jeans, porque no dia anterior, uma caloura que tinha tomado algumas sodas batizadas a mais 
no Stoned Crow resolveu se virar e vomitar tudo o que tinha consumido em cima de mim, enquanto eu estava agachada do lado dela, verificando seu pulso. 
Estou pesando os prs e contras de atender o celular. Pr: Talvez ela esteja ligando para me oferecer um aumento (improvvel); Contra: Talvez ela esteja ligando 
para que eu leve alguma bbada de 20 anos em quase coma alcolico para um hospital (provvel). Ento a menor-do-que-34 berra: 
 - Ai meu Deus! Eu sei por que parece que eu te conheo de algum lugar! Algum j te disse que voc se parece exatamente com a Heater Wells? Sabe, aquela cantora? 
Eu resolvo, devido s circunstancias, deixar minha chefe cair na caixa postal. Quer dizer, as coisas j esto bem ruins, considerando o negocio do tamanho 42, e 
agora essa. Eu deveria ter ficado em casa e comprando meu jeans pela Internet. 
 - Voc acha mesmo? - eu pergunto  menor-do-que-34, sem muito entusiasmo. S que ela no repara na minha falta de entusiasmo. 
 - Ai meu Deus! - ela berra de novo. - At a sua voz  parecida com a dela. Que coisa mais aleatria. Mas - ela completa, com uma risada - , como  que a Heather 
Wells ia estar trabalhando em um alojamento, hein? 
 - Conjunto residencial estudantil - eu corrijo automaticamente. Porque  assim que a gente deve falar, j que dizer "conjunto residencial estudantil" supostamente 
passa uma noo de aconchego e unidade entre os residentes, que, de outro modo, podem achar que moram em uma coisa chamada alojamento, algo muito frio e institucional. 
Como se fosse o fato de as geladeiras serem presas ao cho j no desse na cara. 
 - Ah, hei - a menor-do-que-34 diz, repentinamente sbria. - No que tenha algo errado nisso. Em ser diretora-assistente de um alojamento. E voc no ficou, hmm, 
ofendida de eu dizer que voc parece com a Heather Wells, ficou? Quer dizer, eu tinha todos os cd"s dela. E um pster enorme na minha parede. Quando eu tinha 11 
anos. 
 - No fiquei - respondo - nem um pouquinho ofendida. 
A menor-do-que-34 parece aliviada. 
 - Que bom - ela diz. - Bom, acho que  melhor eu ir andando para procurar uma loja que tenha o meu numero. 
 -  - eu respondo, com vontade de indicar a Gap Kids, mas me segurando. Porque no  culpa dela ser pequenininha. Do mesmo jeito que no  minha culpa usar o tamanho 
de roupa da mdia das mulheres norte-americanas. 
S quando estou parada na frente do caixa  que resolvo escutar a minha caixa postal para saber o que minha chefe, a Rachel, queria. Ouo a voz dela, sempre controlada 
com tanto cuidado, dizendo em tom de histeria mal contida: "Heather, estou ligando para avisar que houve uma morte no conjunto. Quando voc receber esta mensagem, 
por favor, entre em contato comigo o mais rpido possvel". 
Deixo o jeans tamanho 38 no balco e uso mais 15 minutos da minha dose diria recomendada de exerccio para sair correndo - isso mesmo, correndo - da loja em direo 
ao conjunto Fischer. 

2
Eu vi vocs dois
Aos beijos e agarres voc me disse
Que ela era sua prima
At parece
At parece
At parece
Se voc me quiser
Tem que ser sincero
Ento, o que isso significa
Pra voc e eu? 
At parece
At parece
At parece

"At parece"
Interpretada por Heatler Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Vontade de te comer
Gravadora Cartwrigth

A primeira coisa que vejo quando dobro a esquina na rua Washington Square West  um caminho de bombeiro parado em cima da calada. Ele est estacionado em cima 
da calada e no na rua porque tem uma barraquinha vendendo calcinhas fio dental com estampas de tigre a cinco dlares cada ( mesmo uma pechincha, mas, quando se 
examina de perto, d para ver que o acabamento  feito com uma renda preta que tem todo o jeito de pinicar quando entrar, bom, voc sabe onde) bloqueando a rua. 
A prefeitura quase nunca fecha a rua Washington Square West, onde fica o conjunto Fischer. Mas neste sbado em especial, a associao do bairro deve ter cobrado 
um favor de algum vereador ou algo assim, porque conseguiram fechar todo aquele lado do parque para montar uma feira de rua. Voc sabe do que estou falando: os caras 
do incenso, o homem das meias, os caricaturistas e os palhaos que fazem esculturas em arame. 
Na primeira vez em que fui a uma festa de rua em Mahattan, eu tinha mais ou menos a mesma idade dos jovens com quem trabalho hoje. Naquela poca eu fiquei toda: 
"Uau, uma feira de rua! Que divertido! " Na poca, eu no sabia que dava pra comprar meias na Mancy"s pagando ainda menos do que o homem das meias cobra. 
Mas a verdade  que, se voc j foi a uma feira de rua de Manhattam, voc j viu todas. 
Nada poderia parecer mais deslocado do que uma barraca vendendo calcinhas fio dental na frente do conjunto Fischer.  uma construo que simplesmente no combina 
com calcinhas fio dental. Ela se avulta majestosamente por sobre a Washington Square Park, foi construdo com tijolinhos vermelhos por volta de 1850. 
No meu primeiro dia no emprego, li uns arquivos que estavam em caiam da minha mesa e fiquei sabendo que, a cada cinco anos, a prefeitura obriga a faculdade a contratar 
uma empresa que retira todo o rejuntamento dos tijolos com brocas e troca por argamassa nova, para que eles no caiam na cabea das pessoas que passam por ali. 
O que  uma boa idia, acho. So que, apesar da iniciativa da prefeitura, sempre tem coisa caindo do conjunto Fischer e acertando a cabea das pessoas. Nao estou 
falando de tijolos. J recebi relatos de garras, latas, peas de roupa, livros, cd"s, legumes, balinhas Good & Plentys e at um frango assado inteiro despencando 
l de cima. 
Vou dizer uma coisa: quando passo pelo conjunto Fischer, sempre olho para cima, s para garantir. 
Mas no hoje. Hoje o meu olhar est colado a porta de entrada do prdio. Estou tentando descobrir como vou fazer para entrar, levando em conta a enorme multido 
- e os policiais - que se aglomeram ali na frente. Parece que, juntamente com as dzias de turistas que passeiam pela feira de rua, aproximadamente metade da populao 
estudantil do edifcio est parada ali fora, esperando para poder entrar de novo. No fazem a menos idia do que est acontecendo. D pra saber disso por causa das 
perguntas que eles gritam uns para os outros, tentando se fazer ouvir por cima do som de flautinha peruana que vem de outra barraquinha na frente do prdio, uma 
que vende, hmm, fitas cassete de flautinha peruana: 
 - O que est acontecendo? 
 - Sei l. Pegou fogo em alguma coisa? 
 - Algum deve ter deixado o pot-pourri ferver demais de novo. 
 - Que nada, foi o Jeff. Ele deixou o baseado cair de novo. 
 - Jeff, voc  um babaca. 
 - Desta vez no fui eu, juro! 
Eles no tinham como saber que tinha havido uma morte no prdio. Se soubessem, no estariam fazendo piadas com baseados. Acho. 
Tudo bem, espero que no. 
Ento reparo em um rosto que reconheo, pertencente a algum que COM CERTEZA sabe o que est acontecendo. D para ver pela expresso dela. Ela no est simplesmente 
aborrecida porque os bombeiros no querem deix-la entrar no prdio. Ela est aborrecida porque SABE. 
 - Heather! - Magda, ao me ver no meio da multido, abana a mo com unhas muito cuidadas para mim. - Ah, Heather! Que horror! 
Magda est ali parada com o avental cor-de-rosa do refeitrio e com as leggings de oncinha dela, sacudindo os cachos cheios de gel e dando tragadas compridas e nervosas 
no cigarro Virginia Slims enterrado entre as unhas de cinco centmetros de comprimento. Cada unha tem uma tem uma replica em miniatura da bandeira dos EUA, porque, 
apesar de Magda voltar a sua Republica Dominicana natal sempre que pode, ela tem um sentimento muito patritico em relao ao pais que ela adotou, e expressa sua 
afeio por meio de arte nas unhas. 
Alis, foi assim que ns nos conhecemos. H quase quatro meses na manicure. 
Foi assim tambm que fiquei sabendo do emprego no alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil), pra comeo de conversa. A ultima diretora-assistente 
antes de mim (Justine) tinha acabado de ser demitida pelo desvio de 7 mil dlares do fundo do edifcio, fato este que enlouqueceu a Magda, a caixa do refeitrio 
do alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil). 
 - D para acreditar? - ela ia reclamando para quem quisesse ouvir, enquanto a pedicure pintava minhas unhas de vermelho Hot Tamale (porque, sabe como , Mesmo que 
toda sua vida esteja escorrendo pelo ralo, como a minha vida estava na poca, pelo menos os seus ps podem continuar bonitos). 
Magda, a algumas mesinhas de distancia, estava recebendo desenhos de mini Estatuas da Liberdade nos polegares, em homenagem ao feriado do Memorial Day, e falava 
mal de Justine, a minha predecessora, com muita eloqncia. 
 - Ela recomendou 27 aquecedores de cermica do almoxarifado e deu para os amigos dela como presente de casamento! 
Eu ainda no fao a menor idia do que seja um aquecedor de cermica, ou por que algum ia querer um de presente de casamento. Mas quando ouvi que algum tinha sido 
demitida no lugar em que Magda trabalhava, onde um dos benefcios (alem de vinte dias de frias por ano e plano de sade e odontolgico completos) era a iseno 
de anuidade em cursos universitrios, eu quis logo saber os detalhes.
Na verdade, devo muito a Magda. E no s porque ela me ajudou com o negocio do emprego (ou porque ela me deixa comer de graa sempre que quero, o que pode ser em 
parte a razo por que eu no uso mais tamanho 38, sem contar a medida da vaidade), mas porque a Magda se tornou uma das minhas melhores amigas. 
 - Mag - eu digo, deslizando at onde ela est. - Quem foi? Quem morreu? 
 que eu no consigo evitar e me preocupo que seja algum que eu conheo, como um dos faxineiros, que sempre to gentis, que limpam fluidos corporais espalhados 
pelo prdio inteiro, apesar disso no fazer parte da descrio do trabalho deles. Ou um dos alunos que trabalham ali e que eu deveria supervisionar (deveria  a 
palavra operativa, porque nos trs meses que trabalho no conjunto Fischer, s um punhado dos meus funcionrios-alunos fez o que eu mandei fazer; muitos deles continuam 
fieis a Justine mo-leve). 
E quando algum deles de fato faz o que eu peo,  s porque a atividade inclui algo como conferir cada quarto depois que os ocupantes anteriores de mudaram para 
levar qualquer coisa que tenham deixado para trs, o que geralmente so garrafas pela metade de Jgermeister. 
Ento, quando chego ao trabalho no dia seguinte, no consigo fazer com que nenhum deles desa para separar a correspondncia, j que esto de ressaca. 
Mas h alguns alunos que de fato aprendi a adorar, bolsistas que no vieram para a faculdade com um Visa que a mame e o papai ficam muito felizes de pagar todo 
ms, e que realmente precisam trabalhar para pagar os livros e as taxas, e por isso fazem o turno de 16 horas  meia-noite na recepo no sbado  noite sem que 
eu tenha que implorar muito. 
 - Ah, Heather - Magda sussurra. S que ela pronuncia o meu nome como Haythar. Ela est sussurrando porque no quer que os garotos saibam o que est acontecendo 
na verdade. Seja l o que for. - Uma das minhas estrelinhas de cinema! 
 - Uma aluna? - d para ver gente na multido observando-a com curiosidade. No porque a aparncia dela  esquisita (bom, ela  meio esquisita, j que usa maquiagem 
suficiente para fazer Christina Aguillera parecer natural, e tem aquelas unhas muito compridas e tudo o mais). 
Mas, como estamos no Village, suas roupas poderiam ser consideradas normais. 
O que as pessoas no entendem  o negocio de "estrela de cinema". Cada vez que um aluno entra no refeitrio do conjunto Fiesher, Magda pega o carto de debito dele 
ou dela e cantarola: "Veja s todas as estrelas de cinema bunitas que vem comer aqui. Temos muita sorte de ter tantas estrelas de cinema bunitas aqui no conjunto 
Fischer! "
No comeo, eu achava que Magda s estava tentando agradar todos os alunos de teatro (e h toneladas deles, muito mais do que alunos de medicina ou de administrao) 
na faculdade de NY. 
Da em um dia de "Faa o Seu Prprio Sundae", ela lanou a bomba de que o conjunto Fischer na verdade  bem famoso. No pelas razoes que voc pode imaginar, como 
porque fica na histrica Washington Square, onde Henry James j morou, ou porque fica na frente da famosa Arvore dos Enforcados, onde costumavam enforcar as pessoas 
no sculo XVIII. No  nem porque o parque j foi cemitrio de indigentes, ento, sabe todos aqueles bancos e barraquinhas de cachorro-quente? Isso mesmo esto todos 
em cima de gente morta. 
No. De acordo com Magda, o conjunto Fischer  famoso porque filmaram uma cena do filme As tartarugas ninja 3 ali. O Donatelo ou o Rafael ou alguma das outras tartarugas 
(no consigo me lembrar exatamente de qual) se balanaram da cobertura do conjunto Fischer para o prdio do lado, e todos os alunos do prdio fizeram figurao, 
olhando para cima, apontando cheios de surpresa frente ao feito dos dubls te tartaruga. 
 serio. O conjunto Fischer tem uma historia bem emocionante. 
S que os alunos que apareceram no filme como extras h muito tempo j se formaram e deixaram de morar no conjunto Fischer. 
Ento, acho que as pessoas consideram muito esquisito que a Magda continue falando nesse assunto, tantos anos depois. 
Mas d mesmo para ver como o fato de uma cena de um filme famoso ter sido feita em seu local de trabalho pode ser para algum como a Magda, mais uma das tantas coisas 
que fazem dos EUA um pas maravilhoso. Mas tambm d pra ver como, para algum que no conhece a historia por trs disto, como a coisa toda de "a minha estrelinha 
de cinema" pode parecer um pouco... bom, maluca. 
O que provavelmente explica por que tanta gente estava olhando com curiosidade na nossa direo, depois de ter ouvido o desabafo dela. 
Sem querer que algum dos alunos percebesse que alguma coisa muito seria estava acontecendo, peguei Magda pelo brao e a puxei na direo de um dos pinheirinhos em 
vaso que fica na frente do prdio (e que os alunos costumas usar como cinzeiro particular) para termos um pouco de privacidade. 
 - O que aconteceu? - pergunto a ela, em voz baixa. - Rachel deixou um recado que houve uma morte no prdio, mas no disse mais nada. Voc sabe quem foi? E como 
aconteceu? 
 - No sei - Magda sussurra, sacudindo a cabea. - Eu estava l sentada na minha caixa, e ouvi gritos, e algum disse que tinha uma menina estirada no fundo do poo 
dos elevadores, e que ela estava morta. 
 - Ai, meu Deus! - Fico chocada. Eu esperava uma morte por overdose ou um crime violento. H seguranas de planto 24 horas por dia no prdio, mas nem por isso uma 
ou outra figura desagradvel deixa de entrar ali de vez em quando. Afinal, estamos em NY. 
Mas uma morte no elevador? 
Magda, com os olhos midos, mas lutando com toda a fora para no chorar (j que isto entregaria para os alunos, que tem mesmo uma forte inclinao para o drama, 
que alguma coisa esta mesmo MUITO errada; e tambm no ia fazer l muito bem para as varias camadas do rmel dela), completa: 
 - Disseram que ela estava... como chama mesmo? brincando de andar em cima do elevador? 
 - Fazendo surfe? - Fico ainda mais chocada. - Fazendo surfe de elevador? 
 - . - ela enfia com todo cuidado a ponta de uma unha toda trabalhada no olho e tira uma lagrima. -  por isso que no esto deixando ningum entrar. As estrelinhas 
de cinema precisam do elevador para ir para os camarins, mas precisam retirar o... 
Magda se desmancha em um soluo. Eu a envolvo com o brao e a viro rpido de frente para mim, tanto para confort-la quanto para abafar o som do choro dela. Os alunos 
esto olhando com curiosidade para o nosso lado. Eu no quero que eles percebam que h alguma coisa , muito seria, de errado. Logo vo ficar sabendo de tudo. 
S que eles provavelmente no vo ter tanta dificuldade de acreditar quanto eu. 
O negocio  que eu no devia ficar assim to surpresa. Essa historia de surfar no elevador  um problema que atinge todo o campus (e no s na Faculdade de NY, mas 
em faculdades de todo o pas). Adolescentes que no tem nada melhor para fazer do que encher a cara e desafiar uns aos outros a pular em cima do teto do elevador 
e ficar ali subindo e descendo pelo poo, o que  perigosssimo. J ouvimos relatos e relatos de jovens bbados decapitados depois de tais desafios. 
Acho que tinha mesmo que acontecer no conjunto Fischer mais cedo ou mais tarde. 
Mais tinha um problema. 
O problema  que Magda ficava falando "ela". Que uma garota tinha morrido. 
 esquisito, porque nunca ouvi falar de uma menina que fizesse surfe de elevador. Pelo menos no no conjunto Fischer. 
Da Magda ergue a cabea do meu ombro e diz: 
 - Ah, no. 
Eu me viro para ver do que ela est falando e prendo a respirao muito rpido. porque a Sra. Allingotn, mulher de Phillip Allington (que no semestre anterior tinha 
passado a ocupar o posto de 16 reitor na faculdade), est vindo pela calada na nossa direo. 
Eu tenho varias informaes sobre os Allington porque outra coisa que achei nos arquivos de Justine (pouco antes de jogar tudo fora) foi um artigo recortado do Jornal 
New York Times que fazia o maior au em torno do fato de o novo reitor ter resolvido morar em um conjunto estudantil em vez de escolher algum dos prdios de luxo 
de propriedade da faculdade. 
"Phillip Allington", dizia o artigo, " um acadmico que no quer perder o contato com o corpo estudantil. Quando volta para a casa do gabinete, usa o mesmo elevador 
que os alunos de graduao ao lado dos quais morra... "
O que o Times deixou de mencionar completamente  que o reitor e a famlia dele moram na cobertura do conjunto Fischer, que ocupa o vigsimo andar inteiro, e que 
reclamaram tanto de todas as paradas que o elevador fazia no trajeto para os alunos subirem e descerem que Justine acabou dando a eles as chaves usadas para fazer 
o elevador subir direto, sem parar. 
Alem de reclamar dos elevadores, a mulher do reitor Allington, Eleanor, parece no ter muito o que fazer. Sempre que eu a vejo, ela acabou de voltar da Saks Fifth 
Avenue ou est saindo para fazer compra l. Ela se dedica incansavelmente s compras, da mesma maneira que um corredor olmpico se dedica ao treinamento. 
S que o esporte preferido da Sra. Allington (alem de fazer compras) parece ser o consumo de enormes quantidades de vodca. Quando ela e o Dr. Allington voltam de 
jantares de trabalho tarde da noite, a Sra. Allington sempre apronta o maior escarcu na entrada, geralmente por causa da cacatuas de estimao dela (pelo menos, 
foi o que o meu segurana preferido, Pete, contou). 
"Os pssaros", ela disse a ele certas vez. "Os pssaros odeiam voc gorducho". 
O que  totalmente maldoso, se voc pensar bem sobre o assunto. E tambm  impreciso, porque Pete no  nem um pouco gordo. Ele est, sabe como , na mdia. 
Os ataques verbais bbados da Sra. Allington so fonte de muita diverso para os funcionrios da recepo do prdio, que so sempre alunos (aqueles que eu supostamente 
devo supervisionar). Tarde da noite, quando o Dr. Allington no est em casa, as vezes a Sra. Allington liga para a recepo para relatar todo o tipo de acontecimento 
estranho: que algum comeu todas as alcachofras recheadas; que h trs coiotes no terrao; que anes minsculos e invisveis esto martelando o teto. 
De acordo com Pete, no comeo os alunos ficavam confusos com os relatos e bipavam os assistentes dos residentes (AR), os representantes da classe alta que, em troca 
de alojamento gratuito, devem atuar como uma espcie de dona-de-casa, e h um por andar. Os ARs por sua vez notificavam o diretor do prdio, que pegava o elevador 
ate o vigsimo andar para investigar. 
Mas quando a Sra. Allington atendia a porta, de olhos vidrados, envolta em veludo molhado (eu sei o que voc est pensando! Veludo molhado!  quase to brega quanto 
veludo stretch), s falava assim: "no sei do que voc est falando, gorducho".
Enquanto isso, atrs dela (de acordo com os vrios ARs que repetiram a historia), as cacatuas assobiavam histricas. 
Assustador. 
Mas parece que no assusta tanto a Sra. Allington quanto assusta o restante de ns, porque parece que ela no se lembra de nada no dia seguinte, e sai para a Saks 
como se fosse uma rainha do conjunto Fischer. 
Como agora, por exemplo. Carregada de sacolas de compras a Sra. Allington olha toda agressiva para o policial que bloqueia a porta de entrada do conjunto Fischer 
e diz assim: 
 - D licena. Eu moro aqui. 
 - Sinto muito, senhora - o policial responde. - S o pessoal da emergncia pode entrar. Nenhum residente tem permisso de entrar no prdio por enquanto. 
 - Eu no sou residente. - A Sra Allington parece inchar no meio de tantas sacolas. - Eu sou... Eu sou... - Parece que ela no consegue se lembrar muito bem de quem 
ela . Mas o policial no esta nem ai. 
 - Sinto muito, senhora - ele diz. - V aproveitar um pouco a feira de rua, que tal? Ou, ento, tem uns bancos timos ali na praa. Por que a senhora no relaxa 
at.  a gente ter permisso para deixar todo mundo entrar, hein? 
A Sra Allington parece um tanto alterada quando eu chego apressada at.  ela. Abandonei Magda porque parece que a Sra Allington est precisando mais de mim. Ela 
est simplesmente ali parada com uma cala jeans de marca apertada demais, uma blusinha de seda e toneladas de jias de ouro, as sacolas de compras pendendo das 
mos, a boca abrindo e fechando em confuso. Ela est com toda a certeza ficando meio esverdeada nas dobras do pescoo. 
 - A senhora ouviu, madame? - diz o policial. - Ningum pode entrar. Est vendo todo este pessoal aqui? Est todo mundo esperando. Ento, ou a senhora espera com 
eles ou vai para outro lugar. 
S que a Sra Allington parece ter perdido a capacidade de se movimentar. Ela no parece muito firme sobre as pernas, se quer saber a minha opinio. Dou um passo 
 frente e a pego pelo brao. Ela nem percebe que eu estou ali. 
Duvido at que saiba quem eu sou. Apesar de ela acenar para mim com a cabea todos os dias teis quando sai do elevador e passa na frente da minha sala a caminho 
de sua prxima sesso de desperdcio (quer dizer, expedio de compras) e diz: "Bom dia, Justine" (apesar de eu a corrigir com freqncia). Mas acho que me ver no 
fim de semana a deixa meio atordoada. 
 - O marido dela  o reitor da faculdade, policial - eu digo. Apontando para a Sra Allington com a cabea. Ela parece estar olhando muito fixamente para um aluno 
prximo, de cabelo roxo e piercing na sobrancelha. - Phillip Allingnton. Ele mora na cobertura. Acho que ela no est se sentindo muito bem. Ser que eu posso... 
Ser que eu posso ajud-la a entrar? 
O policial me olha torto. 
 - Eu conheo voc de algum lugar? - pergunta. No  uma cantada. Comigo nunca . 
 - Deve aqui da vizinhana - respondo, com alegria excessiva. - Eu trabalho neste prdio. - Exibo para ele meu crach de funcionaria da faculdade, aquele com a foto 
em que pareo bbada, apesar de no ter bebido nada na ocasio. Pelo menos no ate ter visto a foto. - Est vendo? Eu sou diretora-assistente do conjunto residencial 
estudantil. 
Ele no parece nem um pouco impressionado, mas diz, com um dando de ombros: 
 - Tanto faz. Pode entrar com ela, se quiser. Mas eu no sei como  que ela vai poder subir. Os elevadores esto desligados. 
No sei como vou fazer para levar a Sra Allington ate o vigsimo andar; levando em conta a instabilidade das pernas dela, praticamente vou ter que carreg-la. Dou 
uma olhada por cima dos ombros para Magda ela apaga o cigarro e vem resoluta em nossa direo, pronta para oferecer toda a ajuda que puder. 
Mas, antes que ela consiga nos alcanar, duas mocinhas (usando o que eu considero o vesturio padro da Faculdade de NY, jeans de cintura baixa com piercing no umbigo) 
saem de supeto do prdio, com dificuldade para respirar. 
Ai, meu Deus, Jeff - uma dela grita para o rapaz que sempre deixa o baseado cair. - O que aconteceu com os elevadores? A gente teve que descer 17 andares de escada. 
 - Eu vou morrer - a outra avisa. 
 - Falando srio - a primeira arfa, bem alto. - Pelo que a gente paga de anuidade e taxa de alojamento, era de se esperar que o REITOR investisse em elevadores que 
no quebrassem o tempo todo. 
Eu no deixo de notar o olhar hostil que ela aponta para a Sra. Allington, que fez o erro de deixar sua foto ser publicada no jornal da escola, se transformando 
assim em alvo identificvel no alojamento. Quer dizer, conjunto residencial estudantil. 
 - Venha, Sra. Allington - eu digo apressada, dando um puxozinho no brao dela. - Vamos entrar. 
 - J estava na hora - ela diz, tropeando um pouco, ao mesmo tempo em que Magda se apressa em pegar o outro brao dela. Ns duas a manobramos pela porta de entrada 
em meio a gritos (dos alunos) de: "Ei! Por que elas podem entrar e a gente no? A gente tambm mora aqui! ", "No  justo! " e "Fascistas! ". 
Levando em conta a maneira cuidadosa como ela coloca um saltinho na frente do outro, tenho bastante certeza de que a Sra. Allington j est um pouco alta, apesar 
de mal ser meio-dia. Minhas suspeitas se confirmam quando ns trs entramos no prdio e ela de repente se inclina para a frente e despeja o caf da manh em uma 
das floreiras da recepo. 
Com toda a certeza parece que a Sra. A. tomou alguns bloody marys em vez de caf. 
 - Santa Maria - Magda diz, horrorizada. E quem pode culp-la? 
Eu no posso falar pelos outros, mas quando vomito (e sinto em dizer, mas  algo que tenho feito com alguma freqncia desde o ano-novo), gosto de ter um certo apoio, 
mesmo que a culpa seja toda minha. 
Ento, dou alguns tapinhas por cima da ombreira da Sra. Allington e digo: 
 - Pronto. A senhora no est se sentindo melhor agora? 
Ela aperta os olhos para me examinar, como se s agora tivesse reparado na minha presena. 
 - Quem diabos  voc? - pergunta. 
 - Hmm - respondo. - Sou a diretora-assistente do prdio. Heather Wells. Lembra? Ns fomos apresentadas h alguns meses. 
A Sra. Allington parece confusa. 
 - O que aconteceu com Justine? 
 - Ela arrumou outro emprego - explico, o que  mentira, j que Justine foi demitida. Mas a verdade  que eu no conheo a verso de Justine na histria. 
Quer dizer, talvez ela estivesse mesmo precisando do dinheiro. Talvez ela tenha parentes que moram na Bsnia ou em algum lugar muito frio, e eles no tem aquecimento, 
e aqueles aquecedores de cermica ajudaram o pessoal a sobreviver durante todo o inverno. Vai saber. 
A Sra. Allington s aperta os olhos mais um pouco. 
 - Heather Wells? - Ela pisca mais algumas vezes. - Mas voc... voc no  aquela moa? Aquela que costumava cantar em todos os shopping centers? 
 quando percebo que a Sra. Allington finalmente me reconheceu, tudo bem... 
... s que no como a diretora-assistente do prdio em que ela mora. Uau. Nunca imaginei que a Sra. Allington podesse ser f de pop adolescente. Ela parece ser 
mais o tipo Barry Manilow (um pop adolescente bem mais velho). 
 - Eu era - digo com gentileza, porque ainda estou com pena dela, por causa do vmito e tudo o mais - Mas eu no canto mais. 
 - Por qu? - ela quer saber. 
Magda e eu trocamos olhares. Parece que Magda est recuperando o senso de humor, porque com toda a certeza os cantinhos da boca delineada dela esto apontando um 
pouco para cima. 
 - Hmm - eu respondo. -  uma histria um pouco longa. Basicamente, eu fiquei sem contrato com gravadora. 
 - Porque voc ficou gorda? - a Sra. Allington pergunta. 
E  ento preciso reconhecer, que eu deixo de ter pena dela. 

3
Eu digo que no posso
Mas voc parece nem ligar
Eu digo que no vou
Parece que nem estou l
No posso esperar para sempre
No vou esperar para sempre
Baby,  agora ou nunca
Diga que me ama
Ou, baby, v se me libera

"No posso"
Interpretada por Heather Wells
Composta por O"Brien/Henke
Do lbum Vontade de te comer
Gravadora Cartwright

Felizmente, sou poupada de ter de dar qualquer tipo de respostar  observao da Sra. Allington a respeito do meu peso porque minha chefe, Rachel Walcott, aparece 
apressada bem naquele momento com os mules de verniz dela estalando no cho de mrmore da recepo. 
 - Heather - Rachel diz ao me ver. - Muito obrigada por ter vindo. - Ela parece mesmo um tanto aliviada por eu estar ali, o que faz com que eu me sinta bem. Sabe 
como , porque realmente precisa de mim, apesar de eu s valer 23, 5 mil dlares por ano. 
 - Claro - respondo. - Sinto muito pelo que aconteceu. Foi... quer dizer,  algum que a gente conhece? 
Mas Rachel s me lana um olhar de advertncia do tipo "No fale de assuntos de famlia na presena de estranhos", sendo que os estranhos eram a Sra. Allington e 
Magda: as funcionrias do refeitrio no so consideradas funcionrias do conjunto residencial e a mulher do reitor da faculdade com TODA A CERTEZA tambm no. Ento, 
ela se volta para a Sra. Allington. 
 - Bom dia, Sra. Allington - Rachel quase berra, como se estivesse falando com uma pessoa de idade, apesar de a Sra. Allington provavelmente no ter muito mais do 
que 60 anos. - Sinto muito a respeito de tudo isto. A senhora est bem? 
A Sra. Allington est longe de bem, mas, por mais chateada que eu esteja com a observao da gordura, no quero dizer isso assim, na cara dela. Afinal, ela continua 
sendo a mulher do reitor. 
Em ver disso, s respondo: 
 - A Sra. Allington no est se sentindo muito bem. 
Acompanho a afirmao com uma olhadela significativa na direo da floreira em que a Sra. A. acabou de vomitar, na esperana de que Rachel capte a mensagem. No 
faz assim tanto tempo que trabalhamos juntas, Rachel e eu. Ela foi contratada apenas um ou duas semanas antes de mim, para substituir a diretora que pediu demisso 
logo depois de Justine ser mandada embora (mas ela no foi por apoio  Justine nem nada parecido). A diretora teve que pedir demisso porque o marido dela tinha 
arrumado um emprego de guarda florestal no Oregon. 
Eu sei o que voc est pensando. Marido guarda florestal. Hmmm. Eu tambm pediria demisso para acompanh-lo. 
Mas ao mesmo tempo em que Rachel  a nova na posio de diretora residente do conjunto Fischer, ela no  nova no ramo da educao superior (que  o que dizem quando 
voc trabalha com aconselhamento dentro da faculdade, mas no tem funo de professor, ou pelo menos foi o que eu li em um dos arquivos de professor, ou pelo menos 
foi o que eu li em um dos arquivos de Justine). Rachel se formou em Yale e o ltimo alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil) que ela dirigiu foi 
na Faculdade Earlcrest, em Richmond, no estado do Indiana. 
Ela me contou que foi um certo choque cultural mudar-se para Nova York vinda de um lugar como Richmond, onde as pessoas nem precisavam trancar a porta de casa  
noite. Mas at onde eu sei, ela no sofreu assim com seu afastamento do interior. Ela tem um guarda-roupa que qualquer profissional de Nova York gostaria de ter, 
cheio de roupas Armani e sapatos Monolo Blahnik, o que  um grande feito (considerando que o salrio dela no  muito maior do que o meu, j que o apartamento gratuito 
no prdio conta como parte dos vencimentos). O comparecimento fiel s vendas especiais de peas de mostrurio de grife ajudam Rachel a estar sempre no ltimo grito 
da moda. E o fato de ela seguir  risca a Dieta da Zona e fazer exerccios duas horas por dia garante que ela mantenha seu tamanho 36, o que permite que ela caiba 
em todas as roupa exibidas pelas modelos. 
Rachel diz que, se eu parasse de comer tantos carboidratos e passase meia hora por dia no StairMaster, ia conseguir voltar fcil para tamanho 38. E que isso no 
deve ser assim to difcil para mim, porque o pacote de benefcios da faculdade garante acesso livre  academia do campus. 
S que eu j fui  academia da faculdade, e  assustadora. Tem umas meninas bem magrinhas l, jogando aqueles bracinhos esquelticos de um lado para o outro em aulas 
de aerbica e ioga e essas coisas. Falando srio, um dia destes, uma delas vai arrancar o olho de algum. 
Bom, mas Rachel diz que, se eu perder bastante peso, com certeza vou arrumar um namorado gostoso, como ela planeja fazer, assim que encontrar um cara no Villafe 
que no seja gay, tenha a cabea coberta de cabelo e ganhe pelo menos cem mil por ano. 
Mas como  que algum pode abrir mo de macarro de gergelim frio? Mesmo que seja por um cara que ganha cem mil por ano? 
Alm do mais, hmm, como eu sempre lembro a Rachel, tamanho 42 no  gorda.  o tamanho mdio da mulher norte-americana. Acorda. Tem muitas de ns (que usam tamanhos 
42) que tm namorado, muito obrigado. 
No eu necessariamente. Mas um monte de garotas do meu tamanho, e at maiores. 
Mas apesar de Rachel e eu termos prioridades diferentes (ela quer um namorado; eu me contento com um bacharelado a esta altura) e de no conseguirmos entrar em acordo 
a respeito do que constitui uma refeio (para ela, alface sem molho; para mim, fafael, tahini extra com pimenta e homus para comear e talvez um sanduche de sorvete 
de sobremesa), a gente se d bem, acho. Quer dizer, pelo menos parece que ele entendeu o olhar que lancei em direo  Sra. Allington. 
 - Sra. Allington - ela diz. - Vamos tratar de lev-la para casa, certo? Eu a levo l para cima. Tudo bem assim, Sra. Allington? 
A Sra. Allington assente bem fraquinho com a cabea, j deixando o interesse na minha mudana de carreira. Rachel pega a mulher do reitor pelo brao enquanto Pete, 
que estava pairando ao nosso redor, segura uma onda de bombeiros para abrir espao para ela e a Sra. A. no elevador que ligaram especialmente para isto. No consigo 
evitar de dar uma olhada nervosa para o interior do elevador quando as portas se abrem. E se houver sangue? Eu sei que disseram que ela foi encontrada no fundo do 
poo dos elevadores, mas e se parte dela ainda estivesse no elevador? 
Mas no h sangue algum  vista. O elevador parece o mesmo de sempre, com seus painis de mogno falso e acabamento em lato, no qual centenas de alunos de graduao 
entalharam as iniciais e palavres com a ponta da chave do quarto. 
Quando as portas dos elevadores se fecham, ouo a Sra. Allington dizer com voz fraca: 
 - Os pssaros. 
 - Meu Deus - Magda diz enquanto observamos os nmeros em cima da porta do elevador irem acendendo e apagando na medida em que a cabine vai se aproximando da cobertura. 
- Espero que ela no vomite de novo l dentro. 
 - Espero mesmo que no - eu concordo. Isso faria com que a viagem de vinte andares para cima se tornasse bem desagradvel. 
Magda se sacode toda, como se estivesse pensado em alguma coisa desagradvel (muito provavelmente no vmito da Sra. A. ) e olha em volta. 
 - Est tudo to quieto - ela diz, colocando os braos em volta de si mesma. 
 - As coisas no ficam to calmas por aqui desde antes de as minhas estrelinhas de cinema chegarem para o incio das aulas. 
Ela tem razo. Para um prdio que abriga tantos jovens (setecentos no total, sendo que a maior parte nem chegou aos vinte anos), a recepo est realmente parada 
neste momento. Ningum est reclamando a respeito do tempo que um funcionrio estudantil demora para separar a correspondncia (aproximadamente sete horas. Ouvi 
dizer que Justine conseguia fazer com que o servio ficasse pronto em menos de duas horas. s vezes fico imaginando se Justine no tinha algum tipo de pacto secreto 
com Sat); ningum est reclamando a respeito das mquinas de troco quebradas na sala de jogos; ningum est discutindo com Pete a respeito dos procedimentos de 
entrada de hspedes. 
No que no tenha ningum por ali. A recepo est atulhada. Policiais, bombeiros, seguranas do campus de uniforme azul-beb e um amontoado de alunos (todos assistentes 
dos residentes) vagando pela recepo de mogno e mrmore, com expresso sombria... 
... mas em silncio. Silncio absoluto. 
 - Pete - eu digo, dirigindo-me para o pessoal da mesa de segurana. - Voc sabe quem foi? 
Os seguranas sabem de tudo que acontece nos prdios em que trabalham. 
No d para evitar. Est tudo l, nos monitores  frente deles, desde os alunos que fumam nas escadas at os reitores que cutucam o nariz no elevador, passando pelas 
bibliotecrias que transam nas mesas de estudo... 
Coisas srdidas. 
 - Claro que sim. - Pete, como sempre, est com um olho na recepo e outro nos diversos monitores de televiso da mesa dele, cada um mostrando uma parte diferente 
do alojamento (quer dizer, do conjunto residencial estudantil), da entrada da cobertura dos Allington at a lavanderia no porto. 
 - E a? - Magda parece ansiosa. - Quem foi? 
Pete, com um olhar cauteloso na direo do balco da recepo do outro lado para se certificar de que os alunos no esto escutando, responde: 
 - Kellogg. Elizabeth. Uma caloura. 
Sinto uma onda de alvio. Nunca tinha ouvido falar dela. 
Ento me condeno por me sentir assim. Ela continua sendo uma menina de 18 anos morta, independentemente de ser ou no uma das minhas funcionarias estudantis! 
 - Como aconteceu? - pergunto. 
Pete lana um olhar sarcstico para mim. 
 - O que voc acha? 
 - Mas - respondo. No posso evitar. Alguma coisa est mesmo me deixando confusa. - As meninas no fazem Surfe de elevador, quer dizer. 
 - Essa a fez. - Pete d de ombros. 
 - Por que ela foi fazer uma coisa dessas? - Magda quer saber. - Uma coisa to idiota? Ela tinha usado drogas? 
 - Como  que eu vou saber? - Pete parece incomodado com a nossa enxurrada de perguntas, mas sei que  s porque ele est to assustado quanto ns. O que  estranho, 
porque  de se pensar que ele j tenha visto de tudo: faz vinte anos que trabalha na faculdade. Assim como eu, ele aceitou o emprego por causa dos benefcios: vivo, 
tem 3 filhos que tm garantida educao superior de tima qualidade (e gratuita), que foi a razo principal por que ele escolheu trabalhar em uma instituio acadmica 
depois de uma leso no joelho ter feito com que ele assumisse um cargo burocrtico permanente dentro da policia. A filha mais velha dele, Nancy, quer ser pediatra. 
Mas isso no impede que o rosto de Pete fique da cor de uma pimento toda vez que um aluno, bravo por no ter permisso para entrar no prdio com suas lmpadas de 
halognio de ultima gerao (elas representam risco de incndio), refere-se a ele como "policial de aluguel". O que no  justo, porque Pete  muito, muito bom no 
que faz. Os entregadores de pizza s conseguem entrar no conjunto Fischer para enfiar menus por baixo das portas quando ele est de folga. 
S que tambm tem o maior corao do mundo. 
Quando os alunos descem do quarto, segurando cheios de nojo as armadilhas de cola com ratos vivos dentro, sabe-se que Pete pega as armadilhas, leva para o parque 
e os liberta. Ele no suporta a idia de qualquer pessoa (ou qualquer coisa) morrer sob sua vigilncia. 
 - Tenho certeza de que o legista vai fazer testes para ver se ela consumiu lcool e drogas - ele diz, tentando parecer despreocupado, sem conseguir. - Isso se ele 
conseguir chegar aqui. 
Estou horrorizada. 
 - Que dizer que ela... ela ainda est l? Quer dizer... o corpo? 
Ele assente. 
 - L em baixo. No fundo do poo dos elevadores. Foi onde a encontraram. 
 - Foi onde quem a encontrou? - pergunto. 
 - Os bombeiros - Pete responde. - Quando algum informou que a tinha visto. 
 - Viram quando ela caiu? 
 - No. S a viram deitada l. Algum olhou pela fresta, sabe como , entre o elevador e o piso, e viu que ela estava l. 
Eu me sinto abalada. 
 - Voc est dizendo que ningum informou quando aconteceu? E as pessoas que estavam com ela? 
 - Que pessoas? - Pete quer saber? 
 - As pessoas com quem ela estava fazendo surfe de elevador - digo. - Ela tinha que estar com algum. Ningum faz essa brincadeira idiota sozinho. O pessoal no 
desceu para avisar? 
 - Ningum me disse nada - Pete responde - at hoje de manha, quando algum menino a viu pela fenda. 
Estou chocada. 
 - Voc est dizendo que ela pode estar l h horas? - pergunto, com a voz falhando um pouco. 
 - No viva - pete responde, compreendendo o meu medo no mesmo instante. - Ela caiu de cabea. 
 - Santa Maria - Magda diz e faz o sinal-da-cruz. 
Eu s fico um pouco menos chocada. 
 - Ento... como  que sabem quem era? 
 - Ela estava com a carteirinha da faculdade no bolso - Pete explica. 
 - Bom, pelo menos ela estava pensando no futuro - Magda diz. 
 - Magda! fico chocada, mas ela s d de ombros. 
 -  verdade. Se voc vai fazer uma brincadeira to idiota, pelo menos tem que levar um documento de identidade, para poderem identificar seu corpo mais tarde, certo? 
Antes que eu ou Pete possamos responder, Gerald, o diretor de alimentao, sai do refeitrio, procurando pela sua operadora de caixa caprichosa. 
 - Magda - ele diz, quando finalmente a v. - O que voc t fazendo? Os policiais disseram que vo deixar agente reabrir a qualquer momento, e no tem ningum no 
caixa. 
 - Ah, j vou querido - ela ergue a voz e diz a ele. Ento, logo que ele est a uma distancia segura, ela completa: - filho-da-me. 
Depois, com um aceno de desculpas com aquelas unhonas para Pete e para mim, ela volta para sua cadeira atrs da caixa registradora no refeitrio estudantil que fica 
do outro lado da mesa de segurana. 
 - Heather? 
Olho em volta e vejo uma das funcionarias estudantis fazendo gestos desesperados para mim. O balco de recepo  o ponto onde tudo se encontra no prdio, onde a 
correspondncia dos alunos  separada, onde os visitantes podem ligar para o quarto dos amigos e onde todas as emergncias do prdio devem ser relatadas. Uma das 
minhas primeiras funes depois de ser contratada foi digitar uma longa lista de telefones que os funcionrios da recepo devem usar no caso de qualquer emergncia 
(parece que Justine tinha ficado muito ocupada usando recursos da faculdade para comprar aquecedores de cermica para todos os amigos dela e por isso no teve tempo 
de fazer isso). 
Incndio? O numero dos bombeiros estava l. 
Estupro? O numero do telefone direto para casos de estupro na faculdade estava l. 
Roubo? O numero da 6 Delegacia de policia. 
Gente que cai de cima de um elevador? No tinha numero nenhum para isso. 
 - Heather. - A funcionria estudantil, Tina, parece to choramingona hoje quanto parecia no dia em que a conheci, quando disse a ela que no podia deixar as pessoas 
esperando at que ela terminasse a partida de Tetris que estava jogando no GameBoy (fui informada de que Justine nunca teve problema nenhum com isso). - Quando  
que vo se livrar do corpo daquela menina? Estou enlouquecendo, de saber que ela, tipo, est l EMBAIXO. 
 - A gente falou com a companheira de quarto dela - Brad, o cara que teve o azar de ser o residente-assistente de planto neste fim de semana, o que significa que 
no pode sair do prdio, caso precisem dele... no caso de alguma aluna morrer, baixa a voz a um tom conspiratrio e se inclina por cima do balco na minha direo. 
- Ela disse que nem sabia que Beth... a menina que morreu... ela disse que nem sabia que Beth j tinha ouvido falar de surfe de elevador. Disse que no fazia idia 
de que Beth andava com esse pessoal. Disse que Beth era meio certinha. 
 - Bom - eu respondo, intil. D para ver que os alunos esperam algum tipo de palavra reconfortante da minha parte. Mas como eu vou saber o que  preciso fazer para 
ajudar o pessoal a lidar com a morte de uma colega? Estou to assustado quanto cada um deles. - Acho que isso s serve para mostrar que a gente nunca conhece as 
pessoas to bem quando acredita, no  mesmo? 
 - , mas brincar em cima de um elevador? - Tina balanou a cabea. - Ela devia ser uma louca. 
 - Candidata a Prozac - Brad concorda de um modo sinistro, exibindo um certo resultado daquele treinamento de sensibilidade que o departamento de alojamento se esforou 
tanto para enfiar na cabea dos ARs. 
 - Heather? 
Eu me viro e vejo a assistente de ps-graduao de Rachel, Sarah, vindo na minha direo com uma pasta na mo. Vestida como sempre no ltimo do chique dos alunos 
de ps-graduao da Faculdade de Nova York (macaco e bota de camura com pele por dentro), ela agarra o meu brao e aperta. 
 - Ai, meu Deus - Sarah diz, sem nem tentar abaixar a voz, de modo que todo mundo no trreo  capaz de ouvi-la. - D para acreditar? Os telefones no param de tocar 
l no escritrio. Todos os pais esto ligando para se assegurar de que no foi o filho deles. Mas Rachel disse que a gente no pode confirmar a identidade da falecida 
at o legista chegar. Apesar de a gente saber quem . Quer dizer, Rachel pediu para eu pegar a ficha dela e disse para eu entregar a Dr. Flynn. E olha s para esta 
ficha! 
Sarah abana a pasta parda grossa. Elizabeth Kellogg tinha registro no escritrio do diretor do conjunto, e isso quer dizer ou que ela tinha se metido em alguma confuso 
ou que tinha ficado doente em algum ponto do ano letivo... 
... o que  estranho, porque Elizabeth era caloura e o semestre de outono tinha acabado de comear. 
 - Preciso contar tudo para vocs. - Sarah est ansiosa para compartilhar as informaes que tem comigo, Brad e Tina. Os dois ltimos a escutaram de olhos arregalados. 
Pete, na mesa da segurana, age como se estivesse ocupado vigiando seus monitores. Mas eu sei que ele est escutando tambm. - A me dela ligou para Rachel, toda 
alterada porque a gente permite aos residentes receberem quem bem entender, e ela no queria que Elizabeth pudesse permitir a entrada de meninos. Parece que a me 
dela queria que a filha se casasse virgem. Ela queria que Rachel fizesse alguma coisa para Elizabeth s poder receber meninas. Obviamente, ela tinha problemas em 
casa, mas sei l...  a funo da APG (ou a assistente de ps-graduao) auxiliar o diretor nas operaes cotidianas do conjunto residencial estudantil. Em troca, 
o APG recebe alojamento gratuito e experincia prtica em educao superior, que geralmente  o campo em que vo aturar. 
Sarah est acumulando bem mais experincia prtica aqui no conjunto Fischer do que achou que acumularia, com essa coisa de menina morta e tudo o mais. 
 - Est bem claro que existia algum tipo de rivalidade entre me e filha acontecendo por l - Sarah nos informa. - Quer dizer, deu para ver que a Sr. Kellogg tinha 
cime de estar perdendo o vio enquanto a filha... 
Sarah  graduada em sociologia. Sarah acha que sofro de baixa auto-estima. Ela me disse que isso no dia em que me conheceu, quando os estudantes chegaram, h duas 
semanas, e ela veio apertar minha mo e gritou: "Ai meu Deus, voc  aquela Heather Wells? "
Quando admiti que era, e depois disse (quando ela perguntou que diabos eu estava fazendo com um emprego em um conjunto residencial estudantil; s que diferentemente 
de mim, Sarah estraga tudo e chama de alojamento) que tinha a inteno de conseguir me formar bacharel algum dia, ela falou: "Voc no precisa de faculdade. Voc 
precisa trabalhar suas questes de abandono e a sensao de inadequao que voc deve ter sido dispensada pela gravadora e roubada pela sua me. "
O que  meio engraado, porque eu acho mesmo  que preciso trabalhar os meus sentimentos de desgosto em relao a Sarah. 
Felizmente, o Dr. Flynn, psiclogo da equipe do departamento de acomodao, veio aos tropeos na nossa direo bem neste momento, com uma pasta na mo, estourando 
de tanta papelada. 
 - Esta  a pasta da falecida? - ela quer saber, em vez de nos cumprimentar. - Gostaria de dar um olhada antes de falar com a colega de quarto e ligar para os pais. 
Sarah entrega a pasta para ele. Na medida em que o Dr. Flynn vai folheando, de repente ele franze o nariz e pergunta: 
 - Que cheiro  este? 
 - Hmm - eu respondo. - A Sra. Allington meio que... bom, ela, hmm... 
 - Ela deu um vomito - Brad diz. - Naquela floreira ali. 
O Dr. Flynn suspira. 
 - De novo, no. - O celular dele toca e ele diz: - Dem licena - e pega o aparelho. 
No mesmo momento, o telefone do balco de recepo toca. Todo mundo olha para ele. J que ningum atende, tiro o telefone do gancho. 
 - Conjunto Fischer - digo. 
Eu no reconheo a voz na outra ponta da linha: 
 - Sim, este  o alojamento localizado na rua Washington Square West? 
 - Sim, aqui  um conjunto residencial estudantil - respondo, lembrando, para variar, do treinamento que recebi. 
 - Queria saber se posso falar com algum  respeito da tragdia que ocorreu hoje cedo a - diz a voz desconhecida.
Tragdia? Eu logo desconfio. 
 - Voc  reprter? - pergunto. A esta altura da minha vida, consigo sentir o cheiro deles a quilmetros de distancia. 
 - Bom, sou sim, trabalho para o Post. . 
 - Ento voc vai ter de entrar em contato com o Departamento de Assessoria de Imprensa. Ningum aqui tem nenhum comentrio. Adeus - bato o telefone com fora
Brad e Tina olham fixam pra mim. 
 - Uau - Brad diz. - Voc  boa. 
Sarah ajeita os culos no nariz, j que tinha comeado a escorregar. 
 - E tem mesmo de ser - ela diz - Levando em conto tudo que ela teve de agentar. Os papparazzi no eram exatamente simpticos, eram, Heather? 
Principalmente quando voc entrou e viu o a... quem era mesmo? Ah sim. Tnia Trace fazendo um boquete em Jordan Cathwright. 
 - Uau - eu digo olhando para Sarah com surpresa genuna - Voc realmente aproveita bem essa sua memria fotogrfica, no  mesmo, Sarah? Sarah sorri com modstia 
quando o queixo de Tina cai. 
 - Heather, voc saia com Jordan Carthwright ? - ela gritou
 - Voc pegou Tnia Trace fazendo um boquete nele ? - Brad parecia to feliz como se algum tivesse jogando uma nota de cem dlares no colo dele. 
 - Hmm - eu digo. No tenho muita escolha. Eles poderiam ir procurar no Google. - . Mas j faz muito tempo. 
Ento eu peo licena para ir pegar um refrigerante, na esperana de que a combinao de cafena e adoantes artificiais possa diminuir a minha vontade de provocar 
mais uma morte entre a populao estudantil do prdio. 

4
No conta
Estou implorando
 segredo e se voc
No contar
Vou te recompensar
Por no contar

No conta
Ningum sabe
Eu expus minha alma
Para voc
Ento no conta

"No conta"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Vontade de te comer
Gravadora Cartwright

A mquina d refrigerante mais prxima se localiza na sala de TV, onde todo o pessoal de conteno de crise da faculdade est congregado. Eu no quero arriscar e 
pedir uma lata grtis para Magda, no refeitrio, porque ela j est encrencada com o chefe. 
Eu s reconheo alguns dos vrios funcionrios da administrao que se encontram na sala, e isso  s porque eu fui entrevistada por eles quando me inscrevi para 
o emprego. Um deles, o Dr. Jessup, chefe do departamento da acomodao, afasta-se do outro administrador com quem estava falando quando me v e vem na minha direo, 
usando uma camisa despojada da Izod e cala cqui da Dockers, bem diferente do que ele  normalmente com os ternos cor de carvo que usa durante a semana. 
 - Heather - o Dr. Jessup diz com sua voz profunda e rouca - Como vai?  - Bem - respondo. J enfiei um dlar na mquina, ento  tarde demais para fugir, apesar 
de ser a minha vontade, j que todo mundo na sala est olhando para mim com aquela cara de Quem  esta moa? Ser que eu no a conheo de algum lugar? E o que ela 
est fazendo aqui? 
Em vez de sair correndo, eu escolho a minha bebida. O barulho da lata batendo na abertura no fundo da mquina soa alto na sala da TV, onde a conversa  abafada em 
respeito  falecida e s pessoas de luto e onde a TV, que normalmente fica ligada no volume mximo, na 24 horas por dia, sete dias por semana, MTV2, est desligada. 
Retiro a lata da mquina e fico segurando, com medo de abrir e atrair mais ateno indesejada para a minha pessoa com ainda mais barulho. 
 - O que voc est achando dos meninos? - ele quer saber. - De uma maneira geral? 
 - Eu acabei de chegar - respondo. - Mas todo mundo me parece bastante abalado. O que , o senhor sabe, compreensvel, levando em conta que tem uma menina morta 
no fundo do poo dos elevadores. 
O Dr. Jessup arregala os olhos e faz um sinal para eu falar baixo, apesar de eu s ter falado um pouco mais alto do que um sussurro. Olho em volta e percebo que 
h alguns figures da administrao na sala de TV. O Dr. Jessup  hipersensvel em relao ao departamento dele, quer que seja visto como uma diviso preocupada 
e concentrada nas necessidades dos alunos. Ele se gaba por sua capacidade de se relacionar com a gerao mais jovem. Percebi isso na minha primeira entrevista, quando 
ele apertou os olhinhos cinzentos em minha direo e fez a pergunta inevitvel, aquela que me d vontade de jogar coisas, mas da qual eu no consigo escapar de jeito 
nenhum: "Eu no conheo voc de algum lugar? "
Todo mundo acha que j me viu em algum lugar. S que no conseguem descobrir onde. Eu ouo demais coisas como: "Voc no foi ao baile de formatura com o meu irmo? 
" E tambm: " A gente no fez alguma cadeira da faculdade juntos? "
O que  mesmo muito esquisito, porque eu nunca fui a formatura nenhuma; faculdade ento, nem pensar. 
 - Eu era cantora - foi o que eu respondi ao Dr. Jessup no dia da minha entrevista de emprego. - Eu era uma, hmm, cantora pop. Quando eu era, sabe como . Adolescente. 
 - Ah, sei - o Dr. Jessup disse na ocasio. - "Vontade de te comer". Foi o que pensei, mas no tinha certeza. Posso fazer uma pergunta? 
Eu me ajeitei pouco  vontade na cadeira, j sabendo o que vinha pela frente. 
 - Claro. 
 - Por que voc se inscreveu para um emprego em um conjunto residencial estudantil? 
Eu limpei a garganta. Eu queria que o VH1 fizesse um Por trs da musica comigo. Porque da eu no ia ter que ficar explicando nada para os outros. 
Mas at parece que eu sirvo para um Por trs da musica. Eu nunca fui to famosa assim. Nunca fui uma Britney nem uma Christina. Mal cheguei a Avril. S fui uma adolescente 
com um par saudvel de pulmes que estava no lugar certo na hora certa. 
O Dr. Jessup pareceu ter compreendido. Pelo menos, deixou o assunto de lado com muito tato depois de eu mencionar o fato da minha me ter fugido do pas com meu 
empresrio (e , ah, sim, minhas economias), a gravadora ter me dispensado e meu namorado tambm, nesta ordem. Quando me ofereceram o cargo de assistente administrativa 
no conjunto Fischer, com salrio anual igual ao que eu costumava ganhar em uma semana no circuito de shows, aceitei sem hesitar. Eu no estava conseguindo ver uma 
carreira em longo prazo como garonete ( que, para uma garota que no gosta nem de levantar para lavar o cabelo, pode ser brutal) e obter educao superior me pareceu 
uma boa idia. Preciso esperar ate acabar meu perodo de experincia de seis meses (s faltam mais trs) e ento eu vou poder me inscrever em quantos cursos quiser. 
O primeiro curso que vou fazer  psicologia 101, para ver se eu sou mesmo to cheia de neuroses quanto Rachel e Sarah parecem pensar. 
Agora o Dr. Jessup est fazendo perguntas a respeito da sade mental de Rachel. 
 - Como ela est se sentindo? - ele quer saber. 
 - Acho que ela est bem. - respondo. 
 - Voc devia comprar umas flores ou algo assim para ela - ele diz. - Alguma coisa para anima - l um pouco. Quem sabe uns doces? 
Eu respondo: 
 - Ah, que boa idia - apesar de no fazer a menor noo do que ele quer dizer. Por que eu deveria comprar flores ou doces para Rachel? Ser que a morte de Elizabeth 
Kellogg afeta mais a Rachel do que o Julio, o chefe da faxina, que provavelmente vai ser quem vai ter de limpar o sangue de Elizabeth do poo dos elevadores mais 
tarde? Ser que algum vai dar doces para o Julio? Talvez eu deva comprar flores para os dois. 
 - Rachel ainda no de acostumou com a cidade grande - o Dr. Jessup vai dizendo, como maneira de se explicar, acredito. - Acho que isto vai deix-la um tanto abalada. 
Ela ainda no se transformou em uma nova-iorquina calejada, como alguns de ns. Certo, Wells? - Ele d uma piscadela. 
 - Certo - respondo, apesar de continuar sem ter a mnima noo do que ele quer dizer. Ser que basta uma caixinha de Whitman Sampler ou ele quer que eu v at a 
Dean & Deluca para comprar alguns petit-fours? O que no seria mau, porque eu poderia comprar para mim um pouco de casquinha de laranja cobertas de chocolate. 
S que... Rachel no come doce. A dieta da Zona no permite. Quem sabe eu compro umas castanhas? 
Mas a nossa conversa chega a um fim abrupto quando o reitor Allington entra apressado na sala. 
Vou conta a verdade. Eu nunca reconheo Phillip Allington quando olho para ele pela primeira vez, apesar de v - lo sair do elevador todos os dias teis pela manh 
desde junho. Quando comecei a trabalhar no conjunto Fischer. A razo por que eu nunca reconheo o reitor Allington  porque ele no se veste exatamente como um reitor. 
O visual preferido dele  cala branca ( que ele continua usando muito depois do fim do vero, contrariamente ao que dizem as regras de etiqueta), uma camiseta dourada 
da Faculdade de Nova York (regata nos dias muito midos), tnis Adidas, e quando o clima  inclemente, um bluso de feltro da Faculdade de Nova York. De acordo com 
outro artigo que eu achei nos arquivos de Justine, o reitor acha que, se ele se vestir igual aos estudantes, vai parecer mais acessvel a eles. 
Mas eu nunca vi um aluno da Faculdade de Nova York usando as cores da instituio. Todos usam preto, para se misturar ao restante dos nova-iorquinos. Hoje, o reitor 
Allington optou pela camiseta com manga, e no a regata, apesar de a temperatura externa estar bem elevada. Bom, talvez ele tenha tido alguma reunio de diretoria 
para ir, e quis se vestir para impressionar. 
S quando todos os outros representantes administrativos correr na direo dele imediatamente para se assegurar do que o reitor sabe como a ao deles est sendo 
fundamental para resolver o que sem duvida ser chamado pelo jornal estudantil de " A tragdia" na segunda- feira  que me cai a ficha e eu me lembro: "Ah . Esse 
a e o reitor. "
Ignorando todas as outras pessoas, o Dr. Allington olha diretamente para o Dr. Jessup e diz: 
 - Voc precisa fazer alguma coisa a respeito disso, Stan. Isso no  nada bom. No  nada, nada bom. 
O Dr Jessup fica com uma cara de quem preferia estar no fundo do poo dos elevadores. Mas tambm no acho que d pra culp-lo
 - Pill - ele responde. - Isto acontece. Com um numero to grande de estudante, sempre existe o risco de alguns morreram. S no ano passado foram trs, e no ano 
antes desse, houve duas. . 
 - No no meu prdio - o reitor Allington diz. No posso evitar de ficar achando que ele est tentando parecer o Harrison Ford em Fora Area 1 ("Saia do meu avio"). 
Mas ele soa muito mais com Pauly Shore em Malucos por Natureza. Este me parece um bom momento para voltar para minha sala. Encontro Sarah l, sentada  minha mesa, 
falando ao telefone. No h mais ningum por ali, mas a atmosfera da sala  bastante tensa. A tenso parece emanar de Sarah, que bate o telefone e fica olhando para 
mim. 
 - Rachel disse que temos cancelar o baile hoje  noite. - Ela est praticamente bufando. 
 - E da ? - isto me parece um pedido razovel - Cancele.
 - Voc no entende. Ns contratamos uma banda de verdade. Podemos perder 1, 5 dlar por causa disso. 
Fico olhando para Sarah. 
 - Sarah - eu digo - Uma garota morreu. Est morta . 
 - E se ns sairmos da nossa rotina normal s por causa do ato egosta dela - Sarah diz - , s vamos fazer com que a morte dela seja romanceada pela populao estudantil. 
- Ento, por um instante ela desce do salto alto de aluna de ps-graduao e completa: - Acho que a gente pode conseguir o dinheiro de volta com a venda de camisetas. 
Mesmo assim, no sei por que devemos cancelar o baile, s porque alguma louca resolveu pular de cima de um elevador. 
E as pessoas vm dizer que o show biz  implacvel. Obviamente essas pessoas nunca trabalharam em um alojamento. 
Desculpe, eu quis dizer conjunto residencial estudantil. 

5
No sei como
A gente se afastou tanto assim
Parece que foi ontem 
Voc me chamava de amor
Agora estou sozinha
E fico s chorando

Vamos tentar de novo
Amor, quero
Tentar de novo
Porque no estou pronta
Para te deixar ir embora
"Tentar de novo"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vontade de te comer
Gravadora Cartwright

Como estamos em Nova York, onde tantas mortes nada naturais ocorrem todos os dias, acaba demorando quatro horas para um legista chegar e examinar Elizabeth. 
O legista chega s 15h30, e s 5h35 Elizabeth Kellogg  declarada morta. A cousa da morte, que ainda vai ser investigada e determinada com preciso pela autpsia, 
 indicada como trauma agudo, com pescoo, coluna e osso plvico quebrados, alm de fraturas mltiplas no rosto e nas extremidades. 
Pode me chamar de sonhadora, mas acho que ningum do corpo estudantil vai romancear a morte dela quando descobrir isso. 
Pior ainda, o legista diz que acha que Elizabeth est morta h quase doze horas. O que significa que est no fundo daquele poo de elevador desde a noite anterior. 
E, tudo bem, ele diz que ela morreu devido ao impacto com o piso de cimento, ento a morte foi instantnea. Quer dizer, ela no ficou a noite inteira l, viva. 
Mas, mesmo assim. 
No tem como esconder a van do legista, nem o corpo que acaba sendo retirado do prdio e colocado dentro dela. s 16h, toda populao estudantil do conjunto Fisher 
j sabe que algum morreu. Quer dizer, trata-se de alunos de faculdade: no so idiotas. Sabem que dois mais dois  igual a quatro. Mas eu no posso me preocupar 
muito sobre como os setecentos residentes do conjunto Fischer esto lidando com a notcia da morte de Elizabeth. Porque estou ocupada demais me preocupando em como 
os pais de Elizabeth esto lidando com a morte da filha. 
Isso porque foi decidido pelo Dr. Jessup (deciso apoiada pelo Dr. Flynn) que, devido ao contato anterior de Rachel com a Sra. Kellog em relao aos privilgios 
da visita de Elizabeth, ela  que deveria ligar para os pais da menina morta. 
 - Vai ser menos chocante - o Dr. Flynn garantiu a todos - se os Kellogg ouvirem a notcia de uma voz conhecida. 
Sara  banida da sala sem cerimnia uma vez que a deciso  tomada, mas o Dr. Jessup pede que eu fique. 
 - Vai ser reconfortante para Rachel -  o que ele diz. 
 bvio que ele nunca viu Rachel em ao no refeitrio, dando bronca nos atendentes do buf de salada por terem colocado molho ranch com gordura no distribuidor 
de molho ranch sem gordura, como eu j vi. Rachel no  bem o tipo de pessoa que precisa ser reconfortada. 
Mas quem sou eu para dizer alguma coisa? 
A cena  insuportavelmente triste e, quando Rachel desliga o telefone, eu tenho o que parece ser enxaqueca, alm do estmago revirado. Claro que pode ser por causa 
das 11 balas Jolly Rancher e do saco de Fandangos que comi no lugar do almoo. Mas vai saber. 
Esses sintomas so agravados pelo Dr. Jessup. Chateado com as observaes do Dr. Allington, o vice-diretor assistente jogou a preocupao e o cdigo da Secretaria 
de Sade de Nova York na lata do lixo e comeou a fumar de maneira energtica, recostado na beirada da mesa de Rachel. Ningum se oferece para abrir uma janela. 
Isso porque todas as janelas da nossa sala ficam no nvel da rua, e toda vez que a gente abre, algum engraadinho enfia a cabea pra dentro da sala e grita: "Tambm 
quero batata-frita com o meu sanduche." ento que me ocorre que Rachel j acabou os telefonemas dela e que no preciso mais reconfort-la. No posso fazer mais 
nada para ajudar. 
Ento eu me levanto e digo: 
 - Acho que vou para casa. 
Todo mundo olha pra mim, felizmente o Dr. Allington j se foi h muito tempo, j que ele e a mulher tm uma casa de praia, nos Hamptons, e vo para l sempre que 
possvel. 
S que hoje a Sra. Allington no quis sair pela porta da frente, no com a van do legista parada ali na calada, atrs do caminho de bombeiro. Eu tive que desligar 
o alarme para ela poder sair pela porta de emergncia ao lad do refeitrio, a mesma porta que os seguranas usam para deixar entrar no prdio os convidados mais 
ilustres dos Allington (como os Schwarzenegger) quando eles organizaram jantares, para que no sejam incomodados pelos alunos. 
O filho nico dos Allington, Christopher (um rapaz muito bonito com vinte e tantos anos, que usa muita roupa da Brooks Brothers e que mora em um conjunto residencial 
para alunos de ps-graduao enquanto cursa direito na faculdade) estava atrs do volante do Mercedes verde-floresta deles quando finalmente partiram. O Dr. Allington 
colocou a mulher no banco de trs e a bagagem no porta-malas de maneira solcita, ento entrou no banco da frente ao lado do filho. 
Christopher Allington zarpou dali em tal velocidade que as pessoas que estavam na feira de rua tiveram que pular para a calada, achando que algum queria passar 
por cima delas - ah, sim. A feira de rua continuou, apesar do caminho de bombeiro e da van do legista. 
Vou dizer uma coisa: se os Allington fossem os meus pais, eu tambm ia tentar atropelar os outros. 
O Dr. Flynn se recupera da notcia de que eu estou indo embora antes dos outros. Ele diz: 
 - Claro, Heather. V pra casa. No precisamos mais de Heather, precisamos, Stan? 
O Dr. Jessup solta uma nuvem de fumaa cinza-azulada. 
 - V pra casa - ele diz pra mim. - Tome um drinque. Um bem grande. 
 - Ah, Heather - Rachel exclama. ela d um salto da cadeira giratria dela e, para minha surpresa, coloca os braos em minha volta. Ela nunca tinha feito demonstraes 
fsicas de afeto comigo. - Muito obrigada por ter vindo at aqui. No sei o que eu teria feito sem voc. Voc consegue mesmo ficar de cabea fria no meio de uma 
crise. 
No fao a menor idia do que ela est falando. Eu no tinha feito absolutamente nada. Com toda a certeza no tinha comprado as flores que o Dr. Jessup recomendara. 
Talvez eu tinha acalmado os funcionrios estudantis, e tinha convencido a Sarah a cancelar o baile dela, mas foi s isso, mesmo. No foi nada que pudesse salvar 
a vida de algum. 
Olho para qualquer lugar menos para o rosto das pessoas enquanto Rachel me abraa. Abraar Rachel no tem nada a ver com um abrao - a menos que voc esteja abraando 
um palito. Porque ela  magra demais. Eu me sinto mal por ela. Porque, quem  que vai querer abraar um palito? Eu sei que os caras que andam atrs de modelos querem. 
Mas o que eu quero dizer : que tipo de normal quer abraar ou ser abraada por um monte de ossos pontudos? Uma coisa seria se ela fosse naturalmente pontuda. Mas 
acontece que eu sei que Rachel passa fome de propsito para ficar deste jeito. 
No  correto. 
Para o meu alivio, Rachel me solta quase que imediatamente e, assim que o faz, saio correndo da sala sem dizer mais nenhuma palavra, principalmente porque tenho 
medo de chorar se abrir a boca. No por ela ser to ossuda, mas porque tudo isso me parece um tremendo desperdcio. Quer dizer, uma menina est morta, os pais dela 
esto arrasados. E por qu ? Por um passeio emocionante em cima de um elevador? 
Simplesmente no faz sentido algum. 
Como o alarme da sada de emergncia continua desligado, eu saio do prdio por ali, aliviada de no precisar passar pela recepo. Porque eu realmente acho que vou 
perder toda a compostura se algum dizer uma palavra que for para mim. Preciso fazer todo o trajeto at a Sexta Avenida e dar a volta no quarteiro para evitar cruzar 
com qualquer pessoa que eu conhea ( e tenho que passar na frente da Banana Republic, que tem sim roupas tamanho 42, mas raramente em estoque porque, como  o tamanho 
mais comum, nunca tem o bastante para todo mundo), mas vale a pena. No estou em condio de jogar conversa fora com ningum. 
Mas, infelizmente quando chego  porta de casa, percebo que jogar conversa fora  exatamente o que eu vou ter que fazer. Porque esparramado nos degraus da frente 
da minha casa est o meu ex noivo, Jordam Cartwright. E eu estava mesmo confiante de que o meu dia no tinha como piorar. 
Ele se levanta quando me v e desliga o celular, em que est falando. O sol de fim de tarde ressalta as luzes douradas em seu cabelo loiro, e eu no posso deixar 
de notar que, apesar do calor sufocante, os vincos da camiseta branca e (sim, sinto em dizer) da cala branca combinando esto perfeitamente passadinhos. 
Com aquela roupa branca e corrente de ouro em volta do pescoo, ele parece um membro desgarrado de uma boy band realmente ruim. 
O que, infelizmente,  exatamente o que ele . 
 - Heather - ele diz ao me ver. 
No da pra ler os olhos azul - claros dele porque esto escondidos pela lente dos culos escuros Armani. Mas acho que, como sempre, esto cheio de preocupao meiga 
com o meu bem- estar. Jordam sabe muito bem fazer as pessoas acharem que ele se preocupa com elas. Esta  uma das razoes porque a primeira tentativa de carreira 
solo dele, "Baby, eu quero voc ", ganhou lbum de platina duplo. O vdeo foi numero um do Disk MTV durante semanas. 
 - Voc apareceu - ele diz. - Estou tentando falar com voc. Acho que Coop no est em casa. Tudo bem com voc ? Vim logo pra c logo que soube. 
Eu fico l olhando abobada pra ele. O que ele est fazendo aqui? Ns terminamos. Ser que ele no lembra? 
Talvez no. Fica claro que ele andou fazendo musculao. Muita musculao. O bceps dele esta definido de verdade. 
Talvez um peso tenha cado na cabea dele, ou algo assim. 
 - Ela morava no seu prdio, no morava? - ele prossegue - A menina do radio? A que morreu? 
 totalmente injusto que um carto gostoso possa ser to. . bom desprovido de maneira to completa de qualquer coisa que se assemelhe com uma emoo humana. 
Tiro as chaves do fundo do bolso da frente do jeans. 
 - Voc no devia ter vindo aqui, Jordan - digo. As pessoas esto olhando (mas so principalmente traficantes de drogas. Tem muitos deles na vizinhana, por que 
a faculdade, para deixar a Washington Square limpa para os alunos e, mais importante, para os pais deles, fez muita presso sobre a delegacia de polcia local para 
expulsarem os traficantes e os sem-teto para longe da praa e mand-los para as ruas adjacentes, como. por exemplo aquela que eu moro). Claro que, quando eu aceitei 
a oferta do irmo do Jordan de morar com ele, eu no sabia que o lugar era to ruim. Quer dizer, convenhamos,  o Greenwich Village, que h muito tempo deixou de 
ser antro de artistas passando fome, depois que os Yuppies mudaram para l e sanitarizaram o lugar e o preo dos aluguis subiu s alturas. Achei que devia ser parecido 
com a Park Avenue, onde eu morava com Jordan, e onde "aquelas pessoas simpticas" como Jordan os chama, simplesmente no circulam. 
O que  uma boa coisa, por que "aquelas pessoas simpticas" aparentemente no conseguem tirar os olhos de Jordan (e no  s por causa das correntes de ouro em destaque). 
 - Ei! - Um deles grita. - Voc  aquele cara? Voc  aquele cara? 
Jordan, acostumado em ser importunado com os paparazzi, nem mexe um msculo. 
 - Heather - Ele diz com o seu tom mais acalentador, aquele que usou no seu dueto com Jessica Simpson na turn Get Funk do vero passado. - Vamos l, seja razovel. 
S por que as coisas no deram certo para a gente no lado romntico, no  motivo para a gente no ser amigo. Ns passamos por muita coisa juntos, at crescemos 
juntos. 
Esta parte, alis,  verdade. Eu conheci Jordan a muito tempo, quando fui contratada pela gravadora do pai dele, a Gravadora Cartwrite, quanto eu tinha impressionantes 
15 anos de idade, e Jordan tinha 18. Naquela poca eu acreditava de verdade na fachada de artista torturado de Jordan. Eu acreditei quando ele afirmou que, assim 
como eu, tambm odiava as msicas que a gravadora dava para ele cantar. Acreditei quando ele disse que, assim como eu, ia parar de cant-las para interpretar as 
canes que tinha escrito por conta prpria. Acreditei nele at o ponto em que eu disse para a gravadora que, se no fossem as minhas msicas, no seria msica nenhuma... 
e Jordan, em vez de dizer para a gravadora (tambm conhecida como o pai dele) a mesma coisa, falou assim: Acho melhor a gente conversar sobre isso, Heather. "
Olho em volta para me assegurar de que a atuao dele no  para nenhuma cmera escondida. Eu mo iria duvidar nadinha mesmo se ele tivesse assinado com algum reality 
show. Ele  daquele tipo que no se importaria em ver a vida transmitida em rede nacional. 
Foi a que eu reparei na BMW conversvel prata estacionada na frente do prdio antigo de tijolinhos. 
 - Esse a  novo - digo. - Foi seu pai quem deu? Como recompensa por ficar com Tania Trace? 
 - Bom, Heather - Jordan diz - , eu j te expliquei. O negcio com a Tania... No  o que voc pensa. 
 - Certo - respondo com uma risada. - Acho que ela tropeou e caiu, e foi um acaso eu t-la encontrado com a cabea na sua virilha. 
Ento, Jordan faz algo surpreendente. Ele tira os culos escuros e olha bem fundo nos meus olhos. Eu me lembro ento da primeira vez que o vi (no shopping center 
America). A gravadora (quer dizer, o pai de Jordan) tinha acertado para que a banda dele, a Easy Street, e eu fizssemos uma turn juntos, na tentativa de atrair 
o nmero mximo de pr-adolescentes (com seus pais e suas carteiras). 
Jordan tinha na ocasio me olhado da mesma maneira profunda que me olhava agora. Quando ele me disse "Baby, voc tem olhos azuis incrveis", no me pareceu uma cantada 
barata. 
Mas o que  que eu sabia? Eu tinha sido arrancada da escola no primeiro ano do ensino mdio e desde ento s estava na estrada, sob vigilncia cerrada e s travando 
contato com garotos da minha idade que vinham me pedir um autgrafo. Como  que eu ia saber que "Baby, voc tem olhos azuis incrveis"era uma cantada barata? 
S fui perceber anos mais tarde, quando "Baby, voc tem olhos azuis incrveis"apareceu em uma msica de um dos singles do primeiro CD solo de Jordan. Acontece que 
ele tinha muita prtica em dizer aquilo. At mesmo com sinceridade. 
Com toda a certeza, aquilo tinha funcionado comigo. 
 - Heather - Jordan diz agora, enquanto os raios de sol, filtrado pelas folhas das rvores e pelos prdios de apartamento  oeste, brincam sobre a superfcie regular 
e simtrica do rosto bonito e ainda com ar de garoto dele. - A gente tinha uma coisa, voc e eu. Tem certeza de que voc quer simplesmente jogar tudo fora? Quer 
dizer, eu sei que no sou exatamente inocente nessa histria toda. Aquele negcio com Tania... Bom, eu sei o que voc deve ter pensado. Fiquei olhando pra ele, 
incrdula. 
 - Voc quer dizer, que ela estava chupando voc? Porque foi o que eu pensei. 
Jordan se encolhe, como se eu tivesse dado um tapa nele. 
 - Est vendo? - Ele cruza os braos por cima do peito. -  exatamente disso que estou falando. Quando a gente se conheceu, Heather, voc nunca dizia coisas grosseiras 
assim. Voc mudou, no percebe? Isso  parte do problema. Voc no  a mesma garota que eu conheci h tantos anos... Resolvo que, se ele baixasse o olhar para a 
minha cintura, que  o lugar em que eu mais mudei nos ltimos dez anos, eu ia dar uma chave de brao nele. Mas ele no fez isso. 
Voc ficou... Sei l, endurecida. Acho que seja a palavra - ele prossegue. - E depois do que voc passou com a sua me e o seu empresrio, quem pode culp-la? Mas, 
Heather, nem todo mundo est afim de roubar o seu dinheiro e fugir para a Argentina como eles fizeram. Voc precisa acreditar em mim quando digo que no quis magoar 
voc. A gente foi simplesmente se afastando, voc e eu. Ns queremos coisas diferentes, voc quer cantas as sua prprias composies, e parece que voc no liga 
para o fato de isto destruir a sua carreira... O que sobrou dela. E eu... Bom, eu quero... 
 - Ei! - grita o traficante. - Voc  o JORDAN CARTWRIGHT! No d para acreditar que isto esta acontecendo. Primeiro Elizabeth, agora esta. 
Afinal, o que o Jordan quer de mim?  o que eu no consigo entender. O cara tem 31 anos de idade, 1, 90m de altura e vale um monte de dinheiro (muito mais do que 
os cem mil por anos que Rachel procura no parceiro ideal dela). Quer dizer, eu sei que os pais dele no ficaram exatamente felizes quando a gente resolveu morar 
junto. No parecia muito bom, os dois cantores adolescentes de maior sucesso deles juntos... 
Mas ser que todo nosso relacionamento uma tentativa elaborada de se vingar do Sr. e da Sra. Cartwright por ter permitido que o filho mais novo participasse de um 
teste para o Clube do Mickey, como ele tinha implorado aos nove anos, pela vergonha infinita da vida dele? Porque  claro que roqueiros srios no tm fotos com 
orelhas do Mickey estampadas na Teen Idol semana sim, semana no... 
 - Jordam - eu digo, interrompendo a lista de coisas que ele quer da vida, muitas das quais tm a ver com levar um pouco de luz para a vida das pessoas, e por que 
isto  to errado? S que eu nunca disse que era. - Ser que voc poderia simplesmente ir embora? 
Passo por ele empurrando-o para o lado, com as chaves na mo. Acho que a minha inteno era entrar e trancar a porta antes que ele pudesse me impedir. Mas com trs 
fechaduras para abrir,  meio difcil desempenhar uma fuga rpida. 
 - Eu sei que voc no me leva a srio como artista, Heather - Jordan prossegue. E prossegue, e prossegue - Mas eu posso garantir que, s porque eu no componho 
as msicas que canto, isso no com que eu seja menos criativo do que voc. Agora, eu fao praticamente todas as minhas coreografias. Voc viu o movimento que eu 
fiz no vdeo de "Agora somos s voc e eu"? Sabe, este aqui? - ele d um rodopio rpido com troca de p, acompanhando com um movimento de plvis, nos degraus da 
frente do predinho antigo. - Fui eu quem inventou sozinho. Eu sei que para voc no parece muito, mas voc no acha que j est na hora de dar uma boa avaliada na 
sua vida? Quer dizer, o que voc anda fazendo que seja assim to artstico, que seja recompensador? Essa histria idiota de alojamento... 
Duas fechadoras destrancadas. S falta uma. 
 - ... e de morar aqui com um monte de drogados  sua porta... e com o Cooper! Com o Cooper, ningum menos! Voc sabe o que a minha famlia acha do Cooper, Heather. 
Eu sei sim o que a famlia dele acha de Cooper. A mesma coisa que acha do av de Cooper, que saiu do armrio com 65 anos, comprou um predinho antigo de tijolinho 
pintado de rosa-choque no Village e depois deixou de herana para o neto ovelha-negra, que se mudou para o apartamento com ptio, transformou o piso do meio em agncia 
de investigao e ofereceu o andar de cima para mim, sem cobrar aluguel (em troca de fazer a contabilidade dele) quando descobriu que eu tinha pegado Jordan e Tania 
em flagrante. 
 - Quer dizer, eu sei que no tem nada entre vocs - Jordan vai dizendo. - No  com isso que me preocupo. Voc no faz o tipo do Cooper. 
Ele pode dizer isso de novo. Infelizmente. 
Mas eu me pergunto se voc sabe que o Coop tem ficha na polcia. Por vandalismo. E,  verdade, ele era menos, mas mesmo assim, pelo amor de Deus, Heather, ele no 
tem respeito pela propriedade pblica. Sabe como , ele estragou um anncio de rua do Easy Street. Tenho certeza de que ele sempre se ressentiu por causa do meu 
talento, mas no  minha culpa. Eu nasci com este dom... 
Ento, a terceira fechadura se abre. Estou livre! 
 - Tchauzinho, Jordan - digo e deslizo para dentro, fechando a porta com muito cuidado atrs de mim. Porque, sabe como , no d para bater a porta na cara dele 
e machuc-lo, ou qualquer coisa assim. No porque eu me importo, mas porque seria grosseiro. 
Alm do mais, o pai dele pode me processar ou qualquer coisa do tipo. Vai saber. 

6
Admiradora secreta
Sou sua
Admiradora secreta
Eu sei o quanto
Voc adora
E deseja aquela mulher

E fico pensando
O que voc faria
Se soubesse que
Eu te amo? 
Se voc soubesse que  verdade
Que eu sou sua
Admiradora secreta? 

"Admiradora secreta"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Vontade de comer
Gravadora Cartwright

Jordan est batendo na porta com toda a fora, mas eu estou ignorando. Est fresco dentro do prdio antigo, e o ar tem um leve cheiro de toner da mquina de fotocpia 
da sala de Cooper. Comeo a subir as escadas em direo ao meu apartamento, pensando que Lucy (eu j falei sobre ela?  a minha cachorra) vai querer sair para passear, 
da olho para o fundo do corredor e percebo que uma das portas que d para o ptio est aberta. 
Em vez de subir as escadas, sigo pelo corredor (o av de Cooper tinha mandado colocar papel de parede preto com listras brancas ali, aparentemente uma moda enorme 
entre a comunidade gay na dcada de 1970) e encontro o homem da casa sentado em uma espreguiadeira no ptio, uma garrafa de cerveja na mo, minha cachorra aos ps 
e um isopor vermelho do lado. Ele est escutando (como geralmente faz quando est em casa) uma estao de jazz no rdio. Cooper  o nico integrante da famlia 
que despreza os gritos estridentes da Easy Street e Tania Trace e prefere os tons mais suaves de Coleman-Hawkins e de Sarah Vaughn. 
 - Ele j foi embora? - Cooper quer saber quando percebe que estou parada  porta. 
 - J vai daqui a pouco - respondo. S ento percebo: - Voc est se escondendo aqui? 
 - Acertou na mosca - Cooper responde. Ele abre o isopor e tira uma cerveja l de dentro. - Tome - ele diz, oferecendo-a para mim. - Achei que vocs precisaria de 
uma destas. 
Pego a garrafa com gratido e me afundo na almofada verde acolchoada da cadeira de ferro batido mais prxima. Lucy dispara em minha direo e enfia a cabea entre 
minhas coxas e me cheira animada. Fao um cafun nas orelhas dela. 
Esta  a parte mais legal de se ter um cachorro. O bicho sempre ficar feliz quando v a gente. Alm do mais, sabe como , tambm faz bem para a sade. A presso 
sangnea cai quando se acaricia um cachorro. Ou at um gato.  um fato documentado. Eu li na revista People. 
Claro que bichos de estimao no so a nica coisa que pode ajudar a manter a presso baixa. Ficar descansando em um lugar bem tranqilo tambm funciona. Como, 
por exemplo, o ptio do av de Cooper com o jardim dele, os dois segredos mais bem guardados de Manhattan. Luxuriante e verde, rodeado de muros altos cobertos de 
trepadeiras, o lugar  um osis diminuto, adaptado a partir de uma ex-estrebaria do sculo XVIII. Tem at uma pequena fonte no ptio que, percebo, Cooper ligou. 
Ela fica l gorgolejando, agradvel, no marasmo do fim de tarde. Enquanto acaricio as orelhas de Lucy, sinto que meu ritmo cardaco vai voltando ao normal. 
Talvez, quando acabarem os meus seis meses de experincia e eu puder me inscrever na faculdade, eu faa preparao para medicina. , vai ser difcil com um emprego 
em tempo integral (isso tirando a contabilidade de Cooper). Mas eu vou dar um jeito. 
E da, talvez, depois eu consiga uma bolsa ou algo assim para fazer o curso de medicina. E da, quando eu me formar, posso levar a Lucy comigo para o hospital, e 
ela vai poder acalmar todos os meu pacientes. Eu ia acabar com todas as doenas cardacas s de fazer os meus pacientes acariciarem a minha cachorra. Eu iria ser 
famosa! Igual a Marie Curie! 
S que eu no vou andar com urnio pendurado no pescoo e morrer de intoxicao por radiao como li que aconteceu com a Marie Curie. 
No menciono meu novo plano para Cooper. Por algum motivo, no acho que ele v apreciar por completo suas diversas facetas. m Apesar de ele ser um sujeito cabea 
bem aberta. Arthur Cartwright, av de Cooper, ficou bravo com a maneira como o resto da famlia o tratou depois de ele revelar que era gay e deixou a maioria de 
sua vasta fortuna para a pesquisa em Aids; toda coleo de arte de altssima qualidade foi leiloada pela Sotheby"s e os lucros com as vendas, revertidos para a God"s 
Love We Deliver, uma fundao beneficente que alimenta pessoas doentes de Aids e cncer; e quase todas as propriedades que possua forma para a Faculdade de Nova 
York onde ele estudou... 
... todas menos o predinhos cor-de-rosa que ele mais adorava no Village, que deixou para Cooper (junto com um milho de dlares bacanrrimos), porque Cooper foi 
o nico integrante da famlia Cartwright que disse: "Se voc for feliz assim, vov, tudo bem", quando ficou sabendo que o av tinha arrumado um namorado, Jorge. 
No que Jordan e o resto da famlia Cartwright tenham ficado muito preocupados com o fato de Arthur os ter deserdado. Eles ainda tinham bastante dinheiro na conta 
da famlia dos Cartwright para todo mundo. 
Mesmo assim, isso ainda no contribuiu nada para fazer com que Cooper se tornasse o integrante preferido de todos entre o cl Cartwright (ele j era a ovelha-negra 
da famlia por ter sido expulso de diversas escolas e por ter escolhido fazer faculdade em vez de assumir um posto no Easy Street; isso sem falar em sua tendncia 
de sair com cirurgis cardacas e donas de galeria com nomes como Saundra ou Yokiko). 
Mas nada disso parece incomod-lo, mesmo. Nunca conheci ningum que se sentisse mais  vontade na prpria companhia do que Cooper Cartwright. Ele nem se parece com 
o restante da famlia. Ele tem cabelo escuro, os outros so loiros; mas ele  bonito, assim como eles, e tem aqueles olhos azul-gelo fantstico. 
Mas a semelhana dele com o irmo Jordan termina nos olhos. Os dois so altos e tm porte atltico. 
Mas ao passo que os msculos de Jordan so torneados por um personal trainer durante vrias horas por dia em sua academia particular os de Coop se desenvolvem com 
partidas cheias de agressividade de basquete de ruas nas quadras da Sexta Avenida com a rua Third West e por corridas em alta velocidade pela estao Grand Central, 
em nome de algum cliente que ele esteja atendendo no momento (apesar de ele no admitir que faz isso). Eu sei a verdade porque, como sou eu que cobro os clientes 
dele, vejo os recibos. No tem como uma pessoa ser capaz de sair de um txi (uma corrida de seis dlares que terminou s 17h01) at o guich de passagens da ferrodovia 
Metro North (viagem de ida e volta at Stamford, saindo s 17h07) sem correr. 
Por causa de tudo isso (a simpatia, os olhos, o basquete no fim de semana... sem falar no jazz) eu me apaixonei loucamente por Cooper. 
Mas eu sei que  completamente intil. Ele me trata com o descaso simptico normalmente reservado  namorada do irmo mais novo o que aparentemente vou continuar 
sendo para sempre para ele j que, comparada s mulheres com quem ele sai, que so todas independentes, lindas e professoras de literatura renascentista ou de microfsica, 
eu pareo um pudim ou algo do tipo, no tenho a menos chance. 
E quem vai querer um pudim de baunilha se puder comer crme brle? Vou me apaixonar por algum outro cara assim que der. Juro. Mas, enquanto isso, qual  o problema 
de eu aproveitar a companhia dele? 
Cooper d um longo gole na cerveja e examina o topo dos prdios ao nosso redor... sendo que um dele por acaso  o conjunto Fischer. D para ver do 12 ao vigsimo 
andar, inclusive a cobertura do reitor, do jardim de fundos de Arthur Cartwright. 
Tambm d para ver os respiradouros do poo dos elevadores. 
 - Ento - Cooper diz. - Foi muito ruim? 
Ele no est falando do fato de eu ter visto Jordan. Isso fica bvio quando ele aponta o campus da faculdade com a cabea. 
No fico surpresa por ele saber sobre a menina morta. Ele deve ter ouvido as sirenes e visto a multido. At onde eu sei, ele pode ter um receptor de rdio da polcia 
enfiado em algum lugar. 
 - No foi nada agradvel - respondo, dando um gole em minha cerveja Enquanto massageio as orelhas pontudas de Lucy com a mo livre. Lucy  uma vira-lata que eu 
peguei no centro de zoonose pouco depois de minha me fugir. Tenho certeza de que Sarah diria que eu adotei Lucy como uma espcie de membro postio da famlia, j 
que fui abandonada pela minha. 
Mas como eu sempre estava em turn, nunca pude ter um bicho de estimao, e simplesmente achei que estava na hora de ter um. Parte collie e aparentemente parte fox, 
Lucy tem uma cara risonha  qual eu no consegui resistir (mas Jordan queria um cachorro com pedigree, se possvel um cocker spaniel. Ele no ficou l muito feliz 
quando eu cheguei em casa e em vez da Dama, tinha trazido a Vagabunda). 
Mas tudo bem, porque Lucy nunca gostou de Jordan mesmo, e logo mostrou seu desagrado ao mastigar uma cala de camura dele. 
Estranhamente, ela parece no ter problema nenhum com Cooper, o que atribuo ao fato de Cooper nunca ter jogado um exemplar da revista Us Weekly nela por ter rodo 
o CD da Dave Matthews Band. Cooper nem tem um CD da Dave Matthews Band. Ele gosta do Wynton Marsalis. 
 - Algum j sabe o que aconteceu? - Ele quer saber. 
 - No - respondo. - Ou, se sabe, no est a fim de divulgar a informao.  - Bom - ele toma um gole grande de cerveja. - So s garotos. Provavelmente ficaram 
com medo de se encrencar. 
 - Eu sei - respondo. -  s que... como podem simplesmente ter deixado a menina l? Quer dizer, fazia horas que ela estava morta. E simplesmente deixaram l. 
 - Quem foi que fez isso? 
 - As pessoas com quem ela estava. 
 - Como  que voc sabe que ela estava com algum? 
 - Ningum faz surfe de elevador sozinho. O objetivo da brincadeira  um monte de garotos subir em cima de um elevador passando pelo painel de manuteno no teto 
e desafiar uns aos outros a pular da cabine em que esto para a outra que vai passando. Se no tiver ningum para desafiar, qual  o sentido? 
 fcil explicar as coisas para o Cooper porque ele  um timo ouvinte. Ele nunca interrompe as pessoas, e sempre parece interessado de verdade no que elas tm a 
dizer. Este  outro trao de carter que o afasta do resto da famlia. E tambm  algo que, desconfio, o ajuda no ramo em que ele trabalha. D para descobrir muita 
coisa quando deixamos os outros falarem e simplesmente escutamos o que tm a dizer. 
Pelo menos foi o que eu li certa vez em uma revista. 
 - O negcio  que os garotos desafiam uns aos outros a dar saltos cada vez maiores e mais perigosos. - digo. - Ningum nunca faria surfe de elevador sozinho. Ento 
ela tinha que estar com algum. A menos que... 
Cooper me olha: 
 - A menos que o qu? 
 - Bom, a menos que ela no estivesse fazendo surfe de elevador coisa nenhuma - digo, finalmente colocando as palavras uma coisa que ficou me incomodando o dia inteiro. 
- Quer dizer, as meninas no costumam fazer isso. Pelo menos, nunca ouvi falar de nenhuma, no na faculdade de Nova York. Isso  coisa de garoto bbado. 
 - Ento - Cooper se inclina para frente na espreguiadeira. - Se ela no estava fazendo surfe de elevador, como foi que ela caiu no fundo do poo? Voc acha que 
as portas dos elevadores se abriram, mas o elevador no veio, e ela entrou sem olhar? 
 - No sei. Essas coisas no acontecem. O elevador no abre se no estiver no andar. E mesmo que acontecesse, quem ia ser to idiota de no olhar primeiro? 
E  a que ele diz: 
 - Vai ver que algum a empurrou. 
Fico olhando embasbacada para ele. O fundo do prdio antigo dele  silencioso, no d para ouvir o trnsito da Sexta Avenida nem o barulho de garrafas que os sem-teto 
da Wavely Place fazem Enquanto remexem o nosso lixo. Mesmo assim, no tenho certeza se ouvi direito. 
 - Empurrou? - repito. 
 -  o que voc est pensando, no ? - Os olhos azuis de Cooper no revelam absolutamente nenhuma emoo.  isto que faz dele um detetive particular to bom. E 
o motivo por que eu continuo acreditando que pode haver esperana romntica entre mim e ele no final das contas (porque nunca vi nada nos olhos dele que pudessem 
fazer com que eu acredite no contrrio). - Talvez ela no tenha escorregado e cado. Talvez ela tenha sido empurrada. 
O negcio era EXATAMENTE o que eu estava pensando. 
Mas eu tambm tinha ficado pensando que isso parecia... bom, louco demais para proferir em voz alta. 
 - Nem tente negar - Cooper diz. - Eu sei que  isso que voc estava pensando. Est na sua cara. 
 um alvio desabafar. 
 - Meninas no fazem surfe de elevador, Coop. Simplesmente no fazem. Quer dizer, talvez faam em outras cidade, mas no aqui na Faculdade de Nova York. E esta menina, 
Elizabeth, ela era toda certinha! 
Agora  a vez de Cooper ficar olhando para embasbacado para mim. 
 - Como assim? 
 - Certinha - respondo. - Sabe como . Toda arrumadinha. As certinhas no fazem surfe de elevador. E digamos que fizesse. Quer dizer, simplesmente DEIXARAM a coitada 
l. Quem faria isso com a amiga? 
 - Crianas - ele responde com um dar de ombros. 
 - No so crianas - insisto. - Eles tm 18 anos. 
Cooper d de ombros. 
 - Para mim, 18 anos ainda  criana - ele diz. - Mas digamos que voc esteja certa e ela fosse, hmm, certinha demais para fazer surfe de elevador. Voc consegue 
pensar em algum que teria motivo para empurr-la em um poo de elevador... levando em conta que, para comeo de conversa, essa pessoa saberia como fazer isso? 
A nica coisa no arquivo dela - eu explico -  que a me ligou e pediu para que ela s recebesse visita de meninas. 
 - Por qu? - Cooper quer saber. - Ela tinha algum namorado desrespeitoso que a me queria que fizesse algum PNG para ele? 
PNG  um memorando de pensona non grata, que  emitido pela segurana do alojamento quando um residente (ou seus pais, ou um funcionrio) faz o pedido para que algum 
individuo especfico seja proibido de entrar no prdio. Como para entrar no prdio  preciso mostrar a carteirinha de estudante ou passaporte,  fcil negar a entrada 
para qualquer pessoa que esteja na lista dos PNGs. Uma vez, na minha primeira semana, os funcionrios estudantis fizeram um PNG falso para mim. Disseram que era 
de brincadeira. 
E aposto que nunca fizeram isso com Justine. 
Alm do mais, no acredito que Cooper preste assim tanta ateno na minha tagarelice a respeito do meu trabalho louco no conjunto Fischer para se lembrar do que 
 um PNG. 
 - No - respondo, corando um pouco. - No foi mencionado nenhum namorado. 
 - Isso no quer dizer que no exista um. Os alunos tm de autorizar a entrada dos visitantes, certo? - Cooper pergunta. - Algum checou se Elizabeth recebeu um 
namorado sobre o qual a me talvez no saiba, na noite passada? 
Sacudo a cabea, sem tirar os olhos da parte de trs do conjunto Fischer, que brilha vermelho com os raios do sol poente. 
 - Ela tinha uma colega de quarto - explico. - No ia chamar um cara para passar a noite l com a colega bem ali, na cama do outro lado do quarto. 
 - Porque meninas certinhas no fazem coisas desse tipo? 
Eu me remexo na cadeira, pouco  vontade. 
 - Bom... no fazem mesmo. 
Cooper d de ombros. 
 - A colega de quarto pode ter passado a noite com outra pessoa. 
Eu no tinha pensado nisso. 
 - Vou dar uma olhada na lista dos visitantes - digo. - No vai fazer mal.  - Quer dizer - Cooper diz - que voc vai dizer para a polcia dar uma olhada na lista 
de visitantes? 
 - A polcia? - fico assustada. - Voc acha que a polcia vai se envolver? 
 - Provavelmente -  a resposta vaga de Cooper. - Se tambm acharem que "meninas certinhas no fazem isso", como voc acha. 
Fao uma careta para ele bem quando a campainha toca e ouvimos Jordan berrar: 
 - Heather! Anda, Heather! Abra a porta! 
Cooper nem vira a cabea na direo da porta. 
 - O tanto que ele se dedica a voc  comovente - ele observa. 
 - No tem nada haver comigo - explico. - Ele s est tentando aborrecer voc. Sabe como , para voc me expulsar. Ele s vai ficar feliz quando eu estiver morando 
em uma caixa de papelo nas imediaes da Houston Street. 
 - Parece que est mesmo tudo terminado entre vocs dois - Cooper diz, cauteloso. 
 - No  isso. Ele no gosta mais de mim. Ele s quer me castigar por t-lo abandonado. 
 - Ou - Cooper diz - por ter coragem de fazer o que tem vontade. Que  uma coisa que ele nunca vai ter. 
 - Bem pensado. 
Cooper  um cara de poucas palavras, mas as palavras que ele usa acabam sendo sempre as exatas. Quando ficou sabendo que eu tinha pego Jordan e Tania, ele ligou 
para o meu celular e disse que, se eu estivesse procurando um lugar para morar, o apartamento do andar superior do prdio antigo de tijolinhos dele (onde o amigo 
do av dele morava) estava disponvel. Quando eu expliquei que estava totalmente dura (graas a minha me), Cooper disse que eu poderia pagar fazendo as cobranas 
e a contabilidade das pilhas de recibos que ele tinha espalhadas por todos os lados, assim ele no ia mais ter que pagar 175 dlares por hora para o contador dele. 
Simples assim, eu deixei a cobertura da Park Avenue que Jordan e eu dividamos e me mudei para a casa de Cooper. Depois de uma nica noite ali, parecia que eu e 
a Lucy nunca tnhamos morado em outro lugar. 
Claro que o servio no  exatamente fcil. Coop disse que no total talvez fossem umas dez horas por semana, mas so mais ou menos umas vinte. Geralmente, passo 
o domingo inteiro e vrias noites por semana tentando entender as pilhas de papel amassado, anotaes rabiscadas em caixas de fsforo e notas largadas na sala dele. 
Mesmo assim, no quesito aluguel, vinte horas por semana de contabilidade no  nada. Estamos falando de uma apartamento de um piso inteiro no East Village, que custaria 
facilmente trs mil por ms no mercado imobilirio. 
E, sim, eu sei por que ele fez isso. No foi porque l no fundo ele tem uma quedinha por ex-estrelas pop que usam tamanhos 42. Na verdade, no tem nada a ver comigo 
(assim como no tem nada a ver comigo o fato de Jordan estar esmurrando a porta neste momento). A motivao de Cooper para me deixar morar com ele  que, assim, 
ele incomoda de verdade a famlia inteira (especialmente o irmo mais novo). Coop se delicia quando aborrece Jordan, e Jordan, por sua vez, odeia Cooper. Ele diz 
que  porque Coop  irresponsvel e imaturo. 
Mas eu acho que na verdade  porque Jordan tem inveja de Cooper porque, quando os pais deles tentaram fazer presso para que ele entrasse na Easy Street e pararam 
de dar dinheiro para ele, ele pareceu no se importar nem um pouco em ficar pobre; e por ele ter de foto arrumado um jeito de se virar sem a Gravadora Cartwright. 
Eu sempre achei que Jordan (por mais que goste de se apresentar) gostaria de ter dito aos pais o que queria fazer, como Cooper fez (e como eu tambm acabei fazendo). 
Cooper obviamente suspeita da mesma coisa. 
 - Bom - ele diz enquanto, ao fundo, ouvimos Jordan gritando: Ande logo, eu sei que vocs dois esto a. " - Por mais que eu aprecie ficar aqui sentado escutando 
Jordan ter um ataque na porta da minha casa, preciso trabalhar. 
No posso evitar ficar olhando para ele quando ele larga a garrafa de cerveja e se levanta. Cooper  realmente um espcime raro. Sob o sol que vai indo embora, ele 
parece especialmente bronzeado. Mas no  um bronzeado que vem de uma lata, como o do irmo dele; voc sabe do que eu estou falando. Coop  bronzeado porque passa 
horas sentado atrs de arbustos com lentes zoom apontadas para alguma porta de motel... 
No que alguma vez ele tenha me dito, exatamente, o que faz o dia inteiro. 
 - Voc est trabalhando? - eu pergunto, apertando os olhos na direo dele. - Em um sbado  noite? Em qu? 
Ele d uma risada. Esta  uma espcie de joguinho que a gente faz. Eu tento fazer com que ele me conte o tipo de coisa em que ele est trabalhando, e ele se recusa 
a morder a isca. Cooper leva muito a srio o direito ao sigilo dos clientes dele. 
Alm do mais, ele tambm acha que os casos dele so srdidos demais para a ex-namorada do irmo mais novo dele ficar sabendo. Para Cooper, acho que eu vou sempre 
ser a menina de 15 anos de frente-nica e rabo-de-cavalo, proclamando de um palco de shopping center que eu tenho vontade de te comer. 
 - Bela tentativa - Cooper diz. - O que voc vai fazer? 
Penso sobre o assunto. Magda vai fazer um turno duplo no caixa do refeitrio e, depois disso, eu ia querer ir direto para casa para tomar um banho e tirar aquele 
cheiro de batatinha do cabelo. Poderia ligar para minha amiga Patty (uma das minhas ex-coristas da turn Vontade de te comer e uma das poucas amigas que restaram 
do tempo em que eu trabalhava com msica). Mas agora ela est casada e tem filhos e no tem mais muito tempo para as amigas solteiras. 
Percebo que provavelmente vou passar esta noite do mesmo jeito que passo a maior parte das outras: ou fazendo a contabilidade de Cooper ou dedilhando o meu violo, 
com um lpis e uma partitura em branco, tentando compor uma cano que, diferente de "Vontade de te comer", no me d vontade de vomitar toda vez que eu escuto. 
 - Ah - respondo em tom despreocupado. - Nada. 
 - Bom, no fique acordada at muito tarde fazendo nada - Cooper diz. - Se Jordan ainda estiver a na frente quando eu sair, vou chamar a polcia e mandar guinchar 
aquela BMW dele. 
Eu sorrio para ele, emocionada. Quando eu conseguir meu diploma de medicina, uma das primeiras coisas que eu vou faz  convidar Cooper para sair. Parece que ele 
no resiste a mulheres com muito estudo, ento, quem sabe? Talvez ele at aceite. 
 - Obrigada - digo. 
 - No h de qu. 
Cooper entra, leva o rdio consigo e deixa Lucy e eu sozinhas no meio das sombras que vo caindo vagarosamente. Fico l sentada um tempo depois que ele vai embora, 
terminando minha cerveja, e olhando o conjunto Fischer. O prdio parece to aconchegante, to tranqilo...  difcil acreditar que foi a cena de tanta tristeza naquele 
mesmo dia. 
S quando escurece e as luzes comeam a se acender nas janelas do conjunto Fischer  que eu resolvo entrar. 
E, quando entro, percebo que a advertncia de Cooper quando eu disse que no ia fazer nada esta noite tinha sido um tanto irnica. Ser possvel que ele saiba o 
que eu fao toda noite... e que no  nada? Ser que ele ouve meu violo l de baixo? 
De jeito nenhum. 
Mas ento, por que ele tinha dito a palavra nada daquele jeito? To... sei l, com duplo sentido? 
No consigo descobrir. 
Mas bom, vamos encarar os fatos: os homens sempre representaram um certo mistrio para mim. 
Mesmo assim, quando pego o violo naquela noite, toco mais baixinho que nunca, para o caso de Cooper voltar para casa de repente. No estou pronta para deixar ningum 
(nem mesmo Coop) escutar as minhas composies novas. No desde que o pai dele riu de mim no dia em que eu toquei para ele, pouco antes de Jordan e eu rompermos. 
Uma merda de uma roqueira brava, foi como Grant Cartwright classificou as minhas msicas. Por que voc no deixa a composio para profissionais, ele dissera, e 
faz s o que voc sabe mesmo fazer, que  entrar na parada e cantar baladas? Alis, voc andou engordando? 
Um dia desses, vou mostrar para Grant Cartwright o que uma roqueira brava  realmente capaz de fazer. 
Mais tarde, enquanto lavo o rosto para ir para a cama, olho pela janela e vejo o conjunto Fischer todo aceso em contraste com o cu noturno. D para ver as pequeninas 
silhuetas de alunos se movimentando dentro dos quartos e d para ouvir, bem baixinho, o som da msica que sai de alguns daqueles quartos.  verdade que algum morreu 
ali naquele prdio. Mas tambm  verdade que, para todos os outros residentes, a vida continua. 
E est continuando agora mesmo, enquanto as meninas se arrumam na frente do espelho do banheiro para sair, e os meninos bebem cervejas Rolling Rock aos gales enquanto 
esperam as meninas. 
Enquanto isso, atravs dos respiradouros ao longo da lateral do prdio, vejo flashes intermitentes de luz enquanto os elevadores deslizam silenciosamente para cima 
e para baixo dentro do poo. 
E no consigo parar de ficar me perguntando o que aconteceu. O que fez com que ela fizesse aquilo? 
Ou... 
Quem? 

7
Picol gostoso
Igual a mel direto/Da colmia
Picol gostoso
A nica coisa que me mantm/Viva
Picol gostoso
No descarte/Antes de provar
Picol gostoso
Voc sabe que quer/No negue
Picol gostoso
Quando ele est por aqui/No consigo
me segurar
Picol gostoso
O menino dos meus olhos/Meu picol
gostoso

"Picol gostoso
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Picol gostoso]
Gravadora Cartwright

Na segunda-feira, Sarah e eu entramos no quarto de Elizabeth para empacotar as coisas dela. 
Isso porque os pais dela esto abalados demais para faz-lo pessoalmente e pediram que a administrao do conjunto residencial estudantil fizesse. O que eu consigo 
compreender totalmente. Quer dizer, a ltima coisa que voc acha que vai acontecer quando manda a filha para a faculdade  que trs semanas depois disso voc vai 
receber uma ligao avisando que ela morreu, e que voc precisa ir at l para recolher as coisas dela. 
Principalmente se a sua filha for uma menina to certinha quanto Elizabeth parecia ser... pelo menos, julgando pelas coisas dela, que Sarah listou (porque se, mais 
tarde, os Kellogg reparassem que alguma coisa estava faltando, no poderiam dizer que a gente tinha roubado, e isso, infelizmente, como o Dr. Jessup nos avisou, 
tinha acontecido antes no caso de morte de alunos) Enquanto eu empacotava. Quer dizer, a menina tinha sete camisetas da Izod. No tinha nenhum suti preto. As calcinhas 
dela eram todas de algodo branco, da Hanes Her Way, marca bem-comportada. 
Sinto muito, mas as meninas que andam de Hanes Her Way no fazem surfe de elevador. 
S que eu, claramente, estou em minoria por acreditar nisso. Sarah,  medida que vai anotando cada item que eu tiro da cmoda de Elizabeth, detalha cada aspecto 
da esquizofrenia, a doena que est estudando atualmente no cursos de psicologia. Os sintomas da esquizofrenia s costumam se manifestar nos pacientes quando eles 
completam a idade que Elizabeth tinha quando morreu, Sarah me informa. Continua dizendo que  provvel que tenha sido isto que fez com que Elizabeth mergulhasse 
para o nada na noite de sua morte, algo absolutamente no-caracterstico. Quer dizer, que umas vozes na cabea dela mandaram que ela fizesse aquilo. 
Sarah pode at ter razo. Com certeza no foi o suposto namorado de Elizabeth, como Cooper tinha sugerido. Eu sei, porque a primeira coisa que fiz na segunda pela 
manh (antes mesmo de pegar um bagel e um caf no refeitrio) foi conferir a lista de visitantes na sexta  noite. 
Mas l no tinha nada. Elizabeth no tinha autorizado a entrada de ningum. 
Enquanto eu e Sarah passamos o dia inteiro embalando as coisas de Elizabeth(sem nunca encontrar a colega de quarto dela, que parece passar todas as horas do dia 
em aulas), Rachel se ocupa com a preparao de uma cerimnia no campus em memria da falecida, alm de providenciar para que a tesouraria efetue o reembolso da anuidade 
e da taxa de alojamento de Elizabeth. 
Mas os Kellogg parecem no apreciar isso nem um pouco. Durante a cerimnia religiosa naquela mesma semana, na capela estudantil ( qual eu no fui, j que Rachel 
disse que queria algum adulto presente no escritrio enquanto ela estivesse fora para o caso de algum aluno precisar de aconselhamento ou algo assim; os funcionrios 
do conjunto residencial esto muito preocupados com a maneira como a morte de Elizabeth pode afetar o restante da populao do prdio, apesar de at agora ningum 
ter apresentado sinal de trauma), a Sra. Kellogg assegurou a todos os presentes, com berros estridentes, que a faculdade no vai ficar impune por ter causado a morte 
da filha dela, e que ela pessoalmente no vai descansar at que as partes responsveis sejam punidas (pelo menos foi o que Pete contou, j que na ocasio ele estava 
trabalhando como segurana na porta da capela). 
A Sra. Kellogg se recusa a acreditar que qualquer espcie de ao impensada de Elizabeth possa ter causado sua prpria morte, e insiste que, quando a anlise do 
sangue da filha for concluda, em duas semanas, vamos ver que ela tem razo: Elizabeth nunca bebia, e com certeza nunca usou drogas, e, portanto, no estava se divertindo 
com um monte de surfistas de elevador malucos na noite em que morreu. 
No, de acordo com a Sra. Kellogg, Elizabeth foi empurrada no poo dos elevadores, e ningum vai convenc-la do contrrio. 
Mas o Sr. e a Sra. Kellogg no eram os nicos que estavam sofrendo depois da morte da filha. Depois de ver tudo por que Rachel passou naquela semana, comecei a compreender 
o que o Dr. Jessup quis dizer. A respeito das flores, quer dizer. Rachel estava merecendo mesmo um buqu. 
Na verdade, o que ela merece  um aumento. 
Mas, conhecendo a conteno de custos generalizada da faculdade (desde a dcada de 1990 no so feitas novas contrataes, a no ser em casos emergenciais, como 
a substituio de Justine), eu duvido muito que um aumento esteja no horizonte. 
Ento, na quinta-feira, depois da cerimnia, dou uma passada no mercado da esquina e, em vez de comprar um pacote de balinhas Starburst e um caf com leite para 
espantar a preguia da tarde, que eu sempre compro, escolho o buqu de flores mais bonito que eles tm, e o ajeito em um vaso na mesa de Rachel. 
Para falar a verdade, fiquei at com medo da maneira como ela ficou animada quando chegou da reunio em que estava e viu as flores. 
 - Para mim? - ela pergunta, com lgrimas praticamente brotando dos olhos; e no  exagero da minha parte. 
 - Bom - eu respondo. - Fiquei mal com tudo por que voc tem passado... 
As lgrimas se secam bem rpido depois disso. 
 - Ah, foi voc - ela diz, com uma voz bem diferente. 
 - Hmm - respondo. - Foi. 
Acho que talvez Rachel tenha pensado que as flores eram de um cara ou qualquer coisa do tipo. Talvez de algum que ela tivesse conhecido recentemente na academia. 
Mas, se tivesse conhecido, tenho certeza de que Sarah e eu j estaramos sabendo de tudo. Rachel leva isso muito a srio (estou falando de achar um cara com quem 
se casar). Ela nunca perde uma sesso semanal de manicure e pedicure, ento diz que os cabelos brancos se destacam demais. E  claro que faz exerccio que nem louca, 
seja na academia da faculdade ou correndo na Washington Square Park. Acho que vou dar quatro voltas no parque d mais de um quilmetro e meio, ou algo assim. Rachel 
d umas 12 voltas em meia hora. 
Eu j observei que ela pode obter os mesmos benefcios  sade caminhando no parque em vez de correr em volta dele, ao mesmo tempo que evita problemas nas canela 
e nos joelhos mais para a frente. Mas, cada vez que eu menciono isto, ela s fica me olhando. 
 - Tem sido difcil para todas ns, Heather -  o que Rachel diz agora, colocando os braos ao redor dos meu ombros. - Tambm no tem sido fcil para voc, no negue. 
Ela est certa, mas no pelas razes que ela pensa. Ela acha que tem sido difcil para mim porque eu ando fazendo boa parte do trabalho braal (voc sabe do que 
estou falando, implorar ao almoxarifado me dar uma caixa para colocar as coisas de Elizabeth, depois arrumar tudo, depois arrastar os volumes at o servio postal 
para que eles enviem para os pais dela, sem contar que preciso marcar todos os depoimentos relativos ao caso, lidar com os funcionrios estudantis que ficam choramingando 
e querem alguns dias de folga da separao da correspondncia, apesar de nenhum deles terem conhecido de fato a falecida, e ficam dizendo que a Justine daria folga 
para eles). Mas para falar a verdade, nada disso foi to difcil para mim como admitir que o conjunto Fischer NO  um dos lugares mais seguros do mundo, como eu 
passei a pensar desde que comecei a trabalhar l. 
Ah, no que eu tenha alguma prova de que Elizabeth tenha sido empurrada, como a Sra. Kellogg diz que foi. Mas o fato de ela ter morrido, em primeiro lugar... essa 
parte me deixa completamente louca. Os alunos que estudam na Faculdade de Nova York so bem mimados, na maior parte. Esses garotos no fazem idia de como a vida 
deles  fcil... tm pais que os amam, fonte de renda estvel, nada com que se preocupar a no ser passar nas provas e arrumar uma carona para ir para casa no feriado 
de Ao de Graas. 
Eu no tenho to poucas preocupaes assim desde... bom, desde a oitava srie. 
E o fato de uma dessas alunas ter feito algo to idiota quando se empoleirar no teto de um elevador para ali em cima (ou ainda pior, pular do teto de um elevador 
para outro) e que um outro aluno (que mora neste prdio) estava l no momento e presenciou quando Elizabeth escorregou e caiu para encontrar a morte e mesmo assim 
no contou para ningum... 
 isso que est me deixando assustada de verdade. 
Claro que Cooper provavelmente tem razo. Provavelmente, a pessoa que estava com Elizabeth na hora em que ela morreu no quer se apresentar porque tem medo de se 
meter em encrencas. 
E acho que pode at ser que Sarah esteja certa, que Elizabeth estivesse sofrendo os primeiros estgios da esquizofrenia, ou que estivesse sofrendo at com depresso 
clnica, causada por algum desequilbrio hormonal, ou alguma coisa assim, e seja por isso que ela fez o que fez. 
Mas nunca vamos saber. Esse  o problema. Nunca vamos saber. 
Mas isso simplesmente no  correto. 
Mas parece que ningum se incomoda com isso, alm da Sra. Kellogg. E de mim. 

Na sexta-feira seguinte (quase uma semana depois da morte de Elizabeth), Sarah e eu estamos sentadas na sala da diretoria do conjunto, fazendo encomendas no almoxarifado. 
No aquecedores de cermica para dar de presente para os nossos amigos, mas material de que precisamos mesmo, como canetas e papel para a copiadora e coisas assim. 
Bom, certo, eu  que estou fazendo as encomendar. Sarah est me dando um sermo a respeito de como o meu ganho de peso provavelmente representa uma necessidade inconsciente 
de me tornar indesejvel para o sexo oposto, de modo que ningum mais possa me magoar como Jordan me magoou. Estou me segurando para no dizer a Sarah que, de fato, 
no sou gorda. Eu j disse a ela, vrias vezes, que tamanhos 42  a mdia da mulher norte-americana usa, algo que Sarah devia saber muito bem, alis, porque ela 
tambm usa 42. 
Mas a esta altura j ficou bem claro para mim que Sarah simplesmente gosta de falar para ouvir o som da prpria voz, de modo que eu a deixo prosseguir, j que ela 
no tem ningum mais com quem falar, porque Rachel est no refeitrio em uma recepo de caf-da-manh para o time de basquete da Faculdade de Nova York, os Maricas. 
, este  mesmo o nome deles. Eles se chamavam Linces ou algo assim, mas h uns vinte anos, vrios deles foram pegos trapaceando, ento a ligar de basquete universitrio 
os tirou da Primeira Diviso e os passou para a Terceira Diviso, e obrigando-os a mudar de nome. 
Como se j no fosse a menor vergonha se chamar os maricas, o reitor Allington quer tanto vencer o campeonato da Terceira Diviso neste ano que recrutou os jogadores 
mais altos que conseguiu encontrar. Mas como todos os bons foram para as escolas que esto na Primeira ou na Segunda Diviso, ele s ficou com as sobras, como por 
exemplo os jogadores que tm o pior histrico escolar do pas.  srio. s vezes, os jogadores me deixam bilhetes falando de problemas no quarto, em caligrafia que 
quase no d para ler, com inmeros erros de ortografia. Eis um exemplo: 
"Cara Heather, teim alguma coisa erada na minha privada. No d descaga e fica fazeno baruio. Pur favor, mi ajuda. "
Mais um: 
"Ao responsvil: eu num cabo na minha cama. Quero cama nova. Valeu. "
Juro que no estou inventando. 
Sarah e eu no ouvimos o grito, apesar de mais tarde ficarmos sabendo que ela aparentemente gritou durante todo o trajeto descendente. 
O que ouvimos so passos apressados no corredor, e ento uma das ARs, Jessica Brandtlinger, entra na sala. 
 - Heather! - ela grita. O rosto dela, que j  normalmente plido, est da cor de uma folha de papel e ela respira com dificuldade. - Aconteceu de novo. O poo 
dos elevadores. Ouvimos um grito. D para ver as pernas dela pela fresta entre o cho e o elevador... 
Eu me levanto antes de ela chegar na metade da frase. 
 - Ligue para a emergncia - eu grito para Sarah, j saindo da sala. - Depois v procurar Rachel. 
Sigo Jessica pelo corredor at a mesa da segurana e a escada at o poro. Pete, percebo, no est na mesa. Quando chegamos ao poro, vemos que ele j est l, parado 
na frente do poo dos elevadores, gritando no walkie-talkie enquanto Carl, um dos zeladores, tenta abrir a porta do elevador com um p-de-cabra. 
Isso, mais uma - Pete grita no walkie-talkie. - No, no  piada. Mande uma ambulncia para c, rpido! - Ao nos ver ele abaixa o walkie-talkie, aponta para Jessica, 
e berra: - Voc a: suba at o primeiro andar e chame o elevador e deixe parado l. No deixe ningum entrar nem sair, faa o que for preciso, mas no deixe a porta 
fechar at os bombeiros chegarem para desligar. Heather, v pegar a chave. 
Fico com raiva de mim mesma por no ter pego no caminho at ali. Guardamos uma cpia das chaves do elevador atrs da recepo: uma chave que permite fazer com que 
o elevador no faa paradas, como a que os Allington receberam quando se mudaram para l, para que pudessem chegar  cobertura sem escalas; uma chave que d acesso 
 casa das mquinas para reparos; e uma chave que abre as portas pelo lado de fora. 
 - Estou indo! - grito e subo as escadas em disparada logo atrs de Jessica, que subiu para chamar o elevador no primeiro andar e segur-lo. 
Quando chego  recepo, abro a porta e entro apressada, vou direto para o armarinho de chaves, que deve estar sempre trancado (apenas a pessoa que est na recepo 
tem permisso para ficar com a chave). 
Mas, com os funcionrios da manuteno do prdio e os assistentes dos residentes sempre pegando chaves para fazer reparos, limpeza ou para deixar entrar nos quartos 
dos estudantes trancados do lado de fora o armarinho das chaves quase nunca fica fechado, como deveria. Quando passo como um raio por Tina, a responsvel pela recepo 
do momento, vejo as portas do armarinho escancaradas. 
 - O que est acontecendo? - Tina pergunta, nervosa. -  verdade que tem mais uma? No fundo do poo dos elevadores? 
Eu a ignoro. Isso porque estou concentrada. Estou concentrada porque achei a chave para que o elevador no faa paradas e a chave para a casa de mquinas. 
Mas a chave para as portas do elevador no est l. 
E quando confiro a lista de retiradas pendurada na porta do armarinho de chaves, no h nenhuma assinatura relativa a ela, nem indicao de que foi retirada, para 
comeo de conversa. 
 - Cad a chave? - pergunto bem incisiva, virando-me para Tina. - Quem est com a chave das portas dos elevadores? 
 - E-eu n-no sei - ela gagueja. - No estava a quando o meu turno comeou. Pode conferir no meu relatrio de atividades! 
Esta  mais uma mudana que implementei em relao  maneira como Justine cuidava das coisas (alm da lista de retiradas de chaves no armarinho): quem trabalha na 
recepo precisa fazer o registro de tudo que aconteceu durante o seu turno. Se algum pega uma chave (mesmo que assine a lista de retirada), quem est na recepo 
deve anotar o fato em seu relatrio. E a primeira coisa que a pessoa deve fazer quando comea o seu turno  anota quais chaves estavam no armarinho e quais estavam 
fora. 
 - Ento, quem foi? - grito agarrando o livro de registros e virando as pginas at as anotaes do turno anterior. 
Mas todas as chaves retiradas durante o turno anterior esto anotadas, menos a correspondente s portas dos elevadores. 
 - Eu no sei! - a voz de Tina est se elevando a nveis histricos e perigosos. - Juro que no entreguei para ningum! 
Eu acredito nela. Mas isso no ajuda em nada. 
Dou meia volta e disparo escada a baixo para dizer ao Carl que arrombe as portas, se for preciso. Mas meu caminho est bloqueado pelo reitor Allington que, junto 
com outros sujeitos da administrao, saiu do refeitrio para ver do que se tratava todo aquele bafaf. 
 - Estamos tentando promover um evento aqui, sabia? -  o que ele me diz com mau humor. 
 - Ah, ? - ouo a minha voz que responde sem educao nenhuma. - Bom, estamos tentando salvar a vida de algum, sabia? 
No fico para ouvir o que ele tem a dizer em resposta. Catei o kit de primeiros socorros da recepo e corri escada abaixo... s que, no meio do caminho, encontrei 
Pete subindo bem devagar, bastante plido. 
 - No consegui achar a chave - digo. - Algum est com ela. Ele vai ter que forar as portas para abrir... 
Mas Pete sacode a cabea. 
 - J forou - ele diz, pegando no meu brao. - Vamos voltar l para cima. 
 - Mas eu trouxe o kit - digo, abanando a caixa de plstico vermelha. - Ela... 
 - Ela se foi. - Pete responde. Agora ele est me puxando. - Vamos. E no olhe. Voc no vai querer ver aquilo. 
Eu acredito nele. 
Deixo que ele me conduza escada acima. Quando entramos no saguo, vejo que o reitor continua l, parado, com alguns jogadores de basquete e o mesmo pessoal da administrao 
com terno cinzento. Ao lado dele, Magda, que saiu de trs da caixa registradora para ver o que estava acontecendo, d um toque colorido  cena com seu avental rosa 
e suas calas juntas fcsia. 
Magda d uma olhada em minha expresso e o resto dela se contrai. 
 - Ah, no, mais uma das minhas estrelas de cinema! 
Pete a ignora, vai at o telefone da recepo e, segurando um chaveiro, no qual est presa uma carteirinha de estudante (e um bonequinho de borracha do personagem 
de charge Ziggy), e comea a ler as informaes da carteirinha para os superiores dele no departamento de segurana. 
 - Roberta Pace - ele l sem entonao. - Residente do conjunto Fischer. Primeiro Ano. Nmero da identidade cinco, cinco, sete, trs, nove... 
Fico parada entre a recepo e a sala da segurana, sentindo que estou comeando a tremer. No conheo aquele nome. No pelo para ver a foto na carteirinha. No 
quero saber se conheo ou no aquele rosto. 
 ento que Rachel aparece, vinda do banheiro. 
 - O que est acontecendo? - pergunta, olhando nesta seqncia, para o meu rosto, o do Pete e o do reitor Allington. 
 a Tina, da recepo que responde. 
 - Mais uma menina caiu de cima do elevador - ela diz, bem baixinho. - Est morta. 
O rosto de Rachel perde toda a cor por baixo da base da MAC aplicada com tanto cuidado. 
Mas quando ela fala, depois de alguns segundos, a voz no treme. 
 - Acredito que as autoridades tenham sido notificadas? Muito bem. Temos a identificao dela? Ah, muito obrigada, Pete. Tina, passe um bipe para a manuteno e 
mande desligarem todos os elevadores. Heather, voc pode por favor ligar para o gabinete do Dr. Jessup e informar sobre o que est acontecendo? Reitor Allington, 
sinto muito por tudo isto. Por favor, volte para seu caf-da-manh... 
Ciente de que estou tremendo e que meu corao bate um milho de vezes por segundo, volto para a minha sala e comeo a dar telefonemas. 
S que, desta vez, em vez de ligar para o gabinete do Dr. Jessup primeiro, ligo para Cooper. 
 - Cartwright Investigaes - ele diz, porque liguei para a linha comercial, na esperana de que ele estivesse trabalhando. 
 - Sou eu - digo. Falo baixinho, porque Sarah est na sala de Rachel, ao lado, ligando para o celular de todos os residentes para contar o que aconteceu, pedindo 
que voltem para seus respectivos andares o mais rpido possvel. - Aconteceu de novo. 
 - O que aconteceu de novo? - ele pergunta. - E por que voc est sussurrando? 
 - Mais uma morte no elevador - sussurro.
 - Srio? 
 - Srio - respondo. 
 - Est morta? 
Penso no rosto de Pete. 
 - Est - respondo. 
 - Caramba, Heather. Sinto muito. 
 -  - concordo pela terceira e ltima vez. - Olha... ser que voc pode vir aqui? 
 - Ir a? Para qu? 
Os bombeiros da Escada n. 9 passam apressados pela porta da nossa sala bem naquele instante, com uniforme e capacete. Um deles carrega um machado. Obviamente, ningum 
disse aos corajosos servidores de Nova York a natureza da emergncia para a qual tinham sido chamados. 
 - L embaixo - digo a eles, apontando as escadas para o poro -  outro, hmm, acidente com o elevador. 
O capito parece surpreso, mas assente com a cabea e conduz o que de repente se transformou em uma procisso sombria que passa pela recepo e desce as escadas.
Para Cooper, eu sussurro: 
 - Quero descobrir tudo sobre o que est acontecendo aqui, e seria timo contar com a ajuda de um investigador profissional, Cooper. 
 - Uau - ele respondeu. - Calma a, colega. A polcia est a? Por acaso ele no so profissionais? 
 - A polcia vai simplesmente fizer a mesma coisa que disse a respeito do ltimo incidente - respondo. - Que ela estava fazendo surfe de elevador e escorregou. 
 - Porque foi provavelmente isso que aconteceu, Heather. 
 - No - eu respondo. - No, desde vez, no. Tenho certeza absoluta que no foi o caso. 
 - Por qu? Esta de agora tambm  toda certinha? 
 - No sei - respondo. - Mas no tem graa nenhuma. 
 - Eu no tive a inteno de ser engraado. Eu s... 
 - Ela gostava do Ziggy, Coop - minha voz comea a falhar, mas eu no me importo. 
 - Ela gostava do qu? 
 - Do Ziggy. Aquele personagem de desenho. 
 - Nunca ouvi falar. 
 - Isso porque  o personagem menos bacana que j existiu. Ningum que gosta do Ziggy faz surfe de elevador, Coop. Ningum. 
 - Heather... 
 - E no  s isso - sussurro ao perceber que a voz de Sarah sai da sala de Rachel, mandando um: "Precisamos que voc volte para c o mais rpido possvel. Aconteceu 
outra morte. No tenho permisso para revelar detalhes por enquanto, mas  imprescindvel que voc... " cheia de autoridade - Algum pegou a chave digo ao Cooper. 
 - Que chave? - ele quer saber. 
 - A chave que abra a porta dos elevadores - estou perdendo a compostura, e tenho conscincia disso. Estou praticamente chorando. Mas me esforo para manter a voz 
firme. - Ningum assinou a lista de retirada, Coop.  preciso assinar a lista. Mas ningum assinou. E isso significa que, quem est com ela pode abrir as portas 
na hora que bem entender... mesmo que o elevador no esteja no andar. 
 - Heather - Cooper diz com uma voz que eu no consigo deixar de considerar reconfortante (e sexy), apesar do meu estado de agitao. - Voc precisa dizer isso para 
a polcia. Agora mesmo. 
 - Tudo bem - digo com a voz apagada. Na sala de Rachel, Sarah est mandando: "No faz a menor diferena se  aniversrio da sua av, Alex. Houve uma morte no prdio. 
O que  mais importante para voc: o aniversrio da sua av ou o seu emprego? "
 - V dizer  polcia exatamente o que voc me contou - a voz reconfortante e sexy de Cooper diz ao meu ouvido. - Depois, v pegar um copo de caf com leite e acar 
e tome enquanto estiver quente. 
A ltima parte me surpreendeu. 
 - Por qu? - pergunto. 
 - Porque, no meu ramo de trabalho, descobri que bebidas doces com leite so boas para acalmar quando no  possvel beber usque. Certo? 
 - Certo. Tchau. 
Desligo o telefone e ento ligo para o Dr. Jessup e explico para a assistente dele (porque ela disse que o Dr. Jessup estava em reunio) o que aconteceu. Ao ouvir 
a informao, a assistente dele, Jill, diz com pnico bastante apropriado na voz: 
 - Ai, meu Deus. Vou inform-lo agora mesmo. 
Agradeo e desligo o telefone. Ento, fico olhando para o telefone. 
Cooper tem razo. Preciso contar para a polcia a respeito da chave. Digo a Sarah que volto logo e saio da sala. Caminho at a recepo e deparo com um mar de confuso. 
Jogadores de basquete se misturam aos bombeiros. Representantes da administrao ocupam cada um dos telefones disponveis, incluindo o de Pete e o do balco da recepo, 
cuidando para conter a crise causada pela informao. Rachel vai assentindo com a cabea enquanto o capito dos bombeiros explica alguma coisa. 
Olho para a porta de entrada do prdio. O mesmo policial que estivera ali no dia em que Elizabeth morreu est l parado de novo, e no deixa ningum entrar no prdio. 
 - Voc vai entrar quando eu disser que pode - o policial resmunga para um skinhead com piercing no lbio que fica dizendo assim: 
 - Mas eu preciso ir at o meu quarto pegar o meu projeto! Se eu no entregar o projeto at o meio-dia, vou levar zero! 
 - Com licena - digo ao policial - Voc podia me dizer quem  o responsvel aqui? 
O policial olha para mim e ento faz um sinal com o polegar na direo de Rachel. 
 - At onde eu sei,  aquela ali. - ele responde. 
 - No - digo. - Quero saber se tem algum investigador ou... 
 - Ah, sei - ele faz um sinal com a cabea na direo de um homem alto e grisalho com palet de veludo cotel marrom e gravata xadrez que est apoiado na parede 
(e, apesar de provavelmente no saber, est enchendo as costas de purpurina, por estar encostado em um pster convocando os alunos a participar de um teste para 
Pippin, carregado na cola com glitter). Exceto pelo charuto apagado no canto da boca, que ele parece estar mastigando, o homem no est fazendo absolutamente nada. 
-  o investigador Canavan - o policial diz. 
 - Obrigada - agradeo ao policial, que est dizendo o seguinte para outro residente: "Pouco me importa se os seus olhos estiverem sangrando. No pode entrar neste 
prdio at eu mandar. "
Chego perto do investigador com o corao na garganta. Nunca falei com um investigador antes. Bom, sem contar a vez em que eu tive de dar queixa de estelionato contra 
a minha me. 
 - Investigador Canavan? - pergunto. 
Percebo logo que a minha primeira impresso (de que ele no estava fazendo nada) estava totalmente errada. O investigador Canavan no est completamente  toa. Est 
olhando fixamente para as pernas da minha chefe, que parecem bem torneadas por baixo da saia-lpis. 
Ele desgruda o olhar das pernas de Rachel e volta os olhos para mim. Ele tem um bigode grisalho espetado que de fato lhe cai muito bem. Plos faciais dificilmente 
trazem algum benefcio. 
 - O que foi? - ele responde, com voz enrouquecida pelo cigarro. 
 - Oi - digo. - Meu nome  Heather Wells. Sou diretora-assistente aqui no conjunto Fischer. E, bom, eu s queria contar para algum que... a chave das portas dos 
elevadores est sumida. Pode ser que isso no signifique nada... por aqui, perdemos chaves o tempo todo. Mas achei que algum precisava saber. Porque me parece mesmo 
muito estranho o fato de essas meninas morrerem por fazer surfe de elevador. Porque, sabe como , meninas simplesmente no fazem surfe de elevador. De acordo com 
a minha experincia. 
O investigador Canavan, que ficou escutando o meu discurso todo com muita ateno, espera at minha voz definhar para tirar o charuto da boca e apont-lo para mim. 
 - "Vontade de te comer", certo? - diz. 
Fico to surpresa que meu queixo cai e no consigo mais fechar a boca. Finalmente, consigo gaguejar: 
 - Hmm,  sim. 
 - Achei mesmo que era. - o charuto volta para o meio dos dentes dele. - A minha filha tinha um pster seu pendurado na porta do quarto. Eu tinha de olhar para voc 
naquela porcaria de minissaia toda vez que eu ia l mandar ela abaixar a droga do sim. 
Como simplesmente no existe resposta possvel  afirmao, permaneo em silencio. 
 - Que diabos voc est fazendo - ele pergunta - trabalhando aqui? 
 -  uma longa historia - respondo, na esperana de que ele no me v fazer contar tudo. 
Ele no faz. 
 - Como diria a minha filha - o investigador Canavan diz - na poca em que ela era a sua maior f, tanto faz... Bom, mas que historia  essa de chave desaparecida? 
Explico a ele mais uma vez. Tambm menciono, superficialmente, a parte a respeito de Elizabeth ser toda certinha, e de Roberta gostar do Ziggy, e como esses fatos 
faziam com que fosse altamente improvvel que elas fossem adeptas ao surf de elevador. Mas, na maior parte, fico divagando sobre a chave sumida.  - Deixa eu entender 
direito - diz o investigador Canavan quando termino. - Voc acha que essas meninas no estavam se divertindo em cima do teto dos elevadores do seu prdio de jeito 
nenhum... apesar de as duas serem, se entendi bem, calouras, recm-chegadas  cidade e cheias do que minha filha, estudante de letras de francs, chama de joie de 
vivre. Voc acha que tem algum andando por ai abrindo a porta do elevador quando a cabine no est no andar e jogando as meninas pelo poo para mat-las. Ser que 
eu entendi bem? 
Ao ouvir a coisa colocada desta maneira, percebo como minha teoria parece idiota. mais do que idiota. Completamente retardada. 
Tirando... tirando o Ziggy! 
 - Digamos que voc esteja certa - diz o investigador Canavan. - Como foi que esta pessoa conseguiu pegar a chave das portas dos elevadores, para comeo de conversa. 
Voc disse que ela fica guardada em um armrio atrs daquele... o que  mesmo? Do balco de recepo? 
 -  - respondo. 
 - E que tem acesso ao armrio? Qualquer pessoa? 
 - No - respondo. - S os alunos que trabalham no prdio e os funcionrios. 
 - Ento, voc acha que algum cara que trabalha para voc anda por ai matando meninas? Que cara seria este, hein? - ele aponta para Pete, que est em p atrs da 
mesa da segurana, falando com os bombeiros. - Aquele ali? E que tal aquele outro? - aponta para Carl, que continua visivelmente plido mas, mesmo assim, prossegue 
com a descrio do que viu no fundo do poo dos elevadores para um policial uniformizado. 
 - Certo - eu digo, comeando a ficar com vontade de morrer. Porque percebo como me comportei de maneira idiota. Em aproximadamente cinco segundos, o sujeito tinha 
encontrado tantos buracos na minha teoria que ela estava parecendo um pedao de queijo suo. 
Mas, mesmo assim. 
 - Certo, ento talvez voc esteja certo. mas talvez... 
 - Talvez seja melhor voc me mostrar o lugar onde vocs guardam essa chave sumida - diz o investigador Canavan, e ajeita o corpo. Fico feliz da vida quando, seguindo-o 
em direo  recepo, por ver que eu tinha razo: os ombros dele esto cobertos de purpurina cor-de-rosa, como se ele estivesse passado por uma chuva de pirlimpimpim. 
Quando nos aproximamos do balco de recepo, vejo que Tina desapareceu. lano um olhar inquisidor para Pete. 
 - Encomendas - Pete interrompe a conversa com o bombeiro para me dizer, e isso quer dizer que tina est acompanhando o carteiro ate a sala no fundo do corredor 
onde deixamos as encomendas que chegam trancadas ate que os alunos sejam notificados e se dirijam  recepo para retir-las. 
Assinto com a cabea. Faa chuva ou faa sol, a correspondncia precisa chegar ao destino... mesmo que haja uma menina morta no fundo do poo dos elevadores. 
Deslizo para trs do balco, ignorando os telefones, que tocam sem parar, e vou direto para o armrio de chaves. 
 -  aqui que as chaves ficam guardadas - explico ao investigador Canavan, que me acompanhou pela porta at a parte de trs do balco, da recepo e agora est parado 
ao meu lado. O armrio de chaves  uma caixa grande de metal embutida na parede. Dentro dele h fileiras e mais de chaves penduradas. H trezentas delas ali, uma 
sobressalente para cada quarto no prdio, alem de chaves variadas para o uso exclusivo dos funcionrios. Todas so praticamente iguais,  exceo da chave que abre 
as portas dos elevadores, que tem o formato de uma chave de fenda do tipo ALLEN, aquela que tem cabea hexagonal, e que no se parece em cada com uma chave comum. 
 - Ento, para pegar as chaves,  precisa entrar aqui atrs - diz o investigador Canavan. No deixo passar batido o fato de as sobrancelhas grisalhas dele terem 
se erguido ao ver todos os sacos de correspondncias jogados de qualquer jeito no cho, aos nossos ps. Este balco no  exatamente o lugar mais seguro do prdio. 
- E, para entrar aqui, e preciso passar pela mesa da segurana, que sempre tem algum de planto, 24 horas por dia. 
 - Certo - respondo. Os vigias sabem quem tem permisso para entrar na recepo e quem no tem. S deixam entrar quem trabalha aqui. E geralmente tem algum atrs 
do balco, alis, que no deixaria ningum ter acesso s chaves a no ser que a pessoa em questo tambm trabalhasse no prdio. E, mesmo assim, seria preciso assinar 
a lista de retirada. A lista das chaves, quer dizer. 
Mas ningum retirou a chave do elevador. Ela simplesmente... sumiu.  - Sei - diz o investigador Canavan. - Voc j disse. Olha, tenho alguns crimes de verdade... 
incluindo trs pessoas que morreram a facadas em um apartamento em cima de uma rotisseria na Broadway... que preciso investigador. Mas por favor, mostre onde  que 
esta chave elusiva, que pode provar que a mocinha em questo no morreu por acidente, geralmente fica. 
Passo os dedos pelas fileiras de chaves penduradas, pensando que quero matar o Cooper. Que dizer, no d para acreditar que ele me convenceu a fazer isto. Este cara 
no acredita em mim. J foi ruim o bastante ele ter visto o meu pster de vontade de te comer. Se tem uma coisa que pode acabar com a credibilidade de qualquer pessoa 
 um pster dela em tamanho natural de minissaia de oncinha em tom pastel gritando em um microfone no shopping center Amrica. 
E, tudo bem, a minha convico de que as meninas no fazem surfe de elevador (principalmente meninas certinhas que gostam do Ziggy) pode no ser classificada como 
prova contundente. Mas e a chave desaparecida? O que dizer ISSO? 
S que, enquanto examino a fileira que normalmente abriga a chave das portas dos elevadores, vejo algo que faz meu sangue gelar. 
Porque vem ali, no exato lugar em que deveria estar (o exato lugar onde no estava, h apenas alguns instantes), encontra-se a chave das portas dos elevadores. 

8
Eu vou conseguir
Eu vou conseguir
Aquele cara para mim

Pode esperar para ver
Eu voc vai querer ser
Quando eu conseguir

Eu vou conseguir
Eu vou conseguir
Aquele cara para mim

"Aquele cara"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Picol gostoso
Gravadora Cartwright

Ele disse que chegaria em cinco minutos, mas menos de trs se passaram e j esta na recepo. 
E a primeira vez que ele entra no prdio, e parece estranhamente deslocado l dentro... talvez seja porque ele no tem a pele coberta por tatuagens e piercings, 
como todos as outras pessoas que passam pelo balco. 
Ou talvez seja simplesmente porque ele e muito mais bonito do que todas as pessoas, parada ali com o cabelo desgrenhado de quem acabou de acorda (apesar de eu saber 
que ele saiu da cama h horas; ele corre de manh) e a jaqueta de couro surrada com cala jeans. 
 - Oi - ele diz ao me ver. 
 - Oi. - tento sorrir, mas e impossvel, ento me contento em dizer apenas: - obrigada por ter vindo. 
 - Sem problemas - ele responde e olha para a sala de TV, bem ao lado da porta do refeitrio, onde Rachel, a quem um Dr. Jessup com expresso cinzenta acaba de se 
juntar, e mais meia dzia de funcionrios em pnico do conjunto residencial estudantil andam de um lado para o outro, com cara amarrada de aborrecimento. - Cad 
os policiais? - pergunta. 
 - Foram embora - respondo, tentando no demonstrar o amargor na voz. - Trs pessoas morreram esfaqueada em um apartamento em cima de uma rotisserie na Broadway. 
S sobrou um, que est vigiando o poo dos elevadores at que o legista chegue para lev-la embora. Como decretaram que a morta dela foi acidental, acho que no 
viram mais razo para ficar. 
Penso que esta  uma resposta bastante diplomtica, considerando o que eu tenho vontade de dizer a respeito do investigador Canavan e seus asseclas. 
 - Mas voc acha que eles esto errados - Cooper diz.  uma afirmao, no uma pergunta. 
 - Algum pegou a chave, Coop. - digo. - E devolveu quando no tinha ningum olhando. No estou inventando. No sou louca. 
S que, pela maneira como a minha voz se ergueu na palavra louca, esta afirmao pode parecer aberta a debate. 
Mas Cooper no veio aqui para discutir este assunto. 
 - Eu sei - ele diz com delicadeza. - Eu acredito em voc. Estou aqui, no  mesmo? 
 - Eu sei - digo, arrependida por ter estourado. - E obrigada. Bom. Vamos l. 
Cooper parece hesitar. 
 - Espera um pouco. Aonde  que a gente vai? 
 - At o quarto de Roberta - respondo. Mostro a chave mestra que tirei do armarinho das chaves. - Acho que devemos dar uma olhada no quarto dela primeiro. 
 - Por que? 
 - Sei l - respondo. - Mas precisamos comear de algum lugar. 
Cooper olha para a chave, depois olha para mim novamente. 
 - Quero informar - diz ele - que considero esta uma pssima idia. 
 - Eu sei - respondo. Porque sei mesmo. 
 - Ento, por que voc quer ir at l? 
Em cinco segundo,  possvel que eu me desmanche em lgrimas. Estou me sentindo assim desde que Jessica entrou correndo na minha sala com a notcia de mais uma morte, 
e minha humilhao na frente do investigador Canavan no ajudou em nada. 
Mas fao tudo o que posso para no deixar minha histeria transparecer na voz. 
Porque isto est acontecendo no meu prdio. Est acontecendo com as minhas meninas. E eu quero ter certeza de que est acontecendo da maneira como polcia e todo 
mundo diz, e que no ... sabe como . O que eu estou pensando. 
 - Heather - ele diz. - Lembra quando Vontade de te comer foi lanado, e comearam a chegar todas aquelas cartas de fs no escritrio da Gravadora Cartwright, e 
voc insistiu para ler tudo e responder pessoalmente? 
Eu fico fula da vida. No d para evitar. 
 - Acorda - respondo. - Eu tinha 15 anos. 
 - No faz diferena - Cooper diz. - Porque, depois de 15 anos, voc no mudou nada. Voc continua se sentindo pessoalmente responsvel por cada pessoa com quem 
voc entra em contato... at mesmo quem voc no conhece. Como se a razo por que voc foi posta na Terra tenha sido para cuidar de todo mundo ao seu redor. 
 - No  verdade - respondo. - E s faz 13 anos. 
 - Heather - ele diz, ignorando minha observao. - s vezes, jovens fazem coisas idiotas. E da outros jovens, simplesmente porque tambm so jovens, imitam os 
primeiros. E morrem. Acontece. No quer dizer que algum cometeu um crime. 
 - Ah, ? - estou mais fula da vida do que nunca. - E a chave? O que voc tem a dizer sobre isso? 
Ele ainda no parece convencido. 
 - Quero que voc saiba - ele explica - , que s estou fazendo isto para impedir que voc transforme tudo isto em uma confuso maior do que j ... e, alis, voc 
 muito boa nisto. 
 - Mas que beleza, Coop. - Digo. - Fico muito feliz com o voto de confiana que voc deposita em mim. De verdade. 
 - Eu s no quero que voc fique desempregada - ele responde. - No tenho como oferecer seguro-sade alm de alojamento e alimentao para voc. 
 - Muito obrigada - digo, sarcstica. - Muito obrigada mesmo. 
Mas no faz mal. Porque ele me acompanha. 
A caminhada  longa, longa de verdade, at o quarto de Roberta Pace, no 16 andar. Claro, no podemos tomar um elevador porque os dois foram desligados. O nico 
som que escuto, quando finalmente alcanamos o corredor comprido e vazio,  o da nossa respirao. A minha, particularmente, est muito pesada. 
Alm disse, s h silncio. Um silncio mortal. Mas, bom,  antes do meio-dia. A maior parte dos residentes (os que no acordaram com todo o barulho das sirenes 
das ambulncias e dos carros de bombeiro) est dormindo, para se recuperar da ressaca de cerveja da noite anterior. 
Aponto o caminho com o meu chaveiro e comeo a caminhar na direo do quarto 1.622. Cooper vem atrs de mim, olhando para os psteres que cobrem as paredes e que 
conclamam os alunos a visitarem o Departamento de Sade no caso de suspeita de terem contrado alguma doena sexualmente transmissvel, ou para informarem sobre 
algum filme gratuito em exibio no centro estudantil. 
A AR do 16 andar tem mania de Snoopy. Tem Snoopy para tudo quanto  lado. Tem at um Snoopy de papelo segurando uma bandejinha de verdade com uma flecha apontando 
para ela e os dizeres: "Camisinhas grtis, uma oferta do Departamento de Sade da Faculdade de Nova York - Ei, se voc paga 40 mil dlares por ano, deve ter direito 
a alguma coisa grtis! "
Claro que a bandeja est vazia. 
Na porta do quarto 1.622 tem uma lousa de recados amarela sem nada escrito. Tem tambm um selinho do Ziggy. 
Mas algum colocou um piercing no nariz do Ziggy e algum mais colocou um balozinho em cima da cabea dele, dizendo: "Cad as minhas calas? "
Ergo as chaves e as uso para bater com fora na porta. 
 - Aqui  da diretoria - falo alto. - Tem algum a? 
No h resposta. Chamo mais uma vez, coloco a chave na fechadura e abro a porta. 
L dentro, um ventilador em cima de uma cmoda zune alto, apesar do quarto, como todos do edifcio Fischer, teria ar-condicionado central. Alm do ventilador, nada 
mais se move. No h sinal da colega de quarto de Roberta, que vai ter um belo choque quando voltar de onde estiver, e descobrir que vai ter um quarto s para ela 
durante o resto do ano letivo. 
S h uma janela, de 1, 8 metro de largura e mais ou menos 1, 5 metro de altura, com manivelas dos dois lados para abrir as persianas. A distncia, alm dos jardins 
no topo dos prdios e as caixas-d"gua, d para ver o rio Hudson, correndo sereno em seu trajeto, com os raios de sol refletindo em sua superfcie espelhada. 
Cooper examina algumas fotos de famlia no criado-mudo de uma das garotas. Ele diz: 
 - A menina morta. Qual  o nome dela? 
 - Roberta - respondo. 
 - Ento esta  a cama dela. - Ela tinha colocado ali o nome dela em letras cor de arco-ris sobre pergaminho, do tipo que artistas fazem nas ruas de Nova York. 
Est pendurado por cima da cama mais desarrumada, a que fica mais perto da janela. As duas camas parecem ter sido usadas, e nenhuma das duas ocupantes do quarto 
parece se preocupar muito com a arrumao. Os lenis esto amarrotados e as colchas (uma diferente da outra, como geralmente acontece em quartos compartilhados) 
esto jogadas. No lado do quarto que pertence a Roberta, a presena de Ziggy  marcante. H recados adesivos do Ziggy por todos os lados, um calendrio do Ziggy 
na parede e, em cima de uma das mesas, material escolar do Ziggy. 
As duas meninas, reparo, so fs de Jordan Cartwright. Elas tm a coleo completa de CDs do Easy Street, alm de Babt, eu quero voc. 
Nenhuma das duas tem um nico CD desta que vos fala. O que no  surpresa nenhuma, acho. Eu sempre fiz mais sucesso junto s pr-adolescentes. 
Cooper se ajoelha e comea a examinar embaixo da cama da menina morta. Isto  algo muito desconcertante. Tento me concentrar em xeretar o quarto, mas a bundinha 
do Cooper  mesmo linda. A maneira como ela se destaca na Levi"s desbotada dele quando se abaixa faz com que seja difcil prestar ateno a qualquer outra coisa, 
apesar de, sabe como , isto aqui ser um assunto muito srio e tudo o mais. 
 - Olhe s para isto - ele diz e tira a cabea e os ombros de baixo da cama de Roberta, com o cabelo escuro todo bagunado. Eu reajusto que eu estava olhando para 
a regio abaixo da cintura dele. Espero que ele no tenha notado. 
 - O que ? - pergunto, toda inteligente. 
 - Olhe. 
Pendurada na ponta de um lpis do Ziggy que Cooper tirou do porta-lpis na mesa de Roberta est uma coisa de cor clara, toda molenga. Examinando mais de perto, percebo 
o que . 
Uma camisinha usada. 
 - Hmm - digo. - Eca. 
 - Est bem fresquinha - ele diz. - Eu diria que Roberta teve um encontro ardente ontem  noite. 
Com a mo livre, ele pega um envelope do pacote de papel de carta do Ziggy em cima da mesa de Roberta e deixa a camisinha cair dentro dele. 
 - O que voc est fazendo? - pergunto, cheia de preocupao. - Isso no  adulterar as provas? 
 - Prova do qu? - Cooper dobra o envelope algumas vezes e guarda no bolso da jaqueta. - A polcia j determinou que no houve crime nenhum. 
 - Bom, ento por que voc guardou? 
Cooper d de ombros e joga o lpis fora. 
 - Tem uma coisa que eu aprendi neste ramo: nunca se sabe. 
Ele examina o quarto de Roberta e sacode a cabea. 
 - Parece estranho mesmo. Quem  que transa e depois vai fazer surfe de elevador? Se fosse o contrrio, talvez eu pudesse entender... sabe como , tanta adrenalina, 
ou sei l o qu, vontade de arriscar a vida, dar uma chance ao acaso. Mas antes? S se for alguma espcie de brincadeira sexual bizarra. 
Eu arregalo os olhos. 
 - Voc est dizendo que o cara gosta de transar com a menina e depois empurr-la no poo dos elevadores? 
 - Algo assim - Cooper pareceu pouco  vontade. Ele no gosta de conversar sobre hbitos sexuais bizarros comigo e muda de assunto. - E a outra menina? A primeira? 
Voc disse que conferiu, e ela no tinha dado autorizao para ningum entrar na noite que morreu, certo? 
 -  - eu respondo. - Mas cheguei logo antes de voc chegar, e Roberta tambm no deu autorizao para ningum entrar ontem  noite. - Ento, lembro-me de uma coisa. 
- Se... se tivesse alguma coisa no quarto de Elizabeth, como uma camisinha ou algo assim, a polcia ia ter encontrado, certo? 
 - No se no estivessem procurando. E se tivessem mesmo certeza de que a morte dele foi acidental, como esta ltima, no teriam nem procurado. 
Mordo o lbio inferior. 
 - Ningum se mudou para o lugar de Elizabeth. A colega dela ficou com um quarto s para ela agora. A gente pode ir dar uma olhada. 
Cooper parece cheio de incerteza. 
 - Reconheo que parece estranho esta menina ter morrido desse jeito, Heather - ele diz. - Principalmente tendo em vista a camisinha e o negcio da chave. Mas voc 
est insinuando que... 
 - Foi voc que insinuou primeiro - lembrei a ele. - Alm disso, a gente pode olhar, no pode? Quem  que a gente pode ofender? 
 - Mesmo que a gente olhe, j faz uma semana que ela morreu - ele observa. - Duvido que possamos encontrar alguma coisa. 
 - S vamos se tentarmos - digo, dirigindo-me para a porta. - Vamos. Cooper fica s olhando para mim. 
 - Por que provar que essas meninas no foram a causa da prpria morte  to importante para voc? - ele quer saber. 
Pisco os olhos, confusa. 
 - O qu? 
 - Voc ouviu. Por que est to determinada a provar que a morte dessas meninas no foi acidental? 
Claro que no posso dizer. Porque no quero que o que estou pensando fique parecendo o que Sarah provavelmente classificaria como atitude psicopata. E  exatamente 
isso que eu pareceria, se eu contasse a ele o que acho... que  o seguinte: eu devo ao prdio, ao prprio conjunto Fischer, descobrir o que est acontecendo na realidade. 
Porque o conjunto Fischer, assim como Cooper, salvou a minha vida, de certo modo. 
Bom, tudo bem, eles s me salvaram de ser garonete no Senor Swanky a vida inteira. 
Mas ser que isso basta? Eu sei que no faz o menor sentido (Sarah me acusaria de transferir minha afeio pelos meus pais ou pelo meu ex para uma pilha de tijolos 
construda em 1850), mas eu realmente sinto que tenho a responsabilidade de provar que o que est acontecendo no  culpa do conjunto Fischer; nem dos funcionrios 
que no notaram que estas meninas, que parecem sensatas demais para fazer algo to idiota; e nem mesmo do prdio em si, por no ser acolhedor o suficiente ou sei
l o qu. O jornal da faculdade j publicou uma reportagem "aprofundada" a respeito dos perigos de fazer surfe de elevador. S Deus sabe o que vo publicar amanh. 
Est vendo?  uma idiotice. 
Mesmo assim,  a maneira como eu me sinto. 
Mas no posso explicar para Cooper. Eu sei que no adianta nem tentar. 
 - Porque meninas no fazem surfe de elevador -  tudo o que consigo dizer. 
No comeo achei que ele ia cair fora, igual ao investigador Canavan, sem dizer mais nada, furioso comigo por t-lo feito perder tempo. 
Mas, em vez disso, ele s suspira e diz: 
 - Certo. Acho que temos mais um quarto para examinar. 

9
Chacoalha o pompom
Chacoalha o pompom
Chacoalha baby
A noite inteira

"Chacoalha"
Interpretada por Heather Wells
Composta por O"Brien/Henke
Do lbum Picol gostoso
Gravadora Cartwright

A colega de quarto de Elizabeth Kellogg abre a porta da unidade 1. 412 quando bato a primeira vez. Est usando uma camiseta branca larga e legging preta, segurando 
um celular em uma mo e um cigarro aceso na outra. 
Estampo um sorriso no rosto e digo: 
 - Oi, Heather. Este aqui ... 
 - Oi - a colega de quarto me interrompe para dizer, os olhos crescendo quando repara na presena de Cooper. 
Bom, e por que no repararia? Trata-se de uma jovem norte-americana saudvel de sangue quente, afinal de contas. E Cooper de fato exibe mais do que uma leve semelhana 
a um dos bonitinhos mais desejados dos Estados Unidos. 
 - Cooper Cartwright - ele diz, dando para a colega de quarto um sorriso que, se eu no conhecesse to bem, podia jurar que ele andava treinando na frente do espelho 
e reservava apenas para situaes como esta. 
S que Cooper no  do tipo que treina sorrisos na frente do espelho.  - Marnie Villa Delgado - ela diz. Marnie  uma garota forte como eu, s que tem os peitos 
maiores do que a bunda, e cabelos negros muito compridos e encaracolados. D para ver que ela est me medindo, do jeito que algumas mulheres fazem, imaginando se 
eu estou "com" Cooper ou se ele est liberado. 
 - Estvamos aqui pensando, Marnie, se podamos dar uma ou duas palavrinhas com voc a respeito da sua antiga colega de quarto, Elizabeth - Cooper diz e releva tantos 
dentes com o sorriso que quase me ofusca. 
Mas o mesmo no acontece com Marnie que aparentemente resolve que Cooper e eu no formamos um casal (como ela pode saber? Falando srio? Como  que outras garotas, 
como Marnie, Rachel e Sarah sabem faz isto, e eu no? ), e diz ao telefone: 
 - Preciso ir - ento, com os olhos presos hipnoticamente ao Cooper diz: - Entrem. 
Eu passo por ela e Cooper vem atrs. Marnie, percebo logo de cara, foi bem rpida em redecorar o quarto depois da morte de Elizabeth. As camas de solteiro foram 
colocadas juntas para formar uma cama king size, coberta com uma colcha de estampa de tigre gigantesca. As cmodas foram empilhadas, de modo que agora Marnie tem 
oito gavetas em vez de quatro e a escrivaninha de Elizabeth se transformou em unidade de entretenimento, com TV, DVD e CD, tudo ao alcance de um brao esticado da 
cama. 
 - J falei com a polcia a respeito dela. - Marnie bate as cinzas do cigarro embaixo do tapete com estampa de tigre que tem entre os ps descalos e volta a ateno 
momentaneamente de Cooper para mim. - Beth, quer dizer. Ei, espera a. Eu conheo voc? Voc no  alguma atriz ou algo assim? 
 - Eu? No? - respondo, com sinceridade. 
 - Mas voc aparece na televiso. - O tom Marnie  cheio de confiana. - Ei, vocs esto fazendo um filme sobre a vida de Beth? 
Antes de Cooper soltar um pio, pergunto: 
 - Por que? Voc acha, hmm, que a vida de Beth tem potencial cinematogrfico? 
Marnie est tentando parecer descolada, mas ouo quando ela tosse ao dar uma tragada no cigarro. Com certeza ela s fuma para parecer que tem atitude. 
 - Ah sim. Quer dizer, d para ver o ngulo que vocs podiam gostar de trabalhar. Uma menina do interior que vem para a cidade, no agenta, acaba se matando em 
um desafio ridculo. Posso fazer o papel de mim mesma? Eu tenho experincia, de verdade... 
Mas Cooper acaba com o nosso disface quando diz: 
 - No somos da TV. Heather  a diretora-assistente deste prdio e eu sou amigo dela. 
 - Mas eu achei que... - Marnie agora est olhando muito fixo para mim, tentando se lembrar de onde me viu antes. - Achei que voc era atriz. J vi voc em algum 
lugar... 
 - Na entrada, tenho certeza - digo apressada. 
 - Sua colega do quarto - Cooper diz, erguendo os olhos do exame que parecia estar fazendo da pequena rea da cozinha, na qual Marnie colocou um microondas, um fogo 
eltrico, um processador de alimentos, uma cafeteria e uma daquelas balanas que as pessoas fazem regime usam para pesar os peitos de frango que comem - de onde 
ela era? 
 - Bom - Marnie responde - de Mystic. Voc sabe, em Connecticut. 
Agora Cooper est abrindo armrios, mas Marnie est to confusa que nem reclama. 
 - Ei, j sei. - Voc apareceu naquele programa, Salvo pelo Gongo, no apareceu? - ela pergunta para mim. 
 - No - respondo. - Voc disse que Eliz... quer dizer, Beth, detestava estar aqui?
 - Bom, no, no exatamente - ela diz. - Beth simplesmente no se encaixava, sabe? Quer dizer, ela queria ser infermeira. 
Cooper olha para ela. D pra ver que ele no anda muito com alunos da Faculdade de Nova York, porque pergunta: 
 - Qual  o problema de ser enfermeira? 
 - Por que algum viria para a faculdade de Nova York para estudar para ser enfermeira? - o tom de Marnie  de desprezo. - Por que pagar to caro para estudar aqui 
em vez de, sabe como , ir para um lugar barato e estudar para ser enfermeira? 
 - No que voc vai se formar? - Cooper pergunta. 
 - Eu? - Marnie est com cara de quem est com vontade de dizer a palavra D, mas no quer ser grossa. No com o Cooper. Em vez disso, apaga o cigarro em um cinzeiro 
em forma de mo e diz: - Atriz. - Ento se senta na nova cama king size e fica olhando para mim. - Eu sei que j vi voc em algum lugar. 
Pego o cinzeiro em forma de mo para distra-la de tanto tentar descobrir quem eu sou quanto de notar que Cooper est fuando o quarto todo. 
 - Isso  seu ou de Elizabeth? - pergunto, apesar de j saber a resposta. 
 -  meu - Marnie responde. - Claro. Levaram todas as coisa de Beth embora. E, alm do mais, Beth no fumava. Beth no fazia nada. 
 - Como assim, ela no fazia nada? 
 - Como eu disse. No saa. No recebia amigos. E a me dela... que viagem! Vocs souberam o que ela fez na missa? A me? 
Cooper est examinando o banheiro. A voz dele, vinda de l, fica abafada. 
 - O que foi que ela fez? - pergunta. 
Marnie comea a remexer dentro de uma mochila preta de couro na cama. 
 - Passou tempo todo dizendo que ia processar a Faculdade de Nova York por no ter elevadores mais difceis de arrombar. E o que  que voc est fazendo no meu banheiro? 
 - Eu soube que a me de Elizabeth queria que a filha s recebesse visitas de meninas - digo, ignorando a pergunta dela a respeito da presena de Cooper no banheiro. 
 - Beth nunca me disse nada sobre isso. - Marnie encontra o mao de cigarros. Felizmente, est vazio. Ela joga no cho e parece aborrecida. - Mas eu no ficaria 
nada surpresa. Aquela menina era de outro sculo, praticamente. Acho que Beth nunca nem tinha beijado um cara at umas duas semanas antes de morrer. 
Cooper aparece na porta do banheiro. Parece grande demais para poder passar por ela, mas consegue de algum jeito. 
 - Quem? - pergunto antes de ele ter a chance de se intrometer. - Quem foi que ela beijou? 
 - No sei - Marnie d de ombros, sem saber muito bem o que fazer sem cigarro, que estava ajudando bastante no papel dela de colega de quarto de luto e tudo o mais. 
- Tinha um cara de que ela ficava falando, logo antes de... voc sabe. - Marnie d um assobio e aponta para o cho. - Mas, eles tinham acabado de se conhecer. Mas 
quando ela falava dele, seu rosto meio que... no sei explicar. 
 - Voc viu o cara alguma vez? - pergunto. - Sabe o nome dele? Ele foi  missa? Foi ele que convenceu Elizabeth a ir fazer surfe de elevador? Marnie recua
 - Cara, mas voc faz muitas perguntas! 
Cooper chega para me salvar. Como sempre. 
 - Marnie, isto  realmente importante. Voc faz alguma idia de quem era esse cara? 
Para mim, ela recua. Para Cooper, est mais do disposta a tentar.  - Deixe ver. - Marnie contorce o rosto. Ela no  bonita, mas tem um rosto interessante. Talvez 
seja boa para papis de personalidade. A melhor amiga gordinha. 
Por que a melhor amiga  sempre gordinha? Por que a herona nunca  gordinha? Ou, sabe como , no gordinha, mas tamanho 42? Ou at 44? Por que a herona  sempre 
tamanho 36? 
 - , ela disse que o nome dele era Mark, ou alguma coisa assim - Marnie diz interrompendo os meus pensamentos a respeito de preconceito de peso na indstria de 
entretenimento. - Mas eu nunca vi o cara. Quer dizer, eles s comearam a sair uma semana ou um pouco mais, antes de ela morrer. Eles foram juntos ao cinema. Para 
ver algum filme estrangeiro no Angelika. Foi por isso que eu achei to estranho... 
 - O qu? - eu sacudo a cabea. - Por que achou to estranho? 
 - Bom, quer dizer, que um cara que goste de, sabe como , filmes estrangeiros tambm pudesse gostar de surfe de elevador. Isso  to... juvenil. Os calouros gostam 
disso. Sabe dos que estou falando? Aqueles que andam com cala largona e tm cara de 12 anos? Mas esse cara era mais velho. Sabe como . Sofisticado. De acordo com 
a Beth. Ento, qual era a dele, incentivando-a a pular em cima de algum elevador? 
Sento-me ao lado de Marnie na cama enorme. 
 - Ela falou isso para voc? - pergunto. - Ela falou que ele pediu para ela ir fazer surfe de elevador com ele? 
 - No - ela responde. - Mas deve ter pedido, no deve? Quer dizer, ela nunca faria isso sozinha. Duvido at que ela soubesse o que  isto. 
 - Talvez ela tenha ido com algum daqueles calouros que voc mencionou - Cooper sugere. 
Marnie faz uma careta. 
 - De jeito nenhum - responde. - Aqueles caras nunca iam convidar Beth para ir com eles. Eles so bacanas demais, ou pelo menos acham que so, para se interessar 
por algum como ela. Alm do mais, se estivesse com eles, no ia ter cado. Aqueles caras no iam ter deixado. Eles so muito bons no negcio. 
 - Voc no estava aqui, estava, na noite que ela morreu? - pergunto. 
 - Eu? No, tinha um teste. A gente supostamente no pode participar de teste quando  caloura, sabe - faz um expresso sorrateira - , mas eu achei que tinha uma 
boa chance. Quer dizer, fala srio. Era para a Broadway. Se eu entrasse em um show da Broadway, ia sair deste lugar no mesmo segundo. 
 - Ento, Elizabeth ficou com o quarto s para ela naquela noite? - pergunto. 
 - Ficou. Ela ia convidar o cara para vi aqui naquela noite. O tal. Estava toda animada com isso. Sabe como , ia fazer um jantar para dois no fogo eltrico. - 
Marnie parece desconfiada. - Ei... vocs no vo contar, n? Que a gente tem um fogo eltrico? Eu sei que representa risco de incndio, mas... 
 - O cara, Mark - interrompo. - Ou seja l qual for o nome dele. Ele apareceu? Naquela noite? 
 - Apareceu - ela responde. - Pelo menos, imagino que sim. Quando eu cheguei, no estava mais aqui, mas os pratos do jantar estava na pia. Eu tive que levar, para 
no atrarem baratas. Sabe como , levando em conta o que a gente paga aqui,  de se pensar que vocs iam sempre mandar dedetizar... 
 - Algum mais conheceu o sujeito? - Cooper interrompe. - Esse tal de Mark? Algum dos seus amigos em comum? 
 - Beth e eu no tnhamos nenhum amigo em comum - Marnie responde, um pouco ofendida. - Eu j disse, ela era um fracassada. Quer dizer, eu era colega de quarto dele, 
mas no ia andar com ela. Eu s fiquei sabendo que ela tinha morrido, tipo umas 24 horas depois que aconteceu. Eu s fiquei achando, sabe como , que ela estava 
na casa do cara. 
 - Voc falou isso para a polcia? - Cooper pergunta. - Sobre Elizabeth ter recebido o cara na noite em que morreu? 
 - Falei - Marnie responde, com um dar de ombros. - Parece que no ligaram. Quer dizer, o cara tambm no assassinou a Beth. Ela morreu por causa da prpria estupidez. 
No importa quanto vinho voc tenha bebido, no pode sair por a pulando por cima de um elevador... 
Respiro fundo. 
 - Eles estavam bebendo? Mark e sua colega de quarto? 
 - Estavam - ela responde. - Achei as garrafas no lixo. Duas. Eram bem caras tambm. Ele deve ter trazido. Eram, tipo, vinte paus cada uma. O cara  o maior gastador, 
para algum que mora neste buraco dos infernos. 
Fico sem flego. 
 - Espera a... Ele mora no conjunto Fischer? 
 - Mora. Quer dizer, ele tem que morar, no ? Porque ela no precisou autorizar a entrada dele. 
Caramba! Eu nunca tinha pensado nisso! Que Beth pudesse ter de fato recebido um rapaz no quarto, mas no houvesse registro de autorizao de entrada, porque ele 
no precisou da autorizao. Ele mora no prdio!  um residente do conjunto Fischer tambm! 
Olho para Cooper. No tenho muita certeza de onde isto est nos levando, mas tenho uma boa noo de que isto est nos levando a algum lugar... algum lugar muito 
importante. Mas no d para saber se ele acha a mesma coisa. 
 - Marnie - digo - , tem mais alguma coisa, qualquer coisa que voc possa nos dizer sobre o cara que estava saindo com a sua colega de quarto? 
 - A nica coisa que posso dizer - Marnie responde, parecendo aborrecida -  que o nome dele  Mark ou algo assim, que ele gosta de filmes estrangeiros, que tem 
um gosto caro para vinhos, e que tenho bastante certeza de que ele mora aqui. Ah, e que Beth vivia dizendo que ele era lindo. Mas ser que era mesmo? Quer dizer, 
por que um cara lindo ia se interressar pela Beth? Era feia que nem o co. 
O jornal estudantil, o Reprter de Washington Square, tinha publicado uma foto de Elizabeth na segunda-feira depois da morte dela, uma foto do livro da turma de 
calouros do ano, e sinto dizer que Marnie no estava exagerando. Elizabeth no era bonita. No usava maquiagem, tinha culos grossos, cabelos fora de moda ao estilo 
Farrah Fawcet e um sorriso que s mostrava gengivas. Ainda assim, fotos tiradas por fotgrafos contratados por escolas nunca saem muito boas, e eu achei que na 
verdade Elizabeth deveria ser mais bonita do que a foto indicava. 
Mas talvez eu estivesse errada. 
Ou talvez, s talvez, Marnie estivesse com inveja porque a colega de quarto dele tinha namorado, e ela, no. 
Ei,  uma coisa que acontece. Ningum precisa de um diploma de sociologia (nem de uma licena de detetive particular) para saber disso. Cooper e eu agradecemos 
a Marnie e samos, mas no sem antes escapar de mais um ataque de eu-sei-que-j-vi-voc-em-algum-lugar. Quando conseguimos chegar ao corredor, j estou amaldioando, 
como fao quase todo o dia, a minha deciso (ou, devo dizer, a deciso de minha me) de deixar de lado a minha educao superior para seguir uma carreira na indstria 
da msica. 
Descendo as escadas em silncio, fico me perguntando se Cooper tem razo. Ser que eu enlouqueci? Quer dizer, ser que eu acho mesmo que tem algum maluco perseguindo 
as calouras do conjunto Fischer, levando-as para fazer surfe de elevador depois de se aproveitar delas, empurrando-as para a morte? 
Quando chegamos ao patamar do dcimo andar, digo, para ver no que d: 
 - Uma ver, li em uma revista um artigo sobre pessoas que matam pela emoo. Sabe como , cara que matam para se divertir. 
 - Claro - Cooper responde, seco. - Nos filmes. No acontece com muita freqncia na vida real. A maior parte dos crimes  passional. As pessoas no so assim to 
dementes como gostamos de imaginar. 
Olho para ele de canto de olho. Ele no faz a menor idia de como a minha imaginao  demente. Como naquele exato momento, em que eu estava imaginando como seria 
derrub-lo e arrancar as roupas dele com os dentes. 
Mas eu no estava. Bom, no realmente. Mas poderia estar. 
 - Algum provavelmente devia falar com a colega de quarto da outra menina - digo, empurrando para longe e com muita deciso minha fantasia a respeito das roupas 
de Cooper e meus dentes. - Sabe qual, aquela que morreu hoje. Para perguntar sobre a camisinha. Talvez ela saiba de quem era. 
Cooper abaixa os olhos para mim, como se estivesse me perfurando com aqueles olhos ultra-azuis. 
 - Deixa eu adivinhar - ele diz. - Voc acha que pode ser de um cara chamado Mark que gosta de filmes estrangeiros e de vinhos Bordeaux caros. 
 - No vai doer nada perguntar. 
 - Voc tem algum em sua equipe que se encaixa nesta descrio? - Cooper quer saber. 
 - Bom - digo, pesando no assunto. - No, para falar a verdade, no. 
 - Ento como foi que ele pegou a chave de trs do balco da recepo? Franzo a testa. 
 - Ainda no pensou nesta parte, no  mesmo? - Cooper pergunta, antes de eu ter a oportunidade de responder. - Olhe, Heather. O trabalho de detetive  mais do que 
ficar s fuando por a, fazendo perguntas. Tambm  preciso saber se existe alguma coisa que vale a pena fuar. E, sinto muito, mas no estou vendo nada assim aqui. 
Respiro fundo. 
 - Mas... e a camisinha! O homem misterioso! 
Cooper sacode a cabea. 
 -  triste o que aconteceu com aquelas meninas.  mesmo. Mas pense em como voc era quando tinha 18 anos, Heather. Voc tambm fazia loucuras. Talvez no to loucas 
quanto subir em cima de um elevador por causa de um desafio, mas... 
 - Elas no fizeram - digo, com muita firmeza. - Estou dizendo, aquelas meninas no fizeram nada disso. 
 - Bom, de algum jeito, acabaram no fundo do poo dos elevadores - Cooper diz. - E por mais que eu saiba que voc prefere pensar que algum homem mau as empurrou 
l para baixo, tem quase mil estudantes morando aqui neste alojamento, cara empurrando a namorada pelo poo dos elevadores? E voc no acha que algum deles ia ter 
reparado em um cara empurrando a namorada pelo poo dos elevadores? E voc no acha que esta pessoa teria contado para algum o que viu? 
Pisco mais algumas vezes. 
 - Mas... mas. . 
Mas no consigo pensar em mais nada para dizer. 
Da ele olha para o relgio. 
 - Olhe, estou atrasado para um compromisso. Ser que a gente pode brincar de seriado de investigao de novo mais tarde? Porque eu preciso ir andando. 
 - Certo - digo baixinho. - Acho que sim. 
 - Certo. A gente se v - ele diz. E continua descendo as escadas um tantinho mais rpido, e no tem jeito de eu acompanhar. 
Mas ele pra no prximo patamar, vira e ergue os olhos para mim. Os olhos dele so de um azul fantstico. 
 - E s para voc saber... - ele diz. 
 - Pois no? - eu me debruo ansiosa no corrimo da escada. A razo por que eu me oponho tanto a voc investigar tudo isso sozinha, espero, ou melhor, toro para 
ouvir,  porque no posso suportar a idia de voc correndo perigo. Sabe, eu te amo, Heather. Sempre amei. 
 - Acabou o leite -  o que ele diz, em vez disso. - Se voc se lembrar, compre um pouco antes de ir para casa, certo? 
 - Certo - respondo baixinho. 
E ento, ele vai embora. 

8
Vamos fugir
Para algum lugar onde
Sempre faa calor
Vou fazer valer a pena
Se voc vier

Eu disse
Vamos fugir
Deixar as preocupaes para l
Ningum pode nos dizer
O que fazer
Desta vez somos s
Eu e voc

"Fuga"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Picol gostoso
Gravadora Cartwright

 - Quem era aquele? - Sarah quer saber. - Aquele cara que acabou de sair? 
 - Aquele? - escorrego para trs da minha mesa. - Aquele era Cooper.  - O seu colega de quarto? - Acho que Sarah j me ouviu falando com ele no telefone, ou algo 
assim. 
 - Colega de casa - digo. - Bom, na verdade,  o meu senhorio. Eu moro no andar de cima do prdio de tijolinho dele. 
 - Ento ele  fofo e rico? - Sarah est praticamente babando. - Por que voc ainda no atacou? 
 - Somos s amigos - digo, e cada palavra parece um chute na cabea. Somos. Chute. S. Chute. Amigos. Chute. - Alm do mais, no sou exatamente o tipo dele. 
Sarah parece chocada. 
 - Ele  gay? Mas o meu "gaydar" no ficou nem um pouco ativado... 
 - No, ele no  gay! - exclamo. -  que ele... ele gosta de mulheres realizadas. 
 - Voc  realizada - Sarah diz, indignada. - O seu primeiro lbum ganhou disco de platina quando voc tinha 15 anos! 
 - Estou falando de educao superior - respondo, desejando muitssimo que estivssemos falando de outra coisa, qualquer outra coisa. - Ele gosta de mulheres, com, 
sabe como , muitos diplomas. Que so lindas de morrer. E bem magrinhas. 
 - Ah - Sarah diz, perdendo o interesse. - Igual a Rachel, quer dizer? 
 -  - eu digo e o meu corao pesa no peito, por algum motivo. - Igual a Rachel. 
Ser que  verdade? Ser que o Cooper gosta mesmo de mulheres igual a Rachel... mulheres que usam a bolsa combinando com os sapatos? Mulheres que sabem o que  Power-Point, 
e que ainda por cima sabem usar o programa? Mulheres que comem salada com molho  parte, e que conseguem fazer cem abdominais sem ficar sem flego? Mulheres que 
estudaram em Yale? Mulheres que tomam banho de chuveiro e no de banheira, como eu, porque tm preguia de ficar tanto tempo assim em p? 
Antes de eu ter a oportunidade de pensar bem a respeito do assunto, Rachel entra correndo, o cabelo escuro desgrenhado, mas ainda com aparncia sensual, e diz: 
 - Ah, Heather, voc est aqui. Por onde andou? 
 - Eu estava l em cima com um dos investigadores - respondo. At  verdade. Mais ou menos. - Estavam precisando entrar no quarto da menina morta. 
 - Ah - ela diz, perdendo o interesse. - Bom, agora que voc voltou, ser que d para ligar para o servio de aconselhamento e ver se eles podem atender uma aluna 
agora mesmo? A colega de quarto de Roberta est em um estado... 
Eu me aprumo imediatamente. 
 - Claro - respondo, esticando a mo para o telefone esquecendo imediatamente que prometi ao Cooper que ia parar de brincar de seriado de investigao. - Sem problemas. 
Voc quer que algum a acompanhe at l? 
 - Quero sim. - Rachel podia estar lidando com uma tragdia, mas, s de olhar para ela, no daria para saber. Seu vestido-envelope da Diane Fustemberg se molda s 
partes certas do corpo, e no s erradas (como acontece quando eu uso o vestido-envelope) e as bochechas dele esto bem coradas. - Voc acha que pode pedir para 
algum? 
 - Eu mesma posso fazer isso - respondo. 
Claro que sinto uma pontinha de culpa ao dizer isto. Quer dizer, minha disposio para ajudar tem mais a ver com o meu desejo de interrogar a colega de quarto da 
menina morta do que com ajud-la de fato.  Mas a culpa no basta para me deter. 
Ligo para o servio de aconselhamento. Claro que j esto sabendo da "segunda tragdia", ento pedem que eu leve a colega de quarto, Lakeisha Green, at l agora 
mesmo. Uma das minhas responsabilidades profissionais  acompanhar pessoalmente os estudantes encaminhados para o servio de aconselhamento at o local onde fica 
o departamento, porque uma vez, uma aluna enviada para l se perdeu no caminho e foi encontrada em Washington Hights com o suti na cabea dizendo para todo mundo 
que era Clepatra.   srio. No d para inventar uma coisa dessas. 
Lakeisha est sentada em um canto do refeitrio, embaixo de um pster de gatinho que Magda pendurou para alegrar o ambiente j que, como ela mesma explicou, janelas 
de vitrais antigos e revestimento em mogno so simplesmente "horrveis de se olhar". Magda tambm est l, tentando convencer Lakeisha a comer algumas balas de gelia 
em forma de ursinho. 
 - S um pouquinho? - Magda diz enquanto balana um saco cheio delas na cara da menina. - Por favor? Eu dou de graa. Eu sei que voc gosta; ontem  noite, comprou 
um saquinho com suas amigas. 
Lakeisha (s para ser educada, d para ver) aceita o saquinho. 
 - Obrigada - ela murmura. 
Magda ento fica toda radiante e, quando percebe que estou ali, sussurra: 
 - Coitada da minha estrelinha de cinema. No quer comer nada. - Ento, com a voz ainda baixa, pergunta: - Quem era aquele homem que Pete e eu vimos com voc hoje, 
Heather? Aquele bonito? 
 - Era Cooper - eu respondo, j que contei tudo sobre ele para Magda... como normalmente as amigas fazem tomando sorvete no intervalo do almoo. 
 - Aquele era Cooper? - Magda parece passada. - Ah, queria, no  para menos que... 
 - No  para menos que o qu? 
 - Ah, nada, no. - Magda me d uns tapinhas no brao como um gesto que seria reconfortante se eu no estivesse, sabe como , morrendo de medo de ser espetada por 
uma das unhas dele. - Tudo vai dar certo. Talvez. 
 - Hmm, obrigada. - No tenho muita certeza sobre o que ela estava falando... nem queria saber. Voltei minha ateno para a colega de quarto de Roberta Pace. 
Lakeisha parece triste, triste de verdade. O cabelo dela est arrumado em trancinhas por toda a cabea, e na ponta de cada uma delas tem uma conta colorida. Sempre 
que ela mexe a cabea, as contas fazem um barulhinho. 
 - Lakeisha - eu digo, com muita suavidade. - Voc tem hora marcada para conversar com algum no servio de aconselhamento. Estou aqui para lev-la. Podemos ir? 
Lakeisha assente com a cabea. Mas no se levanta. Lano um olhar para Magda. 
 - Talvez ela esteja querendo descansar um pouco - Magda diz. - Minha estrelinha de cinema quer descansar? 
Lakeisha hesita por um instante. Ento diz: 
 - No, tudo bem. Vamos. 
 - Tem certeza de que no quer um picol de creme DoveBar com cobertura de chocolate? - Magda pergunta. Porque picols de creme DoveBar com cobertura de chocolate 
so, alis, a soluo de quase todos os problemas do universo. 
Mas Lakeisha s sacode com a cabea, e faz as contas produzirem uma musiquinha. 
E com certeza  por isso que ela  to magra. Porque recusa picol de creme DoveBar com cobertura de chocolate, quer dizer. No me lembro de nenhuma ocasio em que 
recusei um sorvete. Principalmente um picol de creme DoveBar com cobertura de chocolate. 
Nossa caminhada para fora do prdio  lenta e sombria. Esto deixando os alunos voltarem ao prdio em grupos pequenos, com o aviso de que precisaro usar a escada 
para chegar ao quarto. Como seria de se esperar em uma comunidade to pequena, a notcia de mais uma morte se espalhou com rapidez, e quando os alunos viram Lakeisha 
e eu saindo do prdio juntas, comeam a cochichar ("Aquela  a colega de quarto", ouo, e algum responde: "Ah, coitadinha. " Lakeisha ou no escuta ou prefere ignorar. 
Anda com a cabea erguida, mas os olhos abaixados). 
Estamos na esquina, esperando o sinal de pedestres abrir, quando finalmente consigo trazer  tona o assunto que desejo discutir. 
 - Lakeisha - digo. - Voc sabe se Roberta saiu com algum ontem  noite? 
Lakeisha olha para mim como se estivesse me vendo pela primeira vez. Ela  uma coisinha, s bochechas e joelhos. O saquinho de balas que Magda a forou a aceitar, 
que ela continua carregando, parece ser um enorme peso na mo dela.  Ela diz:
 - Perdo? - com voz suave. 
 - Sua colega de quarto. Ela esteve com algum garoto ontem  noite? 
 - Acho que sim. Mas no sei com certeza. - Lakeisha responde, em um sussurro apologtico que  difcil de escutar por cima de todo o trnsito. - Eu sa ontem  
noite... tinha ensaio s oito. Bobby estava dormindo quando eu voltei. Era bem tarde, depois da meia-noite. E ainda estava dormindo quando eu desci para tomar caf-da-manh. 
Bobby. Ser que elas eram ntimas, Lakeisha e a colega de quarto que adorava Ziggy? Deviam ser, para ela cham-la de Bobby. O que estou fazendo, interrogando a coitada 
da menina desta maneira, depois de ela passar por um choque to grande? 
Ser que Jordan estava certo? De ter me acusado no outro dia. Ser que eu fiquei endurecida? 
Acho que sim j que, antes que eu me desse conta, j estava tentando de novo. 
 - A razo porque estou perguntando, Lakeisha - me sinto desprezvel, total e completamente. Talvez no faa mal, sabe como , se voc se sentir uma tremenda canalha. 
Sabe do que eu estou falando? Quer dizer, j li que pessoas loucas (desculpe, quer dizer, pessoas com distrbios mentais) nunca acham que tm distrbios mentais. 
Ento talvez os canalhas de verdade nunca se considerem canalhas. Ento o fato de eu me sentir canalha significa que eu no posso ser canalha de jeito nenhum... 
Preciso me lembrar de perguntar para Sarah. 
 - A razo por que eu estou perguntando  que a polcia - uma leve mentira, mas que se dane - , bom, a polcia encontrou uma camisinha usada embaixo da cama de Roberta 
hoje de manh.  Estava, hmm, bem fresquinha. 
Isso parece limpar um pouco da nvoa da cabea de Lakeisha. Ela olha para mim e, desta vez, d para ver que ela me enxerga de verdade. 
 - Perdo? - ela pergunta com uma voz mais forte. 
 - Uma camisinha. Embaixo da cama de Roberta. Tem de ser da noite passada. 
 - De jeito nenhum - Lakeisha responde com firmeza. - De jeito nenhum. A Bobby, no. Ela nunca... - Ela desaba e estuda os tnis Nike dela. - No - diz mais uma 
vez, e sacode a cabea com tanta fora que as contas na ponta das tranas estalam como castanholas. 
 - Bom, algum tem que ter deixado aquela camisinha... - digo. - Se no foi Roberta, quem... 
 - Ai, meu Deus - Lakeisha de repente interrompe, com animao verdadeira na voz. - Tem de ter sido o Todd! 
 - Quem  Todd? 
 - Todd  o cara. O cara da Bobby. O cara novo. Bobby nunca tinha ficado com cara nenhum. 
 - Ah - eu digo, um tanto surpresa com a informao. - ela era... hmm...  - Virgem, era sim - Lakeisha diz, despreocupada. Ainda est tentando digerir a informao 
que eu dei. - Devem ter... devem ter feito depois que eu sa. Ele deve ter ido l. Ela deve ter ficado to contente... - Ento a animao de Lakeisha morre e ela 
sacode a cabea de novo. - E da ela teve de sair para fazer uma coisa to idiota... 
Certo, agora estamos chegando a algum lugar. 
Eu desacelero o passo, e Lakeisha faz o mesmo, inconscientemente. Estamos a dois quarteires do centro de aconselhamento. 
 - Ento, sua colega do quarto no costumava fazer surfe de elevador com freqncia? - pergunto, apesar de j saber a resposta. 
 - Bobby? - A voz de Lakeisha falha. - Surfe de elevador? Nunca. Por que ela faria uma coisa to estpida? Ela  uma menina inteligente... era uma menina inteligente 
- ela mesma se corrige. - Inteligente demais para isso, de todo jeito. Alm do mais - completa - , Bobby tinha medo de altura. Ela nunca queria olhar pela janela 
do quarto, achava que era alto demais. 
Eu sabia. Ela sabia. Algum tinha empurrado.  a nica explicao. 
 - Ento, esse tal de Todd - digo, tentando no demonstrar minha ansiedade. E tambm o fato de que meu corao tinha comeado a bater um milho de vezes por minuto 
dentro do meu peito. - Quando foi que Roberta e ele se conheceram? 
 - Ah, na semana passada, no baile. 
 - Baile? 
 - O baile no refeitrio. 
Acabamos no cancelando o baile que estava programado para a noite da morte de Elizabeth. Sarah no tinha sido a nica a dar um ataque frente  sugesto, o governo 
estudantil tambm se rebelara, e Rachel cedera. O baile acabou tendo presena muito boa e s houve um momento desagradvel, quando algumas fs de Jordan Cartwright 
ficaram todas eriadas por causa da seleo musical e quase saram aos tapas com algumas residentes que preferiam Justin Timberlake. 
 - Todd estava l - ela diz. - Ele e Bobby comearam a ficar juntos naquela noite. 
 - Esse Todd - pergunto. - Voc sabe o sobrenome dele? 
 - No. - Lakeisha parece momentaneamente preocupada. Ento seu rosto se ilumina. - Mas ele mora no prdio. 
 - Mora? Como  que voc sabe? 
 - Porque Bobby no precisou dar permisso para ele subir. 
 - E esse tal Todd... - estou praticamente sem flego. - Voc o conheceu? 
 - No conheci, mas ela me mostrou no baile. S que ele estava meio longe. 
 - Como ele era? 
 - Alto. 
Como Lakeisha no prossegue, eu ofereo: 
 - S isso? Ele era alto? 
Lakeisha d de ombros. 
 - Ele era branco - ela diz, como que para se desculpar. - Caras brancos... todos... sabe como . 
Certo. Todo mundo sobe que todos os brancos tem a mesma cara.  - Voc acha que esse tal de Todd - agora Lakeisha tambm o est chamando de "esse tal de Todd" - 
teve algo a ver com... o que aconteceu com a Bobby? 
 - No sei - respondo. E quando digo isso, percebo que estamos no prdio que abriga os servios de aconselhamento do campus. Que rpido! Fico decepcionada. - Ah. 
Bom, Lakeisha, chegamos. 
Lakeisha olha para as portas duplas sem parecer as enxergar de fato. Ento, diz para mim: 
 - Voc no acha... voc no acha que esse tal de Todd... empurrou Bobby ou qualquer coisa assim, acha? 
Meu corao diminui o ritmo, e logo parece parar de vez. 
 - No sei - digo com todo o cuidado. - Porque? Voc acha? Roberta mencionou que ele era... abusivo? 
 - No - Lakeisha sacode a cabea. As contas estralam ainda mais. - O negcio  exatamente este. Ela estava muito feliz. Por que ia fazer algo to idiota? - Os olhos 
de Lakeisha se enchem de lgrimas. - Porque ela faria uma coisa dessas se tinha encontrado o homem dos sonhos dela? 
Exatamente o que eu acho. 

11
Uh-la-la-l
Uh-la-la-la-l
Eu disse
Uh-la-la-l
Uh-la-la-la-l
 o que eu digo
Toda vez
Que ele olha para mim
Eu digo
Me d um pouco deste seu
Uh-la-la-la-l

"Uh-la-la-l"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Valdez Caputo
Do lbum Picol gostoso
Gravadora Cartwright

Atualizo Magda e Pete a respeito da coisa toda durante o nosso almoo. Conto a eles o que est acontecendo, inclusive a parte a respeito de Cooper...  Mas no a 
parte de que eu estou loucamente apaixonada por ele nem nada assim. O que,  claro, deixa a histria mais curta e muito menos interessante.  A nica resposta de 
Pete  pegar uma garfada de chili e ficar olhando cheio de dvidas. 
 - Tem cenoura nisto aqui? Voc sabe que odeio cenoura. 
 - Pete, voc no ouvi o que eu disse? Eu disse que acho... 
 - EU ouvi - ele interrompe. 
 - Ah. Bom, voc no acha... 
 - No. 
 - Mas voc nem... 
 - Heather - Pete diz, colocando com muito cuidado a cenoura ofensiva do lado do prato. - Acho que voc anda assistindo muito Lei & Ordem. 
 - Eu adoro voc, querida -  o que Magda tem a dizer a respeito do assunto. - Mas vamos encarar. Todo mundo sabe que voc  um pouco - ela roda um dedo lado da 
cabea - maluquinha. 
Sabe do que eu estou falando? 
No d para acreditar que uma mulher que passa cinco horas para ter a Esttua da Liberdade desenhada nas unhas est me chamando de maluquinha. 
 - Vamos l - fico olhando para os dois. - Deus meninas sem histrico de surfe de elevador morrem por causa disso em duas semanas? 
 - Acontece - Pete d de ombros. - Voc vai querer o seu picles? 
 - Pessoal estou falando srio. Acho de verdade que algum est empurrando essas meninas no poo dos elevadores. Quer dizer, existe um padro. As duas no tinham 
aflorado. Nunca tinham tido um namorado. Da, de repente, uma semana antes de morrer as duas arrumam namorado... 
 - Talvez - Magda sugere - elas fizeram isso porque, depois de se guardar tantos anos para o homem certo, acharam que sexo no era assim to bom. 
A conversa acaba depois disso, porque Pete comea a engasgar com a Snapple dele. 
O resto do dia  uma confuso. Com duas mortes to prximas uma da outra no mesmo semestre, a imprensa nos bombardeia, principalmente os jornais sensacionalistas 
Post e News, mas um reprter do Times tambm liga. 
E tem ainda o memorando que Rachel faz questo de mandar para todos os residentes informando que haver aconselhamento psicolgico  disposio 24 horas por dia 
neste fim de semana para ajud-los a superar os acontecimentos. Isso significa que preciso tirar setecentas fotocpias, depois convencer um funcionrio estudantil 
a enfiar os memorandos em trezentas caixas de correio, duas para cada quarto duplo e trs para os triplos. 
De cara Tina, que est na recepo, recusa a tarefa. Parece que Justine simplesmente fazia uma copia por andar e pendurava no hall do elevador. 
Mas Rachel faz questo de que cada residente receba sua prpria copia. Preciso dizer a Tina que na me importo com a maneira como Justine fazia as coisas, que  assim 
que eu quero que as coisas sejam feitas. Ao que Tina responde, de maneira bastante dramtica: 
 - Ningum se importa com o que aconteceu com Justine! Ela era a melhor chefe do mundo, e a mandaram embora sem razo nenhuma! Eu vi quando ela ficou chorando no 
dia em que ficou sabendo! Eu sei! A faculdade de Nova York  to injusta! 
Tenho vontade de destacar que Justine provavelmente estava chorando de alegria por apenas ser demitida e no processada pelo que tinha feito. 
Mas eu no deveria mencionar que Justine tinha sido demitida por roubo na frente dos alunos, mais ou menos pela mesma razo que no deveramos chamar o lugar em 
que trabalhamos de alojamento. Porque isto no alimenta um verdadeiro sentimento de segurana. 
Em vez disso, prometo pagar a Tina cinqenta por cento a mais para ela entregar os memorandos. Isso a deixa alegre no mesmo instante. 
Quando chego em casa (com leite) j so quase seis horas. No h sinal de Cooper - ele provavelmente est de tocaia, ou seja, l o que os detetives particulares 
fazem o dia inteiro. O que est muito bem, porque tenho mais do que bastante com que me preocupar. Contrabandeei para casa uma lista com o nome dos residentes do 
prdio e a estou examinando, marcando todos os residentes que se chamam Mark ou Todd. Mais tarde, vou ligar para cada um deles, com a ajuda da lista de telefone 
do prdio, e perguntar se conheciam Elizabeth ou Roberta. 
No tenho muita certeza do que vou dizer se algum deles disser que sim. Acho que no posso ser assim to direta e perguntar: "Ento... voc a empurrou no poo dos 
elevadores? " Mas acho que vou deixar para lidar com este assunto quando chegar  hora. 
Bem quando estou em acomodando na frente da lista com uma taa de vinho e alguns biscoitinhos que achei no armrio a campainha toca. E eu me lembro, com um choque 
quase fsico, de que me ofereci para cuidar do filho de Patty hoje  noite. 
Patty d uma olhada em mim assim que abro a porta e j sabe. Ela diz: 
 - O que aconteceu? 
 - Nada - garanto a ela, pegando Indy de seus braos. - Bom quer dizer, uma coisa aconteceu, mas no foi comigo. Outra menina morreu hoje. S isso. 
 - Mais uma? - Frank o marido de Patty, parece maravilhado. H algo nas mortes violentas que deixa algumas pessoas muito animadas. Frank, claramente,  uma delas. 
- O que aconteceu? Overdose? 
 - Ela caiu de cima de um dos elevadores - respondo, enquanto Patty d uma cotovelada em Frank, forte o bastante para fazer ele fazer unngh. - Ou, pelo menos,  
o que a gente pode supor. Mas est tudo bem. Serio. Estou bem. 
 - Seja gentil com ela - Patty diz ao marido. - O dia dela foi difcil. 
Patty tem a tendncia de fazer caso de tudo quando vai sair. 
Ela no se sente  vontade com roupas de noite, talvez porque ainda no tenha perdido todo o peso que ganhou na gravidez. Durante um tempo, Patty e eu tentamos fazer 
caminhadas pelo SoHo no finzinho da tarde, em um esforo para atender  recomendao do governo de sessenta minutos de exerccios por dia. 
Mas a Patty parecia no conseguir passar por uma vitrine sem dar uma paradinha e perguntar: "voc acha que aqueles sapatos ficariam bem em mim? ", e ento entrar 
e comprar. 
E eu no conseguia passar por uma padaria sem entrar para comprar uma baguete. 
Ento, precisamos parar com as caminhadas, porque os armrios de patty j esto bem cheios, e quem precisa de tanto po assim? 
Alm do mais, Patty nem tem onde usar tanta coisa nova. Ela tem basicamente uma alma caseira o que, para uma mulher de cantor de rock, no  l muito bom. 
E Frank Robillard  uma das maiores estrelas do rock. Ele faz Jordan Cartwright parecer um cantor da ultima. Patty o conheceu no programa do David Letterman: ele 
estava cantando, ela era uma daquelas moas que ficam servindo salgadinhos em uma bandeja, foi amor  primeira vista. Sabe como , daquele tipo que agente l nas 
revistas, mas que nunca acontece com agente. Esse tipo. 
 - Pare com isto, Frank - Patty diz ao seu verdadeiro amor. - Ns vamos nos atrasar. 
Mas o Frank est bisbilhotando pelo escritrio, examinando as coisas de Cooper. 
 - Ele j atirou em algum? - pergunta, referindo-se a Cooper. 
 - Se tivesse atirado, no teria contado para mim - respondo. 
Desde que eu me mudei para a casa de Cooper, meu conceito junto ao Frank subiu muito. Ele nunca gostou de Jordan, mas Cooper  o heri dele. Ele at comprou uma 
jaqueta de couro igual  de Cooper (usada, j veio amaciada). Frank no compreende que um detetive particular da vida  diferente dos da TV. Quer dizer, Cooper nem 
tem uma arma. No trabalho dele, S so necessrias uma cmera e a capacidade de se integrar ao ambiente. 
Acontece que Cooper  muito bom em se integrar. 
 - Ento, vocs dois j esto ficando? - Frank pergunta, do nada. - Voc e Cooper? 
 - Frank! - Patty exclama. 
 - No, Frank - respondo, pelo que deve ser a trecentsima vez s este ms. 
 - Frank - Patty diz. - Cooper e Heather s dividem a casa. No d para ficar com a pessoa que mora com voc. Voc sabe como so as coisas. Quer dizer, o romance 
todo acaba depois que voc v algum de chambre. Certo, Heather? 
Olho para ela meio deslocada. Nunca tinha pensado nisto. E se Patty estiver certa? Cooper nunca vai achar que vale a pena sair comigo, mesmo que eu ganhe um premio 
Nobel de medicina. Porque ele j me viu vezes demais de moletom! E sem maquiagem! 
Patty e Frank ento se despedem, e Indy e eu ficamos na porta acenando enquanto eles entram na limusine que est  espera deles. Os traficantes de drogas da rua 
ficam olhando a uma distancia respeitvel. Todos veneram a banda de Frank. Estou convencida de que o motivo por que a casa de Cooper nunca foi grafitada nem assaltada 
 porque todo mundo no bairro sabe que ele  amigo da voz do povo, Frank Robillard, ento a casa dele  poupada. Ou talvez seja por causa do alarme e das barras 
em todas as janelas do trreo. Vai saber. 
Indy e eu passamos uma noite agradvel assistindo a Arquivos Forenses e os Novos Detetives na TV do meu quarto, onde posso ficar de olho tanto no filho da minha 
melhor amiga quanto na parte de trs do edifcio Fischer. 
Olhando para o prdio alto de tijolinhos escuros, com tantas luzes acesas, no posso evitar me lembrar do que Magda disse: a piada que ela fez a respeito de Elizabeth 
e Roberta acabarem descobrindo que sexo no era to bom assim quanto todo mundo dizia. Bobby era virgem... pelo menos de acordo com a colega de quarto dela, e parecia 
bem provvel que Elizabeth Kellogg tambm fosse. 
Ser que era isso? Ser essa a relao entre as duas meninas? Ser que algum est matando as virgens do edifcio Fischer? 
Ou ser que eu ando assistindo a CSI demais? 
Quando Patty e Frank chegam para recolher a cria deles logo depois da meia-noite, eu o entrego na porta. Ele desmaiara durante Crossing Jordan. 
 - Como ele se comportou? - Patty pergunta? 
 - Perfeitamente, como sempre - respondo. 
 - Para voc talvez - ela diz com uma risada sarcstica enquanto pega o bebe adormecido nos braos. Frank est esperando na limusine, na rua. - Voc  tima com 
ele. Devia arrumar uma pra voc um dia destes. 
 - Jogue sal na ferida, por que no? - digo. 
 - Desculpe - Patty responde. - Eu adoro que voc cuide do bebe para ns. Mas voc percebe que nunca disse que no podia porque estava ocupada? Heather, voc precisa 
sair da toca. E no estou falando s da sua musica. Voc precisa tentar conhecer algum. 
 - Eu conheo um monte de gente - digo na defensiva. 
 - Estou falando de algum que no seja calouro na faculdade de Nova York. 
 -  - respondo. - Bom, para voc  fcil criticar. Voc tem o marido perfeito. Voce no sabe como  a vida real. Voc acha que Jordan era uma anomalia? Patty, ele 
 bsico. 
 - No  verdade - Patty diz. - Voc vai encontrar algum. S no pode ter medo de se arriscar. 
Do que  que ela esta falando? Eu no fao nada alem de correr riscos? Estou tentando impedir que um psicopata mate mais uma vez. J no basta? Preciso de uma aliana 
no dedo tambm? 
Algumas pessoas nunca ficam satisfeitas. 

12
Sou uma agente disfarada e estou
Vigiando o seu corao

Estou com meus culos de viso noturna
E estou
Vigiando o seu corao

Ah 
 melhor voc fugir
Porque quando eu terminar
Voc vai me entregar
O seu corao

"Vigiando o seu corao"
Interpreta por Heather Wells
Composta por O"Brien/Henke
Do lbum Vigiando o seu corao
Gravadora Cartwright

Por mais que eu tente esquecer a idia, ela no sai da minha cabea durante todo o fim de semana. As virgens do edifcio Fischer. 
Eu sei que parece loucura. Mas no consigo pensar em outra coisa. Talvez Patty tenha razo, e os jovens do alojamento (conjunto residencial estudantil, quer dizer) 
esto ocupando o lugar de meu corao onde o amor pelo meus prprios filhos residiria, sabe como , se eu tivesse algum. Porque eu no consigo parar de me preocupar 
com eles. 
No que ainda deva ter sobrado alguma virgem no prdio; e eu por acaso ocupo uma posio que me permite fazer esta afirmao. Desde que eu troquei os bombons de 
chocolate do pote da minha mesa por camisinhas Trojan em embalagens individuais, tenho recebido jovens de pijama aos tropees na minha sala s nove da manha (e 
se voc no acha que nove da manha  cedo para os padres de faculdade,  porque voc nunca fez faculdade), que vo l para pegar uma sem nem pedir licena. 
No se sentem acanhados. No agradecem. na verdade, quando eu fico sem camisinhas, e o pote fica vazio durante um dia ou um pouco mais at eu receber mais do servio 
de sade, vou dizer, ouo muito. O pessoal comea a me atacar no mesmo instante: "Ei! Cad as camisinhas? Acabaram as camisinhas? O que eu vou fazer agora? "
De todo modo, o lado positivo de tudo isto  que eu fico sabendo quem est se dando bem no meu prdio. 
E vou dizer uma coisa:  muita gente. No h muitas virgens restantes no conjunto Fischer. 
Mas, de algum modo, algum sujeito encontrou uma maneira de matar duas delas. 
Eu no podia deixar que mais meninas morressem. Mas como  que eu ia impedir que acontecesse de novo se eu no fazia a menor idia de quem era o cara? Eu no tinha 
chegado a lugar nenhum com a coisa da lista. Havia trs Marks e nenhum Todd no prdio todo, apesar e haver um Tad. Um dos trs Marks no prdio era negro (era residente 
do andar de Jessica, eu liguei para ela e perguntei) e outro, coreano (liguei para a AR tambm), o que eliminava os dois, j que Lakeisha tinha certeza de que o 
cara era banco. Tad era to obviamente gay que s gaguejei uma desculpa e disse que era engano logo que ele atendeu. 
O terceiro Mark tinha ido passar o fim de semana na casa dos pais, segundo disse o colega de quarto dele, mas estaria de volta na segunda. Mas, de acordo com o AR 
dele, s tinha 1, 73m de altura, e isso no  exatamente alto.  Acho que dava para dizer que a investigao (no p que estava) tinha empacado. 
E com Cooper ausente durante todo o fim de semana, eu tambm no ia pedir a opinio profissional dele sobre o assunto. No tenho certeza se ele estava se escondendo 
de mim, ou se estava ocupado com ou trabalho, ou se estava ocupado... bom, com outra coisa. Desde que eu me mudara, Cooper no tinha recebido absolutamente ningum 
para passar a noite (o que, para ele, se  que d para acreditar em Jordan, representa um perodo de seca recorde). Mas levando em conta o nmero de dias seguidos 
que ele passava fora de casa, eu s podia imaginar que ele estivesse dormindo na casa do caso da hora, seja l quem ela fosse. 
O que era bem tpico dele. Sabe como , no esfregas na minha cara que ele est se dando bem, quando eu com toda a certeza no estou. 
Mesmo assim, eu tive dificuldade em apreciar tanta cortesia na medida em que o fim de semana foi passando, e no tinha chegado mais perto de descobrir quem estava 
matando As Virgens do edifcio Fischer. Se, hmm, algum estivesse. 
O que pode ser o motivo por que, quando a segunda-feira de manh finalmente chegou, eu fui a primeira a chegar ao servio, depois de j ter tomado meu caf com leite 
e comido meu bagel, e mergulhei na ficha de Roberta Pace. 
O contedo do arquivo dela  muito parecido com o de Elizabeth, apesar de as duas meninas terem vindo de lados opostos do pas: Roberta era de Seatle. Mas as duas 
tinham me enxeridas. A me de Roberta tinha ligado para Rachel para reclamar que Roberta precisava de outra colega de quarto. 
O que me surpreendeu. Como  que algum pode no gostar de Lakeisha?  Mas, de acordo com o "relatrio de incidente" (o formulrio que  preenchido toda a vez que 
um funcionrio do edifcio tem alguma interao com uma residente), quando Rachel falou com Roberta, descobriu-se que quem tinha um problema com Lakeisha era a Sra. 
Pace, e no Roberta. "No que eu no goste de negros", a Sra. Pace explicou a Rachel, de acordo com o relatrio, "s no quero que a minha filha tenha que viver 
com uma negra. "
Descobri que  com esse tipo de coisa que as pessoas que trabalham no sistema de educao superior tm de lidar todos os dias. O lado positivo  que nem sempre o 
problema  dos estudantes, e sim dos pais deles. Assim que os pais voltam para casa, tudo entra nos eixos. 
O lado negativo  que... bom, gente como a Sra. Pace exite e tudo o mais.  Eu me foro a continuar lendo. De acordo com o relatrio, Rachel chamou Roberta na sala 
dela e perguntou se ela queria trocar de quarto, como a me disse que ela queria. Roberta ento relatou que liberou Roberta e ligou de volta para a me e fez o sermo 
padro nesses casos "Boa parte da educao superior se passa fora da sala de aula, onde nossos alunos tomam contato com outras culturas e maneira de viver. Aqui 
na Faculdade de Nova York, fazem o possvel para incentivar a conscincia da diversidade cultural. A senhora/o senhor no quer que seu filho/ sua filha seja capaz 
de se dar com todos os tipos de pessoa quando ele/ela entrar para a fora de trabalho? ")
Ento Rachel informou  Sra. Pace que a filha dela no iria trocar de quarto e desligou. 
E pronto. Aquilo era a nica coisa na ficha de Roberta. O nico indcio de que ela tinha tido algum problema para se ajustar  vida universitria. 
Tirando o fato de agora ela estar morta, claro. 
Oua o barulho de um elevador chegando e logo os saltos de Rachel estalando no cho de mrmore na frente da nossa sala. Um segundo depois ela aparece  porta carregando 
em uma das mos uma xcara fumegante de caf que trouxe de seu apartamento e, na outra, um exemplar do Times do dia. Olha surpresa para mim, j em minha mesa to 
cedo assim. Apesar de eu morar a quatro minutos de distncia dela, quase sempre chego cinco minutos atrasada para o trabalho. 
 - Ai, meu Deus - Rachel diz, contente de me ver. - Mas como voc chegou cedo! Passou bem o fim de semana? 
 - Passei - respondo, fechando a parta de Roberta e meio que deslizando para baixo de outras coisas na minha mesa. 
No que eu no tenha todo o direito de estar lendo a ficha.  s que eu me sinto um tanto relutante em contar para a Rachel aquilo de que eu desconfio, sobre as 
meninas terem sido empurradas e tudo o mais. Quer dizer, tecnicamente, eu deveria ter dito alguma coisa a respeito da chave, ou da camisinha, pelo menos, ou que 
as duas meninas tinham conhecido um cara fazia pouco tempo... 
Mas no posso deixar de me perguntar: E se Cooper estiver certo? E se Elizabeth e Roberta tiverem mesmo cado, e eu ficar armando a maior confuso, dizendo que elas 
foram assassinadas? Ser que Rachel ia colocar em minha ficha de emprego que eu sofro de delrios paranicos? Ser que uma coisa assim poderia impedir que eu passasse 
pelo meu perodo de experincia de seis meses? Ser que podiam me demitir por causa disso, como fizeram com Justine - apesar de eu ter passado bem longe dos aquecedores 
de cermica? 
No vou arriscar. Resolvo guardar as minhas suspeitas para mim mesma. 
No geral - digo, respondendo  pergunta de Rachel a respeito do meu fim de semana. Porque, alm de ter ligado para saber de todos os Marks e Todds, eu no fiz nada 
a no ser passear com Lucy, assistir  TV e dedilhar meu violo. Nada que valesse a pena comentar. - E voc? 
 - Um horror - Rachel responde, sacudindo a cabea. Apesar de que, para algum que teve um fim de semana to pssimo, ela est realmente tima. Est com um tailleur 
novo, muito bem cortado. O preto destaca o marfim da pele dela e faz o cabelo parecer de um castanho ainda mais profundo. - Os pais de Roberta vieram aqui - ela 
prossegue - para pegar as coisas da filha. Foi um pesadelo. Claro que eles querem nos processar. Apesar de eu no fazer idia de que embasamento ele tm. Coitada 
daquela gente, fiquei com muita pena deles. 
 -  - digo. - Deve ter sido um saco. 
O telefone da mesa de Rachel comea a tocar. 
 - Ah, oi, Stan - ela diz quando atende. - Ah, muito obrigada, mas est tudo bem, mesmo. Sim, foi simplesmente um horror... 
Uau. Stan. Ento agora a Rachel trata o Dr. Jessup pelo primeiro nome? Bom, acho que se duas meninas do seu alojamento (ops, quer dizer, conjunto residencial estudantil) 
morrem, voc passa a conhecer muito bem o chefe do seu departamento. 
Comeo a examinar os formulrios de atividades que os recepcionistas do fim de semana deixaram para mim. Geralmente, consigo organizar a folha de pagamento, o oramento 
e todos os memorandos que precisam ser digitados at as 11 da manh. Da, fico com o resto do dia livre para navegar na internet, fofocar com Magda ou Patty ou tentar 
descobrir quem pode estar matando meninas no meu local de trabalho, que  exatamente a maneira como eu decido passar esta segunda-feira em particular. 
S que ainda no descobri bem como. 
Estou terminando a folha de pagamento quando ps envoltos por tnis Nike aparecem no meu campo de viso. Ergo a cabea, esperando ver um jogador de basquete (e espero 
que ele traga um bilhete semilegvel para que eu ajunte a minha coleo). 
Em vez disso, vejo Cooper. 
 - Oi - ele diz. 
Por acaso  minha culpa o fato de meu corao dar uma cambalhota no peito? Quer dizer, j faz um tempinho que a gente no se v. Quase 72 horas. Alm do mais, sabe 
como , eu estou totalmente faminta de um homem. Deve ser por isso que no consigo tirar os olhos da parte da frente da cala jeans que ele est usando, desbotada 
em todos os lugares em que o tecido ficou gasto, como os joelhos e alguns outros lugares mais interessantes. 
Ele tambm est usando uma camisa azul por baixo da jaqueta de couro surrada, que tem exatamente o mesmo tom de azul luminoso dos olhos dele. - Por... -  o nico 
som que consigo fazer sair da minha boca, por causa da cala jeans... e daquela parte de eu ser uma-fracassada-completa-totalmente-apaixonada-por-ele. 
 - Por... - digo mais uma vez. Pelo menos,  o que parece aos meus ouvido. 
 - Eu queria ter certeza de que voc j estava sabendo - ele diz. - Sabe como , antes de a US Weekly comear a ligar e voc ser pega de surpresa. 
Olho para o jornal.  o sensacionalista New York Post. Na primeira pgina h uma foto grande, ampliada, de meu ex-namorado e Tania Trace jantando em algum caf ao 
ar livre do SoHo. Embaixo da imagem esto as palavras, em corpo 18, no mnimo. 

ELE ESTO NOIVOS! 

13
Ela te isolou. 
O que voc fez para merecer? 
Ela te isolou. 
Te colocou para escanteio

Ela achou que voc ia aceitar bem
quietinho? 
Ela acha que voc gosta de dar um
de palhacinho? 

Eu nunca ia te isolar. 
Voc tem que acreditar
Eu nunca ia te isolar. 
Voc  tudo que eu preciso. 
Baby, ser que no d para ver? 
No venha me isolar. 

"Isolar"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Vigiando o seu corao
Gravadora Cartwright

Uau. No demorou muito. Quer dizer, levando em conta que s estamos separados h o qu? Quatro? Cinco meses talvez? 
 - Por... - parece ser o nico som que eu sou capaz de fazer. 
 -  - Cooper diz. - Foi isso mesmo que eu achei que voc ia dizer. Eu fico l sentada, olhando para a foto do anel de noivado de Tania. Parece muito com o MEU 
anel. Aquele que eu arranquei do dedo e joguei nele quando peguei os dois mandando ver no nosso quarto. 
Mas no pode ser o mesmo anel. Jordan  mo de vaca, mas no pode ser assim TO mo de vaca. 
Abro o jornal e folheio at a pgina que traz o artigo. 
Olhe s para isto. No esto s noivos. Tambm vo sair juntos em turn. 
 - Tudo bem com voc? - Cooper quer saber. 
 - Tudo - digo, feliz por ter retomado a capacidade de dizer alguma coisa que no seja "por... ". 
 - Se serve de consolo - ele diz - , o ltimo single dela saiu do Disk MTV. 
Eu sei que no vale a pena perguntar para o Cooper por que ele anda assistindo ao Disk MTV. Em vez disso, digo: 
 - Eles tiram os vdeos quando ficam muito tempo na lista... Isso significa que a msica continua fazendo muito sucesso. 
 - Ah. 
Cooper olha em volta, obviamente procurando alguma coisa para mudar de assunto. A minha sala  como a recepo da sala de Rachel, separada dela por uma bela grade 
de metal que estou tentando fazer o departamento de manuteno mudar desde que cheguei. Eu tinha decorado a minha parte com reprodues de Monet quando comecei a 
trabalhar l, e Rachel quis trocar os lrios de Giverny por cartazes antiestupro e de desenvolvimento comunitrio, mas eu no arredei p. 
Li uma vez em uma revista que Monet tem efeito calmante.  por isso que tantos mdicos colocam reprodues dos quadros dele no consultrio. 
 - Esse lugar  legal - Cooper diz. Ento o olhar dele recai sobre o pote de camisinhas na minha mesa. 
Sinto que fico vermelho-carmim. 
Rachel escolhe exatamente este momento para desligar o telefone e se inclinar para fora da sala e perguntar: 
 - Posso ajudar? 
Quando ela v que o visitante da nossa sala  do sexo masculino, tem mais de 1, 80 metro e menos de quarenta anos (isso sem mencionar que ele  muito gostoso), ela 
diz, com uma voz completamente diferente. 
 - Ah. Oi. 
 - Bom dia - Cooper diz, com muita educao. Cooper  extremamente educado com todo mundo,  exceo dos membros diretos da famlia dele. - Voc deve ser Rachel. 
Eu sou Cooper Cartwright. 
 - Prazer em conhec-lo - Rachel diz. Ela aperta a mo que ele estende e d um sorriso beatificado. - Cooper... Cooper... Ah, sim, Cooper! O amigo da Heather. Ouvi 
falar muito de voc. 
Cooper olha em minha direo, os olhos azuis brilhando mais do que nunca. 
 - Ouviu? 
Eu queria que o cho se abrisse e me engolisse inteira. Tento me lembrar de qualquer coisa que eu possa ter dito a Rachel sobre Coop. Alm do fato de ele ser o meu 
senhorio, quer dizer. E se eu disse alguma coisa bem indiscreta, que Cooper  a minha idia de parceiro ideal e que s vezes eu fantasio sobre arrancar as roupas 
dele com os dentes? Sabe-se que eu s vezes digo coisas assim, principalmente quando misturo muitas rosquinhas Krispy Kreme com uma alta dose de cafena. 
Mas a nica coisa que a Rachel diz : 
 - Acho que voc j ouviu falar dos problemas que estamos tendo aqui. 
Cooper assente com a cabea. 
 - Ouvi. 
Rachel sorri de novo, um pouco menos beatificada desta vez. D para ver que ela est fazendo um clculo mental para avaliar o preo provvel do relgio dele (ele 
usa um daqueles de plstico bem grandes e pesados) e chegando  concluso de que ele no deve ganhar cem mil por ano de jeito nenhum. 
Ah, se ela soubesse... 
Ento o telefone da mesa dela toca de novo e ela entra para atender.  - Al, conjunto Fischer. Aqui  a Rachel. Em que posso ajudar? 
Cooper ergue as sobrancelhas para mim e eu me lembro, de repente, do que Magda disse a respeito de Rachel ser o tipo de Cooper. 
No! No  justo! Rachel  o tipo de TODO MUNDO! Quer dizer, ela  bonita e atltica e tem tudo no lugar e  uma moa de sucesso e estudou em Yale e est fazendo 
a diferena no mundo. Mas e EU? E as garotas como eu que so s... bom, legais? E as garotas legais? Como  que ns vamos concorrer com todos os seus diplomas e 
Palm Pilots e aquela bundinha? 
Mas antes que eu tenha oportunidade de dizer qualquer coisa para defender a minha espcie, um dos funcionrios da manuteno entra correndo. 
 - Haythar - Julio grita, sacudindo as mos. Ele  um sujeito pequeno, de uniforme mrrom, que, sem ningum pedir, limpa a esttua de bronze de P do lobby todo dia
com uma escova de dentes.
 - Haythar, aquele menino est fazendo de novo.
Fico olhando estupefata para ele. 
 - Voc est falando do Gavin? 
 - S. 
Dou uma olhada para Rachel. Ela est falando sem parar ao telefone: 
 - Ah, reitor Allington, por favor no se preocupe comigo. Os alunos  que precisam de ateno... 
Suspiro resignada, empurro a cadeira para trs e me levanto. 
Simplesmente vou ter que encarar o fato de que, no que diz respeito a Cooper, eu sempre vou parecer a maior trapalhona do mundo. 
E no tem nada que eu possa fazer contra isto. 
 - Eu cuido disto - digo. 
O Julio d uma olhada para Cooper e, sem parar de sacudir as mos, pergunta, todo nervoso: 
 - Quer que eu v com voc, Haythar? 
 - O que  isto? - Cooper parece desconfiado. - O que est acontecendo? 
 - Nada - digo a ele. - Obrigada por passar aqui. Agora, preciso ir. 
 - Ir aonde? - Cooper quer saber. 
 - Preciso dar um jeito em uma coisinha. A gente se v mais tarde. 
Ento, saio correndo da sala e vou direto para o elevador de servio, que  reservado para o uso do pessoal da manuteno apenas, e que tem uma daquelas grades de 
ferro para manter os alunos para fora... 
S que eu sei qual alavanca empurrar para abrir a grade. Ento a empurro, viro para Julio e digo: 
 - Quando voc quiser. 
S que no foi Julio que veio atrs de mim. Foi Cooper. 
 - Heather - ele diz, com semblante aborrecido. - Que histria  esta? 
 - Cad Julio? - Solto com uma voz esganiada. 
 - Sei l. - Ele responde. - Ficou l atrs, acho. Aonde voc vai? 
De dentro do poo dos elevadores, ouo gritos de alegria. Por que eu? Meu Deus do cu, por qu? 
Mas no h nada que eu possa fazer. Quer dizer,  o meu trabalho. E isso vai significar um diploma de medicina grtis, isso se eu conseguir mant-lo tanto tempo 
assim. 
 - Voc sabe operar um elevador de servio? - pergunto a Cooper. 
Ele parece ainda mais aborrecido. 
 - Acho que consigo descobrir como se faz. 
Mais gritos de dentro do poo dos elevadores. 
 - Certo - digo. - Ento, vamos. 
Cooper, que agora est com cara de curioso alm de aborrecido, vem atrs de mim e entra no elevador, abaixando a cabea para no bater na porta meio abaixada, eu 
puxo a grade, fecho e aciono a alavanca da fora. Quando o elevador, abaixando comea a subir com um sacolejo, coloco um p na grade lateral e, com um impulso, agarro 
as laterais da abertura no teto do elevador, de onde um painel foi retirado. Atravs dela, enxergo os cabos e os tijolos sem acabamento do poo dos elevadores, e 
l em cima, bem no alto, pontos iluminados, onde o sol entra pelas clarabias de segurana contra incndios. 
A curiosidade de Cooper rapidamente desaparece, ento s sobra o aborrecimento. 
 - O que - ele pergunta - voc acha que est fazendo? 
 - No se preocupe - digo. - Est tudo bem. J fiz isto antes. - Minha cabea e os meus ombros j passaram pela abertura no teto do elevador e, com mais um impulso, 
consigo fazer o quadril atravess-lo tambm. 
Ento preciso descansar. Porque tudo isto representa muito levantamento de peso para uma garota como eu. 
 -  isto que voc faz o dia inteiro? - Cooper, abaixo de mim, quer saber. - Onde  que est escrito em seu contrato de trabalho que voc tem a responsabilidade 
de correr atrs de surfistas de elevador? 
 - No est escrito em lugar nenhum - respondo, olhando para ele com uma certa surpresa, pela abertura entre os meus joelhos. As paredes escuras do poo dos elevadores 
passam a toda a velocidade, como gua escorrendo, enquanto subimos. - Mas algum precisa fazer isto. - E se eu no fizer, como  que vou passar pelo perodo de experincia 
de seis meses? - Em que andar estamos? 
Cooper d uma olhada atravs da grade, para os nmeros pintados na parte de trs da porta de cada andar que passam. 
 - Nove - ele responde. - Voc sabe, se escorregar, pode acabar igual quelas meninas, Heather. 
 - Eu sei - respondo. -  por isso que eu preciso fazer com que parem. Algum pode se machucar. Algum mais, quer dizer. 
Cooper diz alguma coisa para si mesmo que parece um palavro... o que  uma surpresa, porque  muito raro ele falar palavro. 
Um andar depois, duas paredes do poo se abrem, de modo que d para ver o poo dos outros elevadores do prdio. Um deles est parado no dcimo andar, e esticando 
o pescoo, vejo que o outro est uns cinco andares acima.  Os gritos de alegria esto ficando mais altos. 
Bem naquele momento, o elevador dois comea a descer e eu vejo, empoleirado por cima do teto do elevador, entre os cabos e garrafas vazias de cerveja Colt. 45, Gavin 
McGoren Jr. , aluno do curso de cinema, fantico por Matrix, surfista de elevador inveterado. 
 - Gavin! - grito quando o elevador dois desliza por mim. Diferentemente de mim, ele est em p, preparando-se para pular do teto do elevador um que vai passando 
ao lado. - Desa da agora mesmo! 
Gavin me lana um olhar assustado, ento solta um resmungo quando me reconhece entre os cabos. Vejo vrios braos e pernas se agitando para dentro do elevador pelo 
painel de manuteno para no serem identificados por mim. 
 - Ah, merda - Gavin diz, porque ele no foi to rpido quanto os amigos para escapar. - Me pegaram! 
 - Voc est to ferrado que vai dormir no parque hoje  noite - garanto a ele, apesar de ningum nunca ter sido expulso do prdio por fazer surfe de elevador... 
pelo menos at agora. Vai saber, tendo em vista os acontecimentos recentes, se a diretoria no resolver ficar mais rgida a este respeito?  preciso fazer alguma 
coisa ruim de verdade (tipo ameaar o AR do seu andar com um martelo de carne, como um garoto fez no ano passado, de acordo com um arquivo que achei) para ser convidado 
a se retirar do conjunto residencial estudantil. 
E, mesmo assim, o garoto foi aceito novamente no ano seguinte, depois que provar que tinha passado o vero inteiro sob tratamento psicolgico. 
 - Puta que o pariu! - Gavin grita no poo, mas eu nem ligo.  s o Gavin. 
 - Voc acha que isto  engraado? - pergunto a ele. - Voc sabe que duas meninas morreram fazendo isto nas duas ltimas semanas. Mas voc simplesmente acordou hoje 
de manh com vontade de dar uma surfadinha? 
 - Elas eram umas amadoras - Gavin diz. - C sabe que eu s bom, Heather. 
 - Eu sei que voc  um idiota - respondo. - E pare de falar como se voc fosse de Bed-Stuy, na periferia, todo mundo sabe que voc foi criado em Nantucket, que 
 bem chique. E se voc no estiver na sala da Rachel quando eu chegar l embaixo, vou mandar trocar a fechadura da porta do seu quarto e confiscar todas as suas 
coisas. 
 - Merda! - Gavin desaparece, deslizando atravs do teto do elevador e recolocando o painel de volta no lugar. 
O elevador dois comea sua longa descida at a recepo, e eu fico l sentada um instante, saboreando a escurido e a ausncia de barulho. Eu gosto do poo dos elevadores. 
 um dos lugares mais tranqilos de todo o alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil). 
Bom, pelo menos, quando no tem gente caindo neles. 
Quando eu volto para dentro do elevador (e nenhum juiz me daria nota dez pela decida), Cooper est parado em um canto da cabine, os braos cruzados por cima do peito 
largo, o rosto contorcido em uma careta de zombaria. 
 - O que foi aquilo? - ele pergunta quando eu estico a mo para a alavanca de controle e comeo a nos conduzir de volta ao trreo. 
 - Foi s o Gavin - respondo. - Ele faz isto o tempo todo. 
 - No me venha com essa - Cooper parece bravo de verdade. - Voc fez isto de propsito. Para me mostrar como um verdadeiro surfista de elevador , e para eu ver 
como as meninas mortas no se encaixam na descrio. 
Fico olhando estupefata para ele. 
 - Ah, foi isso mesmo - digo. - Voc acha que eu combinei isso tudo com o Gavin? Voc acha que eu j sabia que voc ia aparecer para esfregar a notcia do noivado 
do meu ex na minha cara, e da eu liguei para Gavin e falei assim: "Ei, por que voc no vai dar uma voltinha no elevador dois e eu subo para pegar voc e mostrar 
para meu amigo Cooper a diferena entre surfistas de elevador de verdade e amadores? "
Cooper parece levemente confuso... Mas no pela razes que eu acho. 
 - Eu no vim aqui esfregar na sua cara - ele diz. - Eu s queria ter certeza de que voc estava sabendo antes que algum reprter da Star desse a notcia para voc. 
Percebo que fui um pouco dura demais, e digo: 
 - Ah, . Voc tinha dito. 
 -  - Cooper responde. - Disse sim. Ento. Voc sempre faz isso? Fica em p no teto do elevador? 
 - Eu no estava em p. Estava sentada - explico. - E s fao isso quando algum informa que ouviu algum aluno brincando no poo dos elevadores. O que  mais uma 
razo por que  tudo to estranho em relao a Elizabeth e Roberta. Ningum informou que tinha escutado nada. Bom, at Roberta cair... 
 - E  voc que tem que ir atrs dele? - Cooper pergunta. - Quando algum ouve a baguna? 
 - Bom, a gente no pode pedir para os ARs. Eles so alunos. E a tarefa no est no contrato do sindicato dos funcionrios da manuteno. 
 - E est no seu? 
 - Eu no sou sindicalizada - lembro a ele. No posso evitar ficar me perguntando aonde ele que chegar. Quer dizer, ser que ele est mesmo preocupado comigo? E 
se estiver, ser que  s como amiga? Ou ser que tem alguma coisa a mais? Ser que ele vai apertar o boto de emergncia para parar o elevador e me tomar nos baos, 
sussurrando cheio de luxria que ele me ama e que a idia de me perder faz o sangue dele gelar? 
 - Heather, voc pode se machucar muito srio, ou at se matar, fazendo uma coisa to idiota dessas - ele diz, deixando bem bvio que a coisa de me tomar nos braos 
no vai acontecer. - Como  que voc pode... - Ento os olhos azuis dele se transformam em fendas quando ele me examina com mais ateno. - Espera um pouco. Voc 
gosta disso. 
Fico olhando estupefata para ele. 
 - O qu? - sim, sou eu. A senhorita pau para toda obra. 
 - Gosta sim - ele sacode a cabea, surpreso. - Voc gostou mesmo de fazer isso a, no foi? 
Dou de ombros, sem ter muita certeza do que ele est falando. 
 -  mais divertido do que fazer a folha de pagamento - respondo. 
 - Voc gosta - ele continua, como se eu no tivesse dito nada - porque sente falta da emoo de ficar na frente de milhares de garotos cantando o mais alto que 
consegue. 
Fico olhando para ele durante um ou dois segundos. Ento caio na gargalhada. 
 - Ai, meu Deus - consigo articular, entre as risadas. - Voc est falando srio? 
S que, pela cara dele, eu sei que est. 
 - Pode rir o quanto voc quiser - ele diz. - Voc detestava cantar aquela bobajada que a gravadora dava para voc cantar, mas adorava se apresentar. No tente negar. 
Voc ficava toda emocionada. - Os olhos azuis dele me espiam. - O negcio  este, no ? Ir atrs de assassinos e de surfistas de elevador. Voc est sentindo falta 
da emoo? 
Paro de rir e sinto o meu rosto corar e esquentar de novo. No sei do que ele est falando. 
Bom, tudo bem, talvez eu ficasse um pouco emocionada sim. Eu no sou dessas pessoas que ficam nervosas por se apresentar na frente de um multido. Se me pedirem 
para bater um papo furado com trinta pessoas em um coquetel,  a mesma coisa que me pedirem para definir o teorema de Pitgoras. Mas se me pedirem um set list e 
me colocarem na frente de um microfone, no tem problema nenhum. Alis... 
Bom, eu meio que gosto. Muito. 
Ser que eu sinto falta? Talvez um pouco. Mas no o bastante para voltar. Ah, no, eu nunca poderia voltar. 
A menos que seja de acordo com os meus termos. 
 - No foi por isso que eu vim atrs do Gavin - digo. Porque, de verdade, no vejo relao. Ir atrs de um surfista de elevador no tem nada a ver com se apresentar 
para milhares de pr-adolescentes aos berros. Nada mesmo. Alm do mais, eu j no recebo avaliao psicolgica bastante de Sarah todos os dias? Ser que eu tambm 
preciso ser analisada por Cooper? - Ele poderia ter se matado ali... 
 - Voc poderia ter se matado ali. 
 - No, no poderia - digo com a minha voz mais razovel possvel. - Eu tomo muito cuidado. Agora, falando de... como foi mesmo que voc disse? Ir atrs de assassinos? 
Eu j disse, no acredito que aquelas meninas foram... 
 - Heather. - Ele sacode a cabea. - Por que voc simplesmente no liga para o seu agente e pede para ele marcar um show para voc? 
Meu queixo cai. 
 - O qu? Do que  que voc est falando? 
 -  obvio que voc est louca para voltar para o palco. Respeito o fato de voc querer um diploma de faculdade, mas o ensino superior no  para todo mundo, sabe 
como . 
 - Mas... - No d para acreditar no que eu estou ouvindo. Minha ala de hospital! Meu prmio Nobel! Meu encontro amoroso com ele! Nossa agncia de investigao conjunta 
e os nossos trs filhos (Jack, Emily e a pequena Charlotte)! - Eu... eu no tenho como! - Grito. Ento me prendo  nica desculpa que posso dar. - No tenho msicas 
suficientes para um show. 
 - Voc poderia ter me enganado - Cooper diz com os olhos fixos nos nmeros dos andares por que vamos passando numa velocidade estonteante, 14, 12, 11... 
 - O qu... o que voc quer dizer? - gaguejo, meu sangue repentinamente gelado. Ento,  verdade. Ele ouve quando eu ensaio. Ouve sim! 
Mas agora  a vez de Cooper parecer pouco  vontade. Pela careta que ele faz, fica bem claro que preferiria no ter dito nada. 
 - Deixa para l - ele diz. - Esquece. 
 - No. Voc quis dizer alguma coisa com isso. - Por que ele simplesmente no confessa? Confessa que ouviu? 
Eu sei por qu. Eu sei por qu, e isso me faz ter vontade de morrer. Porque ele detesta. As minhas msicas. Ele ouviu todas elas, e acha que so uma porcaria. 
 - Fala o que voc quis dizer. 
 - Deixa para l. - ele responde. - Voc tem razo. Voc no tem msicas suficientes para um show. Esquea que eu disse algo. Certo? 
O elevador chega ao trreo. Cooper puxa a grade e segura para mim, parecendo menos educado e mais com cara de assassino. 
Que beleza. Agora ele est bravo comigo. 
Estamos parados na recepo e como ainda  bem cedo (para os garotos de 18 anos, de todo modo), somos os nicos que esto por l, com exceo de Pete e da recepcionista, 
sendo que o primeiro est absorto em um exemplar do Daily News e a segunda, escutando vidrada um CD do Marilyn Manson. 
Eu devia simplesmente perguntar para ele. Perguntar logo de cara. Ele no vai dizer que  uma porcaria. Ele no  o pai dele. Ele no  o Jordan. 
Mas o negcio  exatamente este. Eu agento criticas do pai de Cooper. Agento do irmo dele. Mas, de Cooper? 
No. No, porque se ele no gostar... 
Ai, meu Deus, pare de ser uma bebezona e PERGUNTE LOGO. SIMPLESMENTE PERGUNTE. 
 - Heather - Cooper diz, passando a mo pelo cabelo escuro. - Veja bem, eu s acho que... 
Mas antes que eu tenha oportunidade de escutar o que ele acha, Rachel aparece na ponta do corredor. 
 - Ah, voc est a - Rachel diz quando repara em ns. - Gavin est na minha sala de reunio. J vou l falar com ele. Muito obrigada por faz-lo descer. Mas, enquanto 
fao isso, Heather, ser que voc pode pedir para um funcionrio estudantil ir colocar estes psteres aqui em todos os andares? 
Rachel me entrega uma pilha enorme de papel. Olho para os psteres e vejo que so um anncio para um concurso de dublagem que o governo estudantil resolveu promover 
no refeitrio do conjunto Fischer depois do jantar. 
 - No comeo, eu no ia deixar - Rachel parece sentir necessidade de explicar. - Quer dizer, organizar uma coisa to boba quanto um concurso de dublagem no contexto 
de duas mortes to trgicas... mas Stan acha que os garotos esto precisando de alguma coisa para se distrair. E a nica coisa que eu pude fazer foi concordar. 
Stan. Uau. Rachel com certeza est ficando ntima do chefe. 
 - Para mim, parece bom - digo. 
 - Eu estou indo at o refeitrio pegar um caf antes de ter que encarar o Gavin. - Rachel mostra a caneca dela da Associao Americana do Aconselhamento e do Desenvolvimento. 
- Algum quer vir comigo? 
Ela diz isto para ns dois, mas com o olhar fixo em Cooper. Ai, meu Deus. Rachel acabou de convidar Cooper para tomar caf com ela. O meu Cooper. 
Mas  claro que ela no sabe que ele  meu Cooper. Ele no  o meu Cooper. E do jeito que as coisas parecem estar indo, provavelmente nunca vai ser... 
Diga no. Tento enviar ondas telepticas para o crebro dele, igual em Jornada nas Estrelas. Diga no. Diga... 
 - Obrigado, mas no posso - Cooper responde. - Preciso trabalhar. Sucesso! 
Rachel sorri e diz: 
 - Talvez alguma outra hora, quem sabe? 
 - Claro - ele responde. 
E Rachel sai estalando os saltos. 
Quando ela se vai, digo, sem demonstrar nenhum sinal de que, segundos antes, eu estava usando minha mente vulcana para controlar a dele: 
 - Olha, precioso voltar ao trabalho. - Espero que ele no v tocar no assunto que estvamos discutindo agora mesmo no elevador. Acho que eu no ia conseguir agentar. 
No depois do anncio do noivado de Jordan. Sabe como , uma garota tem um limite do que consegue suportar em um nico dia. Talvez ele sinta isso. Ou ele sente 
ou entende a dica quando eu no cruzo o olhar com o dele. 
De todo modo, a nica coisa que diz : 
 - Certo. Ento, a gente se v mais tarde. E, Heather... 
Meu corao d um salto. No, Por favor, agora no. Passou perto. Eu passei to perto de escapar... 
 - O anel - ele diz. 
Espera. O qu? 
 - Anel? 
 - De Tania. 
Ah, o anel de noivado de Tania! Aquele que parece exatamente igual ao que eu joguei na cara do irmo dele! 
 - H? 
 - No  o seu - Cooper diz. 
E ento vai embora. 

14
Voc acha que ela tem
Tanta sofisticao
Eu acho que ela s
Est precisando de medicao

Por que voc foi
Escolher ela em vez de mim
J que ela sempre precisa
Fazer tanta terapia? 

O que ela tem que eu no tenho? 
O que ela d que no dou? 
Como ela virou sua namorada
Em vez se 
Mim? 

"O que ela tem? "
Interpretada por Heather Wells
Composta por O"Brien/Henke
Do lbum Vigiando a seu corao
Gravadora Cartwright

Na verdade,  bastante apropriado que o governo estudantil resolva fazer um concurso de dublagem no conjunto Fischer. Porque, vamos encarar, a Faculdade de Nova 
York  cheia de jovens que, como eu, adoram dar show. 
E  provavelmente por isso que me pediram para ser uma das juradas, honra que aceitei imediatamente. Mas no porque eu estava precisando (como Cooper sugerira) sentir 
a emoo de me apresentar de novo, mas porque achei que, se eu quisesse mesmo encontrar o misterioso Mark/Todd (se, de fato, ele existe) teria de ser em algum evento 
social no conjunto Fischer, j que o cara evidentemente mora no prdio. 
E que possivelmente tambm trabalha l, como o investigador Canavan tinha sugerido (s para me irritar, eu sei). 
Parecia bem impossvel que qualquer uma das pessoas com quem eu trabalhava fosse um assassino. Mas de que outra maneira explicar o aparente acesso ao armrio das 
chaves? Isso sem mencionar o fato de que a ambas meninas mortas tinham ficha na sala da diretora do conjunto residencial estudantil. No que isso tivesse necessariamente 
alguma coisa a ver com as mortes. Mas, como Sarah sem dvida teria colocado, tanto Elizabeth quanto Roberta tinham problemas... 
E esse problemas tinham sido registrados na ficha delas. 
O negcio  que todos os ARs, alm dos funcionrios da manuteno, tm chaves para entrar na sala que eu e Rachel usamos. Ento, se algum est examinando as fichas 
para encontrar garotas potencialmente frgeis que pudessem ser seduzidas com facilidade, ento tem de ser algum que eu conheo. 
Mas quem? Quem eu conheo que pode ser capaz de fazer algo assim to pavoroso? Um dos ARs? Entre os 15, sete so garotos, e no considero nenhum dele especialmente 
galanteador, muito menos tm cara de assassino psictico. Na verdade, de acordo com a tradio dos ARs, todos so meio nerds, daquele tipo que acredita mesmo nos 
residentes quando eles afirmam que estava fumando cigarro de cravo, no maconha.  srio, eles no sabem a diferena. Alm do mais, todo mundo no prdio inteiro 
sabe quem so os ARs. Quer dizer, na hora do jantar, eles fazem palestras sobre sexo seguro e essas coisas. Se Mark ou Todd fossem um AR, Lakeisha saberia s de 
olhar. 
No que diz respeito aos funcionrios da manuteno, pode esquecer. Todos so hispnicos e tm mais de cinqenta anos, e s o Julio falarem ingls suficiente para 
ser compreendido por algum que no  bilnge. Alm do mais, todos trabalham no conjunto Fisher h anos. Por que de repente, agora, iam comear a matar pessoas? 
O que,  claro, faz sobrar apenas as mulheres que trabalham ali. Devido  conscincia das diferenas, eu deveria inclu-las na minha lista de suspeitos... 
S que nenhuma delas poderia ter deixado a camisinha do quarto de Roberta. 
Mas acho que eu sou a nica pessoa que acha estranho duas meninas (que tinham ficha na minha sala, e que por acaso tinham arrumado um namorado no espao de uma semana 
entre uma e outra) terem resolvido fazer surfe de elevador de maneira aleatria, e dai mergulharem para a morte mais ou menos na mesma hora que a chave das portas 
dos elevadores desapareceu, s para reaparecer pouco depois da descoberta de pelo menos um dos corpos. 
E  por esta razo que, s sete horas daquela noite, eu saio da casa de Cooper sem me fazer notas. No ouvi um pio da parte dele desde o incidente do elevador de 
manh, o que para mim  timo porque, francamente, no sei o que vou dizer para ele quando ns voltarmos a nos encontrar. 
E tambm  por esta razo que eu acabo esbarrando em Jordan Cartwright, que est subindo os degraus da entrada. 
 - Heather! - ele exclama. Est usando uma daquelas camisas bufantes (sabe quais, do tipo que eles tiram sarro no Seinfeld) e cala de couro. 
Sim. Sinto muito em dizer. Cala de couro. 
E o pior  que ele ainda fica bem bonito com ela. 
 - Eu vim aqui para ver como vocs estava - ele diz com uma voz que denota preocupao relativa  minha sade mental. 
 - Estou bem - respondo, puxando a porta para fechar e trancando as fechaduras. No me pergunte por que temos tantas trancas, j que temos alarme, um cachorro e 
o nosso prprio programa de vigilncia rastafri. Mas tanto faz. 
 - Boa noite - um dos traficantes diz. 
 - Muito obrigada - respondo ao traficante. Para Jordan digo: - Desculpa, mas agora eu no tenho tempo para bater papo. Tenho um compromisso. 
Jordan desce os degraus atrs de mim. 
 -  s que - ele diz - , no sei se voc est sabendo. Sobre Tanie e eu. Eu queria contar para voc outro dia, mas voc estava to adversa... Mas eu no queria 
que voc ficasse sabendo assim, Heather - o Jordan diz, andando no meu ritmo enquanto eu praticamente corro no calada. - Juro. Eu queria que voc ficasse sabendo 
da minha boca. 
 - No se preocupe com isso, Jordan - digo. Por que ele no se manda? - Mesmo. 
 - Ei. - Um dos traficantes de drogas bloqueia o nosso caminho na calada. - Voc no  aquele cara? 
 - No - Jordan responde ao traficante. Para mim, ele diz: - Heather, ande mais devagar, a gente precisa conversar. 
 - A gente no tem nada para conversar - eu garanto a ele, com minha voz mais animada. - Eu estou bem. Est tudo bem. 
 - Tudo no est bem - Jordan exclama. - Eu no agento ver voc sofrendo desse jeito! Est me dilacerando por dentro... 
 - Ei, voc - digo para o traficante que est nos seguindo. - Este aqui  o Jordan Cartwright. Sabe qual, do Easy Street. 
 - O cara do Easy Street! - o traficante grita, apontando para Jordan. - Eu sabia! Ei, olhem! - Ele grita para os amigos. -  o cara do Easy Street! 
 - Heather! - Jordan  engolido por uma multido caadores de autgrafos. - Heather! 
Eu continuo caminhando sem olhar para trs. 
Bom, o que exatamente eu deveria fazer? Quer dizer, ele est noivo. NOIVO. E no de mim. 
O que h para ser dito? Alm do mais, at parece que no tenho nada mais importante para fazer agora. 
Rachel parece meio surpresa de me ver entrar pelas portas do conjunto Fischer  noite. Ela est parada na recepo quando eu entro, e os olhos dela ficam meio esbugalhados. 
 - Heather - ela exclama. - O que voc est fazendo aqui? 
 - Eles me pediram para ser a jurada - respondo. 
Por alguma razo, ela parece aliviada. Percebo por que um segundo depois. 
 - Ah, meu Deus, mais uma jurada para o concurso de dublagem! Que maravilha! Eu estava mesmo torcendo para eu e Sarah no termos que julgar sozinhas. E se tiver 
empate? 
 - Heather - Jordan entra de supeto no prdio. 
Por toda a nossa volta, pessoas perdem a respirao ao reconhec-lo imediatamente. Da os cochichos comearam: "Aquele  o... no, no pode ser. No,  sim! Olhe 
s para ele! "
 - Heather - ele diz, andando rpido em nossa direo. As correntes de ouro dele sobem e descem por baixo da camisa bufantes enquanto ele arfa. - Por favor. A gente 
precisa conversar. 
Eu me viro para Rachel, que est olhando para Jordan com olhos ainda mais esbugalhados do que quando eu entrei. 
 - Aqui est mais um jurado para voc - digo a ela. 
E  assim que eu e Jordan acabamos sentados na primeira filha de cerca de trezentas cadeiras do refeitrio, de frente para o buf fechado de saladas e grelhados, 
com pranchetas no colo. D para imaginar como isso torna difcil para Jordan conseguir conversar comigo sobre o nosso relacionamento, como ele est desesperado para
fazer.
Mas para mim est timo. Quer dizer, a verdade  que eu s estou aqui para ir  caa do misterioso Mark/Todd, e o fato de ser jurada no ajuda muito neste quesito. 
Mas se isso ajuda no ter que ficar escutando o Jordan se desculpar, est timo. S que eu no imagino por que ele se importa com o que eu penso dele, j que deixou 
to perfeitamente claro que no quer mais ficar comigo... talvez Sarah possa explicar. 
Os estudantes esto todos ouriados por causa de Jordan. No sabiam que teriam uma celebridade como jurado. (Eu no conto. Os pouco estudantes que me reconheceram 
no comeo do semestre no deram a mnima. Nesta noite, s querem saber de Jordan... apesar de eu achar que alguns esto tirando sarro dele, por causa da camisa bufante 
e do Easy Street e tudo mais. ) A presena dele de fato parece conferir ao concurso uma legitimidade que no tinha antes. Tambm parece deixar os concorrentes ainda 
mais nervosos. 
H um sistema de luz e som elaborado montado por cima do buf de salada, e todo os alunos esto circulando por ali, conversando e se entupindo de salgadinhos e refrigerantes 
grtis. Procuro casais, tentando destacar qualquer menino e menina que estaja conversando de pertinho, imaginando se Mark ou Todd vai atacar de novo, porque neste 
lugar, o sortimento de calouras est bem farto. 
Mas s vejo grupos de alunos, meninos e meninas, brancos, negros, de todos os tipos, com cala larga e camiseta, gritando alegres uns para os outros, e jogando Doritos 
para cima. 
Hmm, Doritos. 
Sarah, sentada ao lado de Jordan, no consegue desgrudar os olhos dele. Fica fazendo perguntas inquisitivas a respeito da indstria musical, as mesmas que fez para 
mim quando me conheceu. Como se ele no se sentiu vendido quando fez aquele comercial para a Pepsi? E se ele no achou que se apresentar no intervalo do campeonato 
de futebol americano foi degradante para o status de msico dele? E ser que ele se considera msico? No ficava incomodado de saber cantar, mas no saber tocar 
nenhum instrumento? Isso no significava, de certa maneira, que ele no era msico coisa nenhuma, mas simplesmente um artefato que a gravadora Cartwright usava para 
transmitir sua mensagem de ganncia corporativa? 
Quando as luzes se apagaram o presidente estudantil do conjunto residencial, Greg, se levanta para dar as boas-vindas a todo mundo, j estou at sentindo um pouco 
de pena do Jordan. 
Ento a primeira apresentao comea, um trio de garotas dublando a msica mais nova de Christana Aguilera, com coreografia e tudo. Com as luzes apagadas, d para 
eu examinar o pblico sem parecer assim to bvia. 
H muitos estudantes aqui. Quase todos os assentos esto ocupados, e cabem quatrocentas pessoas no refeitrio. H ainda pessoas em p no fundo do salo, torcendo 
e aplaudindo e, de maneira geral, agindo como jovens de 18 anos longe de casa pela primeira vez. Alm de mim, Jordan est olhando para as candidatas a Christina 
Aguilera, agarrando a prancheta com muita fora. Para algum que foi forado a assumir aquela funo, ele parece estar levando a tarefa bem a srio. 
Ou talvez s esteja fingindo interessa para evitar que Sarah faa mais perguntas. 
O primeiro ato acaba com um movimento de moer os quadris e um quarteto de garotos pula para os refletores. Uma linha de baixo bem pesada comea a sacudir as paredes 
do refeitrio (esto interpretando "Bye Bye Bye" do "N Sync) e eu sinto pena dos visinhos do conjunto Fischer, um dos quais uma igreja episcopal. 
Os meninos do tudo de si na performance. Acertaram cada passo da coreografia, tanto que eu praticamente fao xixi nas calas de tanto rir. 
Percebo que Jordan no est rindo nem um pouco. Parece que ele no compreende que os meninos esto zombando das boy bands.  Ele est fazendo uma avaliao de originalidade 
e de o quanto eles sabem mesmo a letra com muito cuidado. 
 srio. 
Dou uma olhada por cima da minha prancheta e dou a nota aos meninos (levam na maior parte notas cinco de dez, porque no esto vestidos a carter) e vejo um homem 
alto entrando no refeitrio, as mos enfiadas bem no fundo dos bolsos da cala cqui. 
No comeo, fico achando que  o reitor Allington. Mas o reitor nunca anda de cala cqui, ele prefere, como j mencionei antes, calas de sarja brancas. O recm-chegado 
est muito bem vestido para ser o reitor. 
Mas quando ele entra no feixe de luz que sai da mquina de Coca-Cola, percebo que  Christopher Allington, filho do reitor. Minha confuso  compreensvel. 
No  raro Christopher dar uma passada por ali. Quer dizer, apesar de ele ter a vaga no alojamento da faculdade de direito, os pais dele moram neste prdio. Ele 
provavelmente apareceu para fazer uma visita e parou no refeitrio para ver o que era toda aquela confuso. 
Mas quando ele se desloca na direo de um grupo de alunos encostado em uma parede mais do outro lado e comea a puxar papo como quem no quer nada, comeo a imaginar. 
O que exatamente Chritopher est fazendo aqui? Ele  estudante de direito, j passou por este estgio da graduao. 
Pete tinha me contado que, quando os Allington vieram da universidade onde o reitor Allington trabalhava antes de algum do Indiana, houve o maior bafaf devido ao 
fato de a pontuao de Christopher no LSAT * no ter sido alta o bastante para ele ser admitido na Faculdade de Nova York. Parece que o pai dele precisou dar um 
jeitinho e usar toda a influncia que tinha para ele conseguir entrar. 
Mas, bom, com uma me alcolatra e um pai que anda de camiseta regata na frente de todo mundo, o coitado do rapaz provavelmente no herdou muito talento da famlia, 
e estava mesmo precisando de ajudinha extra. 
O "N Sync chega ao fim e ento um imitador de Elvis d uma canja. Durante sua interpretao de "Viva Las Vegas", s para ter algo para ter algo melhor para fazer, 
fico observando Christopher Allington se misturar  multido. Ele abre caminho no meio do pessoal at se acomodar em uma cadeira atrs de uma fileira toda de meninas. 
So todas calouras (d para ver pelas risadinhas meio sem jeito delas). Ainda no entraram muito no clima da Faculdade de Nova York, como comprovam os rostos desprovidos 
de piercings, os cabelos sem tintura e as roupas da Gap. Uma delas, um pouco mais sofisticada que o resto, vira na cadeira e comea a conversar com Christopher, 
que se inclina para a frente para escutar melhor. A menina sentada ao lado dela se recusa veemente a participar da conversar e mantm o rosto virado para frente. 
Mas d para ver que ela est escutando tudinho. 
Elvis termina e recebe aplausos respeitveis, e ento Marnie Villa Delgado (isso mesmo, a colega de quarto de Elizabeth Kellogg) sobe ao palco. Todo mundo aplaude 
com fora extra. Tento imaginar que a ovao no tem relao com o de ela ter conseguido um quarto s para si pelo restante do semestre. 
Marnie, com uma peruca loira comprida e cala jeans de cintura baixa, faz uma mesura educada. Ento comea a interpretar uma msica vagamente familiar. No comeo, 
no consigo localiz-la. S sei que  uma msica de que eu no gosto muito... 
E da eu percebo. "Vontade de te comer". Marnie est se entregando completamente  cano que tomou conta de todos os lares do pas... h 13 anos. Isto , todos 
os lares que tinham uma pr-adolescente. 
Jordan, do meu lado, tem um ataque de riso. Alguns dos alunos que conhecem o meu passado riem junto com ele. A prpria Marnie d um olhar de canto para mim enquanto 
dubla os versos "No venha me lembrar do meu regime / Voc s tem que entrar no meu time"
Sorrio e tento no parece to pouco  vontade quanto me sinto. Ficar olhando para Christopher ajuda. Ele continua batendo papo com as meninas da fileira  frente 
dele. Finalmente conseguiu atrair a ateno da tmida que, apesar de no ser bonita, tem o rosto mais interessante do que ao da colega mais atirada. Ela se vira 
na cadeira e sorri tmida para o Christopher, abraando os joelhos junto ao peito e tirando do rosto cachos de cabelo avermelhado. 
L em frente, Marnie joga o cabelo loura da peruca (sem falar nos quadris) de um lado para o outro, de um jeito que faz a platia achar hilrio, e que eu s posso 
tocer para no ser uma imitao exata de mim. 
E  a que me bate, do nada, que Christopher Allington pode ser Mark.  Ou Todd. 

15
Voc  um furaco
Que sopra no meu corao
Mas voc  um furaco
Que no termina o que comea

Voc arrasa com tudo
No seu caminho
Acha que voc vai
Rir por ltimo
Voc  um furaco
Que est me soprando
Para longe

"Furaco"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vigiando o seu corao
Gravadora Cartwright

Acho que d para dizer que meu sangue gelou. 
Tudo bem, no literalmente. Mas parece que algum jogou um monte de Coca Light bem gelada nas minhas costas, ou algo assim. 
De repente, a palma de minhas mos est to suada que mal consigo segurar a prancheta. Meu corao comea a martelar descompassado, igual aconteceu quando eu cantei 
para o pai de Jordan as msicas que eu tinha escrito sozinha e ele riu de mim. 
Christopher Allington? Christopher Allington? De jeito nenhum. 
Tirando o fato de que... 
Tirando o fato de que Christopher Allington tem acesso total ao conjunto Fischer. Ele nunca precisaria assinar o livro de entrada nem de sada e tem autoridade para 
entrar na sala da diretora sempre que quiser. Sei disso porque uma vez os ARs estavam reclamando de como nunca tinha papel na mquina de fotocpia na segunda-feira 
de manh, Rachel disse que era porque Christopher Allington sempre pedia para um dos homens da manuteno deix-lo entrar na nossa sala na noite de domingo para 
ele fazer cpia das anotaes dos amigos. 
Ento, ele poderia ter examinado os arquivos de Rachel  vontade, passando um pente fino para encontrar possveis vtimas, meninas que cairiam com facilidade na 
lbia dele, meninas sem muita experincia, que ele pudesse seduzir. 
E da ele se decidia a conhec-las, dando incio a conversas inocentes e se apresentando com um nome falso... tudo para conseguir uma transa sem muita confuso. 
 como se ele tivesse um harenzinho prprio de calouras dispostas s para escolher! 
Meu Deus.  diablico.  genial. ... 
Totalmente a maior viagem. Cooper ia tirar o maior sarro desta idia.  Mas Cooper no est aqui... 
E Christopher Allington  muito charmoso. Tem mais de 1, 80m com um cabelo loiro meio compridinho que ele usa repicado para trs, tem um o visual de garoto de... 
bom, um cara de uma boy band. Que caloura no ficaria mais do que contente a ateno dele... to contente a ponto de transar com ele depois de um perodo relativamente 
curto? Meu Deus, ele  fofo, mais velho, sofisticado... Qualquer menina de 18 anos ficaria maluca por ele. Qualquer moa de 28 anos ficaria maluca por ele. O cara 
 o mximo. 
Mas por que ele as matou? Catar menininhas  uma coisa, mas depois matar? Isso no vai contra o motivo inicial? Se elas esto mortas, no d para catar de novo. 
E o mais importante: como ele as matou? Quer dizer, eu sei como (isso se, de fato, elas foram mortas), mas como foi que ele conseguiu empurrar duas mulheres adultas 
no poo do elevador se, sem dvida, elas tentariam lutar contra ele? Drogas? Mas a, ser que o legista no teria encontrado indcio disso?  Sinto o meu rosto quente. 
Uso minha prancheta para me abanar e volto minha ateno para Marnie. Ela est se preparando para o grand finale, que inclui rotaes de quadril do tipo que no 
vejo desde a ltima apresentao da Shakira no MTV Music Video Awards. Ela com certeza no est me imitando. Sempre fui pssima danarina, para o desespero de todos 
o coregrafos que j conheci. Eu tinha dificuldades, como eles gostavam de destacar, de desconectar o crebro do corpo e simplesmente deixar rolar. 
Marnie faz uma espcie de trejeito  Carly Patterson que termina em um spaccato e faz com que o refeitrio inteiro aplauda de p. Eu tambm me levanto... e comeo 
a andar na direo dela. Lakeisha pode ter se retirado, mas Marnie ainda est aqui e  capaz de confirmar se a colega de quarto dela saiu com Christopher Allington. 
Mas Jordan me segura pelo brao antes que eu tenha andado dois passos. 
 - Aonde voc vai? - ele pergunta, todo preocupado. - Voc no vai sair de fininho antes de a gente conversar, vai, Heather? 
Jordan cheira a Drakkar Noir, o que me desconcentra. Quando ele estava comigo, usava Carolina Herreira For Men, por tanto fica claro que Drakkar Noir foi um presente 
de Tania. 
 - Volto em um minuto - digo, um tapinha reconfortantes no brao dele (bem musculoso). Ele anda puxando ferro para a prxima turn, e d para ver. O efeito  positivo. 
- Juro. 
 - Heather - ele comea, mas eu no deixo que termine. 
 - Eu juro - digo. - Quando isto aqui terminar, a gente bate um papo longo e bacana. 
Jordan parece se acalmar. 
 - Tudo bem - ele diz. - Certo. 
Vejo Marnie atravessar o refeitrio at o outro lado, onde os outros concorrentes se juntaram para esperar a deciso dos jurados, e enquanto o prximo grupo se prepara 
para a apresentao, eu me apresso at ela. 
Marnie tirou a peruca loira e est tirando o suor de baixo dos olhos. Sorri quando v que eu estou me aproximando. 
 - Marnie - digo. - Bela apresentao. 
 - Ah, obrigada - ela diz com um sorriso bobo. - Eu estava preocupada, achei que voc ia ficar brava. Como pode ver, eu finalmente descobri de onde eu conhecia voc. 
 -  - respondo. - Olhe, preciso perguntar uma coisa. Ser que o cara com quem Elizabeth estava saindo antes de morrer... ser que o nome dele era Chris? 
 - No sei. Era alguma coisa assim. Chris ou Mark. 
 - Obrigada - digo. Ela se vira para dizer algo desdenhoso a respeito do trio aspirantes a cantora pop e eu sou obrigada a esticar a mo e puxar a manga dela. 
 - Hmm, Marnie? 
Ela vira a cabea e d uma olhada em mim. 
 - O que foi? 
 - Est vendo aquela menina ali na quinta fileira, umas das cadeiras para dentro, falando com aquela cara loiro? 
 - Aquele cara  fofo. Quem ? 
 - Ento voc no conhece? 
 - Ainda no - ela diz, deixando bem claro que pretende retificar a situao. 
Tento esconder a minha decepo. Talvez, se conseguir colocar as mos em uma foto de Christopher Allington, possa encontrar com Lakeisha a caminho de alguma aula 
e pedir que ela faa a identificao... 
 ento que tenho uma idia. 
 - Voc conhece aquela menina? - pergunto a Marnie. 
Ela aperta os lbios. 
 - Mais ou menos. Ela mora no 12 andar. Acho que o nome dela  Amber ou qualquer coisa assim. 
Amber. Perfeito. Agora eu tenho um nome, e um andar para combinar. Volto para minha cadeira bem quando dois garotos vestidos de mulher se jogam em uma interpretao 
de "Dude Looks Like a Lady", do Aerosmith. Jordan se inclina para o meu lado e sussurra no meu ouvido: 
 - Que histria foi aquela? 
Eu simplesmente sorrio e dou de ombros. No adianta tentar gritar por cima do som e, alm do mais, Sarah est olhando para mim com olhos cheios de crtica por cima 
da prancheta dela. Acho que ela no aprova o fato de eu me confraternizar com os concorrentes, j que isto pode fazer com que eu no seja nada imparcial no meu julgamento. 
Ento fico l sentada em minha cadeira, impotente, enquanto Christopher Allington possivelmente (provavelmente) est passando um papo em sua prxima vtima. Amber 
(at onde posso ver, levando em conta que s consigo capturar vislumbres rpidos dela, porque no quero que parece que estou encarando) parece ganhar vida com as 
atenes de Christopher. Fica brincando com o cabelo castanho-avermelhado e se contorce na cadeira, sorrindo sem parar e, de maneira geral, agindo como uma garoto 
que nunca recebeu ateno de um garoto bonito na vida. Fico observando preocupada, mordendo o lbio inferior, imaginando se amanh de manh vamos encontrar Amber 
no fundo do poo do elevador. 
S que eu realmente no consigo enxergar Christopher como o tipo assassino. O tipo desvirginador, sim. Mas, assassino? 
Mas, bom, o marido da Evita era um garanho renomeado, e eu li em algum lugar que ele matou um monte de gente na Argentina, e era por isso que a Madonna no queria 
que as pessoas chorassem por ela naquela msica.  Finalmente, a dublagem termina. Greg, presidente estudantil do conjunto residencial, sobe ao placo e anuncia que 
os jurados devem dar incio s suas deliberaes. As outras pessoas se levantam e se dirigem para os Doritos (sortudos). Rachel muda a cadeira de lugar, de modo 
que fique de frente para mim, Jordan e Sarah. 
 - Bom - ela diz, sorrindo para mim. - O que vocs acharam? 
Acho que temos um problema, tenho vontade de dizer. Um problemo. Que no tem nada a ver com o concurso. 
Mas, em vez disso, digo: 
 - Eu gostei da Marnie. 
Jordan exclama: 
 -  a sua cara! No, aqueles cara que fizeram a msica do "N Sync eram muito melhores. Eles conseguiram fazer a coreografia direitinho. Eu s dei dez para eles. 
Sarah diz: 
 - A ironia relativa s boy bands que eles fizeram foi mesmo muito divertida. 
 - Hmm - digo. - Eu gostei da Marnie. 
 - E ela passou por tanta coisa - Rachel concorda, com nfase. -  o mnimo que ns podemos fazer, vocs no acham? 
S para fazer com a coisa termine o mais rpido possvel e que eu possa dar uma desculpa para falar com Chris, digo: 
 - Certo, tudo bem. Ento, vamos dar o primeiro lugar para a Marnie, o segundo para o "N Sync e o terceiro para o trio de Christinas. 
Jordan parece um pouco ressentido pelo fato de ns termos basicamente ignorado a opinio dele, mas no discute. 
Rachel sai para informar a nossa deciso ao Greg, e eu me viro na cadeira para espiar Christopher mais um pouco... 
... bem a tempo de v-lo sair com um brao envolvendo os ombros de Amber como quem no quer nada. 
Disparo para fora da minha cadeira, sem falar nem uma palavra para Jordan nem para ningum. Ouo quando ele me chama, mas no tenho tempo a perder com explicaes. 
Christopher e Amber j esto no meio da sala de TV. Se eu no agir rpido, pode ser que esta menina termine como uma mancha no cho da casa das mquinas do elevador. 
Mas ento, para minha surpresa, em vez de se virarem na direo dos elevadores, eles saem pelas portas da frente do prdio. 
Vou atrs deles correndo atravs dos grupos de alunos reunidos na recepo.  noite  a hora em que o conjunto residencial realmente ganha vida. Residente que nunca 
vi antes esto debruados sobre o balco, conversando com o funcionrio estudantil de planto. O guarda (que no  Pete, que trabalha durante o dia) est incomodando 
um grupo de garotos que dizem conhecer algum no quinto andar, mas no lembram o nome da pessoa. Por que o guarda no pode simplesmente ser legal e deixar que eles 
entrem? 
Passo como um raio por todos eles, escancaro as porta e saio aos tropees para a noite quente de outono. 
Washington Square Park  coalhado de policiais durante a noite, policiais e turistas e traficantes de drogas e jogadores de xadrez, que ficam sentados nos bancos 
da roda do xadrez at o parque fechar  meia-noite, jogando  luz da iluminao urbana. Garotos do ensino mdio de Westchester, com o Volvo dos pais, passam pela 
rua com o rdio no mximo e s vezes incomodam tanto que o carro acaba sendo confiscado pela polcia.  um lugar agitadssimo, e uma das razes por que tantos estudantes 
pedem um quarto com vista para o parque... porque quando no tem nada passando na TV, sempre  possvel ficar vendo o que acontece ali. 
E  exatamente o que Christopher e Amber esto fazendo. Esto apoiados em um dos vasos com plantas do conjunto Fischer, fumando e observando enquanto um policial 
faz uma apreenso do outro lado da rua. Christopher est com os braos cruzados sobre o peito e solta fumaa como se fosse Johnny Depp ou algum assim, enquanto 
Amber est alvoroada igual a um passarinho, segurando o cigarro como algum que no est nem um pouco acostumada a fazer isto. 
No tenho nenhum momento a perder, isso d para ver. Aproximo-me deles, tentando fazer cara de quem no quer nada. Alis, imagino que  assim que Cooper teria lidado 
com a situao. 
 - Ei - digo bem simptica para Christopher. - Pode me arrumar um cigarro? 
 - Claro - ele responde. Tira um mao de Camel Lights do bolso da camisa e me entrega um. 
 - Obrigada - digo. Coloco o cigarro entre os lbios, depois me inclino para que ele o acenda com o isqueiro Zippo que est me oferecendo. Eu nunca fumei. Para 
comear, quando se  cantora, acaba com as cordas vocais. E depois, no sei como  que algum pode achar um cigarro melhor do que uma barra de chocolate Butterfinger, 
ento, se voc vai fazer alguma coisa que no  boa para voc, por que no escolher uma delcia crocante com amendoim? 
Mas fico l parada fingindo tragar, imaginando o que devo fazer em seguida. O que Nancy Drew faria? E Jessica Fletcher? E aquela outra detetive, como era mesmo o 
nome dela? A de Crossing Jordan? Meu Deus, eu sou pssima em investigao. O que vai acontecer depois que eu e Cooper ficarmos juntos? Quer dizer, depois de eu me 
formar e tudo o mais? Como  que ns vamos nos transformar em Nick e Nora Charles, se Nora no consegue dar conta de sua parte na resoluo dos crimes?  uma idia 
muito preocupante. Tento afast-la da mente. 
Do outro lado da rua, os policiais esto prendendo algum bbado que achou que seria divertido se exibir para as pessoas sentadas na roda do xadrez. No sei por que 
alguns homens sentem esta compulso de mostrar a genitlia. E sempre  um cara com o apndice menos interessante de todos. 
Digo isto a Christopher e a Amber. Sabe como , para puxar assunto. Ela parece ficar assustada, mas ele ri. 
 -  - ele diz. - Devia existir uma lei. S bbados com pelo menos 15 centmetros deviam ter permisso de colocar para fora. 
Olho para ele de sobrancelha erguida. Para fora. Ele  meio engraado, esse tal de Christopher Allington. Ser que o Ted Bundy, aquele assassino em srie, tinha 
senso de humor? Parece que sim, pelo menos tinha quando Mark Harmon fez o papel dele naquele filme que eu vi no canal Lifetime... 
Do outro lado da rua, o bbado berra insultos para os policiais que o algemaram, e algumas pessoas na roda do xadrez devolvem os gritos para ele. Sabe como , os 
jogadores de xadrez no so nem de longe to educados quando a mdia os faz parecer. 
 - Caramba - diz Amber, quando uma frase especialmente cabeluda chega aos nossos ouvidos. - Com certeza na minha terra ningum fala assim com a polcia. 
 - E de onde  que voc vem? - pergunto a ela, batendo a cinza do cigarro, despreocupada, na calada. Pelo menos, espero parecer despreocupada. 
 - De Boise, em Idaho - ela responde, como se existisse mais de uma cidade chamada Boise. 
 - Boise - repito. - Nunca estive l. - Uma mentira completa. Eu me apresentei no Centro Cvico de Boise para um pblico de cinco mil pr-adolescentes aos berros 
durante a turn de Vontade de te comer. - E voc? - Pergunto a Christopher. 
 - No - ele responde. - Nunca estive em Boise. Ei, eu no conheo voc de algum lugar? 
 - Eu? - tento parecer surpresa. - Acho que no. 
 -  - ele diz - , conheo sim. Ei, voc est cursando direito? 
 - No - responde, batendo mais cinza. Pode at causar cncer e tudo, mas um cigarro, de fato,  um bom acessrio quando a gente que parecer descolada. Por exemplo, 
enquanto se est pegando um possvel assassino. 
 - Mesmo? - Christopher solta a fumaa plida pela narinas. No  justo! Ele sabe truques de fumante! - Porque eu juro que j vi voc em algum lugar. 
 - Provavelmente por aqui mesmo. Eu j vi voc vrias vezes. Voc  o filho do reitor Allington... Christopher, no ? 
Parecia que eu tinha acertado na cara dele com um saquinho de balas em forma de ursinho, pela expresso de surpresa que ele fez. Por um segundo, fico achando que 
ele vai engolir o cigarro. 
Mas ele se recupera bem rapidinho. 
 - Hmm, sou sim - ele responde. Os olhos dele so cinzentos e, por enquanto, ainda demonstram simpatia. - Como  que voc sabe? 
 - Algum me mostrou - digo. - Voc mora aqui? Com seus pais? Isso di. Ele responde com pressa: 
 - Ah, no. Bom, quer dizer, eu moro sozinho, mas  no alojamento da faculdade de direito, ali... 
 - Voc no est na undergrad *? - Amber pergunta. Ela com toda a certeza, no  de entender as coisas muito rpido. - Voc  estudante de direito? 
 - Sou - Christophe responde. Ele no parece to  vontade quando antes de eu me intrometer e soltar minha pequena bomba. Coitado. Ele no sabe que eu tenho mais 
munio na manga. 
 - Eu no sabia que voc era filho do reitor Allington - ela diz, com um certo tom de censura em sua vozinha de Marnie. 
 - Bom, no  algo que eu goste de anunciar - ele balbucia. 
 - E eu achei que voc tinha dito que seu nome era Dave. 
 - Eu disse? - Christopher termina de fumar o cigarro, joga a ponta na calada e apaga com o p. - Voc no dever ter ouvido direito. Estava meio barulhento l dentro. 
Tenho certeza de que disse que meu nome  Chris. 
Do outro lado da rua, os policiais arrastam o bbado sem calas para dentro de uma viatura. Agora esto todos l sem fazer muito coisa, preenchendo formulrios presos 
a pranchetas e bebendo caf que algum trouxe da padaria da esquina. O bbado bate no vidro da viatura, pedindo um pouco de caf tambm. 
Todo mundo ignora. 
Tudo bem, isto aqui est pssimo. Estou me revelando a pior detetive do mundo. Realmente, vou ter de fazer alguns cursos em justia criminal. Sabe como , quando 
eu passar pelo perodo de experincia de seis meses e puder comear a fazer meus cursos de graa. 
 -  uma tristeza, no  mesmo? - pergunto, com uma voz que at eu mesma acho alegrinha demais; parecida com a da Menor-do-que-34 da loja de jeans do outro dia. 
- Como tem gente fracassada nesta cidade, quer dizer. Igual aquele bbado de calas abaixada que foi arrastado pelo meio da rua. Ah, e aquelas meninas idiotas do 
prdio. As que morreram... . Do que foi mesmo? Ah, . Surfe de elevador. D para acreditar que algum pode fazer uma coisa to idiota? Dou uma olhada para Chris 
para ver como ele recebe a referncia direta s vtimas dele. Mas ele no parece nem um pouco perturbado... a menos que voc considere o ato de pegar mais um cigarro 
e acender um sinal de perturbao. O qu, hmm, acho que . De certo modo. Mas no do modo como quis dizer. 
 - Ah - Amber engole em seco, em uma tentativa valente de segurar sua ponta da conversa. -  mesmo! Foi muito triste. Eu conhecia a segunda menina, mais ou menos. 
Uma vez, fiquei presa no elevador com ela. Foi s por um minuto, mas ela estava tendo um ataque, porque odiava altura. Quando me contaram como ela morreu, fiquei 
tipo: O qu? Por que, como  que uma pessoa com tanto medo de altura vai fazer algo assim to perigoso? 
 - Voc est falando de Roberta Pace? - deslizo o olhar na direo de Chris, para ver como ele reage ao nome. 
Mas ele est ocupado conferindo o relgio (um Rolex). E tambm  de verdade, no um daqueles que se compra na rua por quarenta paus. 
 - , o nome dela era este. Meu Deus, no foi triste? Ela era superlegal. 
 - Eu sei - assinto com a cabea em tom grave. - E o que  mais estranho do que ela ter medo de altura e fazer surfe de elevador do mesmo jeito,  que eu ouvi dizer 
que, logo no dia antes de morrer, ela tinha conhecido um cara... 
Mas no consigo terminar minha frase. Porque, bem nessa hora, sinto dedos de ferro se fechando em meu antebrao e sou puxada com fora para trs. 

16
Acordar s dez
Ir para praia e depois
Para o shopping, em uma matin
E no fazer mais nada

Da a gente sai
Anda pela rua e grita
As estrelas enchem o cu
Algum me explica por qu

No pode ser vero todo dia
No pode ser vero todo dia
No pode ser vero todo dia
E eu no posso passar o tempo todo
com voc? 

"Vero"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

Cambaleando, apio a mo para me equilibrar e sinto sob meus dedos as ondulaes inconfundveis de msculos abdominais duros como pedra (formados na academia). 
Ser que tem alguma parte de Jordan Cartwright que no  dura? Incluindo, aparentemente, a cabea dele? 
Ele me arrasta alguns metros para longe de Chris e Amber. 
 - O que voc acha que est fazendo? - Jordan quer saber, arrancando o cigarro da minha mo e pisando em cima dele. - Agora voc est fumando? Alguns meses morando 
com aquele degenerado do Cooper e voc j est fumando? Voc tem idia do que isto pode fazer com as suas cordas vocais? 
 - Jordan... - No acredito que isto est acontecendo. E na frente do me principal suspeito! 
Tento manter a voz baixa, para Chris no escutar. 
 - Eu no estava tragando - sussurro. - E eu no moro com o Cooper, certo? Quer dizer, moro, mas  em um andar diferente. - Ento paro de sussurrar, porque de repente 
fico furiosa. Quer dizer, quem ele acha que , afinal de contas? - E por que isto  da sua conta? Ser que preciso lembrar que vocs est noivo? E no de mim? 
 - Posso estar noivo de outra pessoa, Heather - Jordan diz - , mas isso no quer dizer que eu no me importo... muito... com voc. Sabe como , o papai disse que 
voc ia chegar ao fundo do poo, mas eu no fazia idia. Um cara daqueles, Heather? Srio? Quer dizer, ele tem tanta noo de moda quanto o... - ele d uma olhada 
na cala cqui de Christopher e estremece - Cooper! 
 - No tem nada a ver, Jordan. - Eu olho por cima do ombro. Chris e Amber continuam l, a uma distncia da qual (ainda bem) no conseguem ouvir a nossa voz elevada. 
Chris parece relativamente inabalado pela minha conversa com ele, mas eu reparo que, de ver em quando, os olhos cinzentos dele se voltam em nossa direo. Ser que 
ele est com medo? Com medo que o plano dele tenha sido descoberto? 
Ou ser que ele s est se perguntando onde foi que Jordan comprou a camisa bufante dele? 
 - No olhe - digo baixinho para Jordan. - Mas sabe o cara com quem eu estava falando? Ele pode ser um assassino. 
Jordan olha para Chris. 
 - Quem? Aquele cara? 
 - Eu disse para no olhar! 
Jordan devia o olhar de Chris e fica em vez disso olhando fixamente para mim. Ento estica os braos e me aperta forte contra o peito. 
 - Ah, coitadinha de voc, to fofa - ele diz. - O que o Cooper fez com voc? 
Eu me debato para me livrar do abrao sufocante dele (ou pelo menos para poder fazer sem os plos do peito dele em minha boca). 
 - Isso no tem nada a ver com Cooper - digo, consciente de que o funcionrio estudantil da recepo tenta esconder um sorrisinho sarcstico enquanto nos observa 
atravs da vidraa. - Tem meninas morrendo neste prdio, e eu acho que... 
 - Ento, foi aqui que vocs se esconderam! 
Ns dois damos meia - volta e olhamos de olhos arregalados para Rachel, que tinha sado do prdio sem que nenhum de ns dois notasse. 
 - Vocs perderam a cerimnia de entrega de prmios - Rachel d bronca em ns dois, de brincadeira. - Marnie ficou to feliz de ganhar que at chorou. 
 - Uau - digo, sem o menor entusiasmo. - Que legal. 
 - Vim atrs de vocs dois - ela diz - porque achei que talvez queiram tomar alguma coisa na minha casa... 
Jordan e eu trocamos olhares. Os deles apresentam um brilho de desespero. No sei o que ele enxerga nos meus. Provavelmente confuso. Rachel s tinha me convidado 
para ir para o apartamento dela uma vez antes disto, para tomar uma taa de vinho depois da primeira recepo de calouros do semestre, e eu tinha ficado to pouco 
 vontade no s por, bom, ela ser minha chefe, e eu estar desesperada para fazer todo o possvel para ter certeza de que iria passar pelo perodo de experincia 
de seis meses, mas tambm porque... 
Bom, o apartamento da Rachel  limpssimo. No que eu seja bagunceira nem nada, mas... 
Tudo bem, eu sou um pouco bagunceira. Confesso que tem um monte de coisa socada em meus armrios e embaixo da casa e, bom, por todos os lados. 
Mas, no apartamento de Rachel, tudo fica bem guardadinho. No havia muitos exemplares soltos da US Weekly pelo banheiro, igual tem em minha casa, nem sutis pendurados 
nas maanetas, nem pacotes amassados de rosquinhas Ho Ho no criado-mudo. Parecia que ela estava esperando visita. 
Ou isso ou ela mantm o lugar limpo o tempo todo... 
Mas no. No pode ser verdade, de jeito nenhum. Isso simplesmente no  humano. 
Alm do mais, reparei que seus poucos CDs (bem arrumadinhos em ordem alfabtica) eram de cantores como Phil Collins e Faith Hill. 
PHIL COLLINS. E FAITH HILL. 
No que haja alguma coisa de errado com eles. Alis, so cantores de muito talento. Eu realmente adorei aquela msica "Circle of Life" (de O Rei Leo) nas primeiras 
cinqenta vezes que ouvi... 
 - Para falar a verdade, Rachel - digo com muito cuidado - , eu estou um pouco cansada. 
 - Eu tambm - Jordan fala bem rapidinho. - O dia foi longo. 
 - Ah - ela diz, parecendo decepcionada de verdade. - Quem sabe uma outra hora, ento. 
 - Claro - digo, sem olhar para Jordan porque, de verdade,  tudo culpa dele. Rachel nunca teria me convidado para beber alguma coisa se no fosse ele. Ela tinha 
fingido que no o tinha reconhecido, mas eu ouvi quando um dos ARs deu a dica para ela. Amanh, com certeza vai me encher de perguntas a respeito da disponibilidade 
dele. 
Porque ele ganha MUITO mais do que cem mil por ano. 
 - Bom - eu digo - , a gente se v amanh de manh. 
 - Certo. Boa noite! - Rachel sorri. Para Jordan, ela diz: - Prazer em conhec-lo, Jordan. 
 - O prazer  todo meu - ele responde, quase como se estivesse mesmo sentindo aquilo. 
Ento, pego Jordan pelo brao e o levo para Waverly Place, antes que a conversa fique ainda mais sem jeito, e que ele possa me envergonhar ainda mais na frente das 
pessoas com quem trabalho. 
 - Ai, meu Deus - digo a ele enquanto caminhamos. - O que voc acha que eu devo fazer? Sober a Amber, quer dizer? E se ela for a prxima vtima dele? Nunca vou me 
perdoar... mas eu acabei com as mentiras dele bem na frente dela, com aquele papo de "Dave". Ser que consegui desmascar-lo? Ser que agora ela vai tomar um pouco 
mais de cuidado? Ai, meu Deus. Ser que eu devo chamar a polcia? Mas no tenho nenhuma prova de que  ele. A no ser... A no ser a camisinha que ainda est com 
Cooper! Posso usar como um tipo de chantagem... Como: "Confesse ou eu levo isto aqui para a polcia", algo assim. 
Jordan, ao meu lado, parece horrorizado. 
 - Camisinha? Heather, do que voc... 
 - Eu j disse - digo a ele, batendo o p. - Estou tentando pegar um assassino. Ou, pelo menos, acho que ele  assassino. No d para ter certeza. Seu irmo acha 
que eu tenho a imaginao muito prolfera. Mas voc acha estranho, no acha, Jordan? Duas meninas foram mortas no mesmo nmero de semanas, nenhuma delas com reputao 
de fazer surfe de elevador, e ambas tinham acabado de arranjar um namorado? Quer dizer, voc no acha isso meio estranho? 
Viramos a esquina em Waverly Place e um dos rastafris se aproxima de ns, na esperana, imagino, de que eu finalmente aceite a oferta dele de: "Baseado? Baseado? 
"
Em vez de ignor-lo e responder a minha pergunta, Jordan rosna: "Saia daqui! " para o traficante, que realmente no  uma presena assim to ameaadora. Quer dizer, 
eu sou bem mais alta e provavelmente uns dez quilos mais pesada do que ele. No   toa que o coitado do cara fica to surpreso com a exploso de Jordan. 
E  exatamente quando eu percebo quem est parado na minha frente. No  um amigo. Nem mesmo um conhecido.  o meu ex-namorado. 
 - Ah, deixe para l - digo e largo o brao dele antes de me dirigir para casa.  O nico problema  que Jordan vem atrs de mim. 
 - O que foi que eu fiz? - ele quer saber. - Heather, fale para mim. Sinto muito. Mas  que eu no sei como voc quer que eu reaja. Garotas mortas e camisinhas e 
traficantes. E agora voc fuma. Que tipo de vida  esta, Heather? 
Que tipo de vida? 
Comeo a subir os degraus da casa de Cooper, procurando minha chaves  luz do poste. 
 - Olhe - eu digo, tentando abrir todas as fechaduras o mais rpido possvel. Ciente de que Jordan subiu a escada atrs de mim, e est bloqueando toda a luz que 
vem da rua com a camisa grande e bufante dele. -  a minha vida, certo? Desculpe se ela  confusa. Mas, sabe como , Jordan, voc contribuiu para que ficasse assim... 
 - Eu sei - ele grita. - Mas voc no quis fazer terapia de casal comigo, lembra? Eu implorei... 
As mos pesadas dele seguram os meus ombros, desta vez no para me sacudir, mas para me virar de frente para ele. Fico olhando atordoada para ele, sem conseguir 
distinguir os traos de seu rosto porque o poste atrs dele fez um halo em cima de sua cabea, transformando tudo que est por baixo em um monte de sombras. 
 - Heather - ele prossegue - , todo casal passa por problemas. Mas se no tentarem resolver junto, no d certo. 
 - Certo - respondo, sarcstica. - Como aconteceu com a gente. 
 - Certo - Jordan diz, baixando os olhos em minha direo. No consigo ver os olhos dele, mas mesmo assim sinto seu olhar queimando em cima de mim. Alis, por que 
ele est olhando para mim deste jeito? Como se... como se... 
 - Ah, no - eu digo, dando um passo desajeitado para trs e batendo direto na porta. A maaneta machuca minha costas. - Jordan... O que voc est fazendo aqui? 
Quer dizer, o que exatamente voc veio fazer aqui? 
 - Meus pais esto fazendo uma festa de noivado para mim - ele diz, com voz que de repente soa rouca. - Para Tania e eu, quer dizer. L em casa. Na cobertura. Neste 
momento. 
O Sr. e a Sra. Cartwright no tinham feito uma festa de noivado quando Jordan e eu ficamos noivos. Em vez disso, a Sra. Cartwright perguntou se eu estava grvida. 
Acho que ela no conseguia pensar em outra razo por que o filho dela se daria o trabalho de noivar com uma moa cuja carreira estava em declnio e cintura, em ascenso. 
 - Bom, ento voc no devia estar l? - pergunto a ele. 
 - Devia - ele responde. E de repente eu percebo que a voz dele no parece apenas rouca. Parece triste de morrer. - Eu sei que devia. Mas  que...  que o dia inteiro 
eu s consegui pensar em voc. 
Engulo em seco e tento pensar racionalmente. Afinal de contas, sou uma jovem detetive.  isso que as jovens detetives fazem.  Pensam racionalmente.  Mas existe algo 
na proximidade de Jordan... isso sem falar na tristeza dele... e na necessidade crua... na voz dele... que est dificultando, e muito, as coisas. 
E o peso das mos dele nos meu ombros  muito agradvel. E, de repente, eu nem me importo muito com o cheiro de Drakkar Noir. E, no escuro,  claro, no d para 
ver nem a corrente de ouro nem a pulseirinha com nome que ele est usando. 
Eu sei! Pulseirinha com nome! 
 -  que eu... - gaguejo, tentando afastar a onda de histeria que emana dele e ameaa me engolir. - Acho que talvez a confuso de tudo isto... o comunicado, os reprteres... 
esteja deixando voc nervoso. Quem sabe se voc for para a sua casa e tomar um Advil... 
 - Eu no quero Advil nenhum - ele balbucia e me puxa para mais perto. - Eu s quero voc. 
 - No - digo, sentindo um pnico quando a camisa bufante encosta na minha bochecha. - No, no quer. Est lembrado? Voc fica me dizendo que eu mudei. Bom, eu mudei 
mesmo, Jordan. Ns dois mudamos. E agora precisamos seguir em frente, cada um com a sua vida.  o que voc est fazendo com Tania, e  o que eu estou fazendo com... 
com... - Com quem? No tenho ningum! No  justo ele ter algum e eu no. - Bom, com Lucy - termino, cheia de coragem, minha opinio. 
 -  isto que voc quer? - Jordan me pergunta, os lbios dele perigosamente perto dos meus, de repente. - Que eu fique com Tania? 
 - Agora  que voc vem me perguntar? 
E, antes que eu perceba, ele j se abaixou e aperta a boca dele conta a minha. 
Normalmente, eu fico com as idias bem claras nesse tipo de situao. Quer dizer, geralmente, quando um cara comea a me beijar (o que no acontece com freqncia), 
tenho a presena de esprito de ou dizer a ele que pare se eu no gostar ou beijar de volta se gostar. 
Mas, nesse caso em particular, fico to surpresa que fico paralisada. Quer dizer, continuo ciente da maaneta que aperta minhas costas, e do fato de que todas as 
luzes de casa estarem apagadas, o que significa que Cooper ainda no chegou (graas a Deus! )
Mas, alm disso, e de uma certa vergonha porque os traficantes, da rua, esto aplaudindo ("Manda ver, gata"), eu no sinto... nada. 
Nada de bom, quer dizer. 
Eu sei to bem quanto os traficantes que j faz um tempo que no beijo ningum. 
J deve fazer um tempo para Jordan tambm (ou isso ou Tania no  to boa assim na cama... o que no  surpresa nenhuma, porque ela  to magra que no deve conseguir 
fazer muita coisa), porque eu s coloco os braos em volta do pescoo dele (por fora do hbito, juro) e, antes que me d conta, ele j me empurrou de novo contra 
a porta e encaixou a cala de couro no meu corpo de um jeito que eu sinto cada dentinho do zper dele... 
... isso sem falar do, hmm, msculo engrossado por baixo. 
Da a lngua dele entra na minha boca, as mos dele pegam meu cabelo...  E a nica coisa que eu consigo pensar  AH, NO. Porque ele est noivo. E no de mim. E 
eu... bom, mesmo, eu NO sou este tipo de mulher. 
Mas uma vozinha em minha cabea fica dizendo: Talvez as coisas tenham mesmo que ser assim e Hmm, eu me lembro de como era e Bom, parece que ele no liga para os 
meus quilos a mais, o que dificulta MUITO fazer a coisa certa que  empurr-lo para longe. 
De fato, bom... a vozinha est fazendo com que seja impossvel empurr-lo para longe. 
Acho que todos aqueles coregrafos devem estar enganados. Sabe como , sobre aquela coisa de eu ser incapaz de desligar meu crebro e soltar meu corpo. Porque meu 
corpo est danando no ritmo direitinho, sem nenhuma ajuda que seja de meu crebro... 
Comea a parecer que  imperativo que entremos em casa, levando em conta os gritos de apoio dos traficantes, ento me viro e finalmente abro a porta, e ns meio 
que camos para dentro do hall de entrada escuro... 
... onde eu pressiono as mos contra o peito dele e uso meus ltimo momento de sanidade para dizer: 
 - Sabe, Jordan, acho mesmo que a gente no deveria estar fazendo isto...  Mas j  tarde demais. Ele j puxou a minha blusa para fora da cala. Antes que eu me 
d conta, as mos dele j esto envolvendo os meu seios atravs da renda do meu suti enquanto ele me beija. Profundamente. Como se estivesse com muita vontade mesmo. 
E, tudo bem , eu penso (por um instante) em lembr-lo de que naquela manh, eu tinha lido sobre o noivado dele (com uma pessoa que no sou eu) no jornal. 
Mas, sabe como , s vezes o corpo da gente age sem o controle da mente.  E meu corpo parece estar funcionando em pilo automtico, lembrando de todos os bons momentos 
que viveu com o corpo que no momento est pressionado contra ele. 
E, para falar a verdade, est implorando para ter mais. 
Da, parece que no consigo pensar em mais nada por um instante. Tirando... 
Bom, perto do fim, um pensamento passa pela minha mente. Um pensamento que eu realmente no gostaria de ter tido. 
E o pensamento : Irmo errado. 
S isso. Que eu estou rolando pelo cho definitiva e positivamente com o irmo errado. 
E no me orgulho muito disso. 
E o pior  que nem  to gostoso assim. Acho que o mximo que posso dizer  que  rpido (graas a Deus, porque o capacho do hall de entrada est embaixo de mim, 
e no  o tapete mais confortvel da casa). E que  seguro (Jordan veio preparado, assim como faria qualquer bom membro da Easy Street). 
Fora isso, no  muito diferente das vezes que costumvamos transar todas as segundas, quartas e sbados... 
... com a bvia exceo de que, desta vez, eu  que sou a outra. 
Fico me perguntando se alguma vez Tania j se sentiu to culpada em relao a isto quanto eu me sinto. De algum modo, duvido muito. Tania no me parece ser uma pessoa 
que jamais se sente culpada. Uma vez, vi quando ela jogou um embrulho da Juicy Couture no cho, no Central Park. Ela no sente culpa nem por jogar lixo no cho. 
Outra diferena notvel em nossa transa ps-fim de noivado, em oposio s nossas transas pr-fim de noivado  que Jordan se levanta quase imediatamente depois que 
a gente termina e comea a se vestir. Quando a gente estava junto, ele simplesmente virava para o lado e dormia. 
Quando eu me sento e fico olhando para ele, ele diz: 
 - Desculpa, mas preciso ir - como algum que acabou de se lembrar de uma consulta importantssima no dentista. 
E esta  a parta realmente constrangedora: eu me sinto meio triste. Como se existisse uma parte de mim que tivesse muita certeza de que ele rolaria para o lado e 
diria que ia ligar para Tania e terminar com ela AGORA MESMO, porque ele quer ficar comigo para sempre. 
No, que, sabe como , eu voltasse para ele se ele tivesse feito isso. 
Provavelmente no. 
Certo, definitivamente no. 
Mas, bom... a gente se solitria quando no tem ningum. Quer dizer, no quero ficar parecida com a Rachel. No estou dizendo que, se eu tivesse um namorado (mesmo 
que fosse o Cooper, o homem dos meus sonhos), todos os meu problemas estariam curados. 
E no vou comear a comer salada sem molho se  o que eu preciso fazer para conseguir um homem... no estou assim to desesperada. 
Mas... seria legal ter algum para se preocupar comigo. 
Mas no menciono nada disso ao Jordan. Quer dizer, eu tenho um pouco de orgulho. Em vez disso, quando ele diz que via embora, eu s digo: 
 - Certo. 
 - Quer dizer, eu queria ficar - ele diz, puxando a camisa por cima da cabea - mas tenho uma entrevista coletiva bem cedo amanh de manh. Para o lbum novo, voc 
sabe. 
 - Certo - eu digo. 
 - Mas eu ligo para voc amanh - ele diz, abotoando a braguilha. - Talvez a gente possa sair para jantar ou algo assim. 
 - Certo - digo. 
 - Ento, eu ligo para voc - diz, j  porta. 
 - Claro - respondo. E ns dois sabemos que ele est mentindo. 
Depois que ele j foi embora e que eu j tranquei a porta atrs dele, me arrasto escada acima at o meu apartamento, onde sou recebida por uma Lucy toda animada, 
louca pelo passeio noturno dela. Enquanto procuro a coleira dela, dou uma olhada pela janela da cozinha e vejo os andares superiores do conjunto Fischer. 
Fico me perguntando se Christopher Allington conseguiu encontrar o cominho para a cala de Amber com tanta facilidade quanto Jordan Cartwright tinha conseguido encontrar 
o da minha. 
Ento me lembro de que a cala supracitada continua na entrada e me apresso escada abaixo para peg-la antes que Cooper chegue em casa e descubra a prova da minha 
profunda estupidez em cima do capacho do hall de entrada. 

17
Voc me disse/Que acabou
Eu simplesmente no/Acreditei em voc

Voc me disse/Que eu sou influencivel
Eu s quero/Ficar com voc

Da eu te vi/Voc estava com ela
E a nica coisa que posso dizer /Tanto faz

Tanto faz/Tanto faz
A nica coisa que eu posso dizer /Tanto faz

"Tanto faz"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Valdez/Caputo
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

Em uma coisa eu acertei: 
Rachel est toda curiosa a respeito de Jordan e da natureza de meu relacionamento com ele. 
No minuto em que eu entro na sala no dia seguinte (cabelo molhado, caneca de caf do refeitrio fumegando na mo, uma enorme letra escarlate na blusa; a ltima parte 
 brincadeira), Rachel fica toda: 
 - Ento, parece que voc e seu ex-namorado estava se dando muito bem ontem  noite. 
Ela no faz a mnima idia de como essa afirmao  correta. 
 -  -  tudo que respondo enquanto me acomodo na cadeira e procuro o nmero do quarto de Amber. 
Rachel no se toca. 
 - Eu vi vocs dois l fora - ele prossegue. - Conversando com o filho do reitor Allington. 
 - Com Chris - digo. - . - Pego o telefone e disco o nmero de Amber. 
 - Ele parece legal - ela diz. - O filho do reitor. 
 - Acho que sim - respondo. Para um assassino. 
O telefone de Amber toca. E toca. 
 - Tambm  fofo - Rachel continua. - E ouvi dizer que ele  bem provido. Recebeu uma herana dos avs. 
A ltima informao  novidade para mim. Ai, meu Deus, vai ver o Christopher Allington  igual ao Bruce Wayne! Srio. S que do mal. Quer dizer, talvez ele tenha 
uma caverna inteira escavada embaixo do conjunto Fischer e leve meninas inocentes para l, depois d alguma droga para elas e as leve de novo para cima e jogue pelo 
poo do elevador... 
S que eu passei muito tempo nos subterrneos do conjunto Fischer com o exterminador de pragas, e embaixo do prdio no tem nada alm de ratos e um monte de colches 
velhos. 
Algum atende o telefone no quarto de Amber. Uma voz de menina diz. , muito sonolenta: 
 - Al? 
 - Al - respondo. -  a Amber? 
 - Ah-h - diz com a voz sonolenta. -  a Amber. Quem est falando? 
 - Ningum - eu digo. S queria ter certeza de que voc ainda estava viva. - Volte a dormir. 
 - Certo - ela diz sem entender nada e desliga o telefone. 
Bom, pelo menos Amber continua viva. Por enquanto. 
 - Ento, voc e o Jordan vo voltar? - Rachel quer saber. Parece que ela no acha nem um pouco estranho o fato de eu ligar para alunas sem razo nenhuma aparente 
e acord-las. E isso, alis, revela muito sobre a estranheza do lugar em que ns trabalhamos e o servio que fazemos. - Vocs formam o casal mais fofo do mundo. 
Finalmente, sou salva porque preciso atender o telefone, que comea a tocar bem naquele momento. Atendo, imaginando se Amber tinha identificador de chamada e quer 
saber que diabos eu estou fazendo, ligando para ela s nova da manh em dia de aula. 
S que no  a Amber do outro lado da linha.  a Patty, que diz logo: 
 - Certo, pode contar tudo. 
 - Tudo sobre o qu? 
Na verdade, no estou me sentindo muito bem. Quando acordei hoje de manh, eu s tinha vontade de puxar as cobertas para cima da cabea e ficar na cama para todo 
o sempre. 
Jordan. Eu fui para a cama com o Jordan. Por qu, meu Deus, por qu? 
 - Como assim, sobre o qu? - Patty parece chocada. - Voc no leu o jornal hoje? 
Sinto meu sangue gelar pela segunda vez em 24 horas. 
 - Que jornal? 
 - O Post - Patty responde. - Tem uma foto de vocs dois se beijando bem na capa. Bom, no d para ver direito se a mulher  mesmo voc, mas com certeza no  a 
Tania Trace. E com certeza  a entrada da casa de Coop... 
Digo uma palavra que faz Rachel vir correndo da sala dela perguntar se est tudo bem. 
 - Est tudo bem - digo, colocando a mo trmula sobre o bocal. - No  nada, mesmo. 
Enquanto isso, Patty se ocupa tagarelando em minha orelha. 
 - A manchete diz Escndalo na rua. Acho que  porque Jordan est traindo a noiva dele. Mas no se preocupe, chamaram voc de "mulher no-identificada". Caramba, 
 de se pensar que eles iam supor quem era. Mas a foto  obviamente amadora, e a sua cabea est na sombra. Mesmo assim, quando Tania vir... 
 - Eu realmente no quero falar sobre isto agora - interrompo, sentindo tontura. 
 - No quer? - Patty parece surpresa. - Ou no pode? 
 - Hmm. O ltimo. 
 - Entendi. Vamos almoar? 
 - Certo. 
 - Voc  mesmo uma boba - Patty est rindo. - Passo a ao meio-dia. Faz um tempinho que eu no vejo Magda. Estou louca para saber o que ELA tem dizer a este respeito. 
Eu tambm. 
Desligo. Sarah entra, cheia de perguntas sobre... O que mais? Jordan. Eu s quero me encolher e chorar. Por qu? POR QU? POR QUE eu fui to FRACA?  Mas como d 
para chorar no trabalho sem que setenta pessoas cheguem para voc e digam: "Qual  o problema? No chore, vai dar tudo certo", pego uma pilha de requisies de ressarcimento 
das mquinas de refrigerante e comeo a process-las, debruando-me por cima de minha calculadora, tentando parecer muito ocupada e responsvel. 
E a prpria Rachel tambm tem muito o que fazer. No comeo da semana, ela descobriu que tinha sido nomeada para uma medalha Amor-Perfeito. Essas medalhas tm o formato 
de uma florzinha e a cada semestre a administrao as confere aos funcionrio que fizeram algo alm de suas obrigaes. Por exemplo, Pete recebeu por ter derrubado 
a porta de uma menina quando ela se fechou atrs dela e ligo o gs do forno. Ele salvou a vida dela, de verdade. 
Magda tambm ganhou uma porque (por mais estranha que ela seja, com aquela coisa das estrelas de cinema) os estudantes simplesmente a adoram, na maior parte. Ela 
faz com que eles se sintam em casa, especialmente em dezembro quando, apesar de todas a regulamentaes do campus, Magda decora a caixa registradora dela com um 
Papai Noel de pelcia, um prespio em miniatura, uma menor e velas de Kwanzaa. 
Eu, pessoalmente, acho legal que Rachel tenha sido nomeada. Ela teve de dar conta de muita coisa desde que comeou a trabalho no conjunto Fischer, incluindo a morte 
de duas alunas em duas semanas. Ela precisou notificar dois pares de pais que a filha deles estava morta, empacotar os pertences de duas garotas (bom, tudo bem fui 
u quem fez isso as duas vezes) e organizar duas missas em homenagem a elas. A mulher merece uma medalha em forma de florzinha, no mnimo. 
Mas, bom, por causa da nomeao dela  medalha Amor-Perfeito, Rachel foi automaticamente convidada para o Baile Amor-Perfeito, um negcio com traje de gala que acontece 
todo anos no trreo da biblioteca da faculdade, e ela est toda atarantada por causa disso, porque o baile  hoje  noite e ela no pra de repetir que no tem nada 
para usar. Diz que vai ter de passar em algumas liquidaes de modelos em exposio na hora do almoo para ver se encontra algo aceitvel. 
 claro que eu sei o que isto significa. Ela vai voltar com o vestido mais lindo que qualquer uma de ns j viu. Quando se usa 36,  fcil entrar em qualquer loja 
e encontra centenas de opes estonteantes. 
Quando termino com as requisies de ressarcimento, anuncio que estou indo ao setor financeiro para pegar o dinheiro relativo a elas, e Rachel me d um tchauzinho, 
felizmente sem comentar o fato de que eu detesto esperar na fila da Tesouraria (que era o lugar preferido de Justine) e geralmente mando um aluno no meu lugar. 
Claro que, no meu caminho at a Tesouraria, fao um desvio para falar com Magda. Ela d uma olhada no meu rosto e informa ao supervisor dela, Gerald, que vai fazer 
um intervalo de dez minutos, apesar de Gerald ficar todo: 
 - Mas voc acabou de fazer um intervalo h meia hora! 
Magda e eu vamos at a praa, sentamos em um banco e eu despejo toda a histria idiota sobre Jordan. 
Quando termina de rir da minha cara, ela enxuga os olhos e diz: 
 - Ah, querida, coitadinha de voc. O que voc esperava? Que ele implorasse para voc voltar? 
 - Bom - respondo. - Esperava. 
 - Mas voc teria ficado com ele? 
 - Bom... no. Mas seria legal se ele pedisse. 
 - Olhe, querida, voc sabe e eu sei que voc  a melhor coisa que j aconteceu para ele. Mas, ele? Ele s quer uma mulher que faa tudo o que ele quer. E isso no 
tem nada a ver com voc. Ento, deixe ele ficar com a Miss Bunda Ossuda. E voc espera at um cara legal aparecer. Nunca se saber. Ele pode estar mais perto do que 
voc pensa. 
Eu sei que ela est falando de Cooper. 
 - Eu j disse - falo, cheia de tristeza. - No sou o tipo dele. Vou ter que pegar uns quatro diplomas s para competir com a ltima namorada dele, que descobriu 
um sol-ano, ou qualquer coisa assim, e por isso ele foi batizado com o nome dela. 
Magda s d de ombros e diz: 
 - E aquele Christopher de que voc estava me falando, hein? 
 - Christopher Allington? Magda no posso ficar com ele! Ele  um possvel assassino. 
Quando revelo minhas suspeitas relativas a Christopher Allington, Magda fica muito animada. 
 - E ningum suspeitaria dele - ela exclama - , porque  o filho do reitor! Parece um filme!  perfeito! 
 - Bom, quase perfeito - digo. - Quer dizer, por que ele andaria por a matando meninas inocentes? Qual  o motivo dele? 
Ela pensa sobre isso um instante e apresenta diversas teorias baseadas em filmes que viu, como por exemplo que Chris precisa matar pessoas por causa de algum ritual 
de iniciao para entrar em alguma espcie de sociedade secreta da faculdade de direito, ou que ele possivelmente tem personalidade mltipla ou ento um irmo gmeo 
do mal. O que a leva ao fato de que Chris Allington provavelmente vai estar no Baile Amor-Perfeito, e que se eu quiser mesmo brincar de detetive, devo arrumar uma 
entrada e observ-lo em seu elemento natural. 
 - Mas as entradas custam uns duzentos dlares, a menos que voc tenha sido nomeada para um prmio Amor-Perfeito - informo a ela. No tenho dinheiro para isto. 
 - Nem para pegar um assassino? - Magda pergunta. 
 - Ele s  um assassino em potencial. 
 - Aposto que Cooper consegue um par de entradas. - eu tinha me esquecido de que o av dele era um dos grandes benfeitores da Faculdade de Nova York, mas a Magda 
no se esqueceu. Ela nunca se esquece de nada. - Por que voc no vai com ele? 
Ultimamente, no ando tendo muitos motivos para sorrir, mas a idia de ver Cooper de smoking me faz dar uma risada. Duvido que ele algum dia j teve algum. 
Ento paro de sorrir com a idia de pedir para que ele v comigo ao Baile Amor-Perfeito. Porque ele nunca concordaria. Ele iria querer saber por que eu quero tanto 
ir, depois ia me passar um sermo por eu enfiar o nariz onde no sou chamada. 
Magda suspira ao ouvir isto. 
 - Certo - ela diz, arrependida. - Mas poderia ser igualzinho a um filme. Passo o tempo na fila da Tesouraria tomando cuidado para no pensar na noite anterior 
(que com toda a certeza no teve nada a ver com filme nenhum). Se fosse um filme, Jordan teria aparecido hoje de manh com um buqu enorme de rosas e duas passagem 
para Las Vegas. 
No que eu tivesse ido com ele, sabe como . Mas, como eu disse, seria legal se ele me convidasse para ir. 
Bom, quando eu estou voltando para o conjunto residencial Fischer pela praa, ensaiando mentalmente o discurso de "Desculpe, mas simplesmente no posso me casar 
com voc" que vou fazer ao Jordan para o caso de, quem sabe, ele de fato aparecer com as rosas e as passagens, ergo a cabea, e l est ele.  Sim, estou falando 
srio. Eu praticamente tropeo nele na calada, na frente do prdio. 
 - Ah - digo, agarrando um envelope cheio de notas de um dlar contra o peito, em um gesto de proteo, como se ele pudesse servir de escudo contra Jordan. - Oi. 
 - Heather - ele diz. Est parado ao lado de uma limusine preta estacionada (no  exatamente sem atrapalhar o trnsito) na frente do alojamento. Obviamente, est 
voltando da entrevista coletiva. No carrega nenhum buqu de rosas, mas usa diversas correntes de platina e o rosto dele est cheio de tristeza. 
Mesmo assim, no fico com muita pena dele. Afinal de contas, fui eu quem ralou a bunda no capacho. 
 - Eu estava aqui esperando voc chegar - ele diz. - Sua chefe disse que voc voltaria em menos de uma hora, mas... 
Ops. So 11h30, e eu tinha sado dali s dez. Rachel provavelmente no tinha previsto minha passada no parque para conversar com Magda. 
 - Bom - digo. - Voltei. - Olho ao meu redor, mas continuo sem ver flor nenhuma. O que no faz mal, porque j esqueci meu discurso mesmo. - O que ?  Voc no vai 
voltar para ele, digo a mim mesma, com firmeza. Voc no vai voltar com ele. Mesmo que ele se arrastasse de joelhos... 
Bom, se ele se arrastar de joelhos, talvez. 
No! Nem assim! Ele  o irmo errado, est lembrada? O irmo errado. Jordan olha ao redor, pouco  vontade. 
 - Veja bem. Ser que a gente pode ir a algum lugar para conversar? 
 - A gente pode conversar aqui mesmo - digo. Porque sei que, se eu for a algum lugar sozinha com ele, posso fazer algo de que me arrependa depois.  Posso? J fiz. 
 - Eu ia me sentir melhor - ele diz - se a gente pudesse conversar dentro da limusine. 
 - Eu ia me sentir melhor - digo (seja forte, seja forte) - se voc dissesse logo o que tem a dizer. 
Jordan parece surpreso com a firmeza de minha voz. At eu me surpreendo. 
E da eu percebo que ele provavelmente acredita que a gente vai voltar ou algo assim. 
Ah-h. 
Antes que me d conta, ele j est se acabando bem ali na calada. 
 -  s que... eu... eu estou mesmo muito confuso neste instante, Heather - ele diz. - Quer dizer, voc  to... bom, voc  simplesmente maravilhosa. Mas Tania... 
eu falei com papai e  que...  bom, eu no posso terminar com ela agora. No com o lbum novo que est para sair. Papai disse... 
 - O qu? - no d para acreditar no que eu estou escutando. Quer dizer, acredito sim. S no d para acreditar que ele est mesmo falando aquelas coisas. 
 -  srio, Heather. Ele ficou louco da vida com a foto do Post... 
 - Voc no acha que eu... 
 - No,  claro que no. Mas ficou feio mesmo, Heather. Tania tem hoje o lbum que mais vende da gravadora, e papai disse que, sabe como , se eu terminar com ela, 
vai atrapalhar as chances de o meu lbum... 
 - Certo - digo. Acho que no agento ouvir mais nada. Isto aqui no  uma ocasio da qual eu tenha um discurso ensaiado. - Tudo bem. Srio, Jordan. Tudo bem. 
E a coisa mais esquisita de todas  que, naquele exato momento, est tudo bem mesmo. De algum modo, ouvir ele dizer que no pode voltar comigo porque o pai dele 
no vai gostar anula qualquer sentimento romntico que eu ainda possa nutrir por ele. 
No que eu tivesse algum. Ainda. 
O queixo de Jordan parece cair de tanta surpresa. Ele com toda a certeza estava esperando lgrimas de algum tipo. E, de certo modo, eu de fato sinto vontade de chorar. 
Mas no por causa dele. 
Mas no vejo motivo nenhum para contar isto a Jordan. Quer dizer, o cara tem problemas suficientes. Sarah provavelmente iria se divertir muito diagnosticando todas 
as neuroses profundamente arraigadas dele... 
Jordan devolve o meu sorriso com um alvio quase infantil, e diz: 
 - Uau. Certo. Isto  to...  to gentil de sua parte, Heather. 
 estranho, mas naquele momento eu s consigo pensar em Cooper. E no  porque  mesmo muito triste eu o achar to gostoso, e ele mal notar que estou viva... tirando 
o fato de que a pilha de recibos em cima da mesa dele sempre desaparea. 
No, eu me vejo de fato rezando para que Cooper, seja l onde esteja, no pegue por acaso um exemplar do Post de hoje. Porque a ltima coisa que quero  que ele 
saiba que andei agarrando o irmo dele na frente da casa dele (e ainda bem que o Post s tem provas fotogrficas dessa parte)... 
No sei se  porque trabalho no conjunto Fischer h tanto tempo que desenvolvi uma espcie de sexto sentido para essas coisas ou o qu. Mas  bem neste momento que 
sinto algo. 
Uma lufada de ar repentina, uma sombra percebida de canto de olho, e largo a mo de Jordan e grito: 
 - Cuidado! - antes de me dar conta do que est acontecendo. 
Em seguida, ouo um som de pancada muito forte e algo se quebrando. Ento voam terra e coisas pontudas para todos os lados. 
A menina faz o que digo, cambaleando sobre os saltos altos. Ela est toda vestida para uma entrevista de emprego, mas parece no perceber que vai se atrasar muito, 
mas muito mesmo. 
O que mesmo o instrutor tinha dito quando comecei a trabalhar aqui e fiz aquele treinamento de atendimento de primeiros socorros? 
Ah, certo. Pare. Olhe. E escute. 
Eu paro e vejo aliviada que o peito de Jordan est subindo e descendo. Ele continua respirando. Uma veia no pescoo dele pulsa, forte e firme. Ele est inconsciente, 
mas nem perto de morto (ainda). O vaso pegou de lado na cabea, por trs da orelha, deixando uma calombo no ombro dele. A camisa est toda rasgada. 
Mas o sangue continua jorrando o talho na cabea, e estou pensando em tirar minha blusa para transformar em atadura (isso no me ajudaria a fazer muito sucesso junto 
ao pessoal da roda de xadrez) quando o motorista da limusine vem correndo do outro lado do carro, ao mesmo tempo em que Pete irrompe na porta de entrada do conjunto 
residencial. 
 - Aqui, Heather. - Ele joga o kit de primeiros socorros da recepo para mim, com os olhos escuros esbugalhados. - Mandei vir uma ambulncia tambm. 
 - Ele est morto? - O motorista da limusine pergunta, todos nervoso, com um celular colado na orelha. Sem dvida nenhuma, est falando com o pai de Jordan. 
Entrego o envelope da tesouraria para Pete e depois remexo dentro do kit de primeiros socorros, encontro uma faixa enrolada e enfio na ferida. O tecido fica escuro 
quase imediatamente. 
 - V buscar uma toalha ou qualquer coisa assim - digo ao Pete, ainda com aquela voz estranhamente calma que no parece ser a minha. Talvez seja a minha voz futura. 
Sabe como , a voz que eu vou usar em meu futuro consultrio mdio, depois de me formar. - Tem umas peas que sobraram da palestra de acomodao de vero no almoxarifado. 
Traga umas duas. 
Ele sai correndo como um raio. Comea a junto gente no local, tanto residentes do conjunto Fischer quanto pessoas da roda de xadrez no parque. 
Todo mundo tem muitos conselhos mdicos a oferecer. 
 - Erga a cabea dele - um dos traficantes diz para mim. 
 - No, levante os ps dele - algum mais diz. - Se o rosto estiver vermelho, erga a cabea. Se o rosto estiver plido, erga o rabo. 
 - O rosto dele est vermelho, me. 
 -  por causa de tanto sangue. 
 - Ei, aquele ali no  Jordan Cartwright? 
Pete volta com vrias toalhas brancas bem limpas. A primeira ficar vermelha depois de um minuto, mais ou menos. A segunda parece funcionar. O sangue para de jorrar 
de maneira to preocupante enquanto eu pressiono a toalha  cabea de Jordan. 
 - Como aconteceu? - todos perguntam. 
Um homem da roda de xadrez oferece uma resposta: 
 - Eu vi a coisa toda. Voc teve sorte de no morrer, moa. 
Aquele negcio estava vindo bem em sua direo. Se voc no tivesse pulado para o lado...  A polcia chega antes da ambulncia, d uma olhada no que estou fazendo 
e aparentemente aprova, porque logo os policiais comeam a dispersar a multido, dizendo que o show terminou. 
Digo, com urgncia na voz: 
 - Peguem os depoimentos das testemunhas! Esta coisa no caiu, simplesmente, sabem? Algum jogou! 
Todo mundo se rene vido ao redor dos policiais. Querendo contar sua histria.  bem nessa hora que Rachel sai correndo do prdio com os saltos batendo contra o 
calamento. 
 - Ah, Heather! - ela exclama, escolhendo bem onde pisar entre os cacos de cimento e os montes de terra e de gernios. - Ah, Heather! Acabei de receber a notcia. 
Ele... ele vai ficar... 
 - Ele continua respirando - digo. Mantenho a toalha pressionada contra a ferida, que finamente parou de sangrar. - Cad a ambulncia? 
E bem naquele momento ela encosta, os paramdicos pulam de dentro dela e, felizmente, assumem o controle. Fico mais do que feliz de sair do caminho. Rachel me abraa 
enquanto observamos os paramdicos medirem os sinais vitais de Jordan. Enquanto isso, um dos policiais entra no prdio e o outro pega um dos maiores pedaos do vaso 
e olha para mim. 
 - Quem  o responsvel aqui? - ele quer saber. 
Rachel responde: 
 - Acho que sou eu. 
 - Faz alguma idia de onde veio isto aqui? - o policial pergunta, segurando o caco. 
 - Bom, parece um dos vasos de cimento do terrao dos Allington - ela responde. Ela se vira e aponta ara cima, na direo da fachada do conjunto Fischer. - L em 
cima - ela diz, erguendo o pescoo. - No vigsimo andar. A cobertura. Tem vasos iguais a este por toda a volta do terrao. - Ela pra de apontar e olha para mim. 
- No fao a menor idia de como isso pode ter acontecido. Ser que foi o vento? 
Eu realmente sinto frio, mas no  por causa de vento nenhum. O dia est to quente quanto qualquer dia de outono. 
Magda, que se juntou a ns, parece concordar. 
 - No tem vento hoje - ela diz. - No canal local New York One, disseram que o tempo ia ficar bom o dia inteiro. 
 - Nunca um vaso destes saiu voando - Pete diz. - E eu trabalho aqui h vinte anos. 
 - Bom, voc no pode estar sugerindo que algum jogou l de cima - Rachel diz, parecendo horrorizada. - Quer dizer, os alunos nem tm acesso ao terrao... 
 - Alunos? - o policial aperta os olhos para nos examinar. - Isto aqui  algum tipo de alojamento ou algo assim? 
 - Conjunto residencial estudantil - Rachel e eu o corrigimos automaticamente. 
Os paramdicos colocam Jordan em cima de uma prancha e depois em cima de uma maca e dentro da ambulncia. Quando esto fechando as portas, dou uma olhada para Rachel. 
 - Eu devia ir com ele - digo a ela. 
Ela me d um empurrozinho na direo do veculo. 
 - Claro que devia - diz com muita gentileza. - Pode ir. Eu cuido de tudo por aqui. Depois, ligue para mim para dizer como ele est. 
Digo a ela que ligo sim e saio correndo atrs dos paramdicos, perguntando se posso pegar carona com eles at o hospital. Eles so bem bacanas comigo, e deixam eu 
sentar no assento do passageiro da cabine.  Do banco da frente, d para olhar atravs de uma portinha e ver o que o paramdico no est dirigindo est fazendo com 
Jordan. O que ele est fazendo  perguntar que dia da semana . Parece que Jordan est retomando a conscincia. Mas ele no sabe que dia da semana , s solta um 
murmrio como resposta, como algum que realmente deseja voltar a dormir. 
Penso em sugerir que perguntem a ele quem  a noiva dele, mas fico achando que seria maldade demais. 
Quando nos afastamos do edifcio, reparo que Rachel, Sarah, Pete e Magda esto todos reunidos na calada, olhando para mim cheios de preocupao.  Percebo ento, 
como uma espcie de pontada que, sim, tudo bem, talvez eu no tenha namorado. 
Mas eu tenho famlia. 
Pode at ser esquisita. 
Mas  uma famlia. 

18
Voc me fez chorar
Com tantas mentiras

Por que voc tem que ser
To maldoso comigo? 

Baby, voc no v
Que ns, eu e voc, 
Fomos feitos um para o outro? 

Em vez disso voc me deixou
Chorando
E voc no est nem
Tentando

Baby, por que voc tem
Que ser assim? 

"Chorando"
Interpretado por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

Nos quase quatro meses desde que comecei a trabalhar na Faculdade de Nova York, j estive em quase todos os pronto-socorros de Manhattan com diversos alunos doentes 
ou feridos. O St. Vincent"s realmente no  um dos meus preferidos. Tem TV na sala de espera e tudo o mais, mas sempre est passando alguma novela, e as mquinas 
de doces nunca tm Butterfingers. Alm do mais, muitos viciados vo l para tentar convencer a enfermeira de triagem que esto precisando mesmo de um pouco de morfina 
para curar as dores misteriosas que sentem nos ps. Durante um tempo, at que  divertido assistir os viciados, mas quando comeam a entrar em sndrome de abstinncia 
ficam hostis, e ento o segurana precisa expuls-los e eles ficam batendo no vidro e fazer com que seja mesmo muito difcil se concentrar na revista Jane ou em 
qualquer coisa que eu esteja lendo. 
Mas, apesar de a sala de espera do Saint Vincent"s ser uma porcaria, os mdicos so excelentes. Fazem todo tipo de perguntas sobre Jordan, que no sei responder. 
Mas logo que digo o nome inteiro dele, eles o levam com toda pressa para a sala de atendimento, passando na frente com toda pressa para a sala de atendimento, passando 
na frente de todo mundo porque, pois , os mdicos j ouviram falar em Easy Street. 
Visitas s podem entrar no pronto-socorro durantes os cinco primeiros minutos de cada hora, de modo que sou banida para a sala de espera. Mas uso meu tempo com sabedoria: 
ligo para o pai de Jordan para dar os detalhes do acidente. 
O Sr. Cartwright compreensivelmente est preocupado com a notcia de que seu artista masculino de maior sucesso (ah, que tambm  filho dele) foi atingido por um 
vaso de gernios, ento no levo para o lado pessoal quando ele  curto e grosso ao telefone comigo. Nossa ltima conversa antes dessa tambm no tinha ocorrido 
muito bem, quando ele tinha me dito que ia fazer Jordan largar Tania e "fazer o que  certo" se eu simplesmente parasse de exigir cantar minha prprias composies 
no prximo lbum. 
O Sr. Cartwright  um imbecil. E deve ser por isso que Cooper no falar com ele h quase um ano. 
Depois que eu termino de falar com o pai de Jordan e de Cooper, no consigo pensar em mais ningum para ligar. Acho que eu podia avisar a Cooper que o irmo dele 
estava ferido. 
Mas periga de ele perguntar o que Jordan estava fazendo no conjunto Fischer para comeo de conversa. E a verdade  que no sou a melhor mentirosa do mundo. Eu simplesmente 
tenho a sensao de que Cooper vai perceber qualquer tentativa minha de colocar uma venda nos olhos dele.  Ento me afundo em uma cadeira de plstico no canto da 
sala de espera e me divirto observando outros pacientes sendo encaminhados para o tratamento em vez de dar mais telefonemas.  igualzinho quele programa, Trauma 
no Pronto-socorro, que passa no canal educativo, s que ao vivo. Vejo um bbado alegre com a mo sangrando, uma me exausta que derramou o cappuccino em cima do 
beb, um garoto com uniforme de escola com um corte enorme no queixo de mos dadas com uma freira, um pedreiro com o p quebrado e um monte de mulheres latinas sem 
nenhum problema aparente que falam muito alto e levam bronca da enfermeira da triagem. 
Fico l sentada durante uns vinte minutos, e ento o segurana avisa que todo mundo que est esperando tem cinco minutos para entrar no pronto-socorro e ver como 
esto as pessoas que acompanham. Ento eu me junto  freira  me nervosa e s senhoras latinas, atravesso a porta de vaivm e procuro por Jordan. 
Ele est inconsciente de novo, ou pelo menos os olhos dele esto fechados, e a atadura branca enrolada em sua cabea contrasta muito com o bronzeado profundo da 
pele dele. (Os pais deles tm uma casa de vero fantstica nos Hamptons. A piscina tem at uma cachoeira. ) Ele foi colocado em uma cama em uma parte bem escondida 
e calma do pronto-socorro e, quando pergunto, uma enfermeira me informa que esto preparando um leito para ele no andar de cima. Ainda esto esperando o resultado 
das radiografias, mas parece que ele sofreu uma concusso. 
Acho que eu devo parecer muito preocupada mesmo, porque a enfermeira sorri para mim, coloca a mo em meu brao e diz: 
 - No se preocupe. Tenho certeza de que ele vai voltar a fazer os pessoas de dana dele bem rapidinho. 
Apesar da afirmao da enfermeira, no consigo deix-lo ali, completamente sozinho. No d para acreditar que ningum da famlia dele chegou at agora! Ento, quando 
os cinco minutos que tenho para ficar ali parada olhando fixamente para Jordan terminam, volto para a cadeira de plstico na sala de espera. Vou ficar, resolvo, 
at que ele seja transferido para o quarto, ou at que algum integrante da famlia dele chegue. S vou ficar aqui at algum chegar. E depois... 
Depois no sei o que vou fazer. Tenho certeza (estou cem por cento convencida, tenho mais certeza do que j tive sobre qualquer coisa, e percebo que isso no  muito, 
mas tanto faz) que algum acabou de tentar me matar.  Certo? Quer dizer, no foi exatamente isso que aquele cara da roda de xadrez tinha dito? "Que bom que voc 
pulou para o lado, moa, se no, teria cado em cima de voc", ou qualquer coisa assim? 
E a pessoa que jogou aquele vaso l de cima s pode ser Christopher Allington. Quem mais tem acesso ao terrao dos pais dele? Quem mais teria motivo para jogar vasos 
de gernio em minha cabea? No foi uma tentativa de homicdio premeditada (no tinha como ser). Como  que ele ia saber que eu estava voltando para o prdio bem 
naquele momento? 
No, ele simplesmente deve ter olhado para baixo e resolvido que o destino estava do lado dele e aproveitado para dar um empurrozinho no vaso. Se eu no tivesse 
desviado, teria batido em mim, no em Jordan. E provavelmente teria me matado porque, sabe como , minha cabea no  nem de longe to dura quanto a de um ex-membro 
do Easy Street. 
Mas por que Chris ia querer me matar? S porque eu suspeito que ele seja um assassino? Suspeitar que algum  um assassino e no ter provas reais de que algum  
um assassino so coisas inteiramente diferentes. Que prova ser que Chris acha que eu posso ter? Quer dizer, alm da camisinha (que s prova que ele  tarado, no 
assassino), no tenho nada contra ele. Eu nem tenho provas de que realmente houve algum assassinato. 
Ento, por que ele est tentando me matar? Ser que ele no est se arriscando mais ao tentar me matar do que se ficasse na moita? Principalmente porque ningum 
suspeita de nada em ralao  morte de Elizabeth e de Roberta... 
Bom, pelo menos ningum suspeita alm de mim. 
Uma voz profundamente conhecida interrompe minhas meditaes. Desvio o olhar do viciado aos roncos que estava observando disfaradamente e vejo o rosto clamo e sorridente 
de Cooper... 
... e de repente fico com vontade de vomitar. 
 - Heather - ele diz, com desleixo simptico, enquanto se acomoda em uma cadeira de plstico ao meu lado. 
 - Hmm. -  tudo que eu consigo pensar em dizer. Bacana, hein? Depois de muito turbilho mental, completo: - Oi. 
Cooper fica olhando com um certo interesse para o viciado que ronca. Ele est gostosssimo com o jeans esfarrapado, mas bem moldado ao corpo, e a jaqueta de couro. 
Mais gostoso do que rosquinhas Ho Ho, at. Estou falando de Cooper, no do viciado. 
 - Ento - ele diz, em tom de quem est puxando conversa. - Tem alguma novidade? 
Fico toda gelada, depois toda quente. No  justo o efeito que esse cara exerce sobre mim. E ele nunca me convidou para sair! Tudo bem, ele me convidou para morar 
na casa dele, mas, acorda, foi s por pena. E eu moro em uma andar completamente independente. Com um conjunto de fechaduras totalmente diferente da porta. Que, 
alis, nunca usei, mas por acaso ele j se deu ao trabalho de descobrir isso? No! 
 - Nada demais - digo a ele, na esperana de que ele no consiga ver como meu corao pula dentro de minha camiseta. - Hmm... Seu pai ligou para voc? 
 - No - Cooper responde. - Foi sua amiga Patty que ligou. Quando passou em seu trabalho para pegar voc para almoar, Magda contou para ela o que tinha acontecido. 
Se Patty no estivesse com o beb, teria vindo ela mesma. 
 - Ah - digo. Tinha me esquecido completamente de meu almoo com ela. Olho para o relgio da parede da sala de espera e vejo que j passam das duas. - Muito bem. 
 - O que ela no soube explicar muito bem - Cooper diz -  o que aconteceu exatamente. 
E  ento que comeo a falar sem parar. 
No quero fazer isso. No tenho essa inteno.  s que... Bom, acho que  por isso que Cooper  um detetive to bom. Tem alguma coisa na voz profunda dele que simplesmente 
faz a gente colocar para fora tudo o que sabe...  Bom, certo, no tudo. Consegui guardar para a mim toda a parte sobre o que eu e o Jordan tnhamos feito no hall 
de entrada com o capacho por baixo. Nada vai conseguir arrancar essa informao de mim. 
Ah, nem a parte de ter vontade de arrancar as roupas de Cooper com os dentes,  claro. 
Mas o resto sai em um jorro gigantesco, como s vezes acontece com o chocolate quente no refeitrio do alojamento, logo depois de Magda colocar uma mistura, mas 
sem que ningum tenha mexido... 
Eu conto tudo a ele, comeando com o concurso de dublagem da noite anterior, quando comecei a suspeitar que Christopher Allington era o assassino de Elizabeth e 
de Roberta, e terminando com os gernios abrindo um talho na cabea de Jordan, pulando a parte em que o irmo dele e eu animalizamos no hall de entrada da casa dele. 
Eu j tinha ouvido Cooper em ao com os clientes dele algumas vezes. A lavadora/secadora fica no mesmo andar que o escritrio dele, e eu estava lavando o meu top 
modelador (que s uso em ocasies especiais, como seminrios de treinamento de atendimento ao cliente ou workshops de conscincia de diversidade cultural) quando 
ele tinha reunies com pessoas que o contrataram. Ele fala com elas com uma voz totalmente calma, cuidadosa... 
... uma voz completamente diferente, alis, do que a que ele usa com a clientela que no paga. 
 - Heather, voc est louca? - Ele parece bravo de verdade. A voz dele soa brava de verdade. - Voc foi l e falou com o cara? 
Seria legal achar que a razo por que ele est to bravo comigo se deve ao fato de meu quase encontro com a morte ter feito com que ele se d conta de seus verdadeiro 
sentimentos por mim. 
Mas acho que isso s serviu para reforar as suspeitas dele de que eu sou uma louca completa. 
 - Por que voc est gritando comigo? - quero saber. - Eu sou a vtima! 
 - No, no . A vtima  o Jordan. E se voc parasse um pouco para escutar... 
 - Mas se eu escutasse voc, eu no ia saber que Chris Allington  o psicopata perigoso que estamos procurando! 
 - Fato este sobre o qual voc ainda no tem nenhuma prova. - Cooper sacode a cabea. O cabelo dele, escuro e farto, que ele quase nunca corta e que est sempre 
cobrindo a nuca, d a ele um certo ar rebeldia, mesmo sem a coisa de ser detetive particular. - Qualquer pessoa pode ter derrubado o vaso. Como  que voc sabe se 
o jardineiro dos Allingtn no estava aguando as plantas e sem querer empurrou os gernios? 
 - Bem, na minha cabea? No  um pouco de coincidncia demais? Levando em conta que eu tinha interrogado Christopher Allington logo na noite anterior? 
Juro que vejo os cantos da boca de Cooper estremecerem ao ouvir isso.  - Sinto muito, Heather, mas duvido que suas habilidades para o interrogatrio sejam algo 
que v lev-lo a cometer uma onde de assassinatos. 
Tudo bem, pode at ser que eu no seja a Miss Marple. Mas ele no precisa esfregar na minha cara. 
 - Estou dizendo que ele tentou me matar. Por que voc no acredita em mim? - Eu ouo o meu choro antes que consiga fechar a boca. - Ser que voc no percebe que 
no sou aquela cantora teen idiota e que posso saber do que eu estou falando? 
Mesmo enquanto as palavras saem de minha boca, tenho conscincia que prefiro que elas no tivessem sido proferidas. O que estou fazendo? O que estou fazendo? Este 
 o cara que, sem que eu pedisse, ofereceu um lugar para eu morar quando no tinha para onde ir... Bom, tudo bem, tinha o quarto de visitas no loft de Patty e Frank. 
Mas, sabe como . Tirando isso. Como  que eu posso ser to mal agradecida? 
 - Sinto muito - digo, sentindo a boca seca de tanto pnico. - No foi o que eu quis dizer. No sei de onde saiu tudo isso.  que... Acho que estou aborrecida. Voc 
sabe. Por causa de tanto estresse. 
Ele fica l, sentado, olhando para mim com um expresso completamente indecifrvel. 
 - Eu no acho que voc  uma cantora teen idiota -  tudo o que diz, com um tom que sugere leve surpresa. 
 - Eu sei - respondo rpido. Ai, meu Deus, por que eu nunca consigo ficar de boca fechada? POR QU? 
 -  que s vezes eu fico preocupado com voc - ele prossegue, antes que eu tenha a oportunidade de fizer outra coisa. - Quer dizer, voc se mete em umas coisas... 
E tem esse negcio todo com meu irmo... Que negcio todo? Ser que ele est falando... do meu relacionamento com o irmo dele? Ou da noite passada? Ah, por favor, 
Deus, permita que ele no tenha visto o Post... 
 - E voc tambm no tem ningum. - Ele sacode a cabea de novo. - No tem famlia, nem ningum para cuidar de voc. 
 - Voc tambm no - eu o lembro. 
 - Isso  diferente - ele diz. 
 - No vejo por qu - digo. - Quer dizer, tirando o fato de que sou mais nova do que voc. - Mas o que so sete anos, na realidade? O prncipe Charles e princesa 
Diana tinham 12 anos de diferena... e, tudo bem, o desfecho no foi assim to bom, mas qual  a probabilidade de ns dois repetirmos os erros de casal dele? Quer 
dizer, isto se Cooper e eu algum dia viermos formar um casal. A gente nem gosta de plo. - Alm do mais - digo, quando me lembro do que vi atravs da ambulncia. 
- Eu tenho famlia. Mais ou menos. Quer dizer, tenho Rachel, Magda, Pete, Patty, voc... 
Eu no tinha a inteno de adicionar a ltima palavra. Mas l est ela, flutuando no ar entre ns dois, Voc. Voc faz parte da minha famlia, Cooper. Da minha nova 
famlia, agora que todos os verdadeiros integrantes da minha famlia esto presos ou foragidos. Parabns! 
Ele fica olhando para mim como se eu fosse louco (que novidade). Ento eu acrescento, de um jeito ridculo: 
 - E Lucy tambm. 
Ele expira devagar. 
 - Se voc tem mesmo tanta certeza de que o que aconteceu no foi acidente - ele diz afinal, fazendo muita questo de ignorar o discurso Ns Somos da Mesma Famlia 
(no ache que no reparei) - e acha mesmo que algum quer matar voc, ento sugiro que procuremos a polcia. 
 - Eu j tentei - lembro a ele. - Est lembrado? 
 - . Mas desta vez eu vou com voc, e vou me assegurar... 
A voz dele vai definhando quando uma morena mignon e bonita chega apressada ao balco da recepo, sem flego, com uma saia de couro, a mo esquerda pesada com um 
anel de brilhante enorme. 
Certo, na verdade no d para ver o anel do lugar em que eu estou sentada. Mas, mesmo assim, eu sei quem ela . J vi aquela boca em volta do voc-sabe-o-que do 
meu ex-namorado. A imagem dela para sempre estar impressa em minha retina. 
 - Com licena - ela arfa na cara da recepcionista com expresso de pedra. - Mas acredito que meu noivo esteja aqui. Jordan Cartwright. Quando poderei v-lo? 
Tania Trace, a mulher que tinha tomado meu lugar no corao e na cobertura de Jordan (isso sem falar de minha posio nas paradas de sucesso). 
 - Engraado - Cooper observa. - Parece que ela est lidando com a dor muito bem. 
Dou uma olhada curiosa para ele, ento me lembro de que ele est fazendo referncia a algo que eu contei a ele h algum tempo, logo depois que eu me mudei. 
 - Ah, claro - digo. - Porque ela est abarrotada de analgsicos. Mas estou dizendo, Coop, no d para passar por tantas cirurgias plsticas assim e achar que vai 
viver imune  dor. Quer dizer, ela foi quase completamente reconstruda. Na verdade ela usa tamanho 48. 
 - Certo - ele responde. - Parece que agora meu irmo est em boas mos. Vamos embora? 
E vamos. 
E j vamos tarde, se quer saber a minha opinio. 

19
Pode gritar para minhas
Companheiras
Pode gritar para minhas
Amigas

Pode gritar para
Quem gosta de mim
Ou para as pessoas de quem eu dependo

Pode gritar para as
Meninas por a
Quem compram o prprio
Anel de brilhantes vagabundo

Pode gritar para suas irms
Que eu estou com voc at o fim

"Pode gritar"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

A primeira pessoa para quem conto a minha histria na 6 Delegacia de Polcia  uma mulher bonita mas com ar cansado que est na recepo. Seu cabelo preto est 
preso em um coque, que imagino que seja o enteado regulamentar das policiais. 
Fao uma anotao mental para no me formar em justia criminal. A mulher nos encaminha para um cara gorducho em uma mesa, para quem repito minha histria. Assim 
como a recepcionista, ele parece entediado... 
... at eu chegar na parte sobre Jordan, Todo mundo fica mais interessado quando o Easy Street  mencionado. 
O cara gorducho faz a gente esperar alguns minutos e depois somos levados  sala extremamente arrumada de algum. 
Ficamos sentados na frente de uma escrivaninha muito organizada por um ou dois minutos, at que o dono da sala entra, e vejo que ele  ningum menos que o mascados 
de charutos do investigador Canavan. 
 - Voc! - quase grito para ele. 
 - Voc! - ele quase grita em resposta. Est segurando um copinho de caf de isopor e (o que mais? ) uma rosquinha. Da Krispy Kreme com glac, pela aparncia. Que 
sortudo. 
 - A que devo o prazer desta vez, Srta. Wells? - ele pergunta. - Espere, no diga. Por acaso  sobre algum que canta com os Backstreet Boys? 
 - Um integrante da Easy Street - corrijo. - E, sim,  isso mesmo. 
O investigados Canavan senta-se  mesa dele, retira o charuto apagado do canto da boca, arranca um pedao da rosquinha e enfia no caf. Ento coloca o pedao de 
rosquinha embebido em caf na boca, mastiga, engole e diz: 
 - Por favor, explique. 
Dou uma olhada para Cooper, que permaneceu em silncio ao meu lado durante as duas recriaes da minha histria. Vendo que ele tambm no vai ajudar desta vez, comeo 
a narrativa pela terceira vez, perguntando a mim mesma, no pela primeira vez, o que ser que me atrai nele, j que s dele ele tem o dom de no ser nada comunicativo. 
Ento me lembro da coisa toda de ele ser muito gostoso e der ser to generoso comigo sem eu pedir nada e entende o motivo. 

O investigador Canavan fecha as mo na nuca e inclina a cadeira para trs o mximo possvel enquanto me escuta. Ou ele esqueceu de aplicar o Mitchum for Man ou usa 
um casaco muito grosso, porque tem enormes manchas de suor embaixo dos braos. No que isso o incomode. 
 - Ento - o investigada Canavan diz olhando para o teto com manchas de infiltrao quando termino de falar. - Agora voc acha que o filho do reitor da Faculdade 
de Nova York  um assassino? 
 - Bom - digo, cheia de hesitao. Porque, quando ele coloca dessa maneira, parece to... idiota. - . Acho que sim. 
 - Mas voc no tem prova disso. Claro, o cara usa camisinha. Uma camisinha que provavelmente podemos provar que  dele. Mas que no seria uma evidncia admissvel 
em um tribunal. Mas voc no tem provas de que nenhum crime foi cometido de fato,  exceo do vaso que caiu do terrao, que pode ter sido um acidente... 
 - Mas aqueles vasos esto l h anos - interrompo. - E nenhum deles caiu at hoje... 
 - O relatrio do legista no caso das duas meninas afirma que a causa da morte foi acidental. - O investigador Canavan pra de olhar para o teto e olha para mim. 
- Oua aqui, senhorita... ainda  senhorita? 
Inexplicavelmente, eu me sinto corar. Talvez porque, se no fosse Tania Trace, a esta altura eu j seria uma senhora. Mas eu meio que duvido que eu fosse permanecer 
com este ttulo durante muito tempo. 
 - No precisa ser formal. 
O investigador Canavan assente com a cabea. 
 - Minha mulher tambm  assim. Bom, mas de todo jeito, escute, Heather. Garotos desta idade? So uns idiotas. Acidentes so a principal causa da morte de pessoas 
com idade entre 17 e os 25 anos. Os garotos esto tentando se encontrar, correm riscos idiotas... 
 - Aquelas meninas no fariam isto - digo com firmeza. 
 - Talvez no. O problema  que voc no tem nada para provar a culpa do cara. Nem tem um assassinado definitivo para atribuir a ele. Se o cara do Backstreet Boys 
morrer, talvez a tenhamos alguma coisa. Talvez. Mas o legista pode decretar, da mesma maneira, que tambm foi um acidente. 
 - Bom - digo. Preciso reconhecer que me sinto bem desiludida. Desta vez, o investigados Canavan no tinha dado risada bem na minha cara, reconheo, mas ele tambm 
no tinha feito nem uma anotao. Pego a minha mochila. - Sinto muito por ter feito voc perder o seu tempo de novo. - Eu me levanto, e o investigador Canavan olha 
para mim como se eu fosse louca. 
 - Aonde voc acha que vai? - ele quer saber. - Sente a. Ainda no terminamos aqui. 
Sento-me novamente, perplexa. 
 - Para qu? - pergunto ao investigados Canavan, provavelmente um pouco mais spera do que o necessrio. - Voc com toda a certeza acha que eu sou algum tipo de 
louca. Para que voc quer que eu fique mais tempo aqui? Meus prprios amigos podem rir da minha cara - mantenho o olhar desviado do rosto de Cooper. - No preciso 
da polcia para isto. 
O investigador Canavan termina de comer o resto da rosquinha, ento pega o charuto. Olha para Cooper. 
 - Esquentada, hein? - ele comenta, apontando com a cabea para mim. 
 - Ah,  mesmo - ele concorda, todo srio. 
 - Espere a. - Dou uma olhada de um homem ao outro, com a desconfiana nascendo em mim. - Vocs dois se conhecem? 
Cooper d de ombros. 
 - Eu j vi este cara pelo bairro - ele diz, referindo-se ao investigador Canavan. 
 - No d para atirar um gato morto pela janela sem esbarrar com este cara atrs de um carro estacionado ou de uma caixa de correio, tirando uma foto de algum idiota 
que vai ser abandonado pela mulher - diz o investigador Canavan, referindo-se ao Cooper. 
 - Maravilha - digo, sentindo-me mais inadequada do que nunca. - Isto  simplesmente uma maravilha. Bom, espero que vocs tenham gostado da diverso que eu proporcionei... 
 - Eu estou com cara de quem est rindo? - o investigador Canavan quer saber. - Est vendo um sorriso que seja em meu rosto? Quanto a seu namorado aqui, tambm no 
estou vendo risada nenhuma. 
 - No vejo absolutamente nada divertido a respeito desta situao - Cooper diz. 
Olho para ele. No est sorrindo. E no fez objeo nenhuma, observo, ao ser chamado de meu namorado. Olho de novo para o investigador Canavan. 
 - Ele no  meu namorado - afirmo bem alto... porque motivo, no sou capaz de imaginar. Mas tenho certeza de que as minha bochechas esto cor de carmim. 
O investigador Canavan faz um sinal com a cabea para mim como se eu tivesse dito alguma coisa na linha de O cu  azul. 
 - Bom, Heather - ele diz. - De fato existe um grande nmero de gente louca, como voc bem disse, que vem aqui relatar diversos crimes que podem ou no ter ocorrido. 
Algumas dessas supostas pessoas loucas so cidado honestos que querem ajudar a polcia a fazer o seu trabalho. Eu a encaixaria nesta categoria. Cumpriu sua obrigao 
ao relatar este assunto para mim e, na medida do possvel, vou investig-lo. 
 - Mesmo? - me aprumo na cadeira no mesmo instante. - Vai mesmo? Voc vai interrogar o Chris? 
 - Vou sim. - O investigador Canavan volta a enfiar o charuto na boca. - Com discrio. Este  o meu trabalho. No entanto, no  o seu trabalho. Aconselho com muita 
nfase, Heather, que no se envolva ainda mais neste assunto. 
 - Porque voc acha que o Christopher Allington pode tentar me matar tambm? 
Cooper chama um txi e mantm o ar de seriedade extrema em nosso trajeto de volta para casa. Parece que ele levou a srio a minha acusao (de que ele me considera 
uma cantora teen idiota), e est fazendo de tudo para provar que no  verdade. Ele at me diz, no txi, que considera o investigados Canavan um homem correto e 
um profissional muito competente, e diz que se algum  capaz de descobrir o que est acontecendo no conjunto Fischer, este algum  o investigador Canavan. 
O que faz que eu me sinta melhor. Um pouco. 
Quando chagamos em casa (sei que deveria voltar ao trabalho, mas j que estou em casa mesmo, resolvo passear um pouco com Lucy) fao uma pequena pausa em frente 
ao espelho com moldura folheada a ouro do hall de entrada para passar um pouco de gloss, enquanto Cooper vai at o escritrio dele ouvir os recados da secretria 
eletrnica. J dei uma olhada para me assegurar de que no restou nenhum indcio do embate amoroso que eu e Jordan tivemos ali no cho na noite anterior. 
Mesmo assim, quando Cooper sai do escritrio dele um segundo depois e pergunta: 
 - O que exatamente est rolando entre voc e Jordan? - quase tenho um ataque cardaco. 
 - C-como assim? - gaguejo. 
 - Bom, o que  que ele estava fazendo na frente do conjunto Fischer hoje? 
 - Ah - respondo, relaxando. - Isso. Nada. S queria conversar. 
 - Sei. - Cooper se apia no batente da porta com aqueles olhos azuis mais brilhantes do que o normal. - Ento, voc por acaso no sabe nada sobre aquela loira que 
ele estava beijando ontem na porta da minha casa, a daquela foto do Post? 
Eu quase engulo a lngua. 
No da para acreditar que ele viu! Ser que as coisas algum dia vo acontecer de um modo que me beneficie? Ou ser que eu j usei toda a sorte que podia ter na vida? 
Sabe como , aqueles dez anos de sorte que todo mundo tem, aquela dcada mgica em que nada d errado... ou, pelo menos, nada de muito importante. 
Ser que a minha dcada de sorte j passou? E se passou ser que posso fazer tudo de novo? Porque, se algum tivesse me perguntado: "Ei, Heather, voc quer que a 
sua dcada de sorte seja entre os 14 e os 24 ou entre os 24 e os 34? ". Eu teria escolhido a segunda opo. Mesmo. 
Porque, quem  que deseja que os anos de mais sorte da vida sejam passados no ensino mdio. 
Acho que minha consternao profunda deve estar na cara, porque, um segundo depois, Cooper j colocou o corpo ereto e diz: 
 - Qual  o problema? - com uma voz que (quase) faz parecer que ele se preocupa mesmo. 
O que me faz comear a soluar na mesma hora. 
 - No  nada - respondo. - Mesmo. 
Mas  alguma coisa, sim. Quer dizer, todo mundo pode negar, mas eu sei (eu sei) que algum est tentando me matar. Eu transei com meu ex, que est noivo de algum 
com uma carreira muito melhor do que a minha (e uma bunda muito menor do que a minha). E pior de tudo  que Cooper viu a prova fotogrfica de minha indiscrio... 
ou, pelo menos, do que levou a ela. 
 - Tem alguma coisa errada - ele diz, caminhando at onde estou na frente do espelho. - No negue, sou um observador experiente, est lembrada? Tem uma ruguinha 
que se forma entre as sua sobrancelhas quando voc est aborrecida... - ele aponta para o meu reflexo. - Est vendo? 
Meu Deus. Ele tem razo. Tenho uma ruguinha de preocupao entre as sobrancelhas. Caramba, se eu continuar assim, quando estiver com 30 anos vou parecer uma uva-passa. 
Fao um esforo e obrigo o meu rosto a relaxar. 
 - No  nada - respondo rpido, desviando o olhar do meu reflexo. - Mesmo. Aquela coisa com Jordan ontem... foi s um beijo de despedida. 
Cooper olha para mim. Incrdulo. 
 - Um beijo de despedida - diz. 
 - . Porque, sabe como , est tudo terminado entre a gente, de verdade. Entre mim e Jordan. - Limpo a garganta. - Sabe como . Terminado mesmo, mesmo. 
Cooper assente com a cabea, apesar de ainda estar com cara de quem no est acreditando nem um pouquinho. 
 - Certo - ele diz. - Bom, se voc est dizendo... 
 - Ns dois estamos prontos para seguir em frente - interrompo, esquentando minha histria. - Finalmente. Sabe como , a gente precisava colocar um ponto final, 
porque do jeito que as coisas terminaram... quando sa batendo o p daquele jeito e tudo o mais... bom, no foi nada saudvel. Agora as coisas esto bem entre ns. 
Ns dois sabemos que acabou... de verdade. 
 - Ento, se as coisas acabaram mesmo, mesmo entre vocs dois - Cooper pergunta - , o que  que Jordan estava fazendo na frente do conjunto Fischer hoje de manh 
quando o vaso caiu na cabea dele? 
Droga! Eu tinha me esquecido disso! 
Mas tudo bem. A situao est sob controle. 
 - Ah, aquilo? - digo, com uma risada bem jovial. Isso mesmo! At consigo soltar uma risada bem jovial. Talvez, assim como Britney e Mandy, eu tenha uma carreira 
cinematogrfica no futuro. Talvez eu devesse me formar em arte dramtica, como Marnie. Talvez algum dia eu receba um Oscar para colocar na prateleira, ao lado do 
meu prmio Nobel. Espera. O prmio Nobel  uma estatueta ou uma medalha? No lembro. -  - digo, ainda com ar jovial. - Ele s foi devolver um, hmm, CD que eu ainda 
tinha deixado em nossa casa. Sabe como , quando eu me mudei. 
 - Um CD - Cooper diz. 
 - Ah-h - respondo. - A minha, hmm, trilha sonora de Tank Girl. No d mais para achar.  muito rara. 
 - Sei - ele diz. Tento no reparar que, agora que ele tirou a jaqueta de couro, seus bceps (que mal d para ver por baixo das mangas curtas da camiseta cinza simples) 
so quase to definitos quanto os do irmo... 
S que de fazer exerccios reais, no na academia. Quando se  detetive particular, a vida no se resume a andar por a com uma cmera. Imagino que Cooper tem de... 
sabe como . Erguer coisas. E mais coisas. Acho que ele fica todo suado por causa disso e s vezes precisa tirar a camisa, por causa do calor... 
Caramba. Preciso mesmo voltar ao trabalho. 
Mas esse papo de detetive me fez lembrar de uma coisa. 
 - digo. Agora que o perigo de lgrimas escorrerem foi evitado, estou me sentindo um pouco mais corajosa. - Na verdade, agora que Jordan e eu deixamos tudo preto 
no branco, estou com vontade, sabe como , de comemorar. 
 - Comemorar - ele repete, sem entonao na voz. 
 - . Voc sabe. Eu nunca mais sa. Ento eu pensei: Ei, por que no ir ao Baile Amor-Perfeito hoje  noite? 
 - O Baile Amor-Perfeito? - O olhar de Cooper no se desvia de meu rosto. Espero que ele no esteja conferindo para ver se estou mentindo. Eu realmente quero ir 
ao Baile Amor-Perfeito. S que no , exatamente, pelo motivo que eu disse para ele. 
 -  - digo. -  um baile em homenagem aos benfeitores e s pessoas que receberam medalhar Amor-Perfeito. Sabe como , por servios prestados  faculdade. Rachel 
vai ganhar uma. 
No  imaginao minha. Quando ouve o nome de minha chefe, Cooper de repente perde todo interesse na conversa. Alis, ele caminha at a correspondncia que acabou 
de chegar pela abertura na porta (para o interesse profundo de Lucy) e, depois de lugar com ela pelo envelopes, comea a separar as cartas. 
 - Rachel, ? - diz. 
 -  - respondo. - Mas as entradas custam uns duzentos paus. Para o baile. E s Deus sabe que eu no tenho dinheiro para isto. Mas eu estava pensando, seu av era 
ex-aluno, no era? Ento, aposto como voc tem acesso a uns de graa. Estou falando de convites. 
 - Provavelmente - ele diz, dando a Lucy, que gane de dar d, um catlogo da J. Crew para mastigar. 
 - Ento, quem sabe voc no me arranja um? - pergunto. Que sutil. Eu sou assim. A Miss Sutileza. 
 - Para voc poder espionar o Christopher Allington? - Cooper nem ergue os olhos da correspondncia. - De jeito nenhum. 
Meu queixo cai. 
 - Mas... 
 - Heather, voc no ouviu nenhuma palavra do que o investigador disse? Ele vai examinar a questo. De maneira sutil. Enquanto isso, voc no se mete. Na melhor 
da hipteses, a nica coisa que voc vai conseguir  um processo. 
 - Juro que no vou falar com ele - insisto, erguendo a mo direita e fazendo o sinal de honra das bandeirantes, com trs dedos erguidos. S que,  claro, eu nunca 
fui bandeirante, de modo que no conta. - Eu no vou nem chegar perto dele. 
 - Corrija-me se eu estiver errado - Cooper diz - , mas voc no estava convencida de que ele tentou matar voc hoje? 
 - Bom,  o que eu estou tentando descobrir - respondo. - Ah, Cooper, d um tempo, o que voc acha que pode acontecer no baile Amor-Perfeito, pelo amor de Deus? 
Ele no fazer nada contra mim l, na frente de todo mundo... 
 - No, no vai - Cooper diz. - Porque eu no vou deixar voc sair da minha vista. 
Fico l olhando para ele, estupefata. O que foi que ele acabou de dizer? 
 - Voc... voc quer ir comigo? 
 - S porque, voc sabe, se eu no ficar de olho em voc, vai saber o que pode cair em sua cabea da prxima vez. - Cooper larga a correspondncia. O olhar azulado 
dele dirige-se a mim como um par de faris. - E porque estou vendo em seus olhos que voc vai conseguir uma entrada de qualquer jeito, mesmo que precise seduzir 
um ingnuo desavisado do departamento de geologia. 
Fico estupefata. Cooper vai me levar ao Baile Amor-Perfeito? Cooper Cartwright vai me levar para sair!  quase como um... 
Bom, um encontro. 
 - Ah, Cooper! - suspiro. - Muito obrigada! Voc no sabe o que isto significa para mim... 
Cooper j est voltando para o escritrio, sacudindo a cabea. Ele guarda os pensamentos dele para si, mas fao uma boa idia de que ele no est, como eu, obcecado 
pela idia do que vai vestir  noite. 
Tudo  mesmo muito fcil para os homens. 

20
Equivocado
Tudo que eu digo a voc 
Equivocado
Se no, por que voc faria
As coisas que faz? 
Equivocado
Voc acha que eu minto
Equivocado
A verdade  que
Voc 
Que 
Equivocado

"Equivocado"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

O restante do dia de trabalho no parece passar com a rapidez necessria. Todo mundo fica perguntando sobre a sade de Jordan, fazendo com que eu perceba, cheia 
de culpa, que nem sei como ele est, j que ando com a cabea nas nuvens desde que sa do hospital, depois de falar com investigadores, ser convidada (mais ou menos) 
para sair pelo homem dos meus sonhos e ter que arrumar alguma coisa para usar em nosso encontro no Baile Amor-Perfeito e tudo o mais. 
Ento, ligo para o hospital St. Vincent"s e, depois de ser transferida uma meia dzia de vezes devido  preocupao com a privacidade, por Jordan ser to famoso, 
finalmente consigo que algum me diga, depois de garantir que no sou representante da imprensa e at de cantar algumas estrofes de "Vontade de te comer" para convenc-los 
de que eu sou mesmo eu, que ele se encontra em boas condies e que os mdicos esperam que se recupere completamente. Quando passo essas informaes para Rachel, 
ela fala: 
 - Ah, que bom! Eu estava to preocupada...  muita sorte, Heather, o vaso ter cado em cima dele, e no de voc. Voc poderia ter sado muito machucada. 
Magda fica menos feliz com o prognstico de Jordan. 
 - Que pena - ela diz na lata. - Eu queria que ele morresse. 
 - Magda! - grito, horrorizada. 
 - Olhe s para as minhas lindas estrelas de cinema - Magda diz para um grupo de alunos que chegaram cedo para o jantar, abanando os cartes e alunos e passa pelo 
leitor e diz para mim: - Bom, ele merece uma boa pancada na cabea depois do que fez com voc. 
Magda tem muita sorte. Para ela,  tudo preto no branco. Os Estudos Unidos so maravilhosos, independentemente do que qualquer pessoa possa dizer, e integrantes 
de boy bands que traem a namorada? Bom, merecem levar vasos na cabea. Sem dvida. 
Patty fica aliviada de ter notcias minhas quando ligo para ela. Ela deve ter ficado histrica quando atravessou o parque e viu todo aquele sangue na calada, na 
frente do conjunto Fischer. Ela estava certa de que alguma coisa tinha acontecido comigo. E teve de ficar sentada no refeitrio com a cabea entre os joelhos durante 
vinte minutos (e teve que comer dois picols DoveBar com cobertura de chocolate que Magda deu para ela), antes de conseguir chamar um txi e voltar para casa. 
 - Voc tem mesmo certeza sobre este negcio de querer um diploma de faculdade, Heather? - ela pergunta, toda preocupada. - Porque tenho certeza de que Frank pode 
marcar uma reunio para voc com o pessoal da gravadora dele... 
 - Seria legal - eu digo. - S que eu no sei, sabe como , se a gravadora do Frank vai ficar impressionada com o fato de que a maior parte dos meus shows aconteceu 
em shopping centers... 
 - Ningum iria ligar para isso - ela exclama. O que  mesmo muito gentil da parte dela, mas descobri que isto  exatamente o tipo de coisa com que as gravadoras 
mais se importam. - Quem sabe a gente consegue um papel em um musical para voc, por exemplo na Broadway - ela prossegue. - Debbie Gibson est fazendo isso agora. 
Muita gente famosa est... 
 - Sendo que a palavra mais importante em sua fase  famosa - eu observo. 
 - O que eu no sou. 
 - S acho que voc no devia mais trabalhar naquele alojamento, Heather - Patty diz, muito preocupada. -  perigoso demais. Tem meninas morrendo. Vasos caindo na 
cabea dos outros... 
 - Ah, Patty - eu digo, emocionada com a preocupao dela. - Vai ficar tudo bem. 
 - Estou falando srio, Heather. Cooper e eu conversamos sobre o assunto, e ns dois achamos... 
 - Voc e Cooper conversaram sobre mim? - Espero no ter parecido ansiosa demais. Sobre o que eles conversaram? Fico imaginando. Ser que Cooper tinha revelado a 
Patty que sente um amor profundo por mim, que ele no tem coragem de demonstrar, j que eu sou ex do irmo dele e maio que trabalho para ele? 
Mas, se ele tivesse feito isso, por que ela no tinha me contado logo? 
 - Cooper e eu s achamos que... e Frank concorda... que se... bom, se essa histria toda de assassinato for verdade, voc pode estar se metendo em algum tipo de 
perigo... 
Isso no me parece nem um pouco com o Cooper dizer que sente um amor profundo e irrefrevel por mim. No   toa que Patty no me ligou na mesma hora para fofocar. 
 - Patty - eu digo. - Est tudo bem. Mesmo. Tenho o melhor guarda-costas do mundo. 
Ento, conto a ela sobre o Baile Amor-Perfeito, e que Cooper vai me acompanhar. 
Mas Patty no parece to animada com a notcia quanto eu achava que ela ficaria. Ah, ela diz que posso pegar emprestado o vestido dela (o Armani vermelho que ela 
usou na entrega dos Grammys quando estava grvida de sete meses da Indy, e que espero que sirva em mim), mas no est exatamente berrando: "Aaah, ele convidou voc 
para sair! "
Porque acho que, na verdade, ele no convidou. Talvez no seja um encontro de verdade se o cara resolve ir junto com voc s para se assegurar de que ningum vai 
mat-la. 
Meu Deus, quando foi que a Patty ficou to madura? 
 - Bem, s prometa que vai tomar cuidado, certo, Heather? - ela ainda parece preocupada. - Cooper disse que acha que toda a histria de assassinato parece um pouco... 
improvvel. Mas eu no tenho tanta certeza. E no queria que voc fosse a prxima. 
Fao tudo o que posso para assegur-la de que minha segurana no corre perigo - apesar de acreditar exatamente no oposto: algum no conjunto Fischer quer me ver 
morta. 
O que significa que tenho alguma razo em minha teoria de que Elizabeth Kellogg e Roberta Pace foram assassinadas. 
S quando termino de falar com Patty  que sinto algum me olhando. Ergo os olhos e vejo que  Sarah, sentada  mesa dela, enfiando balinhas Tootsie Rolls em saquinhos 
plsticos para dar de presente aos ARs, que, segundo ela, esto precisando de uma injeo de nimo depois do complicado incio de semestre, com meninas mortas e 
tudo o mais. 
S que eu no posso deixar de notar que Sarah parou de encher os saquinhos e, em vez disso, est olhando para mim como uma coruja atravs de seus culos grossos 
(ela s usa lentes de contato em ocasies especiais, como na recepo dos alunos, quando pode conhecer pais solteiros e fofos, ou quando vai a leituras de poesia 
na igreja St. Mark"s onde existe a possibilidade de conhecer poetas duros e fofos). 
 - Eu no tive a inteno de ouvir a sua conversa - ela diz - , mas ser que eu ouvi bem quando voc disse que algum est querendo matar voc? 
 - Hmm - digo. Como  que posso explicar o caso sem que ela fique preocupada demais? Afinal de contas, eu vou para casa toda noite, mas Sarah mora aqui. No tem 
como ela se sentir  vontade sabendo que h um psicopata perigoso rondando os andares do conjunto Fischer. 
Mas, bom, ela perdeu a virgindade em um kitbutz israelense no vero do primeiro ano de faculdade (ou pelo menos foi o que me contou), ento acho que ela no  exatamente 
uma vtima em potencial. 
Dou de ombros e respondo: 
 - . 
Como Rachel est no apartamento dela se preparando para o baile (ela conseguiu achar algo para vestir, mas no quis nos mostrar para "no estragar a surpresa"), 
conto a ela a minha teoria sobre Chris Allington em relao  morte de Elizabeth Kellogg e de Roberta Pace. 
 - Voc falou alguma dessas coisas para Rachel? - Sarah pergunta quando eu termino. 
 - No - respondo. - Rachel j tem muito com que se preocupar, no acha? - Alm do mais (no comento esta parte com Sarah), se eu estiver errada, a informao no 
vai cair muito bem em minha ficha do contrato de experincia de seis meses... sabe como , de eu suspeitar que o filho do reitor da faculdade cometeu homicdio duplo. 
 - Que bom - ela diz. - No conte nada. Porque acaso j ocorreu a voc que esta coisa toda... voc sabe, de voc ficar achando que Elizabeth e Roberta foram assassinadas... 
pode ser uma manifestao de suas inseguranas relacionadas a ter sido abandonada e trada por sua me? 
Fico s olhando para ela. 
 - O qu? 
 - Bom - Sarah diz, ajeitando os culos. - Sua me roubou todo o seu dinheiro e fugiu do pas com seu empresrio. Este deve ter sido o acontecimento mais traumtico 
de sua vida. Quer dizer, voc perdeu tudo: todas as suas economias, assim como as pessoas de quem voc dependia; levando em conta que seu pai esteve ausente durante 
a maior parte de sua vida para comeo de conversa, por ter ido para a cadeia por passar cheques falsificados. E, no entanto, sempre que algum toca no assunto, voc 
age como se no fosse nada. 
 - No, no fao nada disso - digo. Porque no fao. Ou, pelo menos, no acho que faa. 
 - Faz sim - ela diz. - Voc at continua falando com sua me. Voc estava batendo papo, conversando sobre o que ia dar para seu pai no aniversrio dele. Na cadeia. 
A mulher que roubou todo o seu dinheiro e fugiu para a Argentina! 
 - Bom - digo, um tanto na defensiva. - Ela continua sendo minha me, independentemente do que fez. 
Nunca sei muito bem como explicar minha relao com minha me. Sim, quando as coisas ficaram difceis (quando informei  gravado Cartwright que s estava interessada 
em cantar as minhas letras, e o pai de Jordan me demitiu sem cerimnia nenhuma, j que as minhas vendas tambm no estava l essas coisas), minha me deu no p. 
Mas ficar brava com ela  como ficar bravo porque est chovendo. Ela no tem como fazer diferente, assim como as nuvens. 
Mas suponho que se Sarah ouvir isso, vai dizer que eu estou negando os fatos, ou coisa pior. 
 - Voc no acha possvel que esteja transferindo a hostilidade que sente em relao a sua me para o coitado do Chris Allington - ela quer saber. 
 - Sinto muito - digo. Estou ficando cansada de me repetir. - Mas aquele vaso no caiu simplesmente do cu, voc sabe. Bem tudo bem, caiu, mas no sozinho. 
 - E ser que voc no est sentindo tanta falta da ateno que recebia de seus fs que resolveu se prender a qualquer desculpa para se sentir importante, inventando 
todo esse mistrio to enigmtico para desvendar, sendo que na verdade ele no existe? 
Lembro - me, com uma pontada, do que Cooper tinha dito na porta do elevador de servio. No tinha sido alguma coisa parecida com isso? Sobre eu querer reviver a 
emoo de meus tempo de shopping center? 
Mas querer descobrir quem  responsvel pela morte de pessoas em seu local de trabalho  completamente diferente de cantar para milhares de compradores ocupados. 
Quer dizer, no ? 
 - Hmm -  o que respondo  acusao de Sarah. - Talvez. No sei. 
A nica coisa que consigo pensar  que Sarah teve muita sorte de conhecer Yael. Estou falando do cara do kitbutz. Se no, ela seria o tipo de garota de quem Chris 
iria em seguida. 
Bom, tirando o hbito que ela tem de ficar fazendo anlises psicolgicas dos outros o tempo todo. D para ver que pode ser uma chatice. 
Faz sculos que no vou a uma festa com traje de gala, ento, quando finalmente consigo sair do trabalho naquela noite, tenho muitos preparativos para fazer. Primeiro, 
preciso passar na casa de Patty para pegar o vestido (que serve, graas a Deus, mas por pouco). 
Ento preciso fazer as mos e os ps sozinha, j que no d tempo para ir ao salo. Da preciso lavar e condicionar o cabelo, raspar as pernas (e axilas, porque 
o vestida da Patty  tomara-que-caia) e, depois, s por garantia, raspar a virilha tambm porque, apesar de ser altamente improvvel de eu me dar bem em dois dias 
seguidos, nunca se sabe. Ento preciso aplicar uma mscara facial e me hidratar toda. Depois preciso depilar as sobrancelhas, secar e fazer escova no cabelo, colocar 
a maquiagem e uma camada de perfume. 
Ento noto que o salto do que escarpin vermelho ficou prejudicado depois de um acidente lamentvel com uma grade de metr e preciso disfarar os danos com um pincel 
mgico vermelho. 
E  claro que, no meio de tudo isso, preciso fazer pausas para engolir os Negrescos com recheio duplo para eu no passar mal por no ter comido nada desde a tarde, 
quando Magda me deu um sanduche de pastrami com chucrute no refeitrio. 
Quando Cooper bate na porta de meu apartamento, estou lutando para fechar o zper do vestido de Patty e me perguntando por que tinha servido duas horas antes, no 
loft dela, e agora no estava entrando... 
 - S um segundo - grito, tentando pensar em que diabos vou usar se o vestido da Patty no fechar direito... 
Finalmente o zper se move, pego meu xale e minha bolsa e deso as escadas correndo, pensando que  uma pena no ter ningum para abrir para mim e diz: "Ela desce 
em um minuto", para que eu possa fazer uma entrada triunfal, como Rory Gilmore, em Tal me, tal filha, ou algum assim. Do jeito que as coisas so, preciso me ajoelhar 
para tirar Lucy do caminho quando chego  porta. 
Sinto dizer que no percebi qualquer reao de Cooper  minha aparncia (isso se ele chegou a expressar alguma, o que eu duvido um pouco) porque fico absolutamente 
abobalhada com ele. Acontece que ele est de smoking... que, alis,  bem bonito. 
E ele fica mais do que um pouco sexy com ele. 
O que acontece com os homens quando vestem smoking? Por que sempre ficam to lindos desse jeito? Talvez seja a nfase na largura do peito e dos ombros. Talvez seja 
o contraste brusco entre a frente branca e engomada com a lapela preta elegante. 
Seja o que for, acho que nunca vi um cara de smoking que no ficasse bem. Mas Cooper  exceo. Ele no fica bem. 
Ele fica fantstico. 
Fico to ocupada admirando-o que quase me esqueo de que vou a este evento para pegar um assassino. Durante um segundo (s unzinho), realmente me iludo e penso que 
eu e Cooper estamos em um encontro. Principalmente quando ele diz: 
 - Voc est tima. 
Mas a realidade volta quando ele olha para o relgio e diz, como quem no quer nada: 
 - Vamos indo, certo? Preciso encontrar uma pessoa depois, ento, se vamos mesmo ao baile, precisamos ir andando. 
Sinto uma pontada de decepo. Encontrar uma pessoa? Quem? Quem  que ele precisa encontrar? Um cliente? Um informante? 
Ou uma namorada? 
 - Heather - Cooper ergue as sobrancelhas. - Tudo bem a? 
 - Tudo timo - respondo baixinho. 
 - Que bom - ele diz e me pega pelo cotovelo. - Vamos. 
Sigo-o escada abaixo e porta afora, dizendo a mim mesma que estou sendo idiota. Mais uma vez. E da que ele precisa encontrar algum mais tarde? O que eu tenho a 
ver com isto? Isto aqui no  um encontro. No . Pelo menos, no com ele. Se eu tenho algum encontro que seja hoje  noite,  um encontro com o assassino de Elizabeth 
Kellogg e Roberta Pace. 
Repito isto a mim mesma por todo o trajeto ao longo do parque, passando pelo monumento de Washington Square, e mesmo enquanto atravessamos a rua que leva  biblioteca, 
que  onde o evento acontece e que parece ter sido transformada em um salo de baile para a ocasio, com alguns tapetes vermelhos, luzes coloridas e faixas estrategicamente 
colocadas. 
Precisamos desviar de algumas limusines e de um punhado de guardas uniformizados do campus (pediram a Pete que fizesse hora extra para a ocasio, mas ele disse que 
no, porque Nancy, a filha dele, tinha feira de cincias naquela noite), todos com luvas brancas e apitos na boca, s para conseguirmos chegar perto do enorme edifcio 
cor de argila. H cordas de veludo para conter os bices... s que no parece haver nenhum bico com vontade de entrar de penetra naquela festa, s alguns estudantes 
de ps-graduao l parados, agarrados s mochilas, com cara de bravos porque aquela festa est impedindo que eles tenham acesso s mesas de estudo de biblioteca. 
Cooper mostra os convites para o cara na porta e ento somos encaminhados para dentro e imediatamente abordados por garons que querem nos encher de bebida e de 
cogumelos recheados de caranguejo. Que na verdade so bem gostosos. Acontece que os Negrescos no esto muito bem acomodados por baixo de minha calcinha redutora. 
Ele pega dois copos para ns (no de champanhe, e sim de gua com gs). 
 - Nunca beba em servio - ele aconselha. 
Penso em Nora Charles e nos cinco martnis que ela virou em A Ceia dos Acusados tentando acompanhar Nick. Imagine quantos assassinatos ela teria desvendado se seguisse 
o conselho de Cooper e permanecesse sbria! 
 - Um brinde ao homicdio - ele diz, batendo na borda do meu copo com o dele. Seu olhos azuis brilham para mim... e quase me deixam sem flego, como sempre, com 
todo aquele brilho. 
 - Sade - respondo e dou um golinho, examinando o lugar em busca de rostos conhecidos. 
H uma orquestra tocando uma verso acelerada de "Moon River" perto da seo de livros de referncia. Mesas de banquete foram arranjadas na frente dos elevadores, 
das quais camares gigantescos vo desaparecendo em velocidade recorde. As pessoas esto circulando, parecendo interessadas de maneira nada natural na conversa uma 
das outras. Vejo o Dr. Flynn conversando rapidamente com a diretora de graduao, uma mulher cujos olhos esto vidrados devido ao tdio ou  bebida ( difcil saber 
qual dos dois). 
Vejo um aglomerado de administradores do departamento de residncia embaixo de uma faixa dourada da Faculdade de Nova York, como uma famlia de refugiados em Ellis 
Island, apertando-se sob a sombra da Esttua da Liberdade. J reparei que os administradores do departamento de residncia parecem no ser muito benquistos nem pelos 
alunos nem pelos docentes. Em sua maior parte, os diretores de prdios de residncia estudantil na Faculdade de Nova York parecem ser considerados um pouco acima 
de monitores de acampamento, e o Dr. Jessup e sua equipe de coordenadores e diretores associados no recebem muito mais respeito do que isso. O que  injusto, porque 
eles (bom, tudo bem ns) trabalhamos muito mesmo (muito mais do que muitos do que muitos daqueles professores, que do uma passadinha para uma hora de aula por semana, 
e passam o resto do tempo apanhando os colegas pelas costas em resenhas literrias). 
Enquanto Cooper  tragado para dentro de uma conversa com um diretor (um velho amigo da famlia Cartwright), eu estudo os meus supervisores por cima da borda do 
copo. O Dr. Jessup parece pouco  vontade dentro do smoking. Em p, ao lado dele, encontra-se uma mulher que imagino ser sua esposa escultural, j que parecem trocar 
elogios com uma mulher que s pode ser a outra metade do Dr. Flynn. As duas parecem magras e belssimas em vestidos justos com cintinho em tecido brilhante. 
Mas nenhuma das duas est to bonita quanto Rachel. Rachel est parada ao lado do Dr. Jessup, os olhos brilhando tanto quanto as bolinhas do champanhe que segura 
na mo, Ela est resplandecente em um vestido justinho de seda. O azul meia-noite do tecido contrasta com a pele de porcelana, que por sua vez parece brilhar contra 
o cabelo escuro arranjado em um coque no alto da cabea, enfeitado com alfinetes de brilhante. 
Para algum que declarou no tem "nada para usar" para ir ao baile, ela se saiu mesmo muito bem. 
Bom, na verdade, eu no consigo deixar de me sentir pouco  vontade pela maneira como estou sendo espremida para fora do vestido de Patty. Realmente,  bem desconfortvel. 
Demora um pouco para eu localizar o ilustre lder da faculdade. Mas finalmente o vejo perto de um dos balces de emprstimo de livros da biblioteca. Pela primeira 
vez, o reitor Allington saiu de casa sem sua camiseta regata, o que pode ser em parte a razo por que demorei tanto para encontr-lo. Ele est, de fato, usando smoking, 
e parece um homem realmente distinto. 
Pena que eu no possa dizer a mesma coisa a respeito da Sra. Allington, que usa um terninho de veludo preto com cala boca-de-sino. As mangas largar caem para trs 
toda vez que ela leva o copo  boca... o que, devo dizer, acontece com freqncia assustadora. 
Mas o que eu quero saber  onde est a prole dos Allington, o discreto Chris/Todd/Mark? No o vejo em lugar algum, apesar de estar bem certa de que ele estaria ali, 
por ser um cara fofo com seus vinte e pouco anos e tudo o mais. Que cara fofo de vinte e poucos anos consegue resistir a um evento como este? Quer dizer, falando 
srio. Cerveja grtis? 
Cooper est falando a respeito de cmeras em formato de batom ou algo assim com um sujeito mais velho que me chamou de "senhorita" e disse que tinha gostado do meu 
vestido (em um tom to sincero que eu olhei para baixo para me assegurar de que o zper ainda estava agentando) quando de repente uma mulher muito atraente, toda 
vestida de preto, caminha em nossa direo e diz o nome de Cooper em tom muito surpreso. 
 - Cooper? - ela que consegue parecer glamurosa e profissional ao mesmo tempo, pega no brao dele de maneira absolutamente territorial (como se, no passado, tivesse 
pegado em outras partes mais ntimas, e por isso tivesse autorizada a agarrar o brao dele) e diz: - O que voc est fazendo aqui? Parece que faz meses desde que 
tive notcias suas. Por onde  que voc tem andado? No d para dizer que ele tenha sido exatamente tomando pelo pnico. 
Mas parece que est com muita vontade de estar em outro lugar. 
 - Marian - ele diz, colocando a mo nas costas dela e se inclinando para beij-la. Na bochecha. - Que bom ver voc. - Ento ele faz as apresentaes, primeiro para 
o senhor de idade, depois para mim. - Heather, esta aqui  a professora Marian Braithwaite. Marian d aula de histria da arte. Marian, esta aqui  Heather Wells. 
Ela tambm trabalha aqui na Faculdade de Nova York. Ela estica o brao e aperta minha mo. Os dedos dele tremilicam igual a um passarinho preso entre minhas garras 
gargantuescas. Apesar disso, estou propensa a acreditar que ela faz ginstica com regularidade na academia da faculdade. E tambm que ela toma banho de chuveiro, 
no de banheira. Ela simplesmente tem cara de quem faz isso. 
 -  mesmo? - Marian diz, toda alegre, dando para mim um sorriso perfeito de Isabella Rossellini. - Qual  a sua cadeira? 
 - Hmm - respondo, torcendo para algum jogar um vaso cheio de gernios em minha cabea e me poupar de ter de responder. Infelizmente, isto no acontece. - Nenhuma, 
para falar a verdade. Sou diretora-assistente de um dos alojamentos de alunos de graduao. Quer dizer, de um dos conjuntos residenciais estudantis. 
 - Ah - sorriso perfeito de Marian nunca esmaece, mas d para ver, pelo jeito que ela olha para Cooper, que ela s quer arrast-lo para longe e arrancar as roupas 
dele, preferivelmente com os dentes, e no ficar ali conversando com a diretora-assistente de um conjunto residencial de alunos de graduao. 
Tambm no posso dizer que a condeno por isto. - Que legal. Ento, Cooper, voc andou viajando? Voc no retornou nenhum dos meus telefonemas... 
No ouo o restante do que Marian est dizendo porque de repente meu prprio brao  agarrado. S que, quando me viro para ver quem est me agarrando, em vez de 
um ex (o que seria impossvel, j que o meu est no hospital), encontro Rachel. 
 - Oi, Heather - ela exclama. Pontos gmeos de cor artificial iluminam as bochechas dela, e percebo que Rachel andou mandando vez no champanhe. Muito. - EU no sabia 
que voc vinha. Tudo bem com voc? E o Jordan? Fiquei muito preocupada com ele. Como ele est? 
Percebo, com um sobressalto de culpa, que no tinha pensado em Jordan a noite toda. No desde que abri a porta e coloquei os olhos em Cooper, alis. 
Gaguejo: 
 - Hmm, ele est bem. Alis, em boas condies. Deve se recuperar completamente. 
 - Que semestre ns tivemos, hein? - ela me d uma cotovelada amigvel. - Com toda a certeza, voc e eu estamos precisando de umas semanas de frias depois de tudo 
por que passamos. No d para acreditar. Duas mortes em duas semanas! - ela d uma olhada em volta, preocupada com o fato de algum a ter escutado, e abaixa a voz. 
- Eu no consigo acreditar. 
Sorrio para ela. Est bbada com certeza absoluta.  bem provvel que no tenha comido nada e por isso o champanhe subiu direto. A maior parte dos canaps que est 
passando pelo salo, cogumelos recheados e vol-au-vents de camaro, no parece ter baixo teor de carboidratos, de modo que Rachel provavelmente os est evitando. 
Mesmo assim,  legal v-la alegre para variar (apesar de ser surpreendente que algo assim, que para mim parece meio pesado e tedioso, baste para despertar a moa 
festeira que existe nela). Mas, bom, eu no estudei em Yale, ento talvez seja por isso. 
 - Eu tambm no - concordo com ela. - Voc est muito bonita, alis. Este vestido caiu bem em voc. 
 - Muito obrigada! - ela solta fascas. - Precisei pagar  vista, mas acho que valeu a pena. - Ento o olhar dela recai sobre Cooper, e os olhos dela se acendem 
ainda mais. - Heather - ela sussurra, toda animada. - Voc est com Cooper? Por acaso voc e ele... 
Dou uma olhada por cima dos ombros para meu "acompanhante", que aparentemente continua tentando explicar para a professora por onde andou nos ltimos meses (o que, 
at onde eu sei, foi exatamente em Waverly Place. Fico aqui me perguntando se Cooper tentou dar em Marian o bom e velho p na bunda. Por que outra razo no teria 
ligado para ela? Mas no consigo imaginar nenhum motivo por que qualquer cara pode querer largar um partido como ela. Ela tem sucesso na carreira,  inteligente, 
linda, magra, toma banho de chuveiro... caramba, eu sairia com ela). 
 - Hmm - digo, sentindo minha bochechas esquentarem um pouco com a idia de Cooper e eu, sabe como . Juntos. - No.  s que ele tinha um convite sobrando, ento 
eu vim junto. Somos s amigos. 
E destinados a assim permanecer. Parece. 
 - Igual a voc e Jordan - Rachel diz. 
 -  - respondo, conseguindo abrir um sorriso, mas no sei como. - Igual a mim e Jordan. 
No  culpa dele. Quer dizer, ela no faz idia de que est esfregando sal na ferida. 
 - Bom,  melhor eu ir andando - ela diz. - Eu prometi ao Stan que ia pegar uma destas tortinhas de caranguejo para ele... 
 - Ah - digo. - Claro. Tchau. 
Rachel sai deslizando em seus prprio stimo cu. Fico aqui me perguntando se o boato que Pete ouviu sobre Rachel ganhar uma promoo bem grande e gorda  verdade. 
Eu no ficaria surpresa. Ningum no campus teve de conferir em duas semanas, se duas pessoas estavam mortas. O que mais a faculdade poderia fazer para demonstrar 
seu apreo alm de promov-la? Um prmio Amor-Perfeito no basta. Afinal, Magda disse que, uma vez, Justine tinha sido indicada para uma medalha Amor-Perfeito porque 
deixou um aluno tomar emprestada a caderneta de telefones dela. 
 - Ei, loirinha! 
Ignoro a voz que vem atrs de mim e, em vez de dar ateno a ela, prefiro olhar para Cooper. Ele continua falando com Marian Braithwaite, que olha para ele com adorao 
e ri de vez em quando de tudo que ele diz. Como ser que eles se conheceram? Vai ver ela o contratou. Talvez ela tenha desconfiado que o marido-professor dela a 
estava traindo, e contratou Cooper, e ele provou que ela no tinha nada com que se preocupar, e por isso que ela est to feliz de v-lo e fica esticando a mo para 
pegar no brao dele... 
 - Loirinha! 
Algum bate no meu ombro, e eu me viro, surpresa, achando que vou ver algum auxiliar do reitor, pedindo para ver o meu convite... 
... mas, em vez disso, olho direto para os olhos acinzentados e risonhos do filho dele. 

21
 s voc pedir
Eu sei que voc quer
 s voc pedir

 s voc pedir
Eu nunca ia te fazer adivinhar
 s voc pedir
Baby, pode ser que eu diga sim

" s pedir"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Robert/Ryder
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

Oi - Chris diz, todo sorridente. - Lembra de mim? 
Fico olhando para ele, to cheia de pnico que no consigo preferir um nico som. 
Christopher Allington. Chirstopher Allington veio atrs de mim. Chris Allington est segurando meu antebrao e sorrindo para mim como se fssemos velhos amigos que 
se encontraram por acaso na pista de boliche ou algo assim. Ele at est me oferecendo um taa de champanhe! 
Bom, seria falta de educao no aceitar. 
Pego a taa da mo dele muda, o corao batendo forte nos meus ouvidos. Christopher Allington. Christopher Allington. Ai, meu Deus. Como  que voc pode ficar a 
falando comigo como se no fosse nada? Voc tentou me matar hoje. Est lembrado? 
 - A gente se conheceu ontem  noite, na porta do conjunto Fischer - ele se apressa em dizer, achando que no me lembro dele. At parece que eu vou esquecer! - Era 
mesmo voc, no era? 
Finjo de repente recobrar a memria. 
 - Ah - digo, despreocupada (apesar de no haver nada assemelhado a despreocupao na sensao formigante de alarme que sinto subir e descer por meu brao, no lugar 
onde ele continua segurando). - Claro. Como vai? 
Ele me larga. O agarro dele no foi desagradvel. Nem um pouco. Mas no  estranho? Quer dizer, no devia ter sido? Tendo visto que ele  um assassino e tudo o 
mais? 
Esquisito. 
 - Eu vou bem - ele responde. 
Ele est muito bem. O smoking dele tem caimento bem melhor que o do pai. Mas, em vez de uma gravata-borboleta, Chris est usando uma gravata normal. De algum modo, 
nele, isso parece exatamente certo. 
 - Na verdade, estou muito melhor agora que vi voc - ele prossegue. - Eu detesto estas coisas, e voc? 
 - Ah - respondo, com um dar de ombros. - No sei. No  to mau. Pelo menos tem lcool. 
Viro o champanhe que ele me ofereceu de uma vez s apesar do aviso de Cooper a respeito de beber em servio. Depois do susto que Chris me deu, chegando assim to 
sorrateiramente, sinto que mereo. 
Ele me observa e ri. 
 - Ento, com quem voc veio? - ele quer saber. - As entradas no so baratas. Voc  uma das representantes dos alunos? 
Dou de ombros de novo. O investigador Canavan tinha dito que, de acordo com as experincias dele, pessoas que matam so extremamente burras, e estou comeando a 
achar que, no caso de Chris, pode ser mesmo verdade. O fato de eu ser quase dez anos mais velho do que um representante estudantil mdio parece no surtir efeito 
sobre ele... 
... e isso, para mim, tudo bem. Quer dizer, tendo em vista que estou tentando ser sorrateira e sutil para conseguir fazer com que ele d um passo em falso e confesse 
e tudo o mais. Mas  claro que no fao a menor idia de como vou fazer isto. 
Pelo menos Chris, diferentemente de outras pessoas, parece ter gostado do meu visual com o vestido emprestado. Vejo o olhar dele se desviar para o meu decote vrias 
vezes. E no porque o zper est abrindo atrs e tudo est solto l dentro. Eu sei porque conferi. 
A banda comea a tocar uma msica lenta. Para minha surpresa, alguns casais de fato se deslocam para o centro da biblioteca e comeam a danar... Entre eles, esto 
a me e o pai de Chris. Vejo o reitor Allington conduzir a mulher para a pista com uma mesura exagerada que os diretores aplaudem em meio a risadas. 
Na verdade,  meio fofo. 
Pelo menos at a Sra. Allington tropear nas bocas de sino e quase cair de cara no cho. Felizmente, o reitor a gira e faz tudo parecer um passo complicado que ele 
tinha feito de propsito. 
O que  ainda mais fofo. Talvez Chris no seja assim to azarada quanto pensei que ele era. Em relao aos progenitores, quero dizer. 
 - Ei - Chris diz, surpreendendo-me mais uma vez, agora tirando a taa de champanhe de minha mo e colocando na bandeja de um garom que passa por ali. - Quer danar? 
Minha cabea se vira com tanta rapidez para olhar para ele que uma mecha de meu cabea bate na minha boca e fica grudada no brilho labial. 
 - O qu? - pergunto, desesperada para tir-lo. O cabelo, quer dizer. Da minha boca. 
 - Quer danar? - ele pergunta. O sorriso dele  levemente cnico, para mostrar que ele sabe to bem quanto eu que danar no Baile Amor-Perfeito da Faculdade de 
Nova York  meio... bom, ridculo. Mesmo assim, ele quer dizer claro que est dentro. 
O sorriso dele  contagiante.  o sorriso de um capito do time de futebol da escola, o garoto mais bonito do ensino mdio, to autoconfiante e to charmoso que 
nunca lhe ocorreu que alguma garota pudesse dizer "de jeito nenhum, man" para o convite dele. Provavelmente porque nunca uma garota fez isso. 
E eu  no vou ser a primeira. 
E no s porque quero descobrir se foi ele ou no que matou Elizabeth e Roberta. 
Ento, sorrio e digo: 
 - Claro - e o sigo at a pista de dana. 
No sou a melhor danarina do mundo, mas no faz mal, porque Chris  bom. Provavelmente freqentou uma daquelas escolas particulares onde os alunos tm aula de dana 
de salo ou algo assim. Ele  to bom que consegue conversar enquanto dana. Eu preciso ficar contado na cabea. Um, dois, trs. Um, dois, trs. Troca de p... ah, 
espera, esta  outra dana. 
 - Ento - Chris diz em tom informal, enquanto aperta meu corpo contra o dele e me conduz com muita destreza pela pista e nem pisca quando piso no p dele sem querer. 
- Que curso voc est fazendo? 
Procuro (disfaradamente) por Cooper. Afinal, ele supostamente devia ficar de olho em mim, no? 
Mas no o vejo em lugar nenhum. Alis, tambm no vejo Marian. Ser que fui dispensada por uma ex-namorada? Depois de toda a confuso que Cooper fez a respeito de 
eu estar arriscando a vida em busca do assassino do conjunto Fischer, ser que ele me abandonou? 
Beleza!  bom saber que ele se importa tanto assim comigo! 
Mas, sabe como  tendo em vista que ele me deixa morar na casa dele sem pagar aluguel (bom, praticamente), acho que no tenho direito de reclamar. Quer dizer, quantas 
pessoas em Manhattan tm acesso to fcil a uma lavadora/secadora? 
Em resposta  pergunta de Chris a respeito do que estudo, digo: 
 - Hmm... est em aberto. 
Bom, isso  verdade. 
 -  mesmo? - ele parece verdadeiramente interessado. - Muito bem. Mantenha as suas opes em aberto. Acho que muita gente chega  faculdade j decidida a fazer 
tal ou tal curso e no se d a oportunidade de experimentar coisas novas. Sabe como , descobrir no que so bons de verdade. Pode ser algo em que nunca pensaram. 
Como confeco de jias. 
Uau. Eu no sabia que dava para estudar confeco de jias na faculdade. Voc ia poder usar a sua prova final. Que prtico. 
 - Qual  a sua inclinao? - ele pergunta. 
Vou dizer preparao para medicina, mas mudo de idia no ltimo segundo. 
 - Justia criminal - minto para ver como ele reage. 
Mas ele no sai correndo para se esconder de medo nem nada. Em vez disso, diz com ar jovial: 
 - , muito interessante, justia criminal. Eu mesmo andei pensando em fazer direito criminal.
Aposto que sim. Pergunto em voz alta, em tom de brincadeira:
 - Ento, o que um grande estudante de direito como voc estava fazendo em um conjunto residencial de alunos que ainda no esto na graduao?
Pelo menos ele faz a gentileza de parecer acanhado.
 - Bom - ele responde, com uma voz de saco cheio - , os meus pais moram l. 
 - Alm de vrias meninas bonitinhas - observo. Est lembrada? De quem voc matou duas delas? 
Ele sorri. 
 - Isso tambm - diz. - No sei. As garotas do meu curso no so exatamente... 
Por cima do ombro de Chris, avisto Cooper de relance. Parece que ele est trocando palavras com a professora Braithwaite. Mesmo. Eles esto envolvidos no que parece 
ser uma conversa bem calorosa perto do buf de saladas. Vejo quando ele olha para mim de canto de olho. 
Ento, ele no esqueceu. Continua de olho em mim. 
E est brigando com a ex, parece. 
Mas tambm est de olho em mim. 
Como me dou conta de que ele no sabe qual  a cara do Chris, pode no saber que estou danando com o meu principal suspeito. Ento, aponto para as costas de Chris 
e digo em silncio para ele: Este aqui  o Chris. 
Mas no funciona bem do jeito que eu desejava. Ah, Cooper entende e tudo o mais. 
Mas Marian tambm e, ao perceber que a ateno dele no est mais exclusivamente voltada para ela, segue a direo do olhar de Cooper e me v.  Sem saber o que mais 
posso fazer, dou um aceno ridculo. Marian desvia o olhar de mim com frieza. 
Uau. Desculpa a. 
 - As garotas do curso de direito... 
Viro a cabea e percebo que  o Chris falando. Comigo. 
 - Bom, digamos que elas consideram o fato de ficar sentadas em uma mesa de estudo da biblioteca toda noite, at a meia-noite,  sinnimo de diverso - ele diz e 
d uma piscadela. 
Do que  que ele est falando? 
Ento eu me lembro. Das alunas que esto indo em relao s que j esto na graduao em direito. Ah, certo. A investigao dos assassinatos. 
 - Ah - assinto com a cabea, dando sinal de compreenso. - Garotas que estudam direito. No so nada parecido com aquelas meninas vindas diretamente do interior 
l do conjunto Fischer, hein? 
Ele d muita risada. 
 - Voc  bem engraada - ele diz. - Em que ano voc est? 
Simplesmente dou de ombros e tento fingir que no se passaram, hmm, digamos, um pouco mais de sete anos desde que eu atingi a maioridade. 
 - Pelo menos me diga qual  o seu nome - ele implora, com uma voz grave que, tenho certeza, alguma ex-namorada dele j disse que era sexy. 
 - Pode continuar me chamando de loirinha - ronrono. - Assim voc vai poder me distinguir de todas as suas outras namorada. 
Ele ergue as sobrancelhas e sorri. 
 - Que outras namorada? 
 - Ah, voc - exclamo, dando um tapinha bem feminino no brao dele. - J ouvi falar sobre voc. Eu era amiga de Roberta, sabia? 
Ele olha para mim como se eu estivesse louca. As sobrancelhas esto franzidas. 
 - Quem? 
Meu deus, ele  bom. No tem nenhum pontinha de culpa nos olhos cinza-prateado dele. 
 - Roberta - repito. Preciso confessar. Meu corao bate forte por causa de minha ousadia. Estou conseguindo! Investigar! Estou mesmo investigando! - Roberta Pace. 
 - No sei de quem voc est falando. 
Realmente, no d para acreditar neste cara. 
 - Bobby - digo. 
De repente, ele ri. 
 - Bobby? Voc  amiga da Bobby? 
No deixei passar a nfase estranha no voc  e no uso do tempo presente. Afinal de contas, sou uma detetive tarimbada. Bom, pelo menos, eu fao a contabilidade 
de um detetive. 
 - Eu era amiga de Roberta - respondo sem sorrir e parando de fingir que tenho menos 21 anos. Porque no d para acreditar que este cara possa ser assim to frio. 
Mesmo para um assassino. - At ela cair de cima do elevador na semana passada. 
Chris pra de danar. 
 - Espere um pouco - ele diz. - O qu? 
 - Voc ouviu bem - digo. - Bobby Pace e Beth Kellogg. As duas esto mortas, supostamente por fazer surfe de elevador. E voc foi para a cama com as duas na noite 
anterior  morte. 
Minha inteno no era falar assim na lata. Tenho bastante certeza de que o Cooper seria mais sutil. Mas  que eu... bom, eu fiquei meio brava, acho. Porque ele 
fez tanto descaso da coisa toda. Estou falando da morte de Roberta e Elizabeth. 
Acho que um detetive de verdade no fica brava. Acho que um detetive de verdade fica sempre de cabea fria. 
Afinal de contas, acho que meu destino no  ser parceira de Cooper. Chris parece paralisado, os ps pregados sobre um quadrado branco e outro preto no cho. 
Mas ele no afrouxa a mo que est em minha cintura. Acho at que ele aperta mais um pouco, e ficamos l de quadris unidos. 
 - O qu? - pergunta com olhos to arregalados que as ris cinza-azuladas se parecem com bolinhas de gude flutuando em laguinhos gmeos de leite. - O qu? - pergunta 
de novo. At os lbios dele ficaram lvidos. 
Meu rosto est apenas dois centmetros abaixo do dele. Vejo nos olhos dele que est incrdulo, e que est se enchendo lentamente de terror (at eu, uma detetive 
to fraca, sou capaz de perceber isso). 
E  quando percebo: 
Ele no sabe. Mesmo. Chris no fazia a menor idia (pelo menos at eu contar para ele, naquele momento) de que as duas meninas mortas no conjunto Fischer eram exatamente 
as que ele, hmm, tinha traado poucos dias antes.  Ser que ele  to garanho assim que s sabe o primeiro nome (o apelido) das mulheres que seduz? 
Com toda certeza parece que sim. 
O efeito que minha notcia tem sobre Chris  realmente bastante profundo. Seus dedos apertam minha cintura em convulses, e ele comea a sacudir a cabea para frente 
e para trs, como Lucy faz depois de um bom banho. 
 - No - ele diz. - No  verdade. No pode ser. 
E, de repente, percebo que cometi um erro terrvel. 
No me pergunte como. Quer dizer, at parece que tenho alguma experincia neste tipo de coisa. 
Mas, mesmo assim, eu sei. Sei do mesmo jeito que conheo o contedo de gordura em um chocolate Milky Way. 
Christopher Allington no matou aquela meninas. 
Ah, ele foi para a cama com elas, sim. Mas no as matou. Isso foi obra de outra pessoa. Algum muito, muito mais perigoso... 
 - Muito bem - diz uma voz profunda atrs de mim. Uma mo pesada cai em meu ombro desnudo. 
 - Desculpe, Heather - Cooper diz. - Mas a gente precisa ir embora. 
De onde  que ele surgiu? No posso ir embora. No agora. 
 - Hmm - respondo. - Certo, me d s um segundo, tudo bem? 
Mas Cooper no parece muito pronto para esperar. Na verdade, est com cara de quem precisa sair dali correndo, como se sua vida dependesse disto. 
 - A gente precisa ir embora - ele repete. - Agora. 
E coloca a mo em volta de meu brao e me puxa. 
 - Cooper - eu digo, sacudindo o brao para me libertar. D para ver que Chris continua em estado de choque.  bem possvel que, se eu ficar ali mais um pouco, vou 
conseguir arrancar mais alguma coisa dele. Ser que Cooper no percebe que estou conduzindo um interrogatrio aqui? 
 - Por que voc no come alguma coisa? - sugiro. - A gente se encontra no buf daqui a um minuto... 
 - No - ele diz. - Vamos embora. Agora. 
D para entender por que ele est to ansioso para ir embora. Afinal, no  todo mundo que resolve as coisas com os ex, sabe como , transando no cho do hall de 
entrada. 
Mesmo assim, sinto que ainda no posso ir embora. No depois de ter feito um avano to importante. Chris est realmente abalada (to abalado que nem parece notar 
que h um detetive particular pairando sobre a sua companheira de dana). Ele virou para o outro lado e est meio que se afastando da pista de dana aos tropees, 
indo mais ou menos na direo dos elevadores. 
Para onde ele est indo? Para o 12 andar, para o escritrio do pai, para beber algo de verdade? Ou s para usar o telefone? Ou ser que vai at o telhado pular 
l de cima? Sinto que preciso segui-lo, mesmo que seja s para garantir que ele no vai fazer nada idiota. 
S que, quando comeo a ir atrs dele, Cooper no deixa. 
 - Cooper, eu ainda no posso ir embora - digo, fazendo foro para me soltar da mo dele. - Eu fiz com que ele confessasse que conhecia as duas! Roberta e Elizabeth! 
E sabe o qu? Acho que no foi ele que as matou. Acho que ele nem sabia que elas estavam mortas! 
 - Que beleza - Cooper diz. - Agora, vamos embora. Eu disse que tinha um compromisso. E j estou atrasado. 
 - Um compromisso? Um compromisso? - No consigo acreditar no que estou escutando. - Cooper, voc no entende? Chris disse... 
 - Eu j ouvi - ele responde. - Parabns. Agora, vamos embora. Eu disse que eu traria voc aqui. No disse que ficaria a noite toda. Sabe como , eu tenho clientes 
que me pagam de verdade. 
Percebo que  intil. Mesmo que Cooper mudasse de idia e me soltasse, eu no fao a menor idia de onde o Chris se enfiou. E ser que seria mesmo inteligente se 
eu o seguisse? Quer dizer, levando em conta o que aconteceu com as duas ltimas garotas que ele... como posso colocar? Ah, sim: que ele traou. Ei, talvez eu devesse 
me formar em letras. . Virar escritor. E mdica. E detetive. E designer de jias... 
Cooper e eu deixamos o prdio. Nem tenho oportunidade de me despedir de ningum, nem de dar parabns a Rachel pela Medalha Amor-Perfeito dela. Nunca vi ningum to 
afoito para sair de um lugar. 
 - Calma a - digo quando Cooper me puxa para a rua. - Estou de salto, sabia? 
 - Desculpe - ele diz, e larga meu brao. Ento ele coloca os dedos na boca e assobia para chamar um txi que est passando pela West Fourth. 
 - Para onde a gente est indo? - Pergunto, curiosa, quando o txi pra na esquina, cantando pneu. 
 - Voc vai para casa - diz. Ele abre a porta de trs do lado do passageiro e faz um gesto para eu entrar, depois d o endereo do predinho do av dele para o motorista. 
 - Ei - eu digo, inclinando-me no assento. -  logo ali no outro quarteiro. Eu poderia ter ido a p... 
 - Sozinha, no - Cooper diz. - E eu preciso ir para o outro lado. 
 - Por qu? - No deixo escapar o fato de a historiadora da arte Marian ter acabado de sair pela porta da biblioteca atrs de ns. 
Mas, em vez de vir se juntar ao Cooper, ela lana um olhar nada amigvel para ele e depois se apressa a p na direo da Broadway. Cooper, que est de costas para 
a biblioteca, no v a professora, nem o olhar maldoso dela. 
 - Preciso falar com um cara -  tudo o que ele diz para mim - sobre um cachorro. - Ele enfia uma nota de cinco dlares na minha mo. - No me espere acordada. 
 - Que cachorro? - o txi comea a se movimentar. - Cooper, que cachorro? Voc vai arrumar outro cachorro? E Lucy? Qual  o problema de Lucy? 
Mas j estamos nos misturando ao trnsito. Cooper virou para o outro lado e comeou a caminhar rapidamente na direo da rua West Third. Logo, j no o enxergo mais. 
Que histria foi aquela? Quer dizer, falando srio. Eu sei que os clientes de Cooper so importantes para ele. E sei que ele acha que essa coisa toda que tenho em 
relao s mortes no meu prdio  uma criao da minha mente, ou sei l o qu. 
Mas, mesmo assim. Ele poderia ter escutado o que eu tinha a dizer. 
E  quando o motorista do txi, que tem cara de indiano, diz, tentando ajudar: 
 - Acho que  um modo de falar. 
Olho para o reflexo dele no espelho retrovisor. 
 - O que  um modo de falar? 
 - Falar com um cara sobre um cachorro - o taxista responde. -  uma expresso americana. Tipo pedras que rolam no criam limo.  Sabe como ? Significa que ele precisa 
ir a algum lugar que prefere no mencionar.
Eu me afundo no assento. No, eu no sabia. Parece que eu no sei de nada.  Bom, mas acho que disso eu j sei. Quer dizer, no  por isso que eu fui trabalhar na 
Faculdade de Nova York? Para estudar? 
Bom, eu estou aprendendo alguma coisa, sim. E ainda nem comecei a ter aulas. 
Depois de Cooper e eu (e Chris Allington) sairmos do Baile Amor-Perfeito, Rachel Walcott recebeu uma Medalha Amor-Perfeito por servios exemplares prestados  faculdade. 
Na manh seguinte, ela me mostra o broche em formato de flor, cheia de orgulho nos lindo olhos castanhos. Ela o usa na lapela do tailleur preto de linho como se 
fosse uma medalha de honra ao mrito ou algo assim. 
Mas acho que  isso mesmo. Quer dizer, em um nico semestre, ela precisou lidar com mais tragdias do que a maior parte dos administradores enfrenta durante toda 
a carreira. 
Eu nunca ganhei nada na vida. Bom, tudo bem, fiz um contrato com uma gravadora, mas foi s isso. Eu sei que normalmente no do Grammys para msicas como "Vontade 
de te comer". Mas acorda, eu tambm nunca ganhei nem um People"s Choice Award, o prmio do pblico. Nem mesmo um Teen People"s Choice. 
E eu era totalmente a Rainha dos Teens. Pelo menos, at eu sair da adolescncia. 
Mas tento no deixar que Rachel perceba que estou com inveja prmio dela. No que eu tenha ficado com tanta inveja assim. Mas sabe como . Fui eu quem arrastou 
todas as caixas do poro. As caixas que usamos para empacotar todas as coisas de Roberta e de Elizabeth. E fui eu quem empacotou tudo. E fui eu quem arrastou tudo 
para o servio de correspondncia e despachou. Acho que eu deveria receber alguma coisa por isso. Talvez no um Amor-Perfeito. Mas quem sabe um Dente-de-Leo. 
Tudo bem. Quando eu conseguir provar que as meninas morreram assassinadas, e no por acidente, e quando eu descobrir quem as matou, talvez eu ganhe a chave da cidade 
ou alguma coisa assim. De verdade! E o prefeito vai me entregar pessoalmente, e a cerimnia vai ser transmitida pela TV, no canal New York One, e Cooper vai ver 
e vai perceber que, apesar de eu no ser professora de histria de arte, sou totalmente inteligente e fofa, e ele vai me convidar para sair e vamos nos casar e ter 
o Jack, Emily e Charlotter Wells-Cartwright... 
Bom, uma garota tem direito de sonhar, certo? 
E estou feliz por Rachel. Dou parabns a ela e tomo o meu caf enquanto ela descreve como foi receber o prmio de tanto prestgio na frente dos colegas. Ela contou 
que o Dr. Jessup deu um abrao dela e que o reitor Allington agradeceu pelos servios prestados que vo alm das obrigaes dela. Ela fica falando toda animada que 
foi a primeira funcionria administrativa da Faculdade de Nova York a receber sete nomeaes diferentes para o prmio, o maior nmero que qualquer pessoa j recebeu, 
e tudo nos primeiro quatro meses dela no emprego! Ela diz que est muito contente de ter entrado para o ramo da educao superior, e no dos negcios ou do Direito, 
como tantos colegas dela de Yale fizeram. 
 - Voc no acha bom - ela me pergunta - sabe que est fazendo tanta diferena na vida das pessoas, Heather? 
 - Hmm - digo. - Claro. 
Mas tenho muita certeza de que as pessoas sobre cuja vida eu exero a maior diferena (os funcionrios estudantis) simplesmente preferiam que Justine voltasse. 
Enquanto Rachel vai se acalmando depois de toda a animao de falar do prmio Amor-Perfeito, pego o telefone para cuidar de algumas coisa que acho que ando negligenciando. 
Primeiro, ligo para Amber no quarto dela. Quando a voz sonolenta dela coaxa: "Al? " no telefone, desligo com todo o cuidado. Certo. Amber continua viva. OK. 
Ento ligo para o hospital St. Vincent"s para ver como Jordan est. Fico sabendo que est melhor, mas ainda querem que ele fique l uma noite para observao. Realmente 
no quero, mas fico achando que preciso falar com ele... sabe como , tendo em vista que  minha culpa ele ter se machucado, para comeo de conversa. 
Mas quando a telefonista transfere minha ligao para o quarto dele, uma mulher atende. Tania. No consigo lidar com noivas logo cedo pela manh, ento, desligo. 
Mas me sinto culpada em relao a isso e encomendo meia dzia de bales com mensagens de melhoras de uma floricultura local e peo que sejam entregues no hospital 
St. Vicent"s com uma mensagem de teor altamente pessoal: Espero que melhore logo, Jordan. Da Heather.  provvel que eles se percam no meio de todos os outros presentes 
de fs sem dvida esto mandando para ele (parece que fizeram uma viglia  luz de velas na frente do hospital, na entrada das ambulncias), mas pelo menos posso 
dizer que tentei. Pensar em Jordan com o crnio rachado me lembra Christopher Allington. Um detetive de verdade teria dado continuao  conversa que comeamos 
na noite anterior, claro. 
Ento resolvo fazer mais uma tentativa com ele. Digo a Rachel que vou ao banheiro. Mas, na verdade, vou at o elevador e subo ao vigsimo andar.  Ningum alm dos 
Allington e as visitas deles deve ir at o vigsimo andar, e  por isso que o tapete no hall da entrada da cobertura na verdade  um enorme detector de movimento 
que dispara um alarme sempre que algum pisa nele, inclusive os Allington. O alarme faz com que uma cmera comece a funcionar, enviando imagens do intruso para uma 
tela de video na mesa da segurana na recepo. 
Mas como o guarda do momento  Pete, no me preocupo muito em ser pega. J surpreendemos vrios calouros no vigsimo andar, a maior parte dos quais tinha sido mandada 
at l por colegas mal-intencionados em busca da "Piscina do Conjunto Fischer". A piscina do conjunto Fischer de fato existiu, mas no poro, e no na cobertura, 
e um dos trotes preferidos dos mais velhos  mandar os calouros at o vigsimo andar para procur-la, sabendo que vo fazer disparar os detectores de movimento e 
que vo ser pegos por estar na frente do apartamento do reitor. 
Piso cheia de coragem no tapete supracitado e ergo o dedo para apertar a campainha do apartamento dos Allington. D para ouvir um rudo estranho de assobio atrs 
da porta, e percebo que devem ser os pssaros da Sra. Allington, as cacatuas com que ela tanto se preocupa quando bebe alm da conta. Quando toco a campainha, os 
assobios se transformam em gritos histricos e, por um instante, entro em pnico. Mesmo. Esqueo todo o negcio de detetive barra escritora barra mdica barra designer 
de jias e s tenho vontade de correr de volta para o elevador... 
Mas antes que eu tenha oportunidade de me atirar no cho e fugir, a porta se abre e a Sra. Allington, com olhos
embaados, com uma com uma bata verde de veludo
molhado, olho para mim.
 - Pois no? - Ela pergunta de um jeito nada simptico, apesar de, h cerca de duas semanas, eu ter segurado a mo dela enquanto ele vomitava em uma das jardineiras
da recepo. Atrs dela, vejo um pedao de uma gaiola de vime de quase dois metros de altura, de dentro da qual dois passarinhos brancos gritam para mim. 
 - Ah, oi - digo com animao. - Christopher, est? 
As plpebras inchadas da Sra. Allington se abrem um pouco, depois voltam ao normal. 
 - O qu? 
 - Chris - repito. - Seu filho, Christopher. Ele est? 
A Sra. Allington parece verdadeiramente fula da vida. No comeo, fico achando que  porque eu a acordei, mas acontece que isso  s parte do problema. 
No, o que eu fiz de errado foi ultrajar a noo de propriedade da Sra. Allington. 
Isso mesmo! Quem poderia saber que ela tem isso? Mas tem, sim. Ela diz, separando em slabas, como se estivesse falando com algum estrangeiro que no compreende 
bem a lngua. 
 - No, Chris no est aqui, Justine. E se voc tivesse tido uma boa educao, saberia que  considerado altamente inadequado moas correrem atrs de rapazes com 
tanta afobao. Ento ela bate a porta com muita fora, fazendo com que os pssaros gritem ainda mais alto com a surpresa. 
Fico ali parada, olhando para a porta fechada durante mais ou menos um minuto. Preciso reconhecer que estou um tanto magoada. Quer dizer, eu achava que a Sra. Allington 
e eu ramos prximas. 
E, no entanto, ela ainda me chame de Justine. 
Eu deveria simplesmente ter ido embora. Mas sabe como , eu continuava precisando saber onde Chris estava. 
Ento, estico a mo e toco a campainha de novo. Os gritos dos pssaros passam para estridentes e, quando a Sra. Allington abre a porta desta vez, no est apenas 
com cara de algum fula da vida, mas de quem quer matar outra pessoa. 
 - O que foi? - Ela quer saber. 
 - Desculpe - digo da maneira mais educada que sou capaz. - Eu realmente no quero incomodar. Mas ser que a senhora poderia s me dizer onde  que eu posso encontrar 
o Chris? 
A Sra. Allington tem muita pele solta no rosto. Um lifting aqui, outro ali poderiam ter dado jeito, mas ela realmente no  do tipo adepta  plstica. Ela faz mais 
o tipo aristocrtico da Nova Inglaterra, daquela gente que tem muito dinheiro e que fala sem abrir a boca. Mais ou menos como a Sra. Cartwright. S que bem mais 
assustadora. 
Mas, bom, um pouco dessa pele solta embaixo do queixo dela fica tremendo enquanto ela olha para mim, cheia de dio. 
Finalmente, ela diz: 
 - Ser que vocs todas simplesmente no podem deixar o Chris em paz? Esto sempre correndo atrs dele, causando confuso. Vocs no podem ir atrs de outro rapaz? 
Por acaso no tem um monte dele no alojamento? 
 - Conjunto residencial estudantil - corrijo. 
 - O qu? 
 - Isto aqui  um conjunto residencial estudantil - lembro a ela. - A senhora disse alojamento. Mas na verdade  um... 
 - V para o inferno - a Sra. Allington diz e bate a porta na minha cara de novo. 
Uau. Isso  que  hostilidade. Em vez de ficar fazendo a minha anlise o dia inteiro, Sarah devia fazer suas atenes se voltarem para os Allington. Eles tm muitos 
mais problemas. 
Suspiro, dou meia-volta e aperto o boto de descer do elevador. No tenho certeza, mas acho que talvez a Sra. Allington j tenha colocado a mo na garrafa... e ainda 
no so nem dez da manh! Fico aqui me perguntando se ela est sempre embriagada assim to cedo, ou se esta  alguma ocasio especial. Como comemorar o prmio Amor-Perfeito 
de Rachel, talvez. 
Quando eu deso de novo, quase passo por cima de uma menina magrinha no corredor. Ela est indo para a sala de Rachel, ento comeo a pergunta se posso ajudar mas, 
quando ela se vira, vejo que  Amber. 
Isso mesmo. 
Amber do Chris Allington, do Idaho. Aquela que acabei de acordar. 
 - Ah - ela diz quando me reconhece. - Oi - O oi dela  muito menos do que entusiasmado. Isso porque ela ainda est meio dormindo. Ela est at de pijama. 
 - Voc no ... no  a diretora do prdio, ? 
 - No - respondo. - Sou assistente dela. Por qu? 
 - Porque acabei de receber uma ligao dizendo que eu tinha que descer aqui para uma reunio obrigatria com Rachel Walcott... 
Naquele momento, Rachel sai da nossa sala batendo os saltos no cho, segurando uma pasta junto ao peito. 
 - Ah, Heather, voc apareceu - ela diz, toda alegre. - Cooper est aqui. 
Acho que eu devo ter emitido algum rudo de descrena, porque Rachel fica olhando para mim curiosa e diz: 
 - Ele est mesmo. - Ento a ateno dela se volta para a menina ao meu lado. - Amber? - Ela pergunta. 
 - Sim, senhora. - A Amber parece derrotada. Bom, e como  que uma garota de 18 anos que foi forada a acordar s dez da manh para uma reunio com a diretora do 
prdio no iria se sentir derrotada? 
 - Por aqui, Amber - Rachel diz, pegando no cotovelo da menina. - Heather, por favor, segure minhas ligaes por alguns minutinhos... 
 - Claro - respondo e entro na nossa sala. Onde,  claro, encontro Cooper balanando a cabea enquanto olha para o pote de camisinhas em cima de minha mesa. 
Oi, Cooper - eu digo, um tanto cautelosa. O que me parece compreensvel, levando em conta que, sabe como , na ltima vez que ele apareceu em meu trabalho, foi para 
contar que meu ex-namorado estava noivo de outra pessoa. O que ser que aconteceu desta vez? 
Ento sinto uma onda de pnico quando me lembro de Marina. Ai, meu Deus. Ela e o Cooper voltaram. Eles voltaram e vo se casar, e Cooper est aqui para me dizer 
que precisa do apartamento de volta porque vo colocar a bab l... 
 - Oi, Heather - ele diz, parecendo bem mais ele mesmo de jeans e jaqueta de couro do que parecia de smoking. - Tem um minuto? 
Oi, Heather, tem um minuto? Oi, Heather, tem um minuto? Que jeito  ESSE de dar incio a uma conversa? Ser que existe outras trs palavras mais capazes de incutir 
terror em algum do que Tem um minuto? No. Eu NO tenho um minuto! No se voc for me dizer o que acho que vai dizer. Por que ela? POR QU? S porque ela  inteligente 
e tem uma carreira de sucesso e  magra... 
 - Claro - respondo, de um jeito que, espero, parea despreocupado e seguro de si, mas que tenho certeza que soa mais como uma balido. Fao um gesto para Cooper 
se senta e me encolho em minha cadeira, desejando ter  mo uma garrafa da mesma coisa que a Sra. Allington passou a manh todo bebendo. 
 - Vejo bem, Heather - ele diz. - Sobre o que aconteceu ontem  noite... No! Porque se existem palavras piores do que Tem um minuto elas so Sobre o que aconteceu 
ontem  noite... 
E agora eu ouvi todas elas, em seqncia. No  justo! 
E o que foi mesmo que aconteceu na noite passada? Nada! Eu desci do txi em que Cooper tinha me enfiado e fui direto para a cama. Certo, talvez eu tenha ficado 
acordada mais ou menos uma hora, trabalhando em uma msica nova. 
E talvez a msica fosse sobre ele. 
Mas ele no tem como ter ouvido. Eu toquei superbaixinho. E nem ouvi quando ele chegou em casa. 
Ah, por que eu? POR QUE EU? 
 - Acho que estou devendo uma explicao para voc -  a fase inesperada que sai sua boca. 
Mas, espere um pouco. Estou devendo uma explicao para voc? Isso no parece um preldio para pedir que eu saia da casa dele. Na verdade, quase parece um pedido 
de desculpas. Mas o que ser que o Cooper pode ter feito para precisar se desculpar? 
 - Ontem  noite, depois do baile, eu fui me encontrar com uma amiga que trabalha no Instituto Mdico Legal - ele comea. - E ela disse... 
Espere um pouco. Uma amiga? O Cooper me largou por causa de outra mulher? 
 - Ah, ento foi isso que voc foi fazer? - Solto antes que consiga me segurar. - Foi se encontrar com uma mulher? 
Ai... Meu... Deus. Qual  o seu problema? Por que eu no consigo ficar com a cabea fria e demonstrar autoconfiana como... bom, como Rachel? Por que eu tenho de 
ser to pateta o tempo todo? 
Felizmente Cooper, por ter completa ignorncia a respeito de meus planos em relao a ele (a histria de que ele vai se casar comigo e vai ser pai dos meus trs 
filhos ainda por nascer e vai servir de inspirao para o meu prmio Nobel de medicina), no percebe que estou com cime. Parece que ele fica achando que estou brava 
porque ele me obrigou a sair cedo da festa. 
 - Eu no queria dizer nada para voc antes - ele diz. - Sabe como , para o caso de ela no ter nada a me dizer. Mas a verdade  que tinha mesmo alguma coisa estranha 
no corpo daquelas duas meninas. 
Fico l, olhando para ele. Porque no d para acreditar. No que a "amiga" dele no Instituto Mdico-Legal tinha encontrado alguma coisa estranha no corpo de Elizabeth 
e no de Roberta. Mas que ele tinha se dado ao trabalho de consult-la para meu benefcio para comeo de conversa. 
 - M-mas - eu gaguejo. - Mas eu achei... voc achou... que eu estava inventando tudo. Porque estava com saudade da emoo de me apresentar em pblico... 
 - Eu acho - Cooper diz, com um dar de ombros. - Quer dizer, achava. Mas tambm achei que no faria mal nenhum perguntar. 
 - E a? - me inclino para a frente, ansiosa. - O que foi? Drogas? Elas foram drogadas? Porque eu achei que o investigador Canavan tinha dito que no encontraram 
vestgios de drogas no corpo delas. 
 - E no encontraram mesmo - ele responde. - No foram drogas. E sim, queimaduras. 
Fico olhando para ele. 
 - Queimaduras? Que tipo de queimaduras? Tipo...  ueimadura de cigarro? 
 - No - ele responde. - Angie no tem certeza. - Angie? Cooper conhece algum no Instituto Mdico-Legal que se chama Angie? Alis, como foi que ele e Angie se conheceram? 
Angie no parece ser o tipo de nome que uma investigadora mdica possa ter. Uma danarina extica, talvez. Mas no uma mdica... - E  preciso levar em conta que 
aqueles corpos... - ele prossegue. - Bom, aqueles corpos estavam meio danificados. Mas Angie disse que acharam marcas de queimaduras nas costas das duas meninas, 
e so marcas que no tm explicao. No  o suficiente para que questionem a determinao do legista... sabe como , de que as mortes foram acidentais. Mas ... 
estranho. 
 - Estranho - repito. 
 -  - Cooper diz. - Estranho. 
 - Ento... - no consigo olh-lo no olho. Porque no d para acreditar que ele est mesmo me levando a srio. Eu, a Heather Wells, famosa por "Vontade de te comer"! 
E, para tanto, bastou um par de assassinatos... 
 - Ento talvez eu no esteja inventando tudo isso s porque quero transferir a raiva que sinto de minha me? - pergunto. 
Ele parece estupefato. 
 - Eu nunca disse isso. 
Ah,  verdade. Tinha sido a Sarah. 
 - Mas agora voc acredita em mim? - Dou um cutuco nele. - Que eu no sou s a ex-namorada maluca do seu irmo mais novo? Mas que talvez seja, humm, um ser humano 
racional? 
 - Eu nunca achei que voc fosse nada diferente disso - Cooper diz com uma onda de irritao nos olhos azuis. Ento ao ver minha expresso, ele diz: - Bom, talvez 
eu ache voc louca, mas nunca achei que fosse irracional. 
Sinceramente, Heather, no sei de onde voc tira essas coisas. Sempre achei que voc  uma das mulheres... 
Mais lindas e mais adorveis que voc j conheceu? A mais inteligente, mais bonita e estonteante entre suas conhecidas? 
Infelizmente, antes que ele tenha oportunidade de me dizer o que ele sempre achou que eu sou (ou de se ajoelhar e pedir para que me casasse com ele... , eu sei. 
Mas uma garota tem direito de sonhar), o telefone toca. 
 - Espere s um segundinho - eu digo a ele e atendo o telefone. - Conjunto Fischer, aqui  Heather. 
 - Heather? -  Tina, a recepcionista que est de planto. - Espere um pouco, Julio quer falar com voc. 
Julio entra na linha. 
 - Ah, Haythar, desculpe - ele diz. - Mas ele est l de novo. 
 - Quem est fazendo o que de novo? 
 - Aquele menino, Gavin. A Sra. Walcott me disse... 
 - Certo, Julio - digo, com cuidado para no deixar Cooper perceber o que est acontecendo, levando em conta como foi da ltima vez. - A gente se encontra no lugar 
de sempre. - E ento, desligo. 
Isso sim que  a coisa errada na hora certa! Bem quando Cooper estava dizendo o que ele realmente pensa sobre mim! 
Mas, pensando bem, no tenho certeza se quero saber. Porque  mais provvel que seja algo na linha de: "uma das melhores digitadoras de dados financeiros que j 
conheci."
 - Espere aqui que eu j volto - digo ao Cooper. 
 - Tem alguma coisa errada? - ele pergunta, e parece preocupado. 
 - Nada que eu no possa resolver rapidinho - respondo. Ai, meu Deus, eu por acaso acabei de dizer "rapidinho"? Bom, tanto faz. - Volto logo. 
Antes que ele possa dizer qualquer palavra, j sa da sala e corro na direo do elevador de servio, onde digo ao Julio que me entra l, que cuide da alavanca de 
controle e Ande logo! 
Porque, quanto mais rpido voltarmos, mais rpido vou poder descobrir, sabe como , se existe alguma chance para mim no que diz respeito a Cooper, ou se eu simplesmente 
deveria desistir dos homens de uma vez. Talvez a Faculdade de Nova York oferea algum curso para freira. Pois , para abrir mo inteiramente dos homens e abraar 
o celibato. Porque est mesmo comeando a parecer que esta pode ser a nica sada para mim. 
Quando Julio me leva at o dcimo andar, subo pelas paredes do elevador e passo pelo painel aberto do teto. L o poo do elevador est quentinho e silencioso, como 
sempre. 
S que no consigo ouvir as risadas do Gavin, e isso  bem anormal. Talvez ele finalmente tenha sido decapitado por um cabo solto, como Rachel tantas vezes avisou 
que podia acontecer. Ou talvez ele tenha cado. Ai, meu Deus, por favor, no me diga que ele est no fundo do poo. 
Estou refletindo sobre isso (o que vou fazer se s encontrar o corpo decapitado do Gavin em cima do elevador um) quando o elevador de servio se aproxima das duas 
outras cabines, que esto as duas paradas no dcimo andar.  Quando subimos acima delas, no vejo sinal de Gavin... nem do corpo decapitado dele. Nada de garrafas 
de cerveja vazias, nada de risadas histricas, nada.  como se Gavin nunca tivesse passado por ali... 
Antes que me d conta, um estrondo sacode o poo dos elevadores e deixa os meus ouvidos zunindo, como o som de ondas do mar, s que ampliado mil vezes. 
Eu tinha me levantado (meio desequilibrada) para olhar melhor a parte de cima dos elevadores abaixo e, quando senti a exploso sob meus ps, agarrei instintivamente 
(mas sem olhar) a primeira coisa em que minha mo encostou. 
Algo parecido com mil lminas de barbear cortas as minhas mos, e percebo que estou segurando uma corda de metal que vibra loucamente devido  fora da exploso. 
Mesmo assim, no solto o cabo de ao chicoteante, porque  a nica coisa que me separa do fundo do poo escuro embaixo de mim. Porque no tem mais nada sob meus 
ps. Em um instante, estou em p no teto do elevador de servio, no momento seguinte, o teto cedeu sob meus ps, enrugando-se como um latinha de batatas Pringles. 
Hmmm. Pringles. 
 engraado ver no que a gente acaba pensando logo antes de morrer. 
Eu evito ser atingida por uma chuva de ao que vem de cima por pura sorte. O cabo a que em agarrei continua se agitando loucamente, mas me agarro a ele com as duas 
mos e as duas pernas, enrolando um p ao redor do outro.  Alguma coisa bate bem forte em meu ombro quando passa por mim e quase faz com que eu solte o cabo, porque 
perco o flego com o impacto. 
 nessa hora que olho para baixo enlouquecida, e vejo que o elevador de servio sumiu. 
Bom, no  que ele sumiu, exatamente. Est em queda-livre embaixo de mim, igual a uma latinha de refrigerante que algum jogou por um poo de lixo, com os cabos 
soltos (menos o que estou segurando) atrs dele, como se fossem fitas de um vu de noiva. 
No vai se espatifar,  a nica coisa que penso com meus botes. Uma vez, eu perguntei aos homens da manuteno do elevador se o que aconteceu em Velocidade Mxima 
poderia acontecer na vida real. E eles disseram que no. Porque, mesmo que todos os cabos ligados a um elevador se partissem ao mesmo tempo (algo que, eles afirmaram, 
nunca, jamais poderia acontecer. Mas, hmm, acorda), tem um contrapeso embutido na parede que no deixaria o elevador se espatifar no fundo do poo. 
Sinto o impacto ensurdecedor do contrapeso quando ele encontra seus lugar e impede que a cabine do elevador se espatife no fundo do poro. 
Mas quando os cabos quebrados caem em cima do teto da cabine, o barulho  ensurdecedor. Um impacto aps o outro sacode o poo. Fao o que posso para continuar agarrada 
ao cabo restante, pensando apenas que, com todo aquele barulho, no ouvi nenhum pio de Julio. Nenhum barulhinho sequer. Sei que ele continua dentro daquele elevador. 
Ao passo que ele foi salvo pelo contrapeso de virar sanfona no cho do poro, aqueles cabos destruram o teto do elevador. Ele est embaixo daquele emaranhado de 
ao... 
Mas s Deus sabe se ele ainda est vivo. 
O silncio que se segue ao estrondo do elevador desabado  ainda mais assustador que o impacto trmulo dos cabos partidos. Eu sempre adorei o poo dos elevadores 
porque este  o nico lugar no alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil) onde o silncio absoluto existe. Agora, esse mesmo silncio parece um dossel 
impenetrvel entre mim e o solo. Quanto mais silencioso fica, mais a bolha de histeria vai subindo pela minha garganta. Eu nunca tinha tido a oportunidade de ficar 
aterrorizada antes. 
Mas agora, pendurada a mais de dez andares de altura com os ps balanando sobre o nada, sou tomada pelo pavor. 
 nesse momento que a bolha se transforma em um jorro e comeo a berrar. 

23
Estou caindo
Caindo de paixo por voc

Estou caindo
Tudo por causa de voc

Vem me pegar
E eu vou te mostrar

Que estou caindo
Caindo de paixo por voc

"Caindo de paixo"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz Ryder
Do lbum Mgico
Gravadora Cartwright

Apesar de parecem horas, acho que s fico gritando durante mais ou menos um minuto quando ouo uma voz distante e masculina gritando meu nome l de baixo. 
 - Aqui! - Berro. - No dcimo andar! 
A voz diz alguma coisa, e da, abaixo de mim,  esquerda, os dois outros elevadores comeam a descer. 
Se eu tivesse alguma presena de esprito, simplesmente teria pulado para cima deles, alcanado o teto do elevador mais prximo. 
Mas ele se encontra a uma distncia de mais de 1, 5 metro (a mesma distncia que Elizabeth e Roberta deveriam ter pulado, mas no conseguiram, isso se for surfe 
de elevador) e eu estou totalmente paralisada de tanto medo.  Percebo, no entanto, que no vou me agentar mais por muito tempo. A coisa que atingiu meu ombro me 
deixou com uma dor dilacerante, e as palmas de minhas mos esto em carne viva de agarrar o cabo de ao j enferrujado (isso sem contar que esto escorregando por 
causa do sangue). 
Lembro-me vagamente de meu tempos de educao fsica no primrio. Eu nunca fui muito boa em subir na corda (e nem em qualquer atividade fsica, alis), mas eu me 
lembrei de que o segredo para conseguir ficar pendurada em uma corda  fazer uma espcie de lao com o p na ponta solta. 
Fazer com que um cabo de ao se enrole em volta de meu p revela-se algo mais difcil do que jamais tinha sido na quarta srie, mas finalmente consigo reproduzir 
algo semelhante a um apoio. Mas estou ciente de que no vou conseguir me agentar por mais do que alguns minutos. Meu ombro e principalmente minhas mos doem tanto 
(e meu limite de esforo fsico sempre foi baixo, porque sou grandona), que sei que vou soltar e cair para a morte, em vez de agentar muito mais tempo. 
E no posso dizer que minha vida no foi boa at agora. Tudo bem, talvez algumas partes delas tinham sido mais acidentadas do que outras. Mas, ei, minha infncia 
foi boa: pelo menos, meus pais se asseguraram de que eu no fosse para a cama com fome. 
E nunca fui maltratada nem molestada. Tive uma carreira de sucesso (apesar de ter vivido meu auge mais ou menos aos 18 anos). 
Mas, mesmo assim, comi em um monte de restaurantes timos. 
E eu sei que vo cuidar bem de Lucy. Cooper vai cuidar dela se alguma coisa acontecer comigo. 
Mas pensar em Cooper me faz lembrar de que eu realmente no quero morrer, pelo menos no agora, quando as coisas estavam comeando a ficar interessantes. Nunca vou 
saber o que ele realmente pensa sobre mim! Ele estava prestes a me dizer, e agora eu vou morrer sem saber! 
A menos,  claro, que a gente alcance todo o conhecimento do universo ao morrer. 
Mas, e se isso no acontecer? E se a gente simplesmente morrer? 
Bom, ento, acho que no vai fazer diferena. 
Mas, e aqueles homens da manuteno? Eles me garantiram que cabos de elevador no arrebentam pura e simplesmente. Tudo bem, talvez um ou outro arrebente, mas no 
todos, no de uma vez s. Aqueles cabos no tinham se rompido por acidente. Algum tinham feito com que arrebentassem de propsito. Julgando pela bola de chamas 
que explodira sob meus ps, estou pensando em uma bomba. 
 isso mesmo, uma bomba. 
Algum est tentando me matar. 
De novo. 
Refletir sobre quem pode ter algum motivo para querer me matar tira minha ateno do ombro dolorido e das mos latejantes (e at do negcio sobre Cooper e o que 
ele pensa de mim) durante mais ou menos um minuto. Bom,  claro que tem Christopher Allington, que pode ou no j ter tentado jogar um vaso cheio de gernios em 
minha cabea porque suspeito que ele seja um assassino.  melhor que ele tenha um libi bem bom para isto aqui.
Mas como  que ele ia saber que eu estaria naquele elevador? Eu raramente uso o elevador de servio. Alis, s o uso para ir atrs de surfistas de elevador. 
Ser que Gavin McGoren tem algum envolvimento na morde de Beth Kellogg e de Bobby Pace? Parece uma hiptese um tanto remota, mas que outra explicao pode existir? 
Julio no pode ser o assassino. At onde eu sei, ele pode estar morto l embaixo. Por que ele ia se matar junto comigo? 
De repente, o elevador mais prximo de mim volta e, desta vez, tem algum no teto. Mas no  Gavin McGoren. Tento piscar para limpar os olhos (o poo est cheio 
de fumaa) e enxergo atravs da nvoa o rosto consternado de Cooper chegando para me salvar. 
E isto deve significar que ele gosta de mim. Pelo menos um pouco. Quer dizer, se ele est disposto a arriscar a prpria vida para salvar a minha... 
 - Heather - Cooper diz. Ele parece calmo e autoritrio como sempre. - No se mexa, certo? 
 - At parece que eu vou a algum lugar - digo. Ou, pelo menos,  o que eu tento dizer. O que ouo na verdade  uma seqncia de choramingos estridentes. Mas com 
certeza no sou eu quem os produz. 
 - Oua bem, Heather - ele diz. Ele subiu no teto do elevador um e est segurando em um dos cabos. O rosto dele, d para ver sob a fumaa, est plido por baixo 
do bronzeado. Ento, porque ser? Fico aqui pensando. - Quero que voc faa uma coisa para mim. 
 - Certo - eu digo ou, pelo menos, tento dizer. 
 - Quero que voc se balance para c. Tudo bem, eu pego voc. 
 - Hmm - digo. E cometo o erro de olhar para baixo. - No. 
Bom, a ltima palavra saiu bem clara. 
 - No olhe para baixo - Cooper diz. - Vamos, Heather. Voc consegue. No so nem dois metros... 
 - No vou me balanar para lugar nenhum - digo, agarrando-me com mais fora ao meu cabo. - Vou esperar os bombeiros chegarem. 
 - Heather - ele diz, e um pouco da antiga falta de pacincia comigo retorna  voz dele. - D um impulso usando a parede e balance o corpo para c. Solte o cabo 
quando eu disser. Eu juro que pego voc. 
 - Cara, voc enlouqueceu de vez. - Sacudo a cabea. A minha voz soa estranha. Est meio estridente. - No   toa que sua famlia largou voc sem nenhum centavo. 
 - Heather - ele diz. - O zelador me disse que o cabo que voc est segurando provavelmente no  estvel. Pode quebrar a qualquer momento, como todos os outros... 
 - Ah - digo. Bom, assim  diferente. 
 - Agora faa o que eu disse. - Ele se inclinou o mximo possvel para longe do elevador dele sem ter de se soltar. - D um impulso na parede com o p e balance 
para c. Eu pego voc, no se preocupe. 
Do topo do poo do elevador de servio vem um grunhido. Tenho quase certeza de que no foi emitido por mim. Mais provavelmente, foi o cabo a que estou agarrada. 
Maravilha. 
Fecho os olhos e puxo o cabo, forando-o a balanar na direo da parede do outro lado do poo. Tiro o p da ponta solta e tomo impulso, com a maior fora possvel, 
contra a parede de tijolos expostos. Como uma pedra em um estilingue, sou lanada na direo dos braos de Cooper que me esperam... 
... mas no perto o suficiente para meu gosto. 
Mesmo assim, ele grita: 
 - Solte! Heather, solte agora! 
Pronto, penso. Agora eu morri. Talvez agora faam um programas Por Trs da Msica comigo... 
Solto. 
E sei, por um segundo, como Roberta e Elizabeth devem ter se sentido... o pavor de voar pelos ares sem nenhuma rede ou quantidade de gua embaixo para segurar minha 
queda... 
S que, em vez de mergulhar para a morte, como aconteceu com elas, sinto dedos fortes se fecharem em volta dos meus pulsos. Meus braos praticamente so arrancados 
do ombro quando o restante de meu corpo d uma pancada na lateral do elevador. Meu olhos esto fechados, mas sinto que algum me ergue bem devagar... 
S para de procurar algo para apoiar os ps quando a parte de trs da minha cala jeans finalmente pouca em algo slido. 
S ento abro os olhos e vejo que Cooper conseguiu me resgatar. Ns dois arfamos devido  mistura de exausto e medo. Bom, eu pelo menos sinto medo.  Mas estamos 
vivos. Eu estou viva. 
Por cima da cabea, ouvimos o som murmurante de novo. Logo em seguida, o cabo em que eu estava me segurando, juntamente com a polia  qual estava conectado, solta-se 
do suporte e mergulha poo abaixo, para se espatifar no teto do elevador l embaixo. 
Quando consigo tirar os olhos dos destroos no fundo do poo, vejo que estou agarrada  camisa de Cooper e que os braos dele me envolvem de maneira protetora. O 
rosto dele ficou da cor da fumaa  nossa volta. H filetes de sangue e ferrugem na camisa dele, no lugar que eu segurei com as minhas mos cortadas. 
 - Ah - digo, soltando o tecido agora amarrotado e cheio de graxa. - Desculpe. 
Os braos de Cooper me largam no mesmo segundo. 
 - Sem problemas - ele diz. 
A voz dele, assim como a minha, est bem firme. Mas tem algo nos olhos azuis dele que eu nunca vi antes... 
Mas, antes que eu tenha a oportunidade de descobrir o que  exatamente, uma voz conhecida vem de dentro do elevador sobre o qual estamos sentado e quer saber: 
 - Ento, ela est bem ou o qu? 
Olho para baixo, atrs do painel aberto no teto do elevador e vejo o alvio tomar conta do rosto de Pete. 
 - Voc fez todo mundo cagar nas calas l embaixo, Heather - ele diz. E, de fato, o homem corpulento do Booklin est tremendo um pouco. - Voc est bem? 
 - Estou - respondo, e comprovo a afirmao quando deso, trmula, do teto do elevador quase sem ajudar. O meu ombro di muito em certo ponto, mas a mo firme de 
Pete em meu cotovelo e Cooper segurando meu cinto com cuidado impedem que eu perca o equilbrio. Quando estou a salvo dentro do elevador, descubro que  difcil 
ficar em p sem me apoiar em alguma coisa, de tanto que meus joelhos tremem. 
Mas eu consigo, depois que me escoro na parede. 
 - E Julio? - pergunto. 
Cooper e Pete trocam olhares. 
 - Ele est vivo - Cooper diz, mas est com o maxilar estranhamente travado. 
 - Pelo menos, estava h um minuto. - Pete vira a chave que tinha colocado no controle de movimento. - Mas se ainda vai estar vivo na hora que conseguirem tir-lo 
de l... 
Eu me sinto tonta. 
 - Tir-lo? 
 - Vo ter de cortar o metal. 
Olho para Cooper em busca de uma explicao mais detalhada, mas ele no apresenta nenhuma. 
De repente, no tenho muita certeza se quero mesmo saber. 
Pelo segunda vez em dois dias, vou parar no pronto-socorro do hospital St. Vincent"s. 
S que, desta vez, a paciente sou eu. 
Estou deitada em uma maca, esperando para tirarem radiografias de meu ombro. Cooper foi atrs de um sanduche de atum para mim, j que o medo me deixou faminta. 
Enquanto espero, observo com tristeza minhas mos dilacerada, enroladas em gaze e ardendo por causa dos numerosos pontos. Vai demorar semanas, como uma mdica jovem 
e irritante que estava de planto me avisou, para que eu possa voltar a us-las normalmente. Posso esquecer o violo. Mal consigo segurar um lpis. 
Fico me perguntando, de mau humor, como  que vou conseguir fazer meu trabalho direito se mal posso usar as mos (sem dvida, Justine teria encontrado uma maneira 
para isso), quando o investigador Canavan aparece, com seu charuto pendendo no canto da boca, sempre preso entre os dentes. No tenho certeza se  o mesmo charuto. 
Mas com certeza parece que . 
 - A est voc, Heather - ele diz, com um tom casual, como se tivssemos nos esbarrados durante compras na Macy"s ou qualquer coisa assim. - Ouvi dizer que sua 
manh foi bem animada. 
 - Ah - digo. - Est se referindo  parte de que algum tentou me matar? De novo? 
 - Essa mesmo - o investigador Canavan responde, tirando o charuto da boca. - Ento. Est magoada comigo? 
Estou, um pouco. Mas bom, na verdade, a culpa no era dele. Quer dizer, o vaso pode ter cado por acidente. E Elizabeth e Roberta podem ter mesmo morrido fazendo 
surfe de elevador. 
S que no era nada disso. 
 - No posso dizer que a culpo - o investigador Canavan diz antes que eu tenha a oportunidade de responder. - Agora estamos com um Backstreet Boy com a cabea aberta 
e um zelador na UTI. 
 - E duas meninas mortas - lembro a ele. - No se esquea das duas meninas mortas. 
O investigador Canavan se senta em uma cadeira de plstico cor de laranja presa  parece na porta do laboratrio de radiografia. 
 - Ah, sim - ele diz. - E duas meninas mortas. Isso sem falar de uma certa assistente da administrao que deveria, de acordo com as probabilidades, estar morta 
tambm. - Ele coloca o charuto de novo na boca. - Estamos achando que foi uma bomba caseira feita com cano. 
 - O qu? - Berro. 
 - Uma bomba confeccionada com um cano. No especialmente sofisticada, mas eficiente. Em um lugar fechado com o poo de tijolos do elevador, produziu muito mais 
estrago do que teria feito se estivesse em uma pasta executiva ou em um carro ou algo assim. - O investigados Canavan mastiga o charuto. - Algum parece querer ver 
voc morta a todo o custo, meu bem. 
Fico olhando para ele, sentindo-me gelar de novo. Cooper tinha colocado a jaqueta de couro dele em meus ombros assim que chegamos  recepo, porque comecei a tremer 
por algum motivo. E quando os paramdicos chegaram, colocaram mais um cobertor. 
Mas estava me sentindo gelada desde que vi os destroos do elevador de servio, esmigalhado no fundo do poo. Os bombeiros tinham tentado abrir as postas com alicates 
gigantescos (mandbulas da vida, era como os chamavam), mas o metal retorcido s gemia, reclamando. Estirado no meio dos destroos estava Julio; depois fiquei sabendo 
que ele quebrou vrios ossos, mas deveria sobreviver. Eu tinha comeado a tremer s de olhar para o elevador destroado, e minhas mos parecem gelo desde ento. 
 - Uma bomba de cano? - Repito. - Como  que algum... 
 - Foi colocada em cima do elevador de servio.  fcil de fazer uma dessas quando se sabe como. S  necessrio um pedao de cano de ferro com rosca nas duas pontas 
para poder fechar.  s fazer uns buracos nas laterais e colocar os detonadores, colocar umas bombinhas de So Joo no buraco, fechar com massa epxi, acoplar alguns 
cigarros e encher o negcio de plvora. To fcil quanto fazer bolo. 
To fcil quanto fazer bolo? Parece mais difcil do que o vestibular! 
Reparando em minhas sobrancelhas erguidas, Canavan tira o charuto da boca e diz: 
 - Desculpe.  to fcil quanto fazer um bolo quando se sabe fazer. De todo modo, algum acendeu aquela coisa alguns minutos antes de voc e o... qual  mesmo o 
nome dele? - Consulta as anotaes. - Ah, sim, Sr. Guzman, tomarem o elevador. Agora se no se importa de eu perguntar, que diabos voc estava fazendo em cima daquela 
coisa? 
Confusa, tento pensar em retrospecto. Uma bomba feita com um cano com detonadores feitos com cigarro? No fao idia de como seria uma coisa dessas, mas com certeza 
no tinha reparado em nada assim quando subi no teto do elevador. 
Mas, bom, com todas as engrenagens e o maquinrio que tem ali em cima, uma bomba pequena seria fcil de esconder. 
Mas uma bomba de cano? Uma bomba de cano no conjunto Fischer? Atrs das portas de vaivm que do para a sala de espera, uma enfermeira exclama: 
 - Senhor, no pode entrar a. Senhor, espere... 
Cooper aparece no meio das portas com os braos carregados de sacos de papel. Uma enfermeira bonitinha vem atrs dele, com cara de brava. 
 - Senhor, no pode invadir esta rea - ela insiste. - No quero ter de chamar o segurana... 
 - Tudo bem, enfermeira - o investigador Canavan diz abrindo a carteira e mostrando a ela seu distintivo. - Ele est comigo. 
 - Pouco me importa se ele estiver com a academia real de medicina - a enfermeira manda. - Ele no pode invadir esta rea. 
 - Como um cannoli - Cooper diz, tirando um doce de um saco. A enfermeira fica olhando para ele como se ele fosse louco. - No,  srio - Cooper diz. - Coma um. 
Estou oferecendo. 
De mau humor, a enfermeira aceita o cannoli, d uma mordida bem grande e sai, ainda mastigando. Cooper d de ombros e depois olha para o investigador com hostilidade 
estampada no rosto. 
 - Ah, mas se no  o maior idiota da fora policial de Nova York - ele diz. 
 - Cooper! - Fico surpresa. - O investigador Canavan estava me dizendo agora mesmo... 
 - O qu, que  tudo imaginao sua? - Cooper d uma risada amarga, ento cutuca com o indicador o investigador de olhos arregalados. - Bom, deixe-me dizer uma coisa, 
Canavan. No tem como todos os seis cabos de um elevador arrebentarem na mesma hora, a no ser que algum tenha... 
 - Cooper! - grito, mas o investigador Canavan est dando risada. 
 - Calma a, Romeu - ele diz, abanando o charuto para ns. - Ns j estabelecemos que um segundo atentado contra a vida de sua namoradinha aqui foi feito. Ningum 
est dizendo que o que aconteceu com o elevador no foi acidente. No precisa tirar a camisa. Estou do seu lado. 
Cooper pisca algumas vezes e ento olho para mim. Fico achando que ele vai fizer algo do tipo: "Ela no  minha namorada. " S que no diz. Em vez disso, fala: 
 - O sanduche de atum no parecia fresco. Por isso, trouxe um de salame. 
 - Uau - digo. Cooper me entrega um sanduche que deve ter pelo menos trinta centmetros de comprimento. No que haja algo errado com isso. 
O investigador Canavan d uma olhada nos diversos sacos que Cooper espalhou por ali. 
 - Tem alguma batatinha a? - pergunta. 
 - Desculpe. - Cooper abre meu sanduche e comea a dividir em pedaos pequenos, do tamanho, do tamanho de uma mordida, porque eu no consigo segurar direito. - 
Quer azeitona? 
O investigador parece decepcionado. 
 - No, obrigada. Ento - ele diz, como se no tivesse existido nenhum interrupo. - Quem disse para voc entrar naquele elevador? 
Falo com a boca cheia, porque estou faminta demais para esperar. 
 - S sei que recebi uma ligao da recepo avisando que Gavin... um garoto que mora no prdio... estava fazendo surfe de elevador de novo, ento fui com Julio 
tentar pegar o menino. 
 - Ah, ? E quando voc chegou l em cima, o que aconteceu? 
Descrevo a exploso, que ocorreu quase ao mesmo tempo em que eu percebi que Gavin no estava l, afinal de contas. 
 - Ento - diz o investigador Canavan. - Quem mandou a menina da recepo ligar para voc?
 - Todos ns sabemos quem foi - Cooper diz, com a fria mal reprimida aparente na voz mais uma vez. - Porque voc fica a sentado, Canavan, em vez de ir prender
o sujeito? 
 - Prender quem? - Canavan quer saber. 
 - Allington. Ele  o assassino.  bvio que Heather colocou medo nele. 
 - Eu diria que sim - Canavan sacode a cabea. - O rapaz deixou a cidade ontem  noite. Foi para a casa que os pais tm nos Hamptons. No tem como ele ter plantado 
a bomba, no sem ajuda. O rapaz est a trs horas de distncia pela estrada LIE. Algum quer ver a sua namorada morta, quer sim. Mas no  Chris Allington. 

24
Hoje  a noite certa
Hoje  noite a gente vai se acertar
Baby, parece que estou esperando
A vida toda por esta noite
Que bom ter esperado
Ansiosa
Hoje  a noite certa
Para te amar

"Hoje  noite"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz Ryder
Do lbum Mgico
Gravadora Cartwright

Tirar radiografia  muito dolorido, j que o tcnico precisa contorcer meu corpo em diversas posies nada naturais para conseguir obter o ngulo que ele quer fotografar. 
Mas, tirando um pouco de Motrin, no me oferecem nada para aliviar a dor. 
Acorda. Motrin  algo que se compra sem receita mdica. Cad o Vicodin? Cad a morfina? Que tipo de hospital  este, hein? 
Depois dos radiografias, sou levada para uma sala de espera com muitos outros pacientes deitados em macas. A maior parte deles parece estar bem pior do que eu. Todos 
ele parecem ter recebido analgsicos bem melhores. 
Felizmente, deixam que eu fique com meu sanduche.  minha nica fonte de conforto. Bom, isso e o saco de salgadinhos que comprei em uma mquina no fim do corredor. 
No  brincadeira enfiar moedas naqueles buraquinhos com os dedos enfaixados, vou te contar. 
Mas nem os Fritos conseguem fazer com que eu me sinta melhor. Quer dizer, de acordo com as probabilidades, eu devia estar morta. Deveria mesmo ter morrido com a 
bomba. Mas no morri. 
No como aconteceu com Elizabeth Kellogg e Roberta Pace. O que ser que tinha passado pela cabea delas quando ficaram suspensas acima do cho slido a 16, 14 andares 
abaixo? Ser que tinham lutado antes de seres empurradas? No havia sinais de que tivessem, s algumas queimaduras, parece. 
Mas que tipo de marcas de queimaduras? 
E por que eu tinha sobrevivido e elas, morrido? Ser que existe algum outro motivo mais elevado? Como seguir minha prpria carreira em medicina e assegurar que as 
vtimas de bombas de cano no futuro recebam analgsicos mais potentes quando forem legadas para os hospitais locais? 
Um mdico que no pode ser mais velho do que eu finalmente aparece, bem quando estou terminando os Fritos, segurando minhas radiografias e sorrindo. Pelo menos at 
dar uma boa olhada em mim. 
 - Voc no  a... - Ele se desmonta, com cara de pnico. 
Estou cansada demais para fazer joginhos. 
 - Sou - respondo. - Eu sou a Heather Wells. , eu cantava "Vontade de te comer". 
 - Ah - ele diz, com cara de decepo. - Achei que voc era Jessica Simpson. 
Jessica Simpson! Fico to passada que no consigo proferir mais nenhuma palavra, nem quando ele me informa, todo alegre, que no tem nenhum problema muito srio 
com o meu ombro, a no ser algumas leses em tecido profundos. Preciso ficar de cama e, no, ele no pode receitar nada para a dor.  Juro que ouo o mdico assobiando 
"With You" quando vai se afastando.  Jessica Simpson? Eu no tenho nada a ver com Jessica Simpson! Certo, ns duas temos cabelo loiro e comprido. Mas  a que a 
semelhana termina. No ? 
Encontro um banheiro feminino e entro. Olhando para o meu reflexo no espelho em cima da pia, fico feliz e descobrir que no me pareo em nada com Jessica Simpson. 
Mas tambm no me pareo (muito) com um ser humano. Minha cala jeans est rasgada e coberta de graxa e de sangue. Estou segurando a jaqueta de Cooper e tenho um 
cobertor cor de laranja berrante nos ombros. Tenho sangue e sujeira por todo o rosto e meu cabeo est embaraado e oleoso. No tem nem um vestgio de batam nas 
proximidades da minha boca. 
Em resumo, estou pavorosa. 
Tento retificar a situao da melhor maneira possvel. Ainda assim, os resultados no so nada de que se gabar. 
Mas foi bom eu ter resolvido dar uma passada no banheiro porque, quando entro na sala de espera, com a conta do hospital (que vai ser paga na ntegra, todos os 1, 
7 mil dlares, pela Faculdade de Nova York) no bolso de trs, quase sou cegada pelo nmero de flashes que espocam. Mais de uma dzia de pessoas que no conheo esto 
gritando: "Senhorita Wells! Senhorita Wells! Aqui! S uma pergunta, senhorita Wells... " E o segurana do hospital est tentando desesperadamente impedir que mais 
reprteres cheguem at a recepo. 
 - Heather! - Uma voz conhecida soa de alguma lugar naquele tumulto, mas no antes que uma mulher com o rosto coberto de pancake e um cabelo enorme enfie um microfone 
na minha cara e pergunte: 
 - Senhorita Wells,  verdade que voc e o ex-integrante da banda Easy Street Jodan Cartwright esto juntos de novo? 
Antes que eu possa abrir a boca para responder, outro reprter aparece. 
 - Senhorita Wells,  verdade que esta  a segunda vez em dois dias que algum tenta mat-la? 
 - Senhorita Wells - um terceiro reprter pergunta. - Existe algum fundo de verdade no boato de que esta bomba faz parte de um estratagema terrorista complicado 
que visa a eliminar todas as ex-sensaes da msica adolescente? 
 - Heather! 
Por cima da mesa de microfones e de cmeras de vdeo, Cooper se destaca. Ele faz um gesto para mim, apontando para a porta onde est escrito: Acesso restrito aos 
funcionrios do hospital. 
Mas antes que possa escapar para ela, algum me agarra pelo meu ombro dolorido e grita: 
 - Heather,  verdade que voc vai dar incio  retomada de sua carreira de cantora representando a nova fragrncia da Calvin Klein durante a temporada de desfiles 
de outono? 
Felizmente um policial aparece, abre caminho no meio da turba de reprteres e me pega pelo brao bom. Ele usa o corpo para me tirar do meio daquela confuso, usando 
o cassetete para que avancemos com mais rapidez. 
 - Tudo bem, tudo bem - ele repete sem parar, com aquele sotaque do Brooklin que aprendi a conhecer e em que confio desde que me mudei para Nova York. - Deixe a 
moa passar agora. Demonstrem um pouco de compaixo pela paciente, pessoal, e saiam da frente. 
O oficial annimo e me conduz pela porta Acesso restrito aos funcionrios do hospital e ento se coloca na frente dela igual a um super-heri da Marvel guardando 
a casa da moeda. 
Quando entro no que se revela exatamente o mesmo corredor em que eu tinha deixado o investigador Canavan e Cooper quando fui tirar radiografia, vejo que a eles se 
juntaram diversas pessoas Patty e Frank, Magda e Pete e, por alguma razo, Dr. Jessup. 
Patty e Magda soltam lamentos de aflio quando me vem. No sei por qu. Eu achei que tinha me limpado bem. 
Mesmo assim, Patty pula da cadeira de plstico dela e me agarra em um abrao que, tenho certeza, significa simpatia, mas que de fato di bastante. Ela est chorando 
e dizendo coisas como: 
 - Eu falei para voc procurar outro emprego! Este emprego no serve para voc,  perigoso demais! 
Enquanto isso, Magda fica olhando para minhas mos, o queixo se movimentando de um jeito esquisito. Nunca vi os olhos dela to grandes. 
 - Ai, meu Deus - ela dica repetindo, lanando olhares de acusao na direo do Pete. - Voc disse que ela estava mal, mas no disse que era tanto. 
 - Eu estou bem - insisto, tentando me desvencilhar dos braos impossivelmente compridos de Patty. - Srio, Patty, eu estou bem. 
 - Caramba, Pats, voc est machucando a Heather. - Frank tenta arrancar a mulher para longe de mim. Ele me examina cheio de ansiedade enquanto desembaraa os braos 
de Patty dos meus. - Voc est bem mesmo, garota? Sua aparncia est pssima. 
 - Eu estou bem - minto. Continuo abalada, no tanto devido ao que sofri no poo do elevador e mais o sofrimento causado por aqueles reprteres. De onde eles surgiram? 
Como ficaram sabendo da bomba to rpido? A Faculdade de Nova York aparece raramente na imprensa, e quando aparece,  sempre alguma coisa positiva. Como  que isso 
refletiria na avaliao dos meus primeiros seis meses de servio? Ser que ia contar pontos negativos? Ento o Dr. Jessup tosse, e todo mundo olho para ele, que 
traz nos braos um buqu enorme de girassis. Para mim. O Dr. Jessup trouxe flores para mim. 
 - Wells - ele diz, com a voz austera dele. - Voc sempre tem de estar nas manchetes, no  mesmo? 
Eu sorrio, comovida alm das palavras dele. Afinal de contas, o Dr. Jessup  um homem muito ocupado, por ser vice-reitor-assistente e tudo o mais. No d para acreditar 
que ele arrumou tempo para vir ao hospital me entregar flores.  Mas o Dr. Jessup ainda no terminou. Ele se abaixa, me d um beijo da bochecha e diz: 
 - Que bom que voc ainda est inteira, Wells. Estas flores so do departamento. 
Ele me entrega as flores e, quando ergo minhas mos enfaixadas sem poder fazer muita coisa, Magna se adianta e pega o buqu para mim. O Dr. Jessup no ouve quando 
ela balbucia: 
 - Ele d flores para ela, mas na verdade tinha que dar um aumento bem grande e gordo... 
 - Rachel pediu para dizer que pede desculpas por no poder vir tambm, mas algum precisa tomar conta do quartel. - O Dr. Jessup sorri, mostrando todos os dentes. 
- Claro que ela no sabia dos paparazzi. Aposto que vai se arrepender de ter perdido quando ficar sabendo. Ento, voc vai vender a sua histria para o Entertainment 
Tonight ou para o Acess Hollywood? 
 - O Post vai oferecer muito dinheiro - Magda m informa, sem se dar conta de que o Dr. Jessup est brincando. - Ou o Enquirer. 
 - No se preocupe - respondo com um sorriso. - No vou falar com a imprensa. 
O Dr. Jessup no parece convencido. A expresso dele passou de preocupao para desconfiana preocupada. Percebo de repente que a nica razo por que ele veio at 
o hospital foi para ver se eu tinha a inteno de divulgar minha histria ao pblico. 
Mas acho que eu j devia saber. Quer dizer, que o Dr. Jessup no estava l preocupado comigo. O Dr. Jessup estava l por um motivo, e um motivo nico.  Controle 
de crise. 
Acho que ele desconfiou que no ia ser bonito (por que outra razo ele teria enfrentado o trnsito para ir at aquele ponto do West Village? ), mas acho que ele 
nunca imaginou que seria uma confuso destas. Uma bomba explodindo em um alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil) da Faculdade de Nova York  notcia 
com N maisculo. Algo parecido com o que aconteceu em Yale e at ganhou cobertura da CNN, e foi uma das principais reportagens em todas as redes locais, apesar de 
depois terem descoberto que no tinha nada a ver com terrorismo. 
E o fato de uma das vtimas desta bomba ser uma ex-sensao da msica pop adolescente? Bom, s serve para deixar a histria ainda mais suculenta. Meu desaparecimento 
do mundo da msica no tinha passado despercebido, e a razo por trs dele (incluindo a nova fazenda de gado de minha me na Argentina) tinha sido exposta ao pblico 
nos mnimos detalhes. J dava at para ver a capa do Post: 

EXPLOSO LOIRA
Ex-pop star Heather Wells quase vira picadinho
No emprego com baixo salrio que foi obrigada a aceitar na Faculdade de Nova York para poder se sustentar depois de sua carreira musical ir por gua abaixo e de 
ser dispensada pelo ex-noivo, Jordan Cartwright, integrante da Easy Street. 

Mesmo assim, d para compreender a preocupao do Dr. Jessup. Dois funcionrios dele se ferirem em um acidente com um elevador  uma coisa.  Mas uma bomba em um 
alojamento (quer dizer, conjunto residencial estudantil)? Pior ainda, uma bomba no prdio em que o reitor da faculdade mora? O que ele vai dizer  diretoria? O coitado 
deve estar achando que o cargo de vice-reitor est lhe escorrendo pelo dedos. 
No o julgo por estar mais preocupado com a prpria pele do que com a minha. Afinal de contas, ele tem
filhos. Eu s tenho uma cachorra. 
 - Heather - o Dr. Jessup comea mais uma vez. - Tenho certeza de que voc compreende. Esta coisa  um pesadelo de relaes pblicas. No podemos permitir que o 
pblico ache que os nosso conjunto residenciais esto fora de controle... 
Para minha surpresa,  o investigador Canavan que interrompe o vice-reitor-assistente. Ele primeiro limpa a garganta com muito barulho, depois procura um lugar para 
cuspir e, sem sucesso, suspira e depois engole.  Da, ele diz: 
 - Detesto interromper, mas quanto mais tempo a Sra. Wells ficar aqui, mais difcil fica para o meu pessoal controlar a multido ali fora. 
Sinto um brao envolver os meus ombros. Olho para cima e fico surpresa de ver que o brao pertence a Cooper. Mas ele no est olhando para mim. Est olhando para 
a porta. 
 - Venha, Heather - ele diz. - Frank e Patty vieram de carro. Pararam no subsolo, na garagem. Vo nos dar uma carona para casa. 
 - Isso mesmo, vamos embora - Patty diz, aflita. O lindo rosto dela est cheio de desgosto. - Eu detesto hospitais, e detesto reprteres ainda mais. - Seus olhos 
amendoados deslizam na direo do Dr. Jessup e parece que ela tem vontade de completar: e detesto burocratas CDFs mais do que tudo, mas se segura s para o meu bem, 
tenho certeza, j que escolhi aquele exato momento para pisar meio forte no p dela, fazendo com que ela soltasse um gritinho de dor. Depois de me despedir de Pete 
e Magda (que prometem ficar no hospital at conseguirem ver Julio), uma funcionria do hospital nos mostra, com muita disposio a sada para a garagem subterrnea, 
como se qualquer sacrifcio que pudesse fazer para se livrar de ns (e, portanto, de todos os reprteres) vale-se a pena. 
Tudo o que consigo pensar a cominho do carro : Ai meu Deus, vou ser totalmente demitida. Isso quando no estou pensando: Caramba, que histria  essa de me abraar? 
(em relao ao Cooper, quer dizer). 
S que, assim que estamos a salvo dentro do carro, Cooper tira o brao dos meus ombros. Assim s me resta uma coisa com que me preocupar. 
 - Ai, meu Deus - no posso evitar dizer com muita tristeza, com um caroo na garganta, do banco de trs. - Acho que o Dr. Jessup vai me demitir. 
 - Ningum vai demitir voc, Heather - Cooper diz. - O cara s est cuidando dos interesses dele. 
 - Isso significa que, se ele tentar olhar para voc atravessado, querida, ele vai ter de passar por cima de mim - Patty rosta, de trs do volante. Ela  uma motorista 
ousada (diria at agressiva), e  por isso que ela sempre dirige, em vez de Frank, quando eles esto na cidade. Ela manda vez na buzina quando um txi corta a frente 
dela. - Ningum se mete com a minha melhor amiga. Frank, olhando para mim do assento do passageiro, diz: 
 - Cooper deu a jaqueta para voc? 
Olho para o casaco de couro que continua envolvendo os meus ombros. Tem o cheiro de Cooper, de couro e sabonete. Nunca mais quero tir-lo. Mas eu sei que vou ter 
de tirar quando chegarmos em casa. 
 - No - respondo. - Ele s me emprestou. 
 - Ah - Frank diz. - Porque, sabe como , ficou coberta com o seu sangue. 
 - Frank - Patty diz. - Cala a boca. 
 - Tudo bem - Cooper diz, enquanto estuda pela janela as tantas pessoas esquisitas que compem a vida nas ruas do West Village. 
Tudo bem! Meu corao se derrete. Cooper disse que tudo bem a jaqueta de couro dele estar coberta com o meu sangue! Provavelmente porque, sabe como , depois disto 
aqui, vamos ficar juntos, e ele simplesmente j ia me dar o casaco mesmo. Para eu ficar com ele (e com Cooper), para nunca mais sentir frio. 
Mas da, Cooper completa: 
 - Conheo uma lavanderia que  tima para tirar manchas de sangue. 
Sabe, hoje no  mesmo o meu dia. 

25
Al
Ser que eu liguei certo
Al
, estou procurando meu amor
Al
Voc pode ir l
Al
Chamar ele para mim? 
Al
Eu sei que ele morava a
Al
Eu sei que ele se importava
Al
Por favor, v l chamar
Ele para mim

"Al"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Jones/Ryder
Do lbum Mgico
Gravadora Cartwright

Patty nos deixa em casa, apesar de Frank insistir que no vamos estar seguros ali, j que tem algum querendo me matar e tudo o mais. 
Eu s quero tomar um banho e me enfiar na cama e dormir mil anos. No quero ter uma longa conversa para discutir se a pessoa que deseja me matar sabe onde moro. 
Frank quer que eu fique com ele e Patty. 
At Cooper observar que isto pode colocar Indy em risco. 
No comeo fico meio chocada de o Cooper ter dito algo to horrvel.  s quando Frank muda de idia bem rapidinho e diz que  melhor eu ficar na casa do Cooper mesmo, 
que entendo qual era a inteno dele (sendo um combatente do crime experiente). Ele sabe que eu s quero ir para a casa. Ele sabe que eu no quero ficar no quarto 
de hspedes de Frank e Patty. 
E como ele  Cooper, est sempre fazendo coisas bacanas para mim (me d um apartamento de graa para morar quando no tenho para onde ir e tambm no tenho dinheiro 
pra pagar; me leva a uma festa a que na verdade ele no quer ir, j que pode cruzar com uma antiga paixo com quem as coisas terminaram mal; arrisca a prpria vida 
para salvar a minha vida; esse tipo de coisa). E por isso fez tudo o que pde para que eu tivesse o que eu queria. Tirando,  claro, a coisa que mais quero no mundo. 
Mas parece que, por motivos que provavelmente nunca vou conhecer (e de todo modo, tenho bastante certeza de que no quero saber mesmo), ele no est preparado para 
me dar isso. 
O que est timo. Quer dizer, eu compreendo. Eu simplesmente vou ter de abrir a minha PRPRIA clnica mdica/agncia de investigao/joalheria sem a ajuda dele. 
Claro que ter filhos sozinha pode ser um pouco mais difcil, mas tenho certeza de que dou um jeito. 
Por sorte, meu nmero de telefone no est na lista, ento no tem nenhum reprter  minha espera na porta de casa quando chego. S os traficantes de drogas de sempre. 
Lucy fica louca de alegria ao me ver, mas preciso pedir ao Cooper que passeie com ela, porque minhas mos esto em frangalhos, no tenho como segurar a guia. Quando 
os dois saem, eu subo as escadas at meu apartamento, tiro minhas roupas imundas e entro, finalmente, na banheira. 
Mas acabo descobrindo que tomar banho com pontos nas mos no  nada difcil. Preciso sair da banheira e ir at a cozinha pegar luvas de borracha e vesti-las para 
lavar o cabelo, porque o mdico avisou que, se molhasse as mos, elas podiam cair ou algo assim. 
Depois que consigo limpar toda a sujeira do elevador e o sangue, encho a banheira de novo e fico l, deixando meu ombro dolorido de molho um pouco, imaginando o 
que farei a seguir. 
Quer dizer, as perspectivas no so exatamente otimistas. Algum est tentando me matar... Provavelmente a mesma pessoa que j matou pelo menos duas outras. O nico 
denominador comum entre as garotas mortas parece ser o filho do reitor da faculdade. 
Mas, pelo menos de acordo com a polcia,  improvvel que Chris Allington tenha tentado me jogar pelo ares, porque no estava na cidade naquela hora. 
O que significa que algum alm de Chris est tentando me matar. E talvez algum que no seja Chris tenha matado as duas meninas. Mas quem? E por qu? Por que algum 
teria matado Elizabeth Kellogg e Roberta Pace? O que elas podem ter feito para merecer morrer? Quer dizer, alm de se mudar para o conjunto Fischer. Ah, e ficar 
(ainda que por pouco tempo) com Chris Allington? 
Ser que foi isso? Ser que  por isso que elas morreram? O fato de terem ficado com ele? Ser que Magda tinha razo. No a parte de as meninas terem se matado porque, 
depois de esperar tanto para transar, descobriram que o sexo no era aquela coisa que faz a terra toda tremer que acreditavam que seria. Mas que as meninas tinham 
morrido por causa do sexo, no por conta prpria, mas pela obra de algum que no gostou nada do que elas tinham acabado de fazer. 
Algum como a Sra. Allington, quem sabe? O que foi mesmo que a mo de Chris tinha dito para mim pouco antes do que aconteceu com o elevador? 
Alguma coisa a respeito de "vocs todas". 
"Vocs todas esto sempre incomodando Chris", ela tinha dito. Ou algo parecido. 
Voc todas. Havia algo profundamente antagnico no comportamento da Sra. Allington, um sentimento muito mais forte do que um simples aborrecimento pelo fato de eu 
a ter acordado. Ser que a Sra. Allington  daquele tipo de me ciumenta que acha que nenhuma mulher  boa o bastante para o filhinho dela? Ser que a Sra. Allington 
matou Elizabeth e Roberta? E, ser que ela tentou me matar quando eu cheguei muito perto de descobrir o segredo dela? 
Ai, meu Deus!  isso! A Sra. Allington  a assassina! A Sra. Allington! Eu sou brilhante! Talvez tenha a mente detetivesca mais brilhante desde Sherlock Holmes! 
Espera a. Ele existiu de verdade? Ou  fico?  fico, certo? Bom, ento, tudo bem. Tenho a mente detetivesca mais brilhante desde... desde... Eliot Ness? Ele 
 real, certo? 
 - Heather? 
Tenho um sobressalto, mandando gua e sabo para o cho, escorrendo pela lateral da banheira. 
Mas  s Cooper. 
 - S queria ver se est tudo bem com voc - ele diz, atravs da porta fechada. - Precisa de alguma coisa? 
Hmm, preciso sim. De voc. Aqui comigo, pelado. Agora. 
 - No, tudo bem - digo bem alto. Ser que eu devo contar para ele que deduzi quem fez isto comigo? Ou devo esperar at sair da banheira. 
 - Bom, quando voc terminar, achei que a gente podia pedir alguma coisa para comer. O que voc acha de comida indiana? 
Hmmmm. Samosas de legumes. 
 - timo - aviso. 
 - Certo, ento, saia da logo. Preciso conversar com voc sobre uma coisa. 
Ele tem alguma coisa para conversar comigo? Tipo o qu? Tipo os verdadeiros sentimentos que ele nutre por mim? Sempre achei que voc  uma das mulheres... Ele no 
tinha terminado de dizer o que ele sempre pensou de mim. 
Ser que vai me dizer agora? Ser que quero mesmo saber? 
Dois minutos depois, j estou instalada em minha cadeira de sempre na mesa da cozinha, enrolada em meu robe atoalhado, com uma toalha envolvendo o cabelo molhado. 
Ah, eu quero saber sim. Eu quero saber mesmo.  Sentado do outro lado da mesa, em minha frente, Cooper diz: 
 - Voc foi rpida. 
Ento, ele abre o laptop. 
Espera a. O laptop? Que tipo de cara precisa de auxlio audiovisual para dizer a uma mulher o que ele acha dela? 
 - O que voc sabe - ele pergunta - sobre Christopher Allington? 
 - Christopher Allington? - minha voz falha. Talvez porque estivesse rouca devido a toda a gritaria de antes. Ou talvez porque eu esteja chocada com o fato de Cooper 
no querer conversar comigo a respeito dos verdadeiros sentimentos que nutre por mim, mas a respeito da desconfiana que tem em relao a Chris. Acorda. Que chatice. 
 - Mas no pode ter sido ele - digo, para fazer com que Cooper abandone o assunto e volte a, sabe como , falar sobre mim. - O investigador Canavan disse que ele... 
 - Quando se investiga um caso - ele me interrompe, com toda a calma -  preciso examinar todos os ngulos. Estou perguntando o que voc sabe sobre ele. 
 - Bom - respondo. Talvez o controle de mente vulcano funcione de novo: O QUE VOC SEMPRE ACHOU SOBRE MIM? - No sei muita coisa. 
 - Voc sabe onde ele fez undergrad para o curso de direito? 
 - No - respondo. O QUE VOC SEMPRE ACHOU SOBRE MIM? - Por qu? Voc sabe onde ele estudou? 
 - Sei - o Cooper responde. - Em Earlcrest. 
 - Earl o qu? - Pergunto. Parece que o controle de mente vulcano no est funcionando! Em vez de me dizer o que sempre pensou sobre mim, ele no para de falar de 
Chris Allington. Quem se importa com Chris? Eu quero saber o que voc sente por MIM. 
 - A Faculdade Earlcrest - Cooper diz. - Foi l que Chris se preparou para o curso de direito. 
 - Do que  que voc est falando, Cooper? - Eu queria que a comida indiana se apressasse e chegasse logo. Meu estmago est roncando. - E como  que voc sabe onde 
ele estudou? 
Cooper d de ombros com seus ombros largos. 
 - Pelo SIU - responde. 
 - Si o qu? - pergunto, confusa. 
 - O SIU. Sistema de Informaes Universitrias. - Como eu continuo fazendo cara de quem no est entendendo nada, ele suspira. - Ah, sim. Como foi que eu esqueci? 
Voc no sabe nada sobre computadores. 
 - Mentira! Eu navego na internet o tempo todo. Fao toda a sua contabilidade e... 
 - Mas seu escritrio ainda  antiquado. O SIU ainda no foi disponibilizado para os escritrios da diretoria de alojamento. 
 - Conjunto residencial estudantil - corrijo, automaticamente. 
 - Conjunto residencial estudantil - ele diz. Cooper entrou em atividade frentica, batendo em teclas no computador muito mais rpido do que sou capaz de trocar 
de acorde em meu violo. - Pronto, olhe. Entrei no SIU para mostrar o que estou dizendo sobre Chistopher Allington. Certo. - Cooper vira a tela de frente para mim. 
- Allington, Christopher Phillip. D uma olhada. 
Olho para o monitor minsculo. Os registros acadmicos completos de Christopher Allington esto ali, juntos com vrias outras informaes pessoais, como a nota dele 
no LSAT e os cursos que ele fez e tudo o mais. Foi expulso de uma na Sua por colar, e de outra em Connecticut por razo no especificada. Mas, mesmo assim, conseguiu 
entrar na Universidade de Chicago que, segundo soube,  bem seletiva. Fico imaginando que pauzinhos o pai dele teve de mexer para conseguir fazer com que ele fosse 
admitido. 
Mas a temporada de Chris na Cidade dos Ventos no durou muito. Ele largou o curso depois de um nico semestre. Da parece que ele tirou umas frias... que duraram 
uns bons quatro anos, alis. 
Ento, de repente, ele apareceu na Faculdade Earlcrest, onde se formou no ano passado com um pouco mais de idade do que o resto da classe, mas com o diploma de bacharelado 
com todos os colegas. 
 - Faculdade Earlcrest - digo. -  onde o pai dele trabalhava como reitor. Antes de ser contratado pela Faculdade de Nova York. 
 - Ah, o nepotismo - Cooper diz, com um sorrisinho. - Continua to vivo nos corredores acadmicos como nunca. 
 - Certo - digo, ainda confusa. - Ento, ele foi expulso de alguns lugares quando era criana, e s conseguiu entrar em uma faculdade porque o pai dele era o reitor. 
O que isso prova? No que ele  um assassino psicopata. - No d para acreditar que a me dele tem to mais cara de assassina assim? - E, alis, como foi que voc 
teve acesso a este arquivo? No devia ser confidencial ou algo assim? 
 - Tenho os meus mtodos - Cooper diz, colocando a tela do computador de novo na frente de si. 
 - Ai, meu Deus. - Ser que os atributos fabulosos deste homem no tm fim? - Voc invadiu o sistema estudantil! 
 - Voc sempre ficou curiosa em relao ao que eu fao o dia inteiro - ele diz, com um dar de ombros. - Agora voc sabe. Pelo menos uma parte. 
 - No d para acreditar - digo. - Voc  um nerd de computador! - Isto muda tudo. Agora vamos ter que abrir uma clnica mdica barra agncia de investigao barra 
servio de invaso de computadores. Ah, espera a, e as minhas msicas? 
Cooper me ignora. 
 - Acho que deve ter algo aqui - ele diz, digitando algo no laptop. - Alguma coisa que estamos deixando passar. A nica conexo entre as meninas parece ser o Allington. 
A nica que conhecemos, mas, levando em conta o que vejo aqui, deve ter mais alguma coisa. Quer dizer, tirando o fato de que as duas meninas eram virgens e tinham 
registros nos arquivos do conjunto residencial estudantil antes de Chris colocar as mos nelas... 
Bom, tudo bem, a Sra. Allington tem aquela coisa de achar que o filho  perigoso, e fica ressentida com as mulheres que vo atrs dele. Mas ser que fica to ressentida 
a ponto de matar? E ser que a Sra. Allington poderia ter feito aquela bomba? A que explodiu em cima do elevador? Quer dizer, se desse simplesmente para sair e comprar 
uma bomba na Saks, eu acho de verdade que a Sra. Allington faria isto. 
Mas no d.  preciso fazer pessoalmente a bomba. E, para fazer uma bomba,  preciso estar sbria. Pelo menos, tenho bastante certeza quanto a isto.  E a Sra. Allington 
nunca esteve sbria (pelo que pude ver) desde que se mudou para o conjunto Fischer. 
Suspiro e olho pela janela. D para ver que as luzes esto acesas na cobertura do reitor. O que ser que os Allington esto fazendo l em cima? Fico aqui me perguntando. 
So quase sete horas. Devem estar assistindo ao noticirio. 
Ou, talvez, tramando para matar virgens inocentes? 
A campainha da porta da frente toca e eu tenho um sobressalto. 
 -  o jantar - Cooper diz e se levanta. - J volto. 
Ele desce para pegar a comida indiana. Continuo olhando pela janela enquanto ele no volta. Embaixo da cobertura, outras luzes se acendem nas janelas de outros andares 
do conjunto Fischer,  medida que os alunos vo chegando das aulas ou do jantar ou da ginstica ou de ensaios. Fico imaginando se alguma das silhuetas minsculas 
que enxergo  de Amber, a ruivinha do Idaho? Ser que ela est no quarto esperando um telefonema de Chris? Ser que ela sabe que ele est escondido nos Hamptons? 
Coitadinha de Amber. Fico aqui imaginando o que ela fez para arranjar problemas com Rachel hoje de manh.  E  quando eu percebo. 
Meus lbios se abrem mas, durante um minuto, nenhum som sai deles. Amber. Eu tinha me esquecido dela e da reunio com Rachel hoje de manh. Por que ser que Rachel 
precisava falar com Amber? A prpria Amber no sabia por que tinha sido chamada para uma reunio obrigatria com a diretora do alojamento. O que Amber tinha feito? 
Amber no tinha feito nada. Nada alm de falar com Chris Allington. Essa foi a nica coisa que fez. 
E Rachel sabia, porque ela tinha me visto com os dois na frente do prdio, depois do concurso de dublagem. 
Assim como ela tinha visto Roberta e Chris no baile. E Elizabeth e Chris... onde? Onde ser que ela tinha visto os dois juntos? Talvez na reunio de orientao? 
Durante alguma sesso de cinema? 
S que isso no tinha importncia. Assim como no tinha importncia o fato de Rachel ter dito ao Julio para me chamar porque Gavin estava fazendo surfe de elevador 
de novo. 
Assim como no tinha importncia o fato de que foi Rachel que entrou no terrao da cobertura e tentou jogar aquele vaso de flores na minha cabea.  Assim como no 
tinha importncia o fato de que, quando a segunda menina morreu, Rachel no estava no refeitrio, como deveria estar. No, eu a tinha encontrado saindo do banheiro... 
bem pertinho da escada que usou para descer apresada, depois de empurrar Roberta Pace para a morte. 
E a razo por que a chave das portas dos elevadores no estava l e da reapareceu em um intervalo to curto naquele dia? Estava com Rachel. Rachel, a nica pessoa 
no conjunto pedisse para assinar a lista de retirada, que no teria sua presena atrs do balco questionada. Porque ela  a diretoria do conjunto residencial. 
E as meninas que morreram... elas no morreram porque tinham ficha na sala da Rachel. 
Elas tinham ficha na sala da Rachel porque ela as tinha escolhido para morrer.
 - Espero que voc esteja com fome - Cooper diz quando volta ao meu apartamento, carregando um enorme saco plstico onde se l I 
e& NY. - Anotaram o pedido errado e nos mandaram
dansak de frango e de camaro... - A voz dele vai ficando baixinha. - Heather? -
Cooper est olhando para mim de um jeito estranho, cheio de preocupaes nos olhos 
azuis. - Tudo bem com voc? 
 - Earlcrest - consigo balbuciar. 
Cooper coloca o saco na mesa da cozinha e fica olhando para mim. 
 -  - ele diz. - Foi isso mesmo que eu achei que voc tinha dito. O que tem? - Onde fica? 
Cooper se inclina para consultar a tela do computador. 
 - Hmm, eu no... ah, Indiana. Em Richmond, Indiana. 
Sacudo a cabea, com tanta fora que a toalha cai, e meu cabelo cai todo por cima dos ombros. No. DE JEITO NENHUM. 
 - Ai, meu Deus - digo quase sem flego. - Ai, meu Deus. 
Cooper fica olhando para mim como se eu estivesse completamente louca. E sabe o qu? Acho que estou mesmo. Louca, quer dizer. Porque, como  que eu no percebi antes, 
apesar de estar debaixo do meu nariz... 
 - Rachel trabalhou l - consigo articular. - Rachel trabalhou em um alojamento em Richmond, em Indiana, antes de se mudar para c. Cooper, que estava tirando recipientes 
brancos de papel do saco I 
e& NY, pra. 
 - Do que  que voc est falando? 
 - Richmond, Indiana - repito. Meu corao bate to forte que d para ver a gole 
do meu roupo atoalhado subir e descer no peito a cada batida. - O ltimo lugar em 
que Rachel trabalhou foi em Richmond, em Indiana. 
Uma expresso de compreenso se instala no rosto de Cooper. 
 - Rachel trabalhou em Earlcrest? Voc acha... voc acha que foi Rachel que matou aquelas meninas? - Ele sacode a cabea. - Por qu? Voc acha que ela estava assim 
to desesperada para ganhar um prmio Amor-Perfeito. 
 - No. - No tem como imaginar que Rachel ande por a empurrando meninas no poo do elevador do conjunto Fischer para ganhar um prmio Amor-Perfeito, ou at mesmo 
uma promoo. 
Porque no  de promoo que Rachel est atrs. 
Ela est atrs de um homem. 
Um homem heterossexual, que tenha  disposio mais de cem mil dlares por ano, levando em conta a herana que ele deve receber. 
Christopher Allington. Christopher Allington  este homem. 
 - Heather - Cooper diz. - Heather? Veja bem. Sinto muito. Mas no em como. Rachel Walcott no  assassina. 
Prendo a respirao. 
 - Como  que voc sabe? - pergunto. - Quer dizer, por que no? Por que no ela? Por que outra pessoa? Porque ela  mulher? Porque ela  bonita? 
 - Porque  uma loucura - Cooper diz. - Falando srio, o dia foi muito longo. Talvez voc esteja precisando descansar um pouco. 
 - Eu no estou cansada - digo. - Pense bem, Cooper. Quer dizer, pense mesmo sobre o assunto. Elizabeth e Roberta tiveram uma reunio com Rachel antes de morrer... 
aposto que o negcio que ela escreveu na ficha delas, a respeito de a
me de cada uma ter ligado, no  nem verdade. Aposto que elas nunca ligaram. E agora, Amber...
 - H setecentos residentes no conjunto Fischer-Cooper observa. - Ser que todos que tiveram reunio com Rachel Walcott morreram?
 - No, s as que tambm tinham um relacionamento com Christopher Allington. 
Cooper sacode a cabea. 
 - Heather, tente encarar a questo de maneira lgica. Como  que Rachel Walcott ia ter fora fsica para jogar uma mulher adulta e se debatendo em um poo de elevador? 
A Rachel no deve pesar nem 55 quilos. Simplesmente no  possvel, Heather. 
 - No sei como ela est fazendo, Cooper. Mas eu sei que  uma certa coincidncia o fato de Rachel e Chris terem estado em Earlcrest no ano passado, e agora os dois 
estarem aqui na Faculdade de Nova York. Aposto bastante dinheiro que Rachel seguiu Christopher Allington (e os pais dele) at aqui. 
Como ele continua com ar de hesitao, eu me levanto, empurro a cadeira para trs e digo: 
 - S existe um jeito de ter certeza. 

26
O que foi que eu fiz
Para voc ficar to bravo? 
O que foi que eu disse
Para voc ficar to mal? 
Eu no tive inteno
Juro que no  verdade
O nico cara que me importa
Sempre foi voc

Ah, no sou assim to bravo. 
Volta aqui, pode deixar que eu
Vou te fazer feliz

"Cano de desculpas"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Caputo/Valdez
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

No  de surpreender que Cooper se recuse a pegar o carro e ir at os Hamptons s sete da noite no meio da semana, s para falar com um sujeito que nem a polcia 
convocou para interrogatrio. 
Ele no se convence nem quando lembro a ele que  muito mais provvel que Chris fale com um de ns do que com a polcia. Insiste que, depois dos ferimentos que sofri 
naquela manh, estou precisando  de uma boa noite de sono, e no de uma viagem de seis horas para ir a East Hampton e voltar. 
Quando lembro a ele que  nosso dever de cidado fazer tudo o que for possvel para que esta mulher seja colocada atrs das grades antes que volte a matar, Cooper 
me garante que vai ligar para o investigador Canavan pela manh e contar a ele a minha teoria. 
 - Mas amanh de manh pode ser que Amber j esteja morta! - Exclamo. Sei que ela ainda est viva, porque acabei de ligar para o quarto dela e fiquei sabendo, por 
meio da colega de quarto dela, que est assistindo a um filme no quarto de outra residente no fim do corredor. 
 - Se a diretora do conjunto residencial requisitar uma reunio com ela - eu tinha dito, quase histrica, para a colega de quarto de Amber - , diga que ela NO pode 
comparecer, entendeu? 
 - Hmm - a colega de quarto respondeu. - Tudo bem. 
 - Estou falando srio - gritei antes que Cooper conseguisse arrancar o telefone da minha mo.   - Diga para Amber que a diretora-assistente do conjunto Fischer 
disse 
que se a diretora do conjunto residencial requisitar outra reunio com ela, no  para ir. Nem  para abrir a porta para ela. Voc entendeu o que eu disse? Voc 
entendeu que vai se encrencar de verdade com a diretora-assistente do conjunto Fischer se no der este recado? 
 - Hmm - a colega de quarto disse. - Certo. Eu dou o recado a ela. 
Talvez esta no seja a maneira mais sutil de transmitir minha mensagem. Mas, pelo menos, assim vou saber que Amber est a salvo. 
Por enquanto. 
 - A gente precisa ir at l, Cooper! - Imploro, assim que desligo o telefone. - Preciso saber, agora! 
 - Heather - Cooper diz, parecendo frustrado. - Juro por Deus, que, de todas as pessoas que eu j conheci na vida, voc deve ser a mais... 
Prendo a respirao. Ele vai dizer! Ele vai diz o que quase disse em minha sala! Ele vai dizer agora! 
S que, l (na minha sala, quer dizer) parecia que o que ele ia dizer era um elogio. Mas, julgando pela maneira como o maxilar dele est apertado, acho que ele no 
vai dizer nada gentil sobre a minha pessoa. Na verdade, tenho bastante certeza de que no quero ouvir as prximas palavras dele. 
Porque, de verdade, a coisa com Rachel  mais importante. 
E  por isso que eu digo. 
 - Isso  uma estupidez. Sabe, existem trens que vo para Hamptons. Vou dar uma olhada nos horrios na internet e...
No sei se ele cedeu porque percebeu que seria a nica maneira de me fazer calar a boca ou se estava mesmo preocupado que a viagem de trem no me fizesse bem. Talvez
ele s estivesse tentando acalmar uma moa louca e ferida. 
De todo modo, quando finalmente consigo terminar de me vestir, Cooper j tirou o carro do estacionamento (uma BMW 1974 modelo 2002, veculo que sempre faz os traficantes 
da rua estalarem a lngua em sinal de desaprovao porque, na opinio deles, a nica BMW boa que existe  a zero quilmetro). Ele no est feliz com o fato nem nada. 
Na verdade, tenho certeza que estava amaldioando o impulso que o levou a me convidar para morar com ele, para comeo de conversa. 
E eu me sinto mal por causa disso. Mesmo. 
Mas no o bastante para dizer a ele para deixar tudo isso para l. Porque, sabe como , a vida de uma garota est em jogo. 

 bem fcil encontrar a casa de veraneio dos Allington. Quer dizer, eles esto na lista telefnica de East Hampton. Se no quisessem que ningum aparecesse por l, 
teriam mandado tirar o telefone da lista, certo? 
E, tudo bem, tem um porto enorme de ferro batido na entrada do terreno, com interfone embutido e tudo o mais, o que pode levar uma pessoa comum a acreditar que 
visitas no so bem-vindas. 
Mas eu, pelo menos, no caio nessa. Solto do carro e vou apertar a campainha. E, apesar de ningum atender, eu no me abato. Bom, no muito. 
 - Heather - Cooper diz, da janela do carro, que ele abriu. - Acho que ningum vai... 
Mas ento o interfone estala e a voz inconfundvel de Chris diz: 
 - O que ? 
Sei porque ele est to irritado. Eu meio que fiquei com o dedo enfiado na campainha, sabendo que a pessoa l dentro ia acabar enlouquecendo e ia ter de atender. 
 um truque que aprendi com os reprteres que costumavam fazer viglia na frente do apartamento que Jordan e eu dividamos. 
 - Hmm, oi, Chris - digo ao interfone. - Sou eu. 
 - Eu quem? - Chris que saber, ainda em tom irritado. 
 - Voc sabe quem - digo, tentando fazer aquela voz de garotinha flertando. - Deixe-me entrar. 
Ento ajunto as trs palavras a que, segundo aprendi com os arquivos de Justine, poucos universitrios (e Chris  um dele, afinal de contas) conseguem resistir: 
 - Eu trouxe pizza. 
Uma pausa. E ento o porto comea a abrir devagar. 
Volto correndo para o carro, onde Cooper est sentado com uma expresso levemente surpresa (apesar de ser eu quem est dizendo). 
 - Pizza - ele responde. - Vou ter de me lembrar desta. 
 - Funciona sempre - digo. No menciono como foi que aprendi. Estou meio cheia de Justine, para dizer a verdade. 
Entramos de carro no terreno e a Villa d"Allington brilha  nossa frente em toda a sua glria de reboco branco. 
Claro que j estive nos Hamptons. Os Cartwright tm uma casa ali, bem na beira do mar, em que trs lados dos terrenos fazem limite com uma reserva federal de proteo 
aos pssaros, ento ningum pode construir ali e estragar a vista. 
J fui  casa de outras pessoas ali tambm (casas consideradas maravilhas da arquitetura; uma vez at estive em um castelo que tinha sido transportado para l, tijolo 
por tijolo, do sul da Frana.  srio). 
Mas nunca tinha visto nada parecido com a casa dos Allington. Pelo menos, no nos Hamptons. Completamente branca e enorme, cheia de arcos espaosos em estilo mediterrneo 
e plantas cheias de flores coloridas, a casa  iluminada como se fosse o Rockfeller Center em Nova York. 
S que, em vez de um cara enorme pairando por cima de uma pista de patinao, tem uma casa branca enorme pairando por cima de uma piscina. 
 - Que tal - Cooper diz quando samos do carro - voc deixar que eu fale desta vez? 
Aperto os olhos na direo dele. 
 - Voc no vai bater nele, vai? 
 - Por que eu bateria? - ele pergunta com surpresa na voz. 
 - Voc no costuma bater nas pessoas? Quer dizer, no seu ramo de atividade? 
 - No me lembro da ltima vez que fiz isso - ele diz com sutileza. 
Um pouquinho desapontada, digo: 
 - Bom, acho que Christopher Allington  o tipo de cara em que voc gostaria de bater. Se voc batesse nos outros. 
 -  sim - Cooper concorda, com um leve sorriso. - Mas no vou bater nele. Pelo menos, no de cara. 
Primeiro, ouvimos os dois. Depois os enxergamos ao abrir a cortina de bons-dias que pende de um dos arcos. Passamos atravs das trepadeiras com cheiro adocicado 
e chegamos no ptio de trs.  esquerda da piscina reluzente h uma Jacuzzi, soltando vapor no ar frio da noite. 
Dentro da Jacuzzi h duas pessoas, nenhuma das quais, felizmente,  o reitor Allington ou a mulher dele. Acho que teria morrido se visse o reitor Allington de sunga. 
Eles no reparam em ns de imediato, provavelmente devido a todo o vapor e os holofotes que iluminam o deque ao redor da piscina, mas deixam a rea da Jacuzzi na 
sombra. Espalhadas aqui e ali, sobre as tbuas largar de madeira do ptio, h espreguiadeiras com almofadas cor-de-rosa clarinho. Ao lado de uma das pontas da piscina 
h um bar, um bar de verdade com banquetas na frente e estante iluminada por trs cheia de garrafas. 
Eu me aproximo da Jacuzzi e limpo a garganta com muito barulho. 
Chris ergue o rosto dos peitos da menina que ele estava acariciando com o nariz e fica olhando embasbacado para ns.  Obviamente, est bbado.  A menina, tambm. 
Ela fiz: 
 - Ei, ela no trouxe pizza nenhuma. 
Ela parece ter ficado decepcionada com isso, apesar de os dois parecerem estarem bem servidos no departamento do queijo extra. 
 - Oi, Chris - eu digo e me sento na ponta de uma das espreguiadeiras. A almofada embaixo de mim est molhada. Choveu agora h pouco nos Hamptons. 
Parece que demora alguns segundos at que Chris me reconhea. E quando reconhece, no fica muito contente. 
 - Loirinha? - Ele levanta a mo para tirar o cabelo molhado que caiu sobre os olhos. -  voc? O que voc est fazendo aqui? 
 - A gente s passou para fazer algumas perguntas - digo. Lucy veio conosco (no dava para deix-la presa em casa a noite inteira), e agora ela roa a cabea nos 
meus joelhos e senta, arfando toda feliz. - Ento, tudo bem com voc? 
 - Estou bem, acho - Chris responde. Ele olha para Cooper. - Quem  ele? 
 - Um amigo - Cooper responde. E logo completa: - Dela - acho que para que no haja nenhuma confusa. 
 - Ah - Chris diz. Depois, em uma aparente tentativa de tirar o melhor de uma situao ruim, ele diz: - Bom, querem beber alguma coisa? 
 - No, obrigada - Cooper responde. - O que a gente gostaria mesmo  de falar com voc sobre Elizabeth Kellogg e Roberta Pace. 
Chris no parece alarmado. Na verdade, nem parece surpreso. Em vez disso, diz: 
 - Ah, claro, claro. Ah, ei, cad a minha educao? Faith, querida, v l dentro preparar um rango para a gente, pode ser? E aproveite para pegar mais uma garrafa 
de vinho, que tal? 
A garota na Jacuzzi faz bico. 
 - Mas, Chris... 
 - V l, querida. 
 - Mas o meu nome  Hope, no Faith. 
 - Tanto faz. - Chris d um tapinha na bunda dela enquanto ela sobe a escadinha, pingando como uma sereia, e sai da Jacuzzi. Ela est de biquni, mas a parte de 
cima  to minscula, e os peitos dela to grandes, que os pequeninos tringulos de Lycra parecem ser s uma sugesto.
Cooper repara no fenmeno do biquni na hora. Eu sei por causa das sobrancelhas erguidas dele. Vale mesmo a pena ser uma detetive experiente.  A parte de trs dela
se revela to impressionante quanto a da frente. Nenhum grama de celulite. Imagino se ela, como Rachel, faz exerccios no StairMaster para ficar assim.
 - Ento, Chris - Cooper diz, assim que a garota se retira. - Qual  a sua histria com Rachel Walcott? 
Chris engasga com o gole de Chardonnay que estava tomando. 
 - O-o qu? - Ele tosse, quando consegue falar. 
Mas Cooper s est olhando para Chris, da maneira que se olha para um bicho interessante, porm nojento, que voc achou na salada. 
 - Rachel Walcott - ele diz. - Ela era a diretora do alojamento... quer dizer, conjunto residencial estudantil... em que voc morou no seu ltimo ano em Earlcrest. 
Agora ela administra o conjunto Fischer, onde seus pais moram, e onde Heather, esta aqui, trabalha. 
Chris procura um mao e cigarros e um isqueiro que ele tinha deixado ao lado da Jacuzzi, pega um e acende com dedos trmulos. D uma tragada e, na semi-escurido, 
a ponta do cigarro brilha vermelha. 
 - Merda -  tudo que ele diz. 
No sou uma detetive experiente nem nada, mas at eu acho que essa resposta  meio... suspeita. 
 - Ento, qual  a histria entres vocs dois? - Cooper pergunta. - Voc e Rachel. Quer dizer, talvez voc no tenha notado, mas tem gente morrendo... 
 - Eu notei - Chris diz, seco. - Certo? Eu notei. Que porra voc est pensando? 
Aparentemente, Cooper no acha a ltima parte absolutamente necessria. Sabe como , ficar falando palavro. 
Porque ele diz para o Chris, com a voz mais rspida que j o ouvi usar: 
 - Voc sabia? H quanto tempo? 
Chris fica olhando estupefato para ele atravs do vapor dos jatos borbulhantes. 
 - O qu? - pergunta, como algum que no tem certeza se est ouvindo as coisas direito. 
 - H quanto tempo? - Cooper pergunta com muita nfase de novo, com uma voz que me deixa feliz que ele esteja falando com Chris, e no comigo. Tambm faz com que 
duvide da histria dele. Sabe como , de dizer que no bate nas pessoas no ramo de atividade dele. - H quanto tempo voc sabe que era Rachel que estava matando 
aquelas meninas? 
D para ver que Chris ficou to plido quanto a iluminao aquosa abaixo da superfcie da piscina, e no  por causa da fumaa do cigarro. 
No o culpo. Cooper tambm est me assustando um pouquinho. 
 - Eu no sabia - Chris diz, com uma voz estrangulada que  bem diferente do tom arrogante que ele tinha usado antes. - Eu s juntei as peas ontem  noite, quando 
voc... - ele olha para mim - quando voc e eu danamos, e voc disse que Beth e Bobby eram... eram as que... 
 - Ah, fala srio - Cooper diz. - Voc acha que a gente vai acreditar que, com toda a divulgao no campus depois daqueles supostos acidentes... 
 - Eu no sabia! - Chris bate uma mo na gua para enfatizar suas palavras, e molha as patas de Lucy. Ela olha para elas sem entender nada, ento comea a trabalhar 
com a lngua. - Juro por Deus que no sabia. Eu no tenho exatamente muito tempo livre, e o pouco que tenho, no gasto lendo jornal. Quer dizer,  claro que eu ouvi 
dizer que duas meninas tinham morrido no conjunto Fischer, mas eu no sabia que eram as minhas duas meninas. 
 - E voc no reparou que nenhuma das meninas retornou suas ligaes? Chris abaixa a cabea. De vergonha, suponho. 
 - Porque voc nunca mais ligou para elas - a voz de Cooper est fria como gelo. 
Chris parece na defensiva. 
 - Voc liga? - Ele quer saber, de Cooper. - Voc sempre liga no dia seguinte? 
 - Se eu quiser que haja uma prxima vez - Cooper responde, sem perder o ritmo. 
 - Exatamente. - A voz de Chris transborda de significado. No comeo, eu compreendo o que ele quer dizer. 
Ento, eu entendo. 
Ah. 
Cooper sacode a cabea, com cara de que sente tanto nojo quanto eu. Bom, quase, de todo modo. 
Voc quer que eu acredite que nem ficou sabendo que aquelas meninas estavam mortas at Heather dizer para voc naquela noite? 
 -  isso mesmo - Chris diz e, de repente, joga o cigarro em um arbusto de azalia e se ergue da Jacuzzi. S est usando um calo de banho folgado. O corpo dele 
tem constituio magra porm musculosa, a pele exibe um leve bronzeado dourado. No tem nenhum tufo de plo, a menos que se conte os da axila. 
 - E quando soube da notcia, a primeira coisa que fiz foi vir para c. - Chris se levanta e se enrola em uma grande toalha cor-de-rosa clarinho. - Eu precisava 
sair de l, eu precisava pensar, eu precisava... 
 - Voc precisava achar um jeito de no ser convocado para dar um depoimento na polcia - Cooper termina a frase para ele. 
 - Isso tambm. Veja bem, ento eu fui para a cama com elas... 
Eu no consigo mais agentas. Mesmo. Eu me sinto enjoada (e tambm no  s por causa de toda a comida indiana que consumimos no carro, no trajeto at aqui). 
No, isto no  indigesto.  nojo. 
 - No aja como se no fosse muito importante, Chris - eu digo. - Voc foi para a cama com aquelas meninas e depois no ligou mais. Nem disse a elas o seu verdadeiro 
nome para impedir que soubessem de quem voc  filho. Porque  muito importante. Ou era para elas. Voc as usou. Voc as usou porque voc sabe que... voc sabe que 
tem... bom, problemas de desempenho. 
 - O qu? - Chris parece chocado. - No tenho nada! 
 - Claro que tem - eu digo, sabendo que estou parecendo Sarah, mas nem ligo. - Por que outra razo vocs procuraria meninas que no tm nenhuma experincia sexual? 
... Tirando esta Hope aqui? Para elas no terem parmetros de comparao para o seu desempenho?
Chris faz uma cara de estupefao, como se eu tivesse batido nele. E talvez, de certo modo, eu o tenha atingido mesmo.
Cooper puxa a minha manga e sussurra:
 - Calma, fera. Calma a. No vamos confundir nossos papis. Eu sou o policial maldoso aqui. Voc  a boazinha. 
Ento ele me d tapinhas de leve nas costas (como eu fao quando quero que Indy se acalme). Cooper diz para Chris, que est com o rosto bem vermelho: 
 - Veja bem, ningum est acusando voc de ter matado ningum. O que queremos saber  qual  a sua relao com Rachel Walcott. 
 - Por qu? - Chris j passou da fase de ficar assustado, e voltou a seu modo convencido. Minha observao a respeito dos problemas de desempenho o irritara. Sem 
dvida porque  verdade. 
Chris passa pisando forte por Cooper, em direo  piscina. 
 - O que tem? 
 - Existiu alguma coisa? - Cooper quer saber. 
 - Uma relao? - Chris larga a toalha e sobe no trampolim. Um segundo depois, j pulou para dentro da piscina, mal esparramando gua quando o corpo comprido e magro 
faz um arco para entrar na gua. Ele comea a nadar at o lado da piscina em que estamos, ento sobe  tona, aparentemente porque mudou de idias embaixo d"gua. 
 - Tudo bem - ele diz. - Vou contar tudo o que eu sei. 

27
Ela me disse
Que te acha legal
Ela me disse
Que  s uma questo de tempo
Ela me disse
Que um dia te pega
Mas eu disse para ela
Que s passando por cima de mim

Porque voc 
Meu tipo de cara
, voc 
Meu tipo de cara
Minha amigas dizem que estou louca
Mas  que voc 
Meu tipo de cara

"Meu tipo de cara"
Interpretado por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Vero
Gravadora Cartwright

 - Certo - Chris diz, por entre os dentes que batem. - Certo. Ento, eu transei com ela durante alguns meses. Eu no pedi a mo dela em casamento nem nada. Mas ela 
enlouqueceu completamente, sabe? Achei que ela ia cortar meu saco fora. 
Pego a toalha de Chris e acomodo por cima dos ombros dele, que tremem. Parece que ele nem nota. Ele engatou. Saiu da piscina e comeou a caminhar na direo da casa, 
com Cooper, Lucy e eu atrs dele, como se fssemos uma comitiva... 
Bom, de alguma estrela do rock. 
 - Comeou no penltimo ano de faculdade - Chris diz. Agora comeou a falar, parece que no consegue mais parar. Nem diminuir o ritmo.  preciso admirar a tcnica 
de Cooper. No bater no cara deu certo. - Um monte de caras e eu fomos pegos fumando maconha no alojamento, sabe como , a gente precisou falar com a diretora do 
prdio, Rachel, para levar bronca. A gente achou que ia ser expulso da faculdade. Ento, alguns dos caras falaram: "Chris, voc tem de dar em cima dela", porque, 
sei l, eu era um pouco mais velho do que eles, e tinha uma certa reputao com as garotas, sabe? 
Posso enxergar Rachel (com seus sapatos Manolo Blahnik e seu taileur Armani) sendo paquerada por este Adnis de conversa macia e cabelo dourado. No, ele no  o 
homem de negcios sofisticado que ela almejava conquistar com a bunda dura como pedra e o cabelo todo penteadinho dela.  Mas ele deve ter sido o mais prximo disso 
que ela conseguiu arrumar em Richmound, em Indiana.
 - Bom, de todo o jeito, ela liberou a gente. Daquele negcio de fumar maconha, sabe? Disse que seria o nosso segredinho. - Tem um risinho de desdm na voz de Chris. 
Mas no  um risinhos alegre. - No comeo, achei que era por causa do meu pai. Mas, da, a gente comeou a se esbarrar no refeitrio e tal. Mas como... bom, como 
ela esbarrando em mim, sabe? E os caras falavam: 
"Manda ver, cara. Se voc comear a ficar com a diretora do alojamento, a gente vai poder se safar de tudo o que a gente quiser. " E como eu no tinha nada rolando, 
sabe como , em relao a mulher, eu pensei: Por que no? E uma coisa levou  outra e, ento, a gente virou um casal, acho. 
Ele se abaixa para passar por uma arco e vamos atrs dele, passando por uma porta de vidro de correr e entrando em uma sala de estar em desnvel em iluminao fraca, 
onde o tema principal da decorao parece ser couro preto. Os sofs so de couro preto. Os pufes so de couro preto. At o consolo da lareira parece ser forrado 
de couro preto. 
Mas com certeza no . Quer dizer, se fosse, no pegaria fogo? 
 - Acontece que fui o primeiro dela - Chris explica, caminhando at a lareira e girando um boto. De repente, a sala  banhada por uma luz cor-de-rosa fantasmagrica. 
Se eu fosse uma desavisada, ia achar que tnhamos entrado em um bordel. Ou talvez em um daqueles vares de oxignio no SoHo. - Ela nem sempre teve tanta... compostura 
como tem hoje. Na verdade ela era meio... bom, quando a gente se conheceu, l em Richmond, a Rachel era meio gorda. 
Fico olhando estupefata para ele. 
 - O qu? 
Cooper lana um olhar de advertncia para mim. Chris engatou, e Cooper no quer que eu interrompa. 
 - Sabe como . - Ele d de ombros. - Ela era gorda. Bom, no gorda de verdade. Mas... cheinha. E andava de moletom o tempo todo. No sei o que aconteceu, sabe, 
entre agora e antes, mas ela emagreceu, um monto, e fez, sei l, uma repaginada, ou algo assim. Porque, naquela poca... sei l. 
 - Espera um pouco. - Estou tendo dificuldade em processar isto. - Rachel era gorda? 
 - Era. - Ele d de ombros. - Talvez voc tenha razo. Talvez haja menos... presso em ficar com algum que no tenha nenhuma experincia para servir de parmetro. 
Realmente existia algo de... sei l... realmente excitante de estar com uma mulher mais velha que era to inteligente em algumas coisas, e to burra em outras... 
 - Ela era gorda? - estou passada de verdade. - Ela corre tipo seis quilmetros por dia! Ela no come nada alm de alface. Sem molho! 
 - Bom - Chris diz, dando de ombros mais uma vez. - Talvez ela agora seja assim. Mas no era na poca. Ela me contou que tinha sido gorda a vida toda, e que  por 
isso que ela nunca... voc sabe... tinha ficado com nenhum cara antes. Uau. Rachel ainda era virgem depois da faculdade? Ela no tinha conhecido ningum no ensino 
mdio? Nem na faculdade? 
Parece que no. 
 - Ento, quanto tempo isso durou? O caso? - Cooper pergunta, aparentemente em um esforo de me fazer parar com a coisa de Rachel era gorda? . 
Chris se afunda em um dos sofs de couro preto, sem parecer se importar em molhar as almofadas. Quando se  rico como ele, acho que este tipo de coisa no importa. 
 - At mais ou menos a metade do meu ltimo ano. Foi quando percebi que precisava comear a estudar de verdade, voc sabe, para conseguir uma nota boa no LSAT. Depois 
de terem me deixado vagabundear durante a maior parte dos meus vinte e tantos anos, meus pais estavam pegando no meu p, entende, para entrar no curso de direito. 
Eu disse para ela, para Rachel, que eu ia ter de me afastar um pouco. Parecia um bom momento para terminar tudo. Quer dizer, no ia ter como aquilo continuar, ela 
e eu, depois que eu me formasse. Eu no ia ficar em Richmond de jeito nenhum. 
 - Voc disse isso a ela? - Cooper pergunta. 
 - Disse o qu? 
Vejo um msculo do maxilar de Cooper se movimentar. 
 - Voc disse para Rachel que a relao de vocs no tinha futuro? - Ele elabora, com pacincia forada. 
 - Ah. - Chris no olha nos meus olhos, nem nos de Cooper. - Disse. 
 - E a? 
 - Ela enlouqueceu, cara. Quer dizer, enlouqueceu mesmo. Comeou a berrar, a jogar coisas. Ela pegou o monitor do meu computador e jogou para o outro ptio, sem 
brincadeira. Eu fiquei com tanto medo que fui morar com uns amigos fora do campus at o ano terminar. 
 - E vocs nunca mais se viram? - Uma parte de mim no consegue acreditar na histria de Chris. Outra parte acredita completamente. No que eu consiga imaginar Rachel 
jogando um monitor de computar para o outro lado de um ptio. 
Mas tambm no posso imagin-la matando duas meninas (e quase matando trs outras pessoas). 
 - No - Chris diz. - No at algumas semanas atrs, quando voltei de Richmond. Passei o vero l, fazendo trabalho voluntrio, como parte do acordo que fiz com 
meu pai para o curso de direito. Ento eu entrei no conjunto Fischer, e a primeira coisa que eu vi foi Rachel na recepo, dando bronca em um garoto por causa de 
uma coisa qualquer. S que, sabe, ela estava toda... magrinha. Eu quase desmaiei, vou dizer. Mas ela sorriu, com a maior frieza possvel, e perguntou se eu estava 
bem. No demonstrou mgoa nem nada. 
 - E voc acreditou nela - a voz de Cooper no traz nenhuma expresso. 
 - Acreditei - Chris suspira. - Parecia que estava tudo bem. Eu pensei... sabe como , a perda de peso, o corte de cabelo novo, as roupas... Eu achei que era bom 
sinal sabe? Que ela estava seguindo em frente. 
 - E o fato de ela ter conseguido de propsito um emprego para administrar o prdio em que os seus pais moram - Cooper diz. - Isto no fez voc pensar que talvez 
as coisas no estivessem assim to bem quanto pareciam? 
 - Claro que no - ele responde. - At... bom, o que eu descobri ontem  noite. 
Uma voz assemelhada a um sino exclama: 
 - Ah, voc est aqui! Procurei voc pelo ptio todo. Eu no sabia que voc tinha entrado. 
Hope vem descendo a escada, segurando uma bandeja do que parece (e tem cheiro de) vol-au-vents de espinafre em uma mo e a barra de um robe de oncinha que vai at 
o cho na outra. 
 - Os canaps esto prontos - ela diz. - Vocs querem comer aqui ou na beira da piscina? 
 - Na beira da piscina, certo, querida? - Chris d um sorriso fraco para ela. - A gente j vai l com voc, 
Hope d um sorriso simptico e faz um desvio na direo das portas deslizantes de vidro. 
 - No demorem - ela avisa. - Vai esfriar. 
Assim que ela sai, Chris diz: 
 - Eu j pensei e repensei no assunto, desde que falei com voc naquela noite, sabe, tentando imaginar se Rachel pode ter feito isso. Matando aquelas meninas, quer 
dizer. Porque eu sou bom, entende... mas no exatamente algum por quem vale a pena cometer assassinato. 
Ele d um sorriso fraco com a prpria piada. Cooper no retribui. Acho que ainda estamos brincando de policial malvado/policial boazinha. Como parece que sou a policial 
boazinha, eu retribuo o sorriso. Nem  difcil. Quer dizer, apesar de tudo, eu ainda gosto um pouco de Chris. No d para evitar. Ele s ... o Chris. 
 - Quer dizer, quando ela e eu terminamos - ele prossegue, como se no tivesse havido nenhuma interrupo - , eu expliquei que ela foi... bom, violenta. Ela jogou 
meu computador para o outro lado do ptio. So uns 45 metros. Ela  bem forte. Uma menina... uma menina pequena, como Beth ou Bobby. Bom, no seria nada para Rachel. 
Se ela estivesse brava de verdade. 
 - E voc acha que foi isso que aconteceu com aquelas meninas? - Cooper parece querer confirmar. - No que a morte delas foi acidental, mas que Rachel as matou? 
Chris vai afundando cada vez mais no sof de couro do pais. D para ver que o desejo dele  desaparecer. 
 - Acho - ele responde, com a voz bem baixinha. - Quer dizer...  a nica explicao, no ? Porque toda aquela histria de surfe de elevador... Meninas no fazem 
surfe de elevador. 
Jogo um olhar de Eu te disse para Cooper. Mas ele no percebe. Est ocupado demais com os olhos pregados em Chris. 
No silncio que se instala depois disto, d para ouvir um grilo que comea a cantar bem alto l fora. Preciso reconhecer, estou meio... bom, comovida com o discurso 
de Chris. Ah, continuo achando que ele  um porco e tudo o mais. Mas pelo menos ele reconhece na boa. Isso j  alguma coisa, pelo menos. 
Mas Cooper no parece nem de longe to impressionado quanto eu. 
 - Chris - ele diz. - Voc vai voltar para a cidade conosco agora e, amanh de manh, a gente vai  polcia. 
No  um pedido.  um ordem. 
Chris d um sorriso amarelo. 
 - Por qu? De que vai servir? Simplesmente vo me prender. No vo acreditar que foi Rachel. Nunca. 
 - No se voc tiver libis para o horrio dos assassinatos - Cooper diz. 
 - Eu tenho - Chris diz, de repente ficando animado. - Eu estava em aula quando a segunda menina... Bobby, quer dizer... morreu. Eu sei porque a gente ouviu as sirenes 
e olhou pela janela. O conjunto Fischer fica bem perto do prdio da faculdade de direito... 
Ento Chris sacode a cabea. O cabelo dele est secando como um capacete dourado em cima da cabea. 
 - Mas no vo acreditar de jeito nenhum que Rachel Walcott est matando as meninas com quem eu transei. Quer dizer, fala srio. Rachel acabou de ganhar uma porra 
de um prmio Amor-Perfeito por ser uma boa samaritana ou sei l o qu. 
Cooper fica s olhando para ele. 
 - Tem alguma menina com quem voc foi para cama neste ano que no est morta? 
Chris parece pouco  vontade. 
 - Bom, no, mas... 
Olho por cima do ombro, para os arco que conduzem  piscina. 
 - E a Hope? 
 - O que tem ela? 
 - Voc quer que ela morra tambm? 
 - No! - Chris parece horrorizado. - Mas... quer dizer, ela  a au pair doisinho. Como  que Rachel vai... 
 - Chris - Cooper diz. - Voc j pensou em dar um tempo nas namoradas? 
Chris engole em seco. 
 - Para dizer a verdade - ele diz. - Estou comeando a achar que no  m idia. 

28
No quero flores
Vermelhas, amarelas ou azuis
E no quero diamantes
Sei que outras garotas querem
E no quero dinheiro
J vi o que o dinheiro  capaz de fazer
Eu s quero voc
Eu s quero voc
Eu s quero voc

"Tudo o que quero"
Interpretada por Heather Wells
Composta por Dietz/Ryder
Do lbum Mgico
Gravadora Cartwright

 - Pense bem - digo para Patty. - Rachel conhece um cara, um cara superbonito que age como se gostasse dela de verdade, e talvez haja uma parte dele que goste mesmo... 
 -  - ela concorda, cheia de sarcasmo. - A parte que fica dentro da cueca. 
 - Tanto faz. Esse cara  o primeiro cara que ela conhece que se interessa por ela, isso sem contar que preenche todas as qualificaes dela para um namorado. Voc 
sabe, ele  gostoso,  rico,  htero. Certo, talvez seja um tanto vagabundo - ergo o copo de suco de laranja ao lado da minha cama e dou um gole - , vivendo da 
herana que recebeu ou algo assim. Mas, tirando isso...  - Espere a um pouco - Patty se vira para dizer. - Largue j isso - para o filho dela. Um segundo depois, 
j est de volta. 
 - Certo - ela diz. - Onde estvamos? 
 - Rachel - digo. 
 - Ah, certo. Ento, esse tal de Christopher. Ele  mesmo to gostoso assim? 
 - Ele  gostoso. Alm do mais,  universitrio - digo a ela. - No  permitido ir para a cama com alunos, portanto ele  um fruto proibido, alm de tudo. Ela comea 
a ter um monte de fantasias... quer dizer, e por que no? Ela j chegou aos trinta. E  uma moa moderna do sculo XXI, ela quer tudo: carreira, casamento, filhos... 
 - Uma licena para matar. 
 - O que mais voc quiser. Ento, bem na hora que est arrumando a diligncia para partir, o bom e velho caubi Chris resolve sair cavalgando em direo ao pr-do-sol 
sozinho. 
 - Espere a, Heather - Patty diz.
Para o filho dela, fala:
- Indy! Eu disse no! Indy... 
Seguro o fone na orelha enquanto Patty grita com o filho. De certo modo  gostoso estar acomodada em minha cama, sem nem pensar em assassinato para variar, Enquanto 
todas as outras pessoas esto ocupadssimas, fazendo alguma coisa a esse respeito. Eu quis ir com Cooper e Chris falar com o investigador Canavan. Mesmo. Eu tinha 
dito a ele na noite passada, quando subi a escada at o meu apartamento aos tropees e ca na cama, para me acordar antes de sair pela manh. 
Mas acho que o choque de tantos acontecimentos no dia anterior (a exploso, a visita ao hospital, a viagem de ida e volta a Long Island) finalmente se abateu sobe 
mim, porque quando ele bateu na porta de meu quarto para ver se eu estava acordada, eu gritei para ele ir embora.
No que eu me lembre de ter feito isso, quer dizer. Eu nunca teria sido to grossa se estivesse consciente. Cooper deixou um bilhete explicando a situao que acabava 
com as seguintes frases: No v trabalhar hoje. Fique em casa e descanse. Eu ligo mais tarde.
E, tudo bem, ele no assinou Com amor, Cooper. S Cooper. Mas mesmo assim. Ele tem de, pelo menos, me respeitar mais agora. Agora que descobriu que eu no estava 
inventando tudo. A respeito de como algum estava tentando me matar e tudo o mais. Ora, ele deve estar pensando que eu devo ser mesmo uma parceira fantstica com 
quem investigar coisas.
E quem pode ser aonde isto vai levar? Quer dizer, por acaso o prximo passo racional para ele no seria se apaixonar perdidamente por mim? Ento,  verdade. Estou 
de bom humor. L fora chove a cntaros, mas no ligo. Aconchego-me na cama e assisto desenhos animados com Lucy ao meu lado. Talvez seja s porque cheguei muito 
perto de perd-la, mas a vida me parece muito, muito boa mesmo. E  o que digo para Patty, toda animada. Ela parece muito impressionada com minha teoria, segundo 
a qual o investigador Canavan, depois de ouvir o que Chris tem a dizer, vai direto para o conjunto Fischer com um mandado de priso na mo.
- Voltei - Patty diz. - Onde estvamos?
- Rachel. De repente, ela se v segurando as rdeas da diligncia sozinha - digo. - Ento, o que uma garota moderna do sculo XXI como Rachel faz?
- Ah, espere, espere, deixe eu tentar adivinhar - Patty diz, toda animada. - Ela junta uma... como  que chama mesmo? Ah, j sei. Fora civil?
- Ela se livra da concorrncia - corrijo. - Porque, na mente distorcida de Rachel, ela acha que, se matar as namoradas de Chris, ele vai voltar para ela por eliminao. 
Sabe como , se no sobrar nenhuma garota, ele no vai ter outro opo alm de voltar com ela.
- Uau. - Patty parece impressionada. - Ento, como  que ela est fazendo?
- Como assim, como  que ela est fazendo? Ela est empurrando as meninas no poo do elevador.
- , mas como, Heather? Como  que uma vaca magricela igual  Rachel pode conseguir empurrar mulheres adultas, que com certeza no querem morrer, em um poo de elevador? 
Quer dizer, no consigo nem enfiar a porcaria do chihuahua da minha irm na caixa dele, e ele  s um cachorrinho minsculo. Voc faz alguma idia de como deve ser 
difcil empurrar algum que no quer morrer por um poo de elevador? Primeiro, precisa abrir as portas. O que as meninas ficariam fazendo enquanto ela faz isso? 
Por que no tentam se livrar dela? Porque Rachel no tem arranhes no rosto nem nos braos? A porcaria de cachorro minha irm me arranha com fora quando eu tento 
enfi-lo dentro da caixa Sherpa de transporte. Penso em meus anos de aprendizado televisivo.
- Clorofrmio - digo com toda a simplicidade. - Ela deve estar usando clorofrmio.
- Mas o legista no teria encontrado vestgios disso?
Uau. Ela  boa. Principalmente para algum que alega no ter tempo de assistir a CSI.
- Certo, certo - eu digo. - Talvez ela d uma porrada na cabea delas com um taco de beisebol e as jogue para dentro do poo enquanto ainda esto inconscientes.
- E o legista no teria reparado nisso?
- Elas tinham acabado de cair 16 andares - digo. - Que diferena faz mais um galo?
Bip.
Toca o sinal de chamada em espera.
- Ah, deve ser Cooper, Pats - digo. - Olhe, eu ligo para voc mais tarde. Quer sair amanh para um brunch de comemorao? Quer dizer, depois de colocarem minha chefe 
na cadeia?
- Claro. Pode deixar que eu levo os sinos. - Patty desliga. Aperto o boto e ento digo:
- Al? - depois que ouo o clique da linha. Mas no  a voz de Cooper que eu ouo.  uma voz de mulher. E parece que a pessoa est chorando.
- Heather?
Demoro um segundo, mas logo percebo quem .
- Sarah? - Digo. -  voc?
- S-sou eu - Sarah funga.
- Est tudo bem? - Sento ereta na cama. - Sarah, o que aconteceu?
- ...  a Rachel - ela diz.
Uau. Ser que a polcia j foi l prend-la? Sei que vai ser um duro golpe para os funcionrios do prdio: primeiro Justine se revela uma ladra de aquecedores de 
cermica, e agora Rachel se revela uma assassina manaca.Mas eles vo superar. Talvez eu leve rosquinhas Krispy Kreme para todo mundo amanh.
- Sim? - digo. Porque no quero entregar que tive alguma coisa a ver com a priso. Por enquanto, pelo menos. - O que tem a Rachel?
- Ela... ela est morta.
Eu quase derrubo o telefone.
- O qu? - Grito. - Rachel? Morta? O qu...
No d para acreditar. No  possvel. Rachel? Morta? Como diabos...
- Acho que ela se matou - Sarah diz com um soluo. - Heather, eu acabei de entrar na sala, e ela... elas est pendurada l. Naquela grade entre a sua sala e a dela.Ai, 
meu Deus.
Rachel se enforcou. Rachel percebeu que o joguinho tinha terminado mas, em vez de se entregar em silncio, ela se matou. Ai, meu Deus.Preciso manter a calma. Pelo 
bem do prdio, percebo. Preciso tomar a frente de tudo agora. A diretora morreu. Eu vou ter de ser forte. Vou ter de servir de iluminao para todo mundo durante 
os tempos sombrios que esto por vir. E, tudo bem, porque estou totalmente preparada para isto. No vai ser diferente, mesmo, do que seria se Rachel fosse levada 
para a priso. Ela s foi para outro lugar. Mas foi embora da mesma maneira.
- No sei o que fazer - Sarah diz, a voz dela subindo para um tom histrico. - Se algum entrar aqui e vir isto...
- No deixe ningum entrar - berro. Ai, meu Deus. Os ARs. Esta  a ltima coisa de que eles precisam. - Sarah, no deixe ningum entrar a. E no encoste em nada. 
- No  isso mesmo? No  o que sempre dizem em Lei & Ordem? - Chame uma ambulncia. Chame a polcia. Agora mesmo. No deixe ningum entrar na sala alm da polcia. 
Certo, Sarah?
- Certo - Sarah responde, com outra fungada. - Mas, Heather?
- Pois no?
- Ser que voc pode vir para c? Estou com tanto... medo...
Mas eu j pulei da cama e estou procurando minha cala jeans.
- J estou chegando - digo a ela. - Agente firme, Sarah. Chego rapidinho.

29
Tem um lugar que se chama lar
Foi o que me disseram
Nunca estive neste lugar
Como poderia saber?
Tem um lugar que se chama lar
Onde todo mundo fica feliz em te ver
Onde todo mundo igual a voc quer ser
Este lugar se chama lar

Mas eu no tenho como saber
Porque nunca tive um para mim
Como poderia saber?

Heather Wells, "Um lugar chamado lar"

A culpa  minha.
Estou falando da morte de Rachel.
Eu j devia saber. Eu j devia saber que isso aconteceria. Quer dizer, est bem claro que ela no tinha estabilidade mental.  bvio que, frente  menor das provocaes, 
ela iria explodir. No sei como foi que ela descobriu (que eu suspeitava dela), mas descobriu. E escolheu a nica sada que julgou possvel.Bom, agora eu no posso 
fazer nada. Nada a no ser servir de apoio para as pessoas que sero mais afetadas pela morte de Rachel: os funcionrios do prdio.Ligo para o celular de Cooper. 
Ele no atende, ento deixo um recado, dizendo o que Sarah tinha me contado. Peo que avise ao investigador Canavan. E ento digo que v ao conjunto Fischer assim 
que receber o recado.
Claro que no consigo achar um guarda-chuva. Nunca acho um guarda-chuva quando preciso de um. Abaixo a cabea contra o chuvisco contnuo e corro at Washington Squere 
West, maravilhada com a maneira como todos os traficantes desaparecem frente ao clima desfavorvel, e imaginando onde eles se enfiaram. Na lanchonete Washington 
Square Diner? Um dia destes vou ter de ir l conferir. Parece que eles servem um fil de frango grelhado de arrasar.
Chego ao conjunto Fischer e entro correndo, tirando a gua da chuva do cabelo e sorrindo sem graa para Pete. Ser que ele j sabe? Ser que ele faz idia?
- Heather - ele exclama. - O que voc est fazendo aqui? Depois do que aconteceu ontem, eu achei que iam dar um ms de frias para voc. Voc no est trabalhando, 
est?
- No - respondo. Ele no sabe. Ai, meu Deus, ele no sabe.
No posso contar para ele. Porque a recepcionista est sentada logo ali, olhando para ns.
- Ah - ele diz. - E, alis, Julio est bem. Vo dar alta para ele daqui a alguns dias.
- Que maravilha - digo, com o mximo de entusiasmo que consigo. - Bom, a gente se fala mais tarde.
- A gente se fala.
Chego ao fundo do corredor apressada, paro na porta da sala da diretora. Para minha surpresa, est meio aberta, apesar de eu ter deixado bem claro para Sarah que 
era pra fechar. Qualquer pessoas pode entrar e ver Rachel pendurada... a menos que ela tenha feito o servio do lado dela da grade. , acho que, na verdade, faz 
mais sentido. A mesa dela fica encostada na parede por baixo da grade, portanto seria mais fcil subir ali e depois pular...
- Sarah? - digo. Empurro a porta e abro completamente. Nenhum sinal de Rachel. 
A sala da frente est vazia. Sarah (e o corpo) devem estar na sala de Rachel.
- Sarah? Voc est a?
- Estou aqui - ela diz com voz trmula.
Dou uma olhada na grade. No tem nada amarrado nela. Sarah deve ter cortado. Por mais horrvel que possa ter sido encontr-la l daquele jeito, ela no devia ter 
mexido no corpo. Isso  adulterar as provas. Ou algo assim.
- Sarah - eu digo, correndo para a sala de Rachel. - Eu disse para voc que no era...
Minha voz some. Isso porque no sou recebida pela viso de Sarah chorando, segurando nos braos o corpo sem vida de Rachel. Em vez disso, sou recebida pela viso 
de uma Rachel em sua mais perfeita sade (usando um twin set de cashmere novo muito bonito e calas cor de carvo), encostada em sua mesa e equilibrando um p calado 
de bota em sua cadeira...
... na qual Sarah est amarrada com o fio do telefone e alguns cabos de computador.
- Ah, oi, Heather - ela diz, toda animada. - Voc veio rpido.
- Heather - Sarah est soluando tanto que os culos dela esto embaados. -  Desculpa mesmo. Ela me obrigou a ligar para voc...
- Cala a boca. - Rachel, aborrecida, d um tapa em Sarah bem forte, no rosto. O som da pancada me faz dar um salto. E tambm me acorda.Uma armadilha. Acabo de cair 
em uma armadilha. Automaticamente, me viro para a porta...
- Pare ou mato Sarah. - A voz de Rachel soa fria na sala. Nem os lrios de Monet conseguem suavizar a situao.
Fico paralisada no lugar em que estou. Rachel passa por mim quase me esbarrando,vai at a porta e a fecha completamente.
- Pronto - ela diz, quando a tranca faz o barulho de estar fechada. - Agora est melhor. Agora podemos desfrutar de certa privacidade.
Fico olhando para ela, segurando firme a ala de minha mochila, apesar dos pontos. Talvez, penso, talvez eu possa acert-la com ela. Com minha mochila, quer dizer. 
S que no tem nada pesado dentro dela. S uma escova, minha carteira e alguma batom. Ah, e um chocolate Kit Kat, para o caso de eu ficar com fome mais tarde.Como 
 que ela ficou sabendo? Ser que ela sabe que estamos na pista dela?
- Rachel - digo. Minha voz soa estranha. Percebo que  porque minha garganta ficou seca. De repente, comeo a passar mal. Meu dedos ficam gelados, e os cortes em 
minha mos latejam. Ento eu me lembro.
Tem uma latinha de spray de pimenta em minha mochila. Tem vrios anos e o bico est todo entupido com areia de uma viagem  praia. Ser que ainda funciona?Fique 
calma, digo a mim mesma. O que Cooper faria se ficasse cara a cara com um assassino? Ele ficaria calmo.
- Uau - digo, tentando parecer calma, igual a Cooper. - Que histria  esta, Rachel?  algum tipo de brincadeira de confiana ou algo assim? Porque, se voc no 
se importa que eu diga, Sarah no parece estar se divertindo muito.
- Chega de papo furado, Heather - ela fala com voz dura. Nunca a ouvi usar este tom, nem mesmo com os jogadores de basquete. Sua voz faz com que eu sinta mais frio 
do que nunca. - Aquele seu papel de loira burra pode funcionar muito bem com todas as pessoas que voc conhece, mas nunca deu certo comigo. Eu sei exatamente o que 
voc , pode acreditar, a palavrinha que eu uso para descrever voc no  burra. - Os olhos dela recaem sobre mim cheios de desprezo. - Pelo menos, at pouco tempo 
atrs, no era.
Ela sempre tem razo. No d para acreditar que ca naquele telefonema. Mesmo assim, as lgrimas de Sarah eram mesmo de verdade... s que no pela razo que ela 
disse.
- Voc tambm precisa saber - Rachel diz, calmamente - que eu j sei tudo que aconteceu ontem  noite.
Tento fingir que no sei do que ela est falando, apesar de saber, sim.
- A noite passada? Rachel, eu...
- A noite passada - ela diz, divertida. - O seu passeiozinho at os Hamptons. No tente negar. Eu estava l. Eu vi voc.
- Voc... voc estava l?
No tenho a menor idia sobre o que fazer. Cada nervo de meu corpo grita: D meia-volta e saia correndo! Mas, por algum motivo, estou presa ao cho, com os dedos 
apertado forte a ala da mochila. Fico pensando em Sarah. E se eu sair correndo? O que ela vai fazer com a coitada da Sarah?
- Claro que eu estava - Rachel diz com a voz destilando desdm. - Voc acha que no fico de olho em minha propriedade? Por que voc acha que no me desfiz do meu 
Jetta? Ningum precisa de carro nesta cidade... a menos que v seguir algum at os Hamptons.
Meu Deus. Eu tinha me esquecido completamente do carro idiota dela, que ela estaciona em uma garagem na West Side Highway.
Eu digo, com a voz baixa, para Rachel no perceber que est trmula.
- Certo. Ento, eu fui at l. Ento, eu sei sobre voc e Chris. E da? Rachel, eu estou do seu lado. Eu entendo totalmente sua posio. Eu tambm fui rejeitada 
por homens. Por que a gente no conversa sobre isso...
Rachel sacode a cabea. A expresso dela est incrdula, como se eu, e no ela, fosse a louca ali.
- Ningum vai conversar sobre isto - ela diz, com um cacarejo de risada. - A hora de conversar terminou. E vamos deixar uma coisa bem clara aqui, Heather.Rachel 
descruza os braos e coloca a mo direita em um calombo por baixo do cardig e que eu no tinha reparado antes.
- Eu sou a diretora - ela prossegue. - Sou eu a responsvel. Eu resolvo se a gente vai ou no falar sobre isto, porque sou eu quem marca as reunies. Assim como 
eu marquei a reunio com Elizabeth e com Roberta. Assim como eu ainda vou marcar a reunio com Amber, mais tarde. Assim como eu marquei esta reunio, agora, entre 
mim e voc. Eu sou a responsvel. Voc quer saber o que me qualifica para ser a responsvel, Heather?
Assinto em silncio, com os olhos pregados ao colombro por baixo do suter dela.  Acho que  um revlver. Um revlver com toda a certeza qualificaria Rachel para 
ser a responsvel. Mas no  um revlver coisa nenhuma. Quando Rachel pega o objeto, s vejo uma coisa de plstico preto que se encaixa perfeitamente  mo dela. 
H duas pontas de metal horrveis se projetando da parte de cima, dando-lhe uma aparncia que lembra a cabea de uma barata. No fao a menos idia do que seja at 
ela acionar um interruptor com o polegar, e de repente uma fina linha azul de eletricidade zune entre os dois pinos de metal gmeos.
Ento eu j sei, mesmo antes de ela falar.
- Heather, apresento-lhe a pistola de raios - ela fala com orgulho, do mesmo jeito que alguns pais tinham falado no primeiro dia de recepo dos alunos, quando apresentaram 
o filho ou a filha deles para mim. - Um segundo de contato com os 120 mil volts que a cabea da pistola de raios produz  capaz de causar fraqueza, desorientao 
e perda de equilbrio e do controle dos msculos durante vrios minutos. E a melhor parte  que, se usada por cima da roupa, a pistola de raios s deixa uma marquinha 
de queimadura na pele.  uma arma repelente fabulosa, e pode ser comprada por meio de diversos catlogos aqui nos Estados Unidos. Ah, a minha s custou 45 dlares 
e 95 centavos, sem incluir a bateria de nove volts. Claro que a lei probe ter uma destas aqui em Nova York. Mas, bom, quem se importa?
Olho fixamente para a linha crepitante de fogo.
Ento, foi assim que ela fez. Nada de clorofrmio, nada de porradas na cabea com um taco de beisebol. Ela simplesmente apareceu na porta de Beth, e depois na de 
Bobby, deu um choque nelas e jogou seus corpos inertes pelo poo do elevador. O que poderia ser mais simples?
E o investigador Canavan tinha dito que assassinos so burros. Rachel no  burra. Que tipo de idiota teria tanto conhecimento para cometer este tipo de crime? E 
como tanto jovens se matam fazendo coisas idiotas como surfe de elevador, ningum jamais pensaria que as meninas foram assassinadas se no houvesse nenhuma desconfiana 
de crime relativo  morte delas.
Ningum alm de uma louca como eu desconfiaria.
No, Rachel no  burra. E tambm no  louca. Ela elaborou o plano perfeito para se livrar de suas rivais romnticas. Ningum jamais teria suspeitado de nada se 
no fosse eu e a minha boca grande. E se no tivesse sido a minha boca grande, Sarah e eu no estaramos prestes a ser terceira e a quarta vtimas de Rachel.
- Mas esta no  a nica coisa que me qualifica para ser a responsvel aqui, sabe -  Rachel me garante, fazendo um gesto vago com a pistola paralisante para enfatizar 
sua afirmao. - Eu tenho diploma de bacharel em engenharia qumica. Sabia disso, Heather?
Sacudo a cabea. Talvez um dos ARs pegue a chave da sala e abra para pegar a correspondncias. . Ou talvez Cooper receba o recado que deixei em seu celular...
-  impressionante o que d para fazer com um diploma de bacharel em engenharia qumica. D, por exemplo, para aprender a construir pequenos dispositivos incendirios... 
 to simples e to eficiente... Voc sabe o que  um dispositivo incendirio, Heather? No, acredito que no saiba. Afinal, voc estava ocupada demais balanando 
a bunda no shopping center mais prximo para terminar o ensino mdio, no estava? Deixe ver se voc sabe a resposta desta aqui: O que acontece quando se coloca um 
monte de loiras lado a lado, ombro a ombro?
Olho para Sarah. Ela continua soluando, mas est tentando no fazer barulho, para Rachel no dar outro tapa nela. Sacudo a cabea.
Rachel ri sem nenhum humor e diz:
- Um tnel de vento, Heather! Um tnel de vento!
- Nossa, uau, Rachel - eu digo, corrigindo minha idia anterior. Ela  louca com certeza. Maluca, at. - Que engraado. Mas sabe o qu? Preciso ir agora. Cooper 
est me esperando l na mesa da segurana. Se eu demorar muito ele vai vir aqui me procurar.
- Ele pode procurar o quanto quiser - ela diz, dando de ombros. - Ele no tem a chave. E a gente no vai deixar que ele entre. Estamos trabalhando, Heather. Temos 
muito trabalho importante a fazer.
- Bom, mas sabe o qu, Rachel? - Digo. - Se a gente no abrir a porta, ele simplesmente vai pedir para Pete chamar um AR para abrir a porta para ele.
- Mas os ARs no tm mais chave para entrar na sala. Mandei trocar a fechadura.
As bochechas de Rachel tm pontos gmeos de cor agora, e os olhos dela brilham igualzinho ao raio fino de eletricidade que salta dos pinos da arma que segura na 
mo.
-  isso a - ela diz, toda contente. - Eu mandei trocar a fechadura ontem, enquanto voc estava no hospital, e s eu tenho a chave. - Ento ela vira aqueles olhos 
brilhantes demais em minha direo e diz: - Vocs est entendendo, no est, Heather? Quer dizer, isto aqui no  carreira para voc.  s um emprego. Diretora-assistente 
do conjunto Fischer.  s um ponto de parada entre os shows, no ? Um salrio fixo at voc ter coragem de voltar para a estrada depois de sua briguinha com a gravadora. 
Isso  tudo que este cargo representa para voc. No  o meu caso. A educao superior  minha vida. Minha vida, Heather. Ou, pelo menos, era. At...
Ela pra de falar de repente, o olhar dela, que estava um tanto vago, prende-se a mim como se fosse um torno.
- At ele - ela diz, com toda simplicidade.
Quero me sentar. Meu joelhos tremem cada vez que olho para a arma na mo dela. Mas no ouso. Sentada, viro alvo ainda mais fcil. No, de alguma maneira eu preciso 
distra-la do que ela tem em mente para mim e para Sarah (e fao uma boa idia do que deve ser).
- Ele, Rachel? - pergunto, tentando parecer simptica, como se estivssemos s conversando e tomando um caf no refeitrio, algo que de fato fizemos uma ou duas 
vezes antes de os assassinatos comearem. - Voc est falando de Christopher, no est?
Ele d uma risada amarga, e a risada me deixa com mais medo do que nunca; nem a pistola paralisante tivera tal efeito.
- Christopher - ela diz, rolando a palavra na lngua como se fosse um pedao de chocolate (algo que ela nunca se permitiu saborear. Engordativo demais). - . Chris. 
Voc no tem como entender o negcio com Christopher, Heather. Sabe, eu o amo. Voc nunca amou ningum antes, Heather, a no ser voc mesma. Portanto, no pode saber 
como . No, voc no tem como saber como a gente se sente quando toda a felicidade da vida da gente depende de um nico indivduo e ento... e ento esse individuo 
muda de idia e rejeita a gente...
O olhar que ela lana para mim poderia ter congelado um bagel quente com manteiga. Penso em comentar que sei exatamente do que ela est falando... que era assim 
que eu me sentia em relao a Jordan, que neste exato momento deve estar fazendo palavras-cruzadas com Tania Trace em seu leito de hospital.Mas, por algum motivo, 
fico achando que ela no iria escutar.
- No, voc no entenderia - ela diz. - Voc sempre teve tudo que quis, no  mesmo, Heather? Tudo entregue em uma bandeja de prata. Algumas de ns precisamos trabalhar 
pelo que queremos, sabia? Veja o meu caso, por exemplo. Voc acha que eu sempre fui assim bonita? - Rachel passa a mo para cima e para baixo da barriga durinha 
de mil abdominais por dia. - Com o diabo, no. Eu costumava ser gorda. Era a maior balofa. Meio parecida com voc agora, para falar a verdade. Usava tamanho 42. 
- Ela d risada. - Eu afogava minhas mgoas em doces, nunca fazia ginstica, igual a voc. Sabe que nunca me convidaram para sair... nunca, nenhuma vez, at eu fazer 
30 anos? Enquanto voc desfilava igual a uma putinha para a gravadora Cartwright, eu estava com o nariz enfiado nos livros, estudando o mximo que podia, porque 
sabia que ningum ia me oferecer um contrato com uma gravadora. Eu sabia que, se quisesse sair do buraco dos infernos que era minha vida, eu ia ter que usar a cabea.
Dou uma olhada em Sarah. Ela est olhando atravs da janela, torcendo desesperadamente, d para ver, que algum passe e perceba o que est acontecendo ali dentro.
Mas est chovendo tanto que no tem ningum na rua. E as poucas pessoas que saram passam correndo com a cabea enfiada embaixo do guarda-chuva.
- Foi a mesma coisa com ele - Rachel diz. - Eu queria aquele homem, ento fiz o que foi preciso para conseguir ficar com ele. Eu sabia que no era o tipo dele. Cheguei 
a essa concluso depois que... ele me largou. E foi quando eu entendi. Eu entendi que precisava mudar para ser o tipo dele. Mas  claro que voc no pode entender 
isto. Voc e Sarah, vocs acham que os homens vo querer vocs por causa da personalidade, no acham? Mas os homens no esto nem a para a personalidade. Pode acreditar. 
Se voc no tivesse ficado to relaxado quanto ficou, Heather, voc ainda estaria com Jordan Cartwright, sabe? Toda aquela confuso de querer cantar suas prprias 
msicas. Meu Deus, voc acha que ele se importava com isso? Os homens no ligam para a inteligncia. Afinal de contas, qual  a diferena entre uma loira e um mosquito?
Sacudo a cabea.
- Juro por Deus, Rachel, eu no...
- Uma loira continua chupando, mesmo depois que voc d um tapa nela. - Rachel joga a cabea para trs e d mais um pouco de risada.
Ah, sim. Vou morrer. No resta a menor dvida.

30
Quando vai ser a minha vez
De voar sem que minhas
Asas se queimem?
Quando vai ser a minha vez
De as pessoas pararem de sacudir a cabea
dizendo "Ela nunca vai aprender"?
Quando vai ser a minha vez
De ser chamada de esperta e forte
E no de burra e errada?

Quando vai ser a minha vez
De olhar para voc e ouvir
Ouvir voc dizer
 a sua vez
 a sua vez
 a sua vez

Heather Wells, "A minha vez"

Ela  louca. Quer dizer, apesar uma luntica ficaria ali parada, contando piadas idiotas sobre loiras enquanto me ameaa com uma pistola paralisante.J lidei com 
lunticos antes. Afinal de contas, trabalhei muitos anos na indstria da
msica. Nova entre dez pessoas com quem lidei naquela poca provavelmente eram caso para 
tratamento clnico, incluindo minha prpria me.
Ser que consigo convencer Rachel a no me matar? Bom, posso tentar.
- Para mim, parece - digo com muito cuidado - que a pessoa com quem voc devia estar brava  o Christopher Allington. Foi ele que prejudicou voc, Rachel. Foi ele 
que traiu voc. Como  que voc nunca o atacou?
- Porque ele  o meu futuro marido, Heather - ela olhou com dio para mim. - Meu Deus, ser que voc no entende? Eu sei que voc acha que os homens so descartveis. 
Quer dizer, as coisas no deram certo com Jordan, ento voc simplesmente foi morar com o irmo dele. Mas, diferentemente de voc, eu acredito no amor verdadeiro. 
E  isso que existe entre mim e Christopher. Eu s preciso me livrar de algumas distraes, e a ele vai se dar conta disto.
- Rachel - eu digo, tentando atingir qualquer coisa que ainda exista de normal dentro dela. - Essas distraes, So seres humanos.
- Bom, no  minha culpa as coitadinhas terem ficado to arrasadas quando Christopher deu o fora nelas que foram fazer algo to imprudente quanto surfe de elevador. 
Eu fiz tudo o que pude para aconselh-las. E voc tambm, Heather. Mas ningum vai ficar muito surpreso de ver que voc escolheu acabar com a prpria vida. Afinal 
de contas, voc no tem assim muitas perspectivas.
A linha de raciocnio dela  to distorcida que no consigo seguir muito bem. Mas agora que ela deixou claro que sou a prxima vtima, tenho de comear a falar bem 
rapidinho, no tenho outra sada.
- Mas, Rachel, no vai dar certo de jeito nenhum. Eu j falei com a polcia...
- E eles acreditaram em voc? - ela pergunta com toda a calma. - Quando encontrarem seu corpo despedaado e ensangentado, simplesmente vo saber que voc fez isto 
s para chamar ateno: plantou aquela bomba e depois se matou quando percebeu que tinha sido descoberta. E nem vai ser to difcil entender, porque ultimamente 
a sua vida se transformou em um espiral descendente. Jordan ficou noivo daquela outra moa. O irmo dele... bom, o irmo dele simplesmente parece no estar interessado, 
no  mesmo, Heather? E tanto voc quanto eu sabemos o quanto voc est apaixonada por ele. Fica escrito em sua cara cada vez que ele aparece.
Ser que  verdade? Ser que todo mundo sabe que amo Cooper? Ser que Cooper sabe que eu amo Cooper? Meu Deus, que vergonha. Espera a. Alis, por que eu estou dando 
ateno a esta luntica?
- Muito bem, Rachel - digo, entrando na dela porque esta me parece ser a nica sada. - Tudo bem. Pode me matar. Mas e Sarah? Quer dizer, o que a coitada da Sarah 
fez para voc? Por que voc no a solta?
- Sarah? - Rachel d uma olhada para a assistente de ps-graduao dela como se estivesse acabado de se lembrar que ainda estava na sala. - Ah, certo. Sarah. Sabe, 
acho que vai simplesmente... desaparecer.
Sarah solta um soluo amedrontado, mas um olhar gelado de Rachel a silencia.-  - Rachel diz. Acho que Sarah vai visitar os pais dela durante algumas semanas para 
se recuperar do pavor de sua morte, Heather. S que ela no vai chegar l. Vai desaparecer em algum ponto no meio do caminho. Ei, este tipo de coisa acontece.
- Ah, no, Rachel, por favor - Sarah engasga. - Por favor, no me faa desaparecer. Por favor...
- Cala a boca - Rachel berra. Ergue a mo para bater em Sarah de novo, mas fica paralisada quando o telefone de minha mesa toca, com uma campainha to alta que faz 
Rachel se sobressaltar, e o filete azul de eletricidade entre as lminas da pistola chega perigosamente perto de mim. Dou um pulo para trs, caio contra a porta 
e me viro para pegar na maaneta. Em uma frao de segundo Rachel j est em cima de mim, com uma chave de brao em meu pescoo, me sufocando. Ela  surpreendente 
forte para uma mulher to magra. Mas, mesmo assim, eu teria conseguido me livrar dela...
...teria conseguido se no fosse a pistola paralisante que crepita em sua mo, que ela coloca embaixo de meu nariz, falando por entre os dentes:
- Nem tente. Nem pense nisto. Eu vou queimar voc, Heather, juro que vou. E da eu mato as duas.
Fico paralisada, respirando com dificuldade. Rachel est colada s minhas costas como se fosse uma capa. O telefone continua tocando, trs vezes, quatro. Pelo toque, 
d para ver que  uma ligao interna. Sussurro, com a voz rouca de medo:
- Rachel, deve ser da recepo. Voc sabe que disse para Cooper me esperar l fora. Ele est na mesa da segurana.
- Neste caso - ela diz, aliviando o aperto em meu pescoo, mas mantendo a pistola paralisante a centmetros dele -, ns vamos andando. Cuido de voc - lana um olhar 
de advertncia na direo de Sarah - mais tarde.
Ento ela abre a porta da sala, d uma olhada sorrateira para a esquerda e para a direita para checar se o corredor est vazio e me empurra para fora...
...mas me mantm ao alcance da pistola. Ela me dirige aos elevadores na frente de nossa sala (os elevadores que, infelizmente para mim, no foram afetados pela exploso 
de ontem no poo do elevador de servio) e aperta com fora o boto de chamada para subir. Rezo pra que as portas se abram e o time inteiro de basquete surja e cuide 
de Rachel para mim.
- Entre - ela ordena, e fao o que ela diz. Rachel vem atrs, ento insere a chave de controle para o elevador no parar e aperta o vinte.
Vamos para a cobertura. E no vai ter mais parada alguma pelo caminho.
- Mulheres como voc - ela diz, sem olhar para mim. - Eu lido com mulheres como voc a vida toda. As bonitinhas so todas iguais. Vocs passam pela vida achando 
que todo mundo deve alguma coisa a vocs. Conseguem contratos com as gravadoras e as promoes e os caras bonitos. Mas, gente como eu? A gente  que faz todo o trabalho. 
Voc sabe que aquele Amor-Perfeito foi o primeiro prmio que recebi em minha rea?
Fico olhando para ela com dio. Esta mulher vai me matar. No vejo mais razo para ser educada com ela.
-  - eu respondo. - E voc ainda ganhou o prmio por ter limpado o terreno depois de seus prprio assassinatos. Aquelas coisas nas fichas das meninas... falando
que a me de Elizabeth queria controlar quem ela recebia no quarto, e o fato de a Sra. Pace no gostar de Lakeisha... nada disso aconteceu, no  mesmo? Aquelas
mulheres nunca ligaram para voc. Voc inventou tudo aquilo, para poder justificar suas reunies com aquelas meninas. Alis, sobre o que voc falava quando se reunia 
com elas? Que tipo de coisa doentia e pavorosa voc usava para deix-las aterrorizadas?
- Heather - Rachel olha para mim, com a expresso carregada de crtica. - Voc nunca vai entender, no  mesmo? Eu trabalhei pesado a vida toda para ter o que tenho. 
Eu nunca consegui nada fcil, como voc. Nada: homens, empregos, amigos. O que eu consigo, eu guardo. Como Christopher, por exemplo. E este emprego. Voc sabe como 
foi difcil conseguir um posto nesta faculdade, no mesmo prdio que ele? Ento, voc compreende por que vai morrer. Se no tivesse comeado a xeretar, eu deixaria 
voc viver. Sempre achei que voc e eu formvamos uma boa equipe. Quer dizer, quando fico ao seu lado, pareo ainda mais magra. Esta  uma caracterstica muito importante 
para uma assistente.
A campainha do elevador toca e as portas se abrem. Estamos no hall de entrada da cobertura do reitor. No minuto em que pisamos no tapete cinza, sei que o detector 
de movimento vai disparar l embaixo, na mesa da segurana. Ser que Pete vai dar uma olhada o monitor e ver Rachel com a pistola paralisante?
Por favor, Pete, olhe. Tento usar o controle de mente vulcano com Pete, apesar de ele estar vinte andares abaixo. Olhe, Pete, olhe. Olhe, Pete, olhe...
Rachel me empurra para o corredor.
- Siga em frente - ela diz e pega a chave mestra do prdio. - Aposto que voc sempre quis ver onde o reitor mora. Agora  a sua chance. Pena que voc no vai viver 
o bastante para aproveitar.
Ela destranca a porta da frente do apartamento dos Allington e me dirige at o vestbulo. Com cho quadriculado em preto-e-branco,  este o lugar onde a Sra. Allington 
ficou parada me acusando de correr atrs do filho dela igual a uma vagabunda. O vestbulo se abre para uma sala espaosa, com duas paredes inteiras de portas envidraadas 
que do para o terrao da cobertura. Assim como na Villa d'Allington, o tema predominante da decorao parece ser couro preto, e muito. Parece que a sra. Allington 
no  bem a Martha Stewart. Bom, eu j imaginava isso.
- Legal, no ? - ela diz, como quem est batendo um papo. - Tirando esses pssaros detestveis.
Logo na sada do vestbulo, naquela gaiola de vime de quase dois metros de altura, as cacatuas assobiam e danam, olhando para ns, desconfiadas. Rachel vira a pistola 
paralisante para elas e ri quando ela gritam ao ver a chama azul crepitante.
- Pssaros idiotas - ela diz. Ento agarra meu brao e comea a me puxar na direo de uma das portas envidraadas que d para o terrao. - Vamos - ela diz. - Est 
na ora do seu grand finale. Imagino que uma estrela como voc deva mesmo ter uma despedida dramtica. Por isso, no vai tomar a rota do surfe de elevador. Voc vai 
pular do telhado do conjunto Fischer... meio parecido com aquela tartaruga, naquele filme de que sua amiga psictica do refeitrio vive falando. S que voc, infelizmente, 
no vai ser salva pela corda que sai de dentro de sua carapaa.
Antes que eu tenha oportunidade de reagir, uma porta se abre do outro lado da sala e a Sra. Allington, usando um conjunto de moletom cor-de-rosa, fica olhando para 
ns.
- Mas que diabos - ela quer saber - vocs duas esto fazendo aqui?
Rachel sorri, toda simptica:
- No ligue para ns, Eleonor - cantarola. - No vamos nos demorar.
- Como foi que vocs entraram aqui? - A Sra. Allington comea a caminhar em nossa direo, parecendo furiosa. - Saiam neste instante, se no vou chamar a polcia.- 
Gostaria que fosse possvel, Eleonor - Rachel diz para a mulher que, em um outro mundo, poderia ser a sogra dela. - Mas estamos aqui para tratar de um assunto oficial 
do conjunto residencial.
- Eu no quero nem saber o que vocs esto fazendo aqui. - A Sra. Allington estica o brao para um telefone pendurado na parede. Agora est erguendo o fone. - Voc 
no sabe quem  o meu marido?
- Cuidado, Sra. Allington - eu grito.
Mas j  tarde demais. Como uma cobra dando o bote, Rachel a atinge com a pistola paralisante.
A Sra. Allington fica com o corpo duro, seus olhos se arregalam, como se tivesse acabado de receber notcias pssimas... talvez os resultados do filho no LSAT ou 
qualquer coisa do gnero. Ento parece que ela se joga na parte de trs de um dos sofs de couro, com movimentos espasmdicos, at se largar em um amontoado assoalho 
de madeira: os olhos sempre arregalados, os lbios brilhantes de saliva.
- Ai, meu Deus - grito. Porque, sem dvida, esta  a coisa mais horrvel que j vi... pior ainda do que aquilo que eu vi Tania Trace fazendo com meu namorado. - 
Rachel, voc matou a mulher!
- Ela no est morta - ela diz, com muito nojo na voz. - Quando ela recobrar a conscincia, no vai fazer a menor idia do que aconteceu. No vai se lembrar nem 
do sobrenome, quanto mais de mim. Mas isto no vai ser nenhuma novidade para ela. Vamos - ela diz, e pega em meu brao de novo.
Agora que presenciei em primeira mo o poder daquela pistola, no estou com pressa de experimentar para ver como . Percebo que fui burra por no tentar escapar 
no trreo. Claro que ela podia ter me atingido e depois me arrastado para dentro do elevador. Mas eu seria um peso morto, e ficaria difcil para ela. Assim  muito 
fcil para ela, e difcil para mim. O nico lugar para onde posso ir  para baixo.
Esta idia basta para que eu tente fazer alguma coisa. Puxo meu brao do agarro de Rachel e corro. No sei por qu, mas me dirijo para a porta da qual a Sra. Allington 
sara. No consigo correr rpido, porque estou dolorida devido ao que aconteceu ontem no elevador. Mas eu sei que a surpreendi, porque ela solta um grito furioso. 
A sensao de surpreend-la  boa, porque significa que ela no est no controle da situao.
S vejo os aposentos que atravesso de relance. Uma sala de jantar que parece no ver um jantar h muito tempo, com uma mesa comprida de mogno muito lustrada, com 
lugar para 12 pessoas, um aparador decorado com frutas falsas. Falsas! Da, uma cozinha imaculadamente limpa com azulejos azuis e brancos. Uma espcie de escritrio, 
mais uma vez com portas envidraadas em duas paredes e uma TV widescreen na frente de outro sof de couro, este aqui verde-abacate. Na TV passa um filme da Debbie 
Reynolds. A Flor do Pntano, acho. No sof, h uma cesta de tric e uma garrafa de vodca Absolut. A Sra. Allington leva a srio seus momentos de lazer.
Abro a nica porta do escritrio que no d para o terrao e me encontro com um quarto, um quarto escuro, com todas as cortinas fechada sobre as portas envidraadas. 
A cama  king size e est desfeita: os lenis cinzentos de seda formam uma pilha amarfanhada em uma ponta. Outra TV widescreen, desta vez ligada em um programa 
de entrevistas sem som. H um colcho preto no cho. O quarto de Chris? Mas Chris mora naquele alojamento da faculdade de direito. O que s pode significar que os 
Allington dormem em quarto separados. Que escndalo! No h mais portas,  exceo de uma, que d para o banheiro do reitor Allington. Estou encurralada.
D para ouvir Rachel se aproximando, batendo portas e barrando igual a uma harpia. Examino o quarto em um frenesi, e no acho nada. Devido  sanca com lmpadas no 
teto espelhado (vou refletir sobre este assunto mais tarde), no tem nem um abajur que eu possa tirar da tomada e usar para atingi-la na cabea. Penso em me esgueirar 
para baixo da cama ou me esconder atrs de uma daquelas cortinas cor de damasco, mas eu sei que ela me acharia. Ser que vou conseguir sair desta no papo? Eu j 
consegui escapar de situaes mais complicadas do que esta s com conversa. No consigo me lembrar de nenhuma especfica, mas tenho certeza de que isso j aconteceu.
Rachel entra com tudo no quarto, tropea na soleira e fica piscando para ajustar os olhos  falta de luz repentina. Estou parada do outro lado do cmodo, atrs da 
cama enorme, tentando no me distrair com meu reflexo no teto.
- Olha, Rachel - digo, ofegante, falando baixo e rpido. - Voc no precisa me matar. Nem a Sarah. Juro que no vamos contar nada disto para ningum. Vai ser o nosso 
segredinho. Eu entendo totalmente a situao. J aconteceu de uns caras me sacanearem. Quer dizer, com certeza no vale a pena ir para a cadeira por causa de Chris...
- Eu no vou para a cadeia, Heather - ela diz. - Eu vou organizar a missa em sua homenagem. E o meu casamento. Pode ter certeza de que vou tocar todos os seus sucessos 
nas duas cerimnias. Isso , se houver mais de um. Por acaso voc no foi do tipo fenmeno de um sucesso s? Que pena. Ser que algum vai aparecer em seu enterro? 
Afinal, voc j est ultrapassada aos... quantos anos voc tem mesmo? Vinte e cinco? Vinte e seis? No passa de uma estrela do pop que virou uma relaxada.
- Vinte e oito - respondo. - E, tudo bem. Pode me matar. Mas a Sarah, no. Pense bem, a Sarah, ela  s uma menina.
- Ah - Rachel sorri e sacode a cabea para mim. - No  uma gracinha? Voc est implorando pela vida de Sarah deste jeito... Apesar de, na verdade, eu saber o quanto 
ela incomoda voc. Sabe, este  o problema de mulheres como voc, Heahter. Voc  legal demais. Voc no tem instinto assassino. Quando as coisas ficam difceis, 
voc se rende. Voc nasceu com todas as vantagens, e simplesmente jogou tudo fora. Voc deixou seu corpo ficar largado, deixou seu namorado escapar, deixou sua carreira 
ir pelo cano. Caramba, voc at deixou sua me roubar todo o seu dinheiro. E, mesmo assim, voc continua sendo... to legal a respeito disso tudo. Quer dizer, voc 
e Jordan continuam amigos. Voc no suporta Sarah, e aqui est, implorando para que eu no a mate. Aposto que voc continua mandando um carto de Dia das Mes para 
a sua, no  mesmo?
Engulo em seco. E assinto com a cabea. Bom, o que mais eu posso dizer?
- Veja bem - Rachel diz. - Isto aqui  muito triste. Porque moas legais sempre terminam em ltimo lugar. Eu, na verdade, vou fazer um favor ao mundo por matar voc. 
No fundo,  s uma seleo natural. Uma loira a menos que vamos precisar ver no fundo do poo.
Ao dizer isto, investe contra mim, mergulhando por cima da cama, com a pistola paralisante esticada para frente.
Dou meia-volta e puxo as cortinas. Abro a primeira porta envidraada que alcano e me jogo para o terrao.

31
Acorda, olha em volta
Todo mundo est com os ps
No cho
No vou fazer o mesmo de jeito nenhum
Eu j te superei
No existe culpado

V se sai, sai da minha vida
No sou sua me
No vou ser sua mulher
Anda logo, sai pela porta
Voc no vai mais
Acabar com a minha vida
Tudo acabou
Deixe como est
Eu j te superei
V se fica longe de mim

Heather Wells, "Sai daqui"

Continua chovendo (para falar a verdade, mais forte do que nunca). O cu que me rodeia tem cor cinza-chumbo. Eu nunca tinha percebido, mas o conjunto Fischer  o 
prdio mais alto do lado oeste do parque, e o terrao da cobertura oferece vistas espetaculares de Manhattan nas quatro direes, o Empire State ao norte, que mal 
d para ver atravs da nvoa; o vazio coberto de neblina onde deveria estar o World Trade Center ao sul; o East e o West Village encharcados dos outros dois lados.Um 
lugar excelente, percebo, para fazer uma cena de um filme. As Tartarugas Ninja, talvez.
S que isto aqui no  fico.  vida real. A minha vida. Independentemente do tempo que ainda vai durar.
O vento no vigsimo andar  forte, e a chuva bate em meu rosto. No consigo me decidir ao certo para onde ir porque, para todos os lado que olho, s vejo jardineiras 
de gernios equilibradas de maneira precria em balaustradas de pedra baixas, e d para ver fcil como algum poderia empurrar uma delas l para baixo.
Sem saber para onde ir, abaixo a cabea e comeo a correr pela lateral do apartamento dos Allington, para ir para o outro lado do terrao. Como no vejo sinal de 
Rachel vindo atrs de mim, para abrir a mochila, que continua pendurada em meus ombros, e remexo l dentro para encontrar a latinha de spray de pimenta que poderia 
jurar que estava ali. No fao idia se o negcio ainda funciona mas, a esta altura, vale a pena tentar qualquer coisa que impea que eu v de encontro aos volts 
daquela pistola paralisante.
Encontro a latinha. Tiro a trava de segurana e ento ouo um estrondo ensurdecedor atrs de mim. Com uma chuva de farpas de madeira e estilhaos de vidro, Rachel 
atravessa uma porta envidraada (igual ao Cujo, aquele cachorro do filme de terror, ou a uma tartaruga ninja) sem nem se dar ao trabalho de abrir primeiro. Ela me 
acerta com toda fora com o corpo e ns duas camos sobre as lajotas molhadas.
Caio com tudo em cima de meu ombro machucado, o que, de fato, faz com que eu fique totalmente sem ar. Mas tento continuar rolando por cima das farpas e dos estilhaos, 
para me afastar dela.
Ela consegue se levantar antes de mim e vem vindo em minha direo a toda velocidade. Apesar de tudo, ela no largou a pistola.
Mas eu continuo segurando o spray de pimenta, que escondo dentro da mo fechada. Quando ela se debrua por cima de mim, com o cabelo j colado no rosto por causa 
da chuva e os lbios contorcidos, ela rosna, bem parecida com Lucy quando algum tenta arrancar da boca dela um catlogo da Victoria's Secret ou uma bola de tnis.
- Voc  to fraca - ela diz para mim, desdenhosa, e agita a pistola paralisante embaixo do meu nariz. - Como  que se distingue uma morena de uma loira?
Tento me colocar em uma posio da qual possa mandar o spray bem no rosto dela. No quero que o vento jogue o lquido para cima de mim.
- No sei do que voc est falando - falo com um fiozinho de voz, ainda sem ar devido ao impacto da queda. Meu Deus. No d para acreditar que eu j comprei flores 
para esta mulher.
Ah, tudo bem, comprei no mercado da esquina. Mas, mesmo assim.
- Sabe como distinguir uma morena de uma loira? - Rachel sorri, com o rosto a centmetros do meu. -  s virar a loira de cabea para baixo!
Quando ela faz um gesto para mandar 120 volts em meu quadril direto, ergo a mo e espirro um jato de spray de pimenta no rosto dela. Ela guincha e se afasta, colocando 
o brao na frente do rosto para se proteger... S que a vlvula no abaixa toda. Ento, em vez de um jato de veneno qumico atingi-la nos olhos, o negcio forma 
uma espuma na lateral da latinha, encharcando meus pontos e queimando minha pele o bastante para fazer com que eu gritasse:
- Ai!
Ao perceber que no foi atingida, ela comea a rir.
- Ai, meu Deus - ela zurra. - Ser que tem jeito de voc ser mais ridcula, Heather?
Mas, desta vez, quando ela arremete contra mim, eu j estou em p e pronta para outro.
- Rachel - digo quando ela vem em minha direo. - Tem uma coisa que eu preciso dizer para voc h muito tempo. Tamanho 42 - fecho os dedos em volta da latinha dura 
e dou um soco com a maior fora possvel em seu rosto - no  gorda.
Os ns dos meu dedos explodem de dor. Rachel grita e cambaleia para trs, com as mos no nariz, do qual jorra uma quantidade impressionante de sangue.
- Meu nariz! - grita, histrica. - Voc quebrou meu nariz! Sua puta fodida!
Mal consigo ficar em p, o meu ombro lateja demais, minha mos parecem estar pegando fogo por causa do spray de pimenta. Tenho estilhaos de vidro enfiados na costas, 
os ns dos dedos de minha mo direita esto entorpecidos e sai sangue de um corte nas proximidades de minha testa: meus olhos esto cobertos de uma mistura de gua 
da chuva e sangue. Eu s quero entrar e me deitar um pouco e talvez assistir a algum programa de receitas, ou qualquer coisa assim. Mas no d. Porque preciso cuidar 
de minha chefe psictica.
Ela est l parada, segurando o nariz com uma das mos, e a pistola paralisante na outra, e ento a ataco, jogando meus braos ao redor de sua cintura fininha e 
a derrubo no cho como se fossem 55 quilos de sapatos Manolo Blahnik. Ela cai, estremecendo em minhas mos, enquanto tento desesperadamente arrancar a pistola paralisante 
de sua mo.
E durante todo este tempo ela fica soluando. No de medo, como devia ter (porque, no se engane a este respeito, tenho toda a inteno de mat-la), mas de raiva, 
os olhos escuros brilhando com um dio to intenso que me pergunto como foi que no percebi antes.
- As moas legais sempre terminam em ltimo, hein? - Digo e chuto o joelho dela com toda a fora que tenho. - E isto aqui? Est legal o suficiente para voc?
S que parece que eu estou chutando um daqueles bonecos que usam para fazer testes de acidentes de carro. Rachel parece ser imune  dor... a menos que tenha algo 
a ver com o rosto dela. O nariz precioso dela, por exemplo.
E ela  forte (muito mais forte do que eu, apesar de meu acesso de raiva assassina, e de minha vantagem em altura e peso). No consigo arrancar a pistola da mo 
dela. J ouvi falar de gente que, em momentos de desespero, desenvolvem a fora de algum duas vezes maior (mes que erguem carros para salvar um filho, policiais 
montados que arrancam seu amado cavalo do meio da lama, esse tipo de coisa). Rachel tem a fora de um homem... um homem que v a vida se desintegrando  sua frente.
E ela no vai desistir at que algum morra. E estou comeando a ficar com a pssima sensao de que este algum vai ser eu.
A nica coisa que posso fazer  no largar a pistola paralisante que ela tambm agarra. Meu dedos esto escorregadios por causa da chuva e do sangue, e doloridos 
por causa dos pontos e da espuma de spray de pimenta.  difcil segurar. Ela conseguiu ficar em p apesar de minhas tentativas de chutar suas pernas e faz-la cair, 
e agora ns duas lutamos no meio daquela chuva torrencial pelo controle da arma. A fora da nossa luta nos mandou para uma distncia perigosa da amurada do terrao.
De algum modo, ela consegue colocar o corpo em posio tal que minhas costas ficam pressionadas contra uma jardineira de gernios transbordante, bem parecida com 
a que quase matou Jordan. Com o rosto virado para o cu, no consigo enxergar devido a toda a chuva que cai. Fecho os olhos e me concentro na tarefa quase impossvel 
de manter os braos de Rachel para cima, longe de mim, para que aquelas pinas crepitantes no cheguem nem perto de meu corpo. Sinto a jardineira balanar, e ento 
sinto quando ela cai e, apesar de no abrir os olhos, ouo o barulho enorme que faz alguns segundos depois, quando atinge a calada l embaixo.
Mas a parte mais assustadora de tudo  a durao do intervalo entre o momento em que a jardineira se desprende do terrao e o som do impacto quando atinge o solo. 
Conto quase at dez. Dez segundos de queda livre. Dez segundos para contemplar a morte.
Meu braos esto enfraquecendo. Sei que estou chorando porque o sal de minhas lgrimas faz arder os cortes em meu rosto. E, por cima de mim, Rachel ri, sentindo 
minha fraqueza.
- Est vendo - ela diz. - Eu falei para voc, Heather. Voc  legal demais para vencer. Fraca demais. No est em boa forma. Porque tamanho 42  gorda. Ah, eu j 
sei o que voc vai dizer.  o tamanho mdio da mulher norte-americana. Mas, adivinha s? A mulher mdia nos Estados Unidos  gorda, Heather.
- Ai, meu Deus - cuspo a gua da chuva e o sangue que esto em minha boca. - Rachel voc  doente. Tem alguma coisa errada com voc! Deixe que eu ajude...
- Alis, para que voc quer viver? - ela pergunta, como se no tivesse escutado o que eu disse. Porque provavelmente no escutou. - Sua carreira musical est no 
esgoto. Seu namorado deu o p na bunda em voc. Sua prpria me apunhalou voc pelas costas. Voc tinha de ter morrido ontem, no elevador. E voc tinha de ter morrido 
anteontem, mas a minha pontaria falhou. Simplesmente desista, Heather. As moas legais nunca vencem...
Ao dizer a palavra vencem, Rachel comea lentamente a recurvar meu braos. No conseguirei lugar contra a fora superior dela por muito mais tempo. Agora estou chorando 
descaradamente, lutando contra ela, tentando no ouvir sua vozinha cantarolante que ento:
- Pense bem. Sua morte vai passar no Jornal da MTV. Talvez no saia no Times, mas vai estar no Post com certeza. Quem sabe? Talvez at faam um programa E! True 
Hollywood Story sobre voc... fenmenos de um sucesso s que no conseguiram viver at os 30...
Abro os olhos e olho para ela com dio, incapaz de falar, j que cada pouquinho de fora que tenho est concentrado em no permitir que ela no me eletrocute.
E  a que sinto o tremor em meus braos, os msculos chacoalhando, enfraquecidos por tanto esforo, e ouo a risada triunfante de Rachel e o ltimo insulto dela.
- Heather - ela chama cheia de jbilo, a voz dela parece vir de longe, apesar de ainda estar pairando em cima de mim. - Quantos loiras so necessrias para trocar
uma lmpada?
E a cabea dela explode em minha frente. Srio. Em um minuto ela est l, rindo em minha cara e, no seguinte, desapareceu, jogada para trs pela fora de um objeto
que bateu com tanta fora que o sangue jorrando da ferida me sega. A pistola paralisante se apaga na mo dela, e seu corpo desfalece longe de mim, aterrisando nas
lajotas do lado oeste do terrao em um baque.
Agarro-me  mureta do terrao, limpo o rosto com as costas das mos (as nicas partes sem feridas em meu corpo) e soluo. O nico som audvel  o chiado da chuva
e a respirao pesada de algum.
Demora um pouco at eu perceber que o som da respirao no vem de mim. Quando finalmente consigo enxergar, ergo os olhos e vejo Rachel estirada aos meus ps, com
sangue jorrando de um talho na lateral da cabea dela, tingindo de cor-de-rosa as poas de chuva ao seu redor.
E, parada em minha frente, com uma garrafa de vodca Absolut na mo, a Sra. Allington, com o conjunto de moletom cor-de-rosa ensopado, peito arfando, olhos cheios
de desprezo que olham para o corpo de bruos de Rachel.
A Sra. Allington sacode a cabea.
- Eu uso 42 - diz.

32
Ento siga em frente e
Siga o seu caminho

Desde o incio
Do passado
Ningum sabe o que
Ningum pode saber
Porque quando a gente comea
Est sempre sozinho

Mas se voc der bastante passos
Bastante passos
Bastante passos

Algum dia
Algum dia voc chega em casa

Heather Wells, sem ttulo

Acabo passando s uma noite no hospital, por causa de todos os meus pontos que abriram e das mltiplas contuses e dos estilhaos de vidro espalhados por meu corpo.
E at aquela nica noite  demais, se quer saber minha opinio. Voc tem noo de qual  a idia de sobremesa que se faz em um hospital?  gelatina colorida. Com 
fruta dentro. Nem mesmo um mini marshmallow. Todo mundo sabe que gelatina  para comer na salada, no na sobremesa. Alm do mais, no hospital no tem banheira. Se 
voc quiser se limpar,  s chuveiro ou banho de esponja.
Tanto faz. Tento usar o tempo que passo l com sabedoria. O tempo que passo no hospital, quer dizer. Dou uma sada de meu andar para visitar Julio, e fico feliz 
em encontr-lo se recuperando bem dos ferimentos causados pela exploso. Ele deve voltar ao trabalho no prximo ms, sem seqelas.
Tambm dou uma passada no quarto de Jordan quando estou por l. No hospital, quer dizer.
Ele fica bem acanhado ao me ver mas, a futura esposa dele? Ela  hostil at no poder mais. Se eu fosse mais desavisada, ia achar que ela se sentia ameaada por 
mim ou algo assim.
Mas no sei por que se sentiria. O ltimo single dela, Vaga-bunda, chegou ao nmero dez no Disk MTV ao vivo outro dia. Mas, de todo modo, desejo tudo de bom para 
eles. Digo aos dois que, para mim, eles formam o casal perfeito.
E tambm no estou mentindo.
S preciso passar uma noite no hospital, mas ganho duas semanas de licena (com pagamento integral) de meu cargo de diretora-assistente do conjunto Fischer. Acho 
que no  assim que eles recompensam algum na Faculdade de Nova York por ter acusado a chefe de homicdio duplo. Mesmo que voc ainda no tenha acumulado tantos 
dias de licena mdica assim.
Quando volto  minha sala, j est comeando a fazer frio. As folhas das rvores de Washington Square Park esto mudando, assumindo plidos tons de vermelho e dourado 
se comparados com as cores que os calouros residentes do conjunto Fischer escolheram para pintar o cabelo em preparao para o dia da visita dos pais.Falando srio, 
parece que eu estou trabalhando em uma faculdade de palhaos, ou qualquer coisa assim.
Outras coisas no conjunto Fischer tambm mudaram enquanto estava longe. Para comeo de conversa, com Rachel na cadeia  espera de julgamento, estou esperando meu
novo chefe. Ainda no sei quem vai ser. Ainda esto entrevistando candidatos.Mas o Dr. Jessup vai me deixar ajudar a escolher.
Estou pensando que pode ser bom trabalhar para um homem, para variar. No me entenda mal, chefes mulheres so timas e tudo o mais. Mas seria bom dar um tempo em 
tanto estrgeno no trabalho.
Sarah concorda. Ela e todos os funcionrios estudantis esto me tratando bem melhor agora, sabe como , depois de eu ter arriscado minha vida para pegar a pessoa 
que estava matando os colegas residentes deles. Quase nunca ouo mais falar de Justine. Tirando outro dia, quando Tina virou para mim e disse: "Sabe, Justine nunca 
usava cala jeans para trabalhar, como voc. Ela me disse que era porque nunca conseguiu achar um nmero pequeno o bastante que servisse nela. Eu meio que sempre 
a detestei por causa disso."
At Gavin finalmente resolveu me escutar, e parou completamente de fazer surfe de elevador. Em vez disso, comeou a explorar os esgotos da cidade.Mas estou achando
que ele vai desistir disso bem rpido. Quer dizer, o cheiro no est fazendo dele exatamente o cara mais popular do andar.
Ah, e os Allington se mudaram. Para o prdio ao lado (aquele no qual o Donatelo, ou sei l que outra tartaruga ninja, pulou no filme). Mas, mesmo assim, fica a uma 
distncia suficiente dali para que a Sra. Allington e os pssaros se sintam mais  vontade... principalmente porque agora no moram mais em um prdio que precisam 
compartilhar com setecentos universitrios alm dos funcionrios do conjunto residencial estudantil.
Os estudantes no ficaram tristes ao ver os Allington irem embora, mas o mesmo no pode ser dito a respeito do filho deles. Chris se transformou em uma espcie de 
celebridade, usando a notoriedade que adquiriu com a obsesso de Rachel por ele (que ganhou todas as manchetes de jornal) como alavanca para abrir uma casa noturna 
no SoHo. Parece que a faculdade de direito era o sonho que o pai tinha para ele e, agora que ele recebeu inmeras propostas do canal Lifetime e Playboy para contar
sua histria, Chris conseguiu se libertar das amarras familiares e est perseguindo seus prprios objetivos.
Aposto que esses objetivos vo fazer com que ele seja preso bem rapidinho.Ns l do conjunto Fischer (os residentes, o governo estudantil e os funcionrios) fizemos
uma homenagem que julgamos adequada para Elizabeth Kellogg e Roberta Pace: plantamos duas rvores (dois cornisos gmeos) no lugar mais bonito do parque, com uma
placa onde se l: Em memria de e lista o nome delas, as datas de nascimentos e morte, e as palavras Sentiremos saudade. Milhes de pessoas vo ver (tanto a placa
quanto as rvores, que os caras do departamento de horticultura disseram que vo florescer na primavera), assim como centenas de alunos vo desfrutar da bolsa de
estudos, lanada por ns, em nome de Beth e de Bobby.
Estou louca para ver as rvores floridas.  praticamente a nica coisa que eu tenho para ansiar ultimamente, j que descobri (finalmente) o que Cooper pensa de mim.
No que ele saiba que eu sei. Provavelmente no faz idia de que me lembro disso. Foi quando ele entrou de supeto na cobertura, apenas alguns segundos depois de
a Sra. Allington derrubar Rachel com sua garrafa de vodca Absolut. Ele tinha recebido o recado que deixei no celular e foi correndo para o prdio com o investigador
Canavan, e logo Pete (que tinha visto eu e Rachel entramos na cobertura pelo monitor dele) avisou que estvamos na cobertura e, no s Rachel estava viva, mas parecia
que ns tnhamos ido l fazer uma visita para a Sra. Allington (a qualidade do filme no monitor de segurana no era boa o bastante para que ele visse que ela estava
com uma pistola paralisante em minha garganta naquela hora, um problema que estamos tentando solucionar em todo o campus).
Enquanto o investigador Canavan cuidava de Rachel, inconsciente, e da Sra. Allington, trmula, Cooper se ajoelhou ao meu lado na chuva, perguntando se eu estava
bem.
Eu me lembro de ficar olhando para ele e de me perguntar se o que eu estava vendo no era s uma alucinao esquisita, como quando vi a cabea de Rachel ser esmagada. 
Na hora, eu tinha bastante certeza de que estava morrendo, devido  ardncia dos pontos por causa do spray de pimenta e dos estilhaos de vidro em minhas costas 
e de meu ombro dolorido e de tudo o mais.
E deve ser por isso que no parava de repetir:
- Prometa que voc vai tomar conta de Lucy. Quando eu morrer. Por favor, prometa que voc vai tomar conta de Lucy.
Cooper tinha tirado a jaqueta de couro (aquela que estava toda manchada com o meu sangue) e me cobriu com ela. Ainda estava quente do corpo dele. Eu me lembro disso. 
E tinha o cheiro dele.
- Claro que vou - ele tinha dito para mim. - Mas voc no vai morrer. Olhe, eu sei que est doendo. Mas os paramdicos esto chegando. Voc vai ficar bem, eu prometo.- 
No, no vou - eu disse. Porque tinha certeza que ia morrer. Mais tarde, os paramdicos me disseram que eu estava em choque, devido  dor e ao frio e tudo mais.
Mas eu no tinha como saber naquela hora.
- Eu vou morrer aos 28 anos - informei ao que achava ser uma alucinao de Cooper. - Um fenmeno de um sucesso s,  isso que sou. Cuide para que coloquem exatamente 
isto em minha lpide: Aqui jaz um fenmeno de um sucesso s.
- Heather - Cooper dissera. Ele estava sorrindo. Tenho certeza disso. De que ele estava sorrindo. - Voc no vai morrer. E voc no  um fenmeno de um sucesso s.- 
Ah, sei - eu tinha comeado a rir. Ento comecei a chorar. E no consegui mais parar.
Acontece que este tambm  um sintoma bastante comum do choque. Mas, de novo, na hora, eu no sabia.
- Rachel tinha razo - eu me lembro de ter dito, com amargor. - Ela est certa! Eu tinha tudo, e desperdicei. Sou a maior fracassada do mundo!
Foi a que Cooper me forou a sentar, me abraou e disse, com muita firmeza:
- Heather, voc no  fracassada. Voc  uma das pessoas mais corajosas que conheo. Qualquer outra pessoa que tivesse passado pelo que voc passou, com sua me 
e meu irmo e sua carreira e tudo o mais, j teria desistido. Mas voc seguiu em frente. Voc comeou tudo de novo. Eu sempre admirei a maneira como voc sempre 
seguiu em frente, independentemente do que acontea.
Sinto dizer que, neste ponto, eu disse:
- Voc est falando que eu sou igual quele coelhinho cor-de-rosa com o tambor?
Gosto de pensar que isso tambm foi por causa do choque.
Cooper entrou na minha.
- Exatamente, igual quele coelhinho cor-de-rosa com o tambor. Heather, voc no  uma fracassada. E voc no vai morrer. Voc  uma garota legal, e voc vai ficar 
tima...
- Mas... - Ao meu crebro afetado pelo choque, esta afirmao soou preocupante, levando em conta a conversa que tive anteriormente com a mulher que tentou me matar. 
- As garotas legais terminam em ltimo.
- Acontece que eu gosto de garotas legais - Cooper disse.
E da ele me beijou.
S uma vez. E na testa. Daquele jeito que, digamos, o irmo mais velho do seu namorado a beijaria se, digamos, voc tivesse sido atacada por uma manaca assassina
e estivesse em choque e ele achasse que voc no ia se lembrar mesmo daquilo.
Mas eu lembrei. E continuo lembrando.
Ele acha que eu sou corajosa. No, espere: ele acha que eu sou uma das pessoas mais corajosas que ele conhece.
E ele gosta de mim. Porque ele por acaso gosta de garotas legais.
Veja bem, eu sei que no  muito. Mas quer saber?
J basta. Por enquanto.
Ah, e uma ltima coisa:
Eu nunca voltei quela loja.
